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25 de jun. de 2020

Porque não me identifico como bi

Essa é uma dúvida que me apareceu uma ou outra vez quando o assunto era o "guarda-chuva bi" ou a definição mais ampla e inclusiva (atração por dois ou mais gêneros).

Teoricamente, eu poderia me dizer bi enquanto uma pessoa atraída por muitos gêneros. Porém, nossa escolha de identidade também leva em conta nossa afinidade com determinada comunidade.

Eu adoro a comunidade bi! Espaços bi sempre foram inclusivos e receptivos comigo quando eu estava questionando meu gênero e, posteriormente, minha sexualidade. E eu amo esses espaços pela diversidade que sempre vi neles: pessoas bi e de outras orientações multi, pessoas a-espectrais, e pessoas não-binárias (e não acho coincidência serem sempre os grupos mais invisibilizados).

Mesmo assim, quando frequento espaços bi, ou quando consumo conteúdos bi num geral, eu percebo uma enorme diferença nas vivências entre mim e as pessoas bi. Percebo que muitas delas já se entendiam desde sempre como atraídas ou interessadas, até então, por "meninos e meninas". E, consequentemente, isso as colocou como alvos de situações bem específicas.

Essas vivências acabam aparecendo tanto em pessoas bi atraídas apenas por homens e mulheres, por gêneros binários e não-binários, e por todos os gêneros. E embora eu saiba da existência de pessoas bi atraídas por um gênero binário e pessoas não-binárias, até hoje por aqui no Brasil não encontrei alguma assim nos espaços que frequentei - e esse seria o grupo mais próximo de mim.

Logo, me sinto alienade diante da identidade bi quando não encontro semelhanças ou pontos em comuns com as vivências da grande maioria das pessoas bi. Minha descoberta foi bem mais tarde, e desde criança me entendia como (cis) gay. Não me sinto protagonista num espaço bi, apenas ume parceire multi - embora na mesma luta contra o monossexismo.

Isso não me impede de me juntar politicamente ao segmento bi quando necessário; por exemplo, no caso das políticas públicas que reconhecem apenas os segmentos LGBT. Nesses momentos percebemos o quanto estamos juntes, porque o que bi não tem, as outras orientações multi também não têm.

Também acredito que seria estranho me declarar bi em público. Embora eu defenda fervorosamente a definição inclusiva, sei que ainda existe uma ideia equivocada no imaginário coletivo de que bi é uma pessoa atraída só pelos gêneros binários. E eu gostaria de evitar essa possível impressão.

Tudo isso me direcionou para a única identidade multi "popular" ao lado de bi e pan, que desde já passa uma impressão de atração além de homem e mulher, com uma comunidade pequena aqui no Brasil, e onde é mais provável de achar pessoas com vivências parecidas com as minhas. E essa identidade foi justamente a polissexual.

Acho que é isso que tenho a dizer do assunto. Esse pode ser um exemplo de possíveis critérios para as pessoas escolherem determinada identidade e comunidade.

25 de mar. de 2020

Porque não uso esses termos

AC: terminologias obsoletas, discursos reducionistas/excludentes.



Decidi escrever esse texto porque estive refletindo sobre as impressões que talvez eu passe para outras pessoas, em especial sobre como explico os assuntos e quais palavras uso.

Vejo muitas vezes que narrativas, mesmo quando vez ou outra são mais inclusivas, acabam cometendo equívocos ou exclusões não-intencionais.

Mas como muita gente não pensa muito nelas e continua as repetindo, acho que me explicar sobre as minhas narrativas possa mostrar minhas motivações, e conscientizar todes que acham que eu "só complico" ou "só falo a mesma coisa com outras palavras" ou etc.

Primeiramente, eu não vejo sentido em falar "diversidade sexual e de gênero" ou falar de atrações num geral como apenas "sexualidades", algo que ainda é muito repetido, especialmente entre adolescentes e jovens adultes nas redes sociais. Isso porque considero a existência de mais atrações além da sexual, e nem tudo é sobre sexualidade. Por isso costumo falar prefixos ou abreviações - bi, poli, ace, etc. Se eu estiver falando, por exemplo, de bissexuais, então estarei falando especificamente de pessoas da orientação sexual bi, não qualquer pessoa bi.

Mesmo pessoas com contato com as comunidades assexual e arromântica ainda repetem esses discursos quando falam de atrações, sendo que ambas comunidades dão um panorama maior sobre essa questão.

Romanticidade é uma atração relevante, e ainda coloca pessoas em posições de privilégio ou de opressão. Monossexismo não é uma opressão exclusiva de multissexuais, mas de pessoas multi num geral. Atrações românticas dissidentes ainda são alvo da heteronorma. Se a heteronorma se referisse apenas à sexualidade, as pessoas poderiam ser heterossexuais e ter qualquer atração romântica não-hétero. E a realidade não funciona assim.

Quando falo sobre não-binariedade, eu não resumo tudo a "gêneros não-binários". Porque a não-binariedade não é apenas sobre gêneros. Há identidades que não são gêneros em si, mas descritores de ausência de gênero (como agênero), da presença de mais de um gênero (bigênero, poligênero, etc), de fluidez de gênero (gênero-fluido e outras identidades), entre outros. Dizer identidades não-binárias é o mais preciso e coerente. Dizer gêneros não-binários se refere apenas a gêneros presentes.

Referente a discriminações, faço uso constante dos nomes dos sistemas opressivos, porque às vezes não acho suficiente usar termos de discriminações quando falo de uma estrutura, e também há vezes em que situações vindas da mesma opressão são compartilhadas por pessoas de grupos diferentes.

É comum ainda pessoas usando homofobia como um termo guarda-chuva para toda discriminação contra a comunidade, ou usando homotransfobia, ou mesmo homolesbobitransfobia. Homofobia não consegue descrever todo ódio ou exclusão a afetos e relações entre homens/mulheres, porque nem sempre essas pessoas são gays/lésbicas. Homofobia também não consegue descrever a opressão vivenciada por lésbicas e bis. Mas tanto esses grupos quanto gays são alvos do mesmo grande sistema normativo: heterossexismo.

Cissexismo pode ser um termo mais abrangente, porque existem travestis que não se consideram trans (então podem achar transfobia um termo inadequado). E falei disso tudo me mantendo nos grupos LGBT. Se expandirmos a discussão para os outros grupos, percebemos ainda mais a imensa necessidade desses termos e outros (como diadismo, para falar da opressão de pessoas intersexo).

Em vez de ficar citando orientações, é mais preferível e prático optar por um termo que engloba todas elas. É o que faço com as orientações multi; ou seja, atrações por mais de um gênero. Em vez de dizer "bi+", ou "bi e outras orientações", ou "bi, poli, pan, etc", digo apenas multi. É até melhor porque não gosto da ideia de enfatizar bi como uma atração multi principal, ou ficar citando a famosa tríade bi-poli-pan enquanto outras orientações seguem sem nunca ser citadas (muita gente deve pensar "que que tem nesse etc?").

Eu poderia discorrer também sobre porque não uso termos com sufixo -fobia ou LGBTfobia, ou porque descrevo minha linguagem pessoal de gênero com artigo/pronome/flexão em vez de só um pronome ou "elu/delu", e outras coisinhas, mas há postagens explicando sobre isso tudo e as deixarei logo abaixo.

Enfim, quis apresentar narrativas mais inclusivas, que deveriam ser mais consideradas, ainda mais por pessoas com notoriedade. Tudo que escrevemos em domínio público pode chegar a qualquer pessoa, teoricamente. E precisamos pensar no máximo de pessoas possível. Precisamos rever nossas narrativas, sair da mesmice e do simplismo sem causa, pensar em inclusão e na diversidade toda. Acho que era o que eu tinha para dizer.







3 de fev. de 2020

Questões geracionais

AC: etarismo.



Um conflito muito comum dentro de movimentos sociais e espaços de ativismo são perspectivas diferentes por causa das gerações. Nossa história - enquanto comunidade e movimento social - pode ser considerada recente; porém, temos aí diversas gerações da comunidade existindo juntas (e mais estão por vir).

Apesar de que atualmente a juventude esteve tendo uma ênfase nas discussões e conquistando voz e local crescentes, gerações "passadas" - em especial década de 1980 pra trás - ainda se fazem presentes em muitas organizações evidentes para o movimento e a comunidade, além de certos espaços também evidentes.

Gerações diferentes acabam tendo experiências diferentes principalmente em questão do quanto as discussões e os cenários político-sociais avançam (ou não).

A parte identitária, em especial, tem uma grande diferença. Enquanto ainda há pessoas que vieram da época em que a sigla era GLS e termos como homossexual e transexual eram descritores de "toda" diversidade, nos dias atuais nos deparamos com muitas siglas e inúmeras identidades que descrevem diversas experiências de orientação-gênero-sexo.

E então a juventude acaba tendo seus conflitos com a ignorância e o reacionarismo de pessoas de mais idade.

Por outro lado também, as gerações anteriores costumam sofrer muitos ataques de viés etarista. Estamos vivenciando uma espécie de culto à jovialidade (não só na área social), o que coloca pessoas mais velhas como "menos capazes" ou "menos mente aberta" ou mesmo desnecessárias para contribuir com avanços sociais.

Penso que a experiência e o conhecimento das gerações anteriores são muito importantes. Desconsiderar isso é desconsiderar vivências e tudo que aquelus que vieram "antes" construíram.

Da mesma forma que abrir-se para questões mais atuais é essencial para acompanhar as mudanças e se articular, por mais rápidas que sejam. E eu vejo uma grande resistência a isso pelas gerações anteriores.

As gerações precisam aprender a dialogar entre si, e isso envolveria largarem de seus reacionarismos e etarismos, procurarem encontrar afinidades, trocarem informação e conhecimento, e entrarem em acordos.

Dicisheterossexismo ainda é uma realidade, ainda existe, e ainda há grupos dispostos a manter e fortalecer essas opressões. Isso, acredito, já deveria ser um grande ponto em comum entre todas as gerações. Os retrocessos estão aí para todes nós.

Como exatamente criar esses diálogos entre as gerações, não tenho uma resposta definitiva. Mas começar por pontos em comum pode ser um bom caminho.

11 de dez. de 2019

Isso não faz parte da comunidade!

AC: pedofilia, menciona zoofilia e necrofilia.



Não é de hoje que surge aleatoriamente na vastidão da Internet uma mentira ultrapassada e ainda famosa: que há uma grande quantidade de pedófiles (usando o termo "pedossexual" ainda) reivindicando que são de uma orientação sexual marginalizada, e que, portanto, deveriam estar na comunidade LGBTQIAPN+; sendo acrescentades como um outro grupo da letra P (ao lado de poli e pan).

Muito bem. Por que pedofilia não é uma orientação sexual?

Bem, só são reconhecidas como orientações todas as atrações que envolvam gêneros e condições que as despertem. Da mesma forma que ninguém especifica orientação por determinada etnia ou por um tipo físico e outros exemplos problemáticos e questionáveis, uma atração definida por uma faixa etária não faz o menor sentido.

Mas o problema maior nem é esse. Pedofilia envolve o desejo por crianças e infantes; ou seja, pessoas incapazes de consentir para sexo e relações, e que nem são biologicamente maduras para tais atos. E, claro, querer envolvimento com esse grupo de pessoas é crime e nada além de abuso. E a comunidade jamais admitirá isso, sendo que todas as pautas sobre afetividade e relação são apenas sobre pessoas capazes de consentir e desenvolvidas para tais atos.

Nem toda pessoa pedófila vai cometer um abuso. Porém, esse desejo é um distúrbio e recai em práticas criminosas. Isso não tem lugar na diversidade. E o melhor que posso recomendar a pessoas assim é tratamento imediato.

Tudo que foi dito vale da mesmíssima forma para zoofilia e necrofilia. E, sim, também se espalha ocasionalmente por aí que praticantes desses outros dois distúrbios querem um "devido lugar" na comunidade. Não!

E quem espalha esses rumores? Bem, principalmente pessoas e grupos que odeiam a comunidade e tentam de toda forma desmerecê-la com mentiras e distorções. É de praxe que setores conservadores associem pessoas heterodissidentes e até pessoas trans com pedofilia; o que, na minha opinião, é mais uma projeção que fazem pra tirar a atenção dos inúmeros casos de pedofilia e abuso cometidos pelos ilustres "cidadãos de bem" ou "pais de família" ou "homens de Deus". E há muitos grupos organizados para criar "campanhas" (como incluir pedossexuais) através de contas falsas, utilizando conhecimento de propaganda e sobre a comunidade para parecerem convincentes.

Tais rumores atingem bem seu objetivo com parcelas da população que são alienadas e ignorantes sobre a comunidade e questões relacionadas, ainda mais quem já odeia a comunidade por simples convenção social. Mas há também pessoas da própria comunidade que fomentam esses rumores; geralmente pessoas "LGBT-" que são contra a inclusão QIAPN+ e acreditam que inclusões legítimas abrirão brechas para as parafilias, ou gente que também cai nas campanhas falsas de trolls e reaças.

Concluindo, aqui está uma explicação do por que esses distúrbios não fazem parte da comunidade, nem farão parte, e a comunidade jamais aceitará nada disso como parte da diversidade sexual e afetiva. Não caiam nesses rumores ou nessas campanhas ocasionais pela Internet. E quem tiver um ou mais desses desejos, recomendo que procure urgentemente ajuda psicológica.

22 de set. de 2019

Guarda-chuva bi

AC: reducionismo identitário



O "guarda-chuva bi" é um conceito que ainda gera discussão entre pessoas bi e multi num geral. Vim aqui apenas trazer uma breve reflexão sobre ele.

Como a definição geral de bi é atração por dois ou mais gêneros, temos aí abertura para todas as possíveis expressões de atração por mais de um gênero.

A comunidade bi se propôs desde sua fundação a englobar todas as atrações que não fossem exclusivamente por um gênero, mesmo que muitas pessoas tenham dado ênfase a homens e mulheres (não-binariedade ainda não era tão conhecida ou considerada).

Devido a essa definição, muitas pessoas e fontes preferem falar num guarda-chuva bi, colocando todas as possíveis identidades multi como dentro de bi. Isso, claro, gera controvérsias.

Por um lado, há pessoas que não se incomodam em dizer que estão sob esse guarda-chuva porque a definição de bi as englobam. Por outro lado, há pessoas que se incomodam por parecer que elas são "subtipos" de bi ou "basicamente bi".

Entendo ambos os lados. Talvez tudo dependa mais do sentido e contexto em que usam esse conceito. No entanto, eu sou uma das pessoas que prefere usar multi para todas as atrações por mais de um gênero.

Ainda vejo alguma necessidade em usar o guarda-chuva bi para incluir identidades em espaços (aparentemente) predominados por pessoas bi, ou para incluir todas as muitas identidades em denominações usadas em políticas (como políticas públicas que utilizam ainda "LGBT"). Mas são circunstâncias mais políticas e que, no fim, podem ser mudadas também.

A dinâmica com bi e outras identidades multi parece ser um tanto diferente da dinâmica das atrações a-espectrais (assexualidade e o espectro assexual, por exemplo). Ainda existem grandes conflitos entre pessoas bi e pan e com pessoas que defendem que apenas bi é suficiente como identidade política e pessoal.

Talvez esteja na hora de revermos melhor esse conceito e começar a substitui-lo por algo que não abre margem para controvérsias. E o termo multi, enquanto categoria, parece ter resolvido essa questão. Por isso recomendo multi.

Em todo caso, quem ainda prefere falar no guarda-chuva bi por algum motivo tem obrigação de respeitar a autoidentificação de todes. É o mínimo a se fazer, até em respeito às pessoas que fundaram a comunidade bi pensando na pluralidade de atrações.

4 de set. de 2019

Fatos sobre a comunidade bi

AC: monossexismo.



Setembro é o mês da visibilidade bi. Interessante notar que visibilidade tem "bi" no meio. Por isso deveria ser mês da visiBIlidade apenas.

Tá, piadinhas (sem graça) à parte, vim aqui só pra dizer uns fatos sobre a atração bi e pessoas bi:



- Bi é atração por dois ou mais gêneros, e isso desde 1990

- Pessoas podem ser bi e não se atrair por homens e/ou mulheres

- Pessoas bi podem ter preferência por um gênero

- Bimisia existe e monossexismo é uma opressão estrutural

- Bi não é uma identidade conflitante com pan

- Existem pessoas bi monogâmicas e pessoas bi não-monogâmicas

- Existem pessoas a-espectrais e bi

- Existem pessoas fluídas que podem ser bi

- Existe casal bi <3

- Pessoas não-binárias podem ser bi

- Há pessoas que antes de se descobrirem bi se entendem como mono, e não há problema nisso

- Não há como provar que alguém não é bi (#polêmica)

- Leitura bi existe, mas não de uma forma positiva

- Ficar bêbade na baladinha e beijar todo mundo por diversão não te faz bi ;)



Outros textos que indico para um maior aprofundamento:






27 de ago. de 2019

Digam suas linguagens pessoais

AC: cissexismo e exorsexismo estruturais, maldenominação.



Quando falo em linguagem pessoal me refiro à linguagem com a qual nos tratamos e expressamos, parte de nossa expressão de gênero. Ou seja se você é uma pessoa que usa o/ele/o, a/ela/a, ambos, sintaxe neutra, ou demais conjuntos fora das normas. 

Muitas pessoas trans já falaram e repetiram várias vezes o quanto é importante todes nas redes sociais normalizarem uma cultura de dizer suas linguagens pessoais, não importa o nome ou a aparência ou o gênero declarado/conhecido.

E todes também inclui pessoas cis; em especial pessoas binárias (cis, trans, ipso).

Vivemos ainda numa sociedade que pré-determina na socialização as linguagens o/ele/o ou a/ela/a dependendo do sexo/gênero designado de um bebê. E, quando o "sexo aparente" não é suficiente, a linguagem é pressuposta pela aparência; que a sociedade classifica só em feminina ou masculina, ainda assim mantendo um exorsexismo estrutural na língua.

Pessoas são pressupostas como cis o tempo inteiro, por mais não-conformistas de gênero que sejam. A sociedade opera como se não fosse necessário especificar um pronome ou a flexão de gênero nas palavras que usamos; afinal é "sempre óbvio".

É justamente tudo isso que precisamos combater. Essa ideologia cissexista (e muito exorsexista) de que as linguagens são óbvias, que basta olhar para a pessoa para saber, que está tudo bem pressupor como você deve tratar alguém.

Até porque, por mais que pessoas cis e pessoas trans binárias com "alta passabilidade" estejam num lugar de conforto, muitas outras pessoas não estão. E ainda existe toda uma estrutura que alveja todas as pessoas trans binárias também. Há homens e mulheres trans, por mais passáveis que sejam, sendo maldenominades unicamente por causa de seu gênero designado.

Não é uma questão que pesa somente em pessoas não-binárias que usam neolinguagens ou mesmo as linguagens padrão, mas também em pessoas trans sem a tal da passabilidade cis.

Especificar sua linguagem pessoal ajuda a naturalizar que:

- linguagens pessoais são características importantes e relevantes de serem sabidas;
- as linguagens não são (e nem devem ser) "óbvias";
- qualquer pessoa pode usar qualquer linguagem;
- e que pode haver mais opções além de o/ele/o e a/ela/a.

Recomendo muito o modelo APF de linguagem que uso aqui no blogue e que está começando a ser mais adotado pela comunidade trans/n-b. Mas admito que já senti algum alívio só de ver homens e mulheres cis colocando "ele/dele" ou "pronome ela" em suas descrições de perfil, que é melhor que nada. Ainda assim, o modelo APF é melhor e mais preciso.

Quanto mais pessoas aderindo a isso, mais vamos abrindo um caminho de tolerância e respeito para pessoas cisdissidentes e lutando contra o CIStema. Se você for cis e se pergunta como ser aliade da causa, aqui está algo simples que pode ser feito.

21 de ago. de 2019

Termos juvélicos

Os termos juvélicos são identidades criadas para definir atrações e relações sem precisar usar categorias específicas de atração (sexual, romântica, etc), tendo sentidos mais amplos (ou até mais específicos) e sendo mais inclusivas.

Aqui no blogue já comentei sobre os termos aquileane, sáfique, enebeane e duárique. Acredito que podem ser os termos mais comuns de serem usados em contextos mais gerais. Mas, para todes que quiserem, na tabela abaixo haverão muitos outros termos.

A tabela funciona da seguinte maneira:

- Na coluna vertical à esquerda está a identidade de gênero.
- Na primeira linha horizontal está o alvo da atração.
- Basta localizar então qual termo juvélico condiz com a identidade e a atração que você procura.

Na tabela logo abaixo de cada termo há siglas que indicam "[gênero] atraíde por [gênero]". H para homem, M para mulher, e NB para não-binárie.

Nas células de gênero com mais de uma identidade (homem e mulher, etc) se referem antes de tudo a pessoas não-binárias, que podem ter mais de um gênero ou fluir entre eles. Mesmo que possam se dizer apenas n-b, para algumas pessoas é importante e relevante um termo que indique se são homem e/ou mulher e de algum gênero não-binário.

E nas células com "mulher e não-binária" e "homem e não-binária" podem se referir também à pessoas que se identificam como homens não-bináries ou mulheres não-bináries, não apenas a alguém que seja de um gênero binário e outro(s) não-binário(s).

Há outros termos cunhados além desses, mas por ora só falarei desses.


Deixo logo abaixo cada termo com seus significados (em ordem alfabética):

Agátique: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e atraída por (pelo menos) mulheres e pessoas não-binárias.

Alexandrítique: uma pessoa que é (pelo menos) homem e mulher e atraída por (pelo menos) homens e pessoas não-binárias.

Ametriane (ou Amólique, Braunitiane): uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres e pessoas não-binárias.

Amólique (ou Ametriane, Braunitiane): uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres e pessoas não-binárias.

Anfisiane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e mulher e atraída por (pelo menos) homens e mulheres.

Asteriane: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e atraída por (pelo menos) pessoas não-binárias.

Asterosiane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e atraída por (pelo menos) homens e pessoas não-binárias.

Astroidiane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e atraída por (pelo menos) pessoas não-binárias.

Astrônique (ou Marmórique): uma pessoa que é (pelo menos) homem e atraída por (pelo menos) homens, mulheres e pessoas não-binárias.

Aquileane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e atraída por (pelo menos) homens.

Auriane: uma pessoa que é (pelo menos) homem, mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) homens e mulheres.

Aventuriane: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) homens e pessoas não-binárias.

Axinitiane: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres.

Azuriane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e não-binária e atraída por (pelo menos) homens.

Benitoitique/Benitoítique: uma pessoa que é (pelo menos) homem e mulher e atraída por (pelo menos) mulheres e pessoas não-binárias.

Braunitiane (ou Ametriane, Amólique): uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres e pessoas não-binárias.

Calistiane: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) homens e mulheres.

Carneliane: uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) homens e pessoas não-binárias.

Cianitiane: uma pessoa que é (pelo menos) homem, mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) pessoas não-binárias.

Citriniane: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e atraída por (pelo menos) homens e pessoas não-binárias.

Coruscanteane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e não-binária e atraída por (pelo menos) homens, mulheres e pessoas não-binárias.

Diamantiane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e mulher e atraída por (pelo menos) homens.

Dórique (ou Quadrisiane): uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) homens.

Duárique: uma pessoa que é (pelo menos) homem/mulher e atraída por (pelo menos) mulheres/homens.

Enebeane: uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) pessoas não-binárias.

Escapolitiane: uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) homens e mulheres.

Espineliane/Espinéliane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres e pessoas não-binárias.

Fluoriane: uma pessoa que é (pelo menos) homem, mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) homens.

Hecatolique/Hecatólique: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) pessoas não-binárias.

Iolitiane: uma pessoa que é (pelo menos) homem, mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres e pessoas não-binárias.

Iridiane: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres e pessoas não-binárias.

Jaspiane (ou Versiane): uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) homens, mulheres e pessoas não-binárias.

Julietiane (ou Duárique): uma pessoa que é (pelo menos) mulher e atraída por (pelo menos) homens.

Labradoriane: uma pessoa que é (pelo menos) homem, mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) homens e pessoas não-binárias.

Lapiane (ou Lutecitiane): uma pessoa que é (pelo menos) homem e não-binária e atraída por (pelo menos) homens e mulheres.

Larimariane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e mulher e atraída por (pelo menos) mulheres.

Litiane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e atraída por (pelo menos) mulheres e pessoas não-binárias.

Luminiane: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) homens, mulheres e pessoas não-binárias.

Lutecitiane (ou Lapiane): uma pessoa que é (pelo menos) homem e não-binária e atraída por (pelo menos) homens e mulheres.

Marmórique (ou Astrônique): uma pessoa que é (pelo menos) homem e atraída por (pelo menos) homens, mulheres e pessoas não-binárias.

Morganitiane: uma pessoa que é (pelo menos) homem, mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres.

Opaliane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e não-binária e atraída por (pelo menos) homens e pessoas não-binárias.

Orbisiane (ou Trízique): uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres.

Peroliane: uma pessoa que é (pelo menos) homem, mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) homens, mulheres e pessoas não-binárias.

Quadrisiane (Dórique): uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) homens.

Romérique (ou Duárique): uma pessoa que é (pelo menos) homem e atraída por (pelo menos) mulheres.

Roquileane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e atraída por (pelo menos) homens e mulheres.

Rubiane: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e não-binária e atraída por (pelo menos) homens.

Sáfique: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e atraída por (pelo menos) mulheres.

Salietiane: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e atraída por (pelo menos) homens e mulheres.

Serendibitiane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e mulher e atraída por (pelo menos) homens, mulheres e pessoas não-binárias.

Tafeitiane: uma pessoa que é (pelo menos) mulher e atraída por (pelo menos) homens, mulheres e pessoas não-binárias.

Topaziane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e mulher e atraída por (pelo menos) pessoas não-binárias.

Trízique (Orbisiane): uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres.

Turqueane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e não-binária e atraída por (pelo menos) pessoas não-binárias.

Umbaliane: uma pessoa que é (pelo menos) homem e não-binária e atraída por (pelo menos) mulheres.

Versiane (ou Jaspiane): uma pessoa que é (pelo menos) não-binária e atraída por (pelo menos) homens, mulheres e pessoas não-binárias.

16 de jul. de 2019

Proposta de bandeira

Recentemente fui na reunião de um coletivo que engloba corpos marginalizados em geral. Foi apontado que não existe uma bandeira de orgulho de pessoas gordas.

Pesquisei e confirmei. Não existe! (que absurdo)

O que achei em minhas pesquisas foi apenas uma bandeira de fetichismo por pessoas gordas (polêmica, mas aparentemente com uma aceitação considerável).

Pois bem. Tive umas ideias para uma bandeira de orgulho gordo, que acredito que possa também representar a positividade corporal em geral. Embora eu não seja gorde, positividade corporal me diz respeito e me senti na liberdade de propor algo.

Minha proposta:

(Descrição de imagem: uma bandeira composta por três faixas horizontais seguidas e um círculo branco na faixa do meio. As cores são, de cima para baixo; rosa, laranja, e amarela. Fim da descrição)

Simbolismo da bandeira:

Rosa: amor; em especial, o amor próprio.
Amarelo: a positividade (corporal).
Laranja: junção dessas qualidades, também motivação e encorajamento.
Círculo branco: unidade, perfeição, e totalidade; aqui representando também que todas essas qualidades estejam sempre infinitamente dentro das pessoas.

Recebi opiniões positivas. Estarei aguardando por mais opiniões, principalmente de outras pessoas gordas e do ativismo gordo/de positividade corporal. Era só isso.

Mesmo que não seja amplamente aceita, estou feliz com meu trabalho.

Quem tiver opiniões e sugestões, por favor comentar ou entrar em contato comigo.

6 de jul. de 2019

Em defesa da identidade abro

AC: exclusionismo, reacionarismo, discursos e ações contra fluidez de atração.



Essa semana o Twitter provou mais uma vez ser um espaço nada seguro e de reacionarismo contra as microcomunidades (aquelas com identidades mais incomuns ou bem específicas). A vítima dessa vez foi a abrossexualidade; a orientação abro.

(pra quem quiser conferir esse horror, apenas digite abrossexual na pesquisa do site)

Saí em defesa da identidade, apoiei pessoas sendo atacadas, fui atacade, bloqueei muites exclusionistas, enfim, uma semana bem estressante. Nem parece que semana passada era o tal mês do tal orgulho da tal comunidade LGBTQIAPN+.

Assim como no Twitter decidi escrever sobre essa identidade aqui também. Aqui é um espaço de respeito e tolerância às microcomunidades, afinal.

(Bandeira abro)

Primeiro de tudo, a definição (que muita gente não entendeu ou distorceu de propósito):

(definição com minhas palavras, mas ainda coerente)

"Uma atração muito fluída; a pessoa pode fluir entre orientações, sentir-se de orientações diferentes em períodos diferentes."

Em nenhum momento foi dito que a pessoa pode conscientemente escolher sua atração. A fluidez presente e característica dessa identidade é involuntária e natural; apenas acontece.

E, como foi dito, a pessoa se sente de orientações diferentes. Ora, não separamos as atrações por um, mais de um, e nenhum gênero por nomes? Não cria-se uma ideia clara de cada uma? Enquanto muita gente permanece em alguma dessas orientações, uma pessoa abro muda entre duas ou mais delas.

Como poderíamos resolver o impasse de alguém com uma atração assim? Deixá-la se dizer de orientações diferentes em tempos diferentes? Ou cunhar uma identidade focada nesse aspecto? 

Qualquer ume com bom senso suficiente saberia que na primeira opção haveria muitos ataques. Afinal a comunidade não aceitaria alguém se dizendo hétero, depois não-hétero, e hétero de novo, e assim por diante. Né?

Vi muita gente resumindo essa orientação em apenas bi ou pan. Principalmente, bi.

A questão é que uma pessoa abro teria períodos em que sua atração poderia sim ser descrita como bi ou pan. E, em outros períodos, não. Como exigir que a pessoa adote duas identidades tão bem definidas que, num dado momento, não a descrevem?

Já conheci uma pessoa que tinha períodos entre ter atração exclusiva por homens e ter atração exclusiva por mulheres. Poderia se dizer bi? Talvez. Se lhe fizesse sentido. Agora, sinceramente, nunca vi cogitarem incluir uma pessoa com esse tipo de atração na definição de bi. Até porque atrações fluídas - e percebi isso melhor essa semana -, ou nem são consideradas ou são atacadas fortemente.

E aliás, a Internet brasileira ainda nos faz o imenso desserviço de espalhar uma definição antiquada de que bi é atração por homem e mulher. E passam a ideia de ser algo constante. Como convencer uma pessoa que terá períodos de atração por muitos gêneros de que bi/pan a inclui? E como exigir isso quando a atração é inexistente?

Aquele velho discurso de a sexualidade humana é fluída foi... sabe-se lá pra onde foi.

O que realmente separa uma pessoa abro de pessoas das orientações mais "populares" é a constância da atração. Pessoas bi e pan se sentirão bi e pan o tempo todo, por mais que tenham preferência, por mais que a atração possa mudar a intensidade. Uma pessoa abro, não.

Está certo que microcomunidades não têm uma boa divulgação aqui no Brasil. Porém, mais uma vez, a maioria parece não querer sair de uma bolha e tentar ao menos compreender identidades menos conhecidas. E não é surpresa que os mesmos discursos feitos contra abro poderiam ser usados contra pessoas pan e a-espectrais. De fato, teve pessoas aproveitando a onda para fazer isso.

E pessoas abro podem adotar junto as orientações mais conhecidas, ou se apresentar com elas dependendo do espaço, considerando a orientação que identificam no momento, ou qual orientação costuma ser mais presente em suas vidas. Não é incomum as identidades menos conhecidas acompanharem as identidades populares.

Ainda acho que abro deveria ser também uma identidade popular, junto com a atração pomo. Creio que muita gente se encaixaria numa identidade fluída e numa identidade indefinida, já que nem todes têm uma atração constante e perfeitamente descritível nos conteúdos mais aceitos e divulgados.

Por isso também que o argumento de que confundiria pessoas se descobrindo é falho. Até parece que não existem pessoas fluídas desde sempre. E mais, se a pessoa depois vier a se descobrir melhor e não for abro, ela apenas deixa de se identificar como tal. Uau! Que simples, não?

Para finalizar: a orientação abro é válida, deve ser respeitada, não invalida orientações multi, e definitivamente não contribui com a opressão vivida pela comunidade LGBTQIAPN+. Quem quis entender ou rever seus conceitos, ótimo. Reaças da comunidade, queimem. Beijos de luz.

24 de jun. de 2019

Parada LGBT 2019

AC: silenciamento e exclusão, situações envolvendo crimes e violência.



Mais uma vez decidi me aventurar nesse evento controverso: a Parada LGBT(+?) de São Paulo. E por que raios fiz isso após toda desgraça das paradas anteriores (furto, bolo, colega inconsciente jogado pra fora do trio)? Bem, razões puramente políticas, tudo apenas por uma militância na qual acredito.

Nem me refiro ao cenário político atual, que, com certeza, deve ter deixado muita gente acuada. Agora depois de todo desastre e da incompetência descomunal do novo (des)governo, e após a criminalização da homofobia/homotransfobia/LGBT(I)fobia (não sei dizer com precisão o que foi criminalizado rs), a população LGBT+ pode ter dado uma relaxada e ido curtir com mais prazer a (suposta) maior Parada do mundo.

Bem, aqui falarei dentro dos âmbitos pessoal e militante: eu... gostei da Parada! Sério, de verdade, essa Parada deu certo e foi boa. Continuo não curtindo agitação, muvuca e música alta. Mas esse ano, assim como no anterior, foi diferente: fui no bloco do meu outro GT, o BiPanPoli+, que promoveu o bloco que, ouso dizer, era o mais diversificado e inclusivo e politizado do evento.

Como muitos espaços multi, nosso espaço tinha a proposta de englobar todes. E quando falamos todes, nos referimos a todes mesmo. Teve muita gente não-binária e a-espectral por lá. Foi tudo gostoso, andamos de boa, e fomos marchando com muitas bandeiras e faixas - incluindo uma faixa sobre estarmos resistindo ao silenciamento; uma indiretinha pra uma certa organização que faz um certo evento que até hoje silencia pessoas multi e favorece mais o segmento G.

O situação é tão grave que minha motivação (e talvez do resto do bloco) era muito mais a resistência e representação dentro da própria comunidade do que fora dela. Já temos um governo fascista e um mundo hostil, e ainda precisamos conquistar espaço dentro de grupos ditos LGBT(+?).

Sem entrar em mais detalhes, eu amei estar naquele bloco. Foi melhor que estar no trio da Parada anterior. E mais uma vez esse GT se mostra como mais contemplativo pra mim e mais alinhado com o que acredito.

O que eu teria mais para comentar seriam... bem, os problemas de sempre e mais outras coisinhas.

Como todo ano, rolam furtos, assaltos, brigas e ocorrências. No entanto, me pareceu que esse ano se intensificou e a segurança estava ainda mais falha. Muitas pessoas apontaram que o evento está cada vez trazendo mais e mais gente e não se prontifica a se preparar para esse número. Teve casos de pessoas desmaiando ou sendo esmagada em multidões. E casos de violência pesada.

E outra coisa que não pude deixar de notar foi em relação às atrações do evento. Tivemos muita gente cis hétero de fora da comunidade aparecendo e se apresentando em vez de pessoas da própria comunidade, o que ainda coloca em risco o propósito do evento. E teve a polêmica do camarote de Daniela Mercury, com um ingresso caríssimo e uma representatividade superficial.

Essas serão questões pra instituição da Parada. E ainda haverá muitas reclamações de quase todos os GTs, com seus devidos motivos de insatisfação.

Pra finalizar, um conselho: invistam mais em eventos como marchas trans, caminhada de mulheres sáficas, e etc. Esses podem compensar o que a Parada continua se recusando a fazer direito mesmo que por um dia. E pra quem quiser ver como foi o bloco, confiram no meu instagram.

Status: me sentindo orgulhose do meu GT e de mim mesme!

1 de mai. de 2019

Categorias de atrações

As orientações ou identidades de atração podem ter características ou especificidades que as colocam em posições diferentes entre si, seja por questões que entram no eixo privilégio-opressão (mono x multi) ou questões de vivências e demandas em comum (pessoas a-espectrais).

Podemos separar todas as identidades dentro de cinco categorias:

Mono: atrações por um gênero, de modo que a atração é estrita ou tem raríssimas exceções. Exemplos clássicos são gay, lésbica e hétero. Mas há outras identidades mono que são exclusivas de pessoas não-binárias, como vir e femina, ou que envolvem um espectro/grupo de gêneros com atributos em comum (min, neu, etc).

Multi: atrações por mais de um gênero, o que inclui quantidades conhecidas ou desconhecidas e mudanças de alvos. Há uma lista pronta de identidades multi aqui.

(Bandeira multi)

A-espectrais: atrações que envolvem ausência total ou parcial e/ou condições específicas para despertar atração. Há uma lista pronta de identidades a-espectrais aqui.

(Bandeira a-espectral)

Fluidas: atrações com alvos, condições e intensidades que mudam com certa frequência ou numa constância.

Podem parecer atrações multi, mas pessoas fluidas podem, na vida prática, alternar entre ter atrações por gêneros únicos e por gêneros múltiplos.

(Bandeira abro, um exemplo de atração fluida)

Indefinidas: atrações que são difíceis de especificar, complexas de serem entendidas, ou mesmo indescritíveis. Aqui cabe também pessoas que não desejam por algum motivo definir sua atração.

A primeira identidade de atração indefinida que se tem conhecimento e talvez a mais famosa é a pomo, que existe desde 1997 e serve para toda pessoa não-hétero.

(Bandeira pomo)


Ainda que muitas das identidades se encaixem perfeitamente em uma categoria, existem algumas que podem pertencer a mais de uma dependendo da pessoa. Alguns exemplos são: a identidade paro (que está na lista de atrações multi), se a pessoa em questão tem atração frequente por um gênero e atração condicional por outro; e a identidade com, que, mesmo sendo indefinida, pode denotar atrações mono, multi ou fluidas.

Pessoas a-espectrais podem também ter na vida prática atrações mono, multi ou fluidas (exs: demigay, acefluxo). E pessoas podem ser variorientadas e terem atrações de tipos diferentes dentro de categorias diferentes (ex: lésbica panromântica).

As categorias de fluidas e indefinidas são praticamente desconhecidas ainda no Brasil. É importante falar sobre elas, pois muita gente pode encontrar nelas validação e pertencimento. Atrações em mudanças constantes ou "complicadas" de explicar podem parecer bobagem, indecisão ou até "transtornos". Mas existem e devem ser respeitadas como são.

17 de abr. de 2019

Questionar uma identidade

AC: invalidação de identidade.



Eu sempre falo que questionar identidades alheias é um campo minado. Você pode ou não pisar na bomba. Você pode apenas parecer estar com uma dúvida sincera, ou pode parecer estar tentando apenas invalidar a pessoa.

Não acho errado as pessoas duvidarem. Isso é natural e também pode ser sistêmico. É comum pessoas multi serem questionadas porque vivemos sob um sistema monossexista, por exemplo (não significa que esteja certo e que deva ser relevado!).

Ter dúvida de como uma identidade funciona não é o real problema. Isso se deve principalmente a grande falta de informação. Por exemplo, muites ainda têm a ideia de que uma pessoa assexual é alguém que não transa e tem repulsa total a sexo. Se houvesse mais conteúdo falando do espectro assexual, não haveria tanto dessa concepção equivocada sendo espalhada.

O que pode ser estressante para muita gente é ter que lidar com alguém insistentemente te questionando, mesmo após explicações e conteúdos, analisando seus comportamentos (algo bem invasivo, aliás) pra buscar contrapontos e provar que você não é o que diz ser.

Pode até acontecer de alguém ter se encaixado numa identidade através de informações ou ideias equivocadas. Pessoas às vezes podem mesmo se revelar equivocadas (ex: "sou pan porque gosto de homens, mulheres e travestis").

Mas pode acreditar que uma maioria está certa do que se identifica (mesmo que conheça identidades mais gerais, e não umas mais específicas). Se tratando de grupos marginalizados, ter uma identidade se torna importante para a pessoa ter um lugar de pertencimento e voz. A pessoa se importa muito em entender o que ela é e o que isso implica em sua vida.

E também não temos nem como provar que alguém não é o que diz ser. Apenas a própria pessoa sente e entende sua atração e identidade de gênero e qualquer outra característica pessoal. Não temos como entrar na cabeça de alguém pra confirmar. É inútil ficar questionando as subjetividades do ser humano.

Pessoas não ficam se prestando a mentir sobre o que são. Se for um caso de troll ou zoeira, isso fica evidente logo ou de imediato (ex: quando alguém diz deliberadamente ser gênero-fofo num grupo social típico, onde claramente xenogêneros serão rejeitados). Mas ninguém se diverte em mentir sobre ser de um grupo marginalizado.

Enfim, era o que tinha a pontuar sobre questionar. Tem dúvida, pergunte. Ou pesquise. Às vezes sua concepção é que pode estar errada. Queira entender, não provar seu ponto. E acho necessário, se possível, as pessoas também terem um pouco de paciência de explicar o que são, considerando a desinformação que comentei.

7 de abr. de 2019

A favor dos xenogêneros

AC: exorsexismo interno, policiamento de identidades, trolls, invalidação de experiências, capacitismo e racismo.



Já faz muito tempo que rola por aí prints da lista de identidades de gênero do site Orientando, que ficou um tanto famoso de uma maneira negativa por conter nessa lista gêneros considerados esquisitos demais ou fabricações de trolls e grupos exorsexistas. Aqui está a lista, caso se interessem: https://orientando.org/listas/lista-de-generos/.

Antes de começar a discussão, eu vou fazer uma breve defesa ao Orientando e falar sobre o conceito de xenogêneros.

Para quem ainda tiver dúvida ou certeza de que o Orientando é um site troll, afirmo aqui e agora: não é! Conheço a administração e faço parte da equipe do site. E acho impossível trolls terem todo o trabalho de fazer um site que é pago pra ser mantido, escrever muitas longas páginas com referências e fontes, ter conteúdo coerente sobre os segmentos "mais comuns" da comunidade LGBTQIAPN+, e ter tanta proteção contra ataques e discursos de ódio.

Agora, o conceito. Os xenogêneros são basicamente identidades fora de concepções comuns usadas para definir gêneros. Costuma-se definir gêneros pela presença ou ausência de qualidades subjetivas: masculina, feminina, andrógina, neutra, etc. Já falei sobre isso aqui.

Para mais informações sobre xenogêneros, clique aqui.

Essa é a primeira vez que abordarei com profundidade sobre xenogêneros.

Antes de tudo, vou dizer que acho até compreensível rejeições ou descrença às identidades xeno vindo de pessoas leigas ou pessoas que tiveram apenas contato com identidades dentro das concepções comuns. Por isso acho necessário um trabalho de base sobre isso. E estou disposte a tentar. Esse artigo é uma tentativa.

Identidades cunhadas por pessoas anônimas e com pouquíssimas fontes podem ser mais difíceis de defender. Porém, não acho que isso deveria ser um problema. Identidades xeno serão criticadas de qualquer forma apenas por serem o que são. Muitas pessoas não-binárias as criticam e, fazendo coro com muitas pessoas binárias, afirmam que elas são um desserviço, que atrapalham a luta n-b, que mancham a comunidade LGBTQIAPN+, etc.

Ora, mas já existe um grande sistema que impõe apenas dois gêneros, e desde sempre a comunidade n-b sofre ataques pelo simples fato de serem pessoas fora do binário de gênero. Culpar identidades xeno por algo que já existia não me parece honesto. A oposição sempre irá procurar motivos para atacar. Então, sinceramente, acho que deveríamos ligar o foda-se e falar mesmo de xenogêneros sem medo ou receio.

Não entendo que ameaça identidades xeno causam ao segmento não-binário, à comunidade LGBTQIAPN+, ou a qualquer pessoa. Todas as ameaças possíveis já existem a todes fora do padrão perissexo-cis-hétero. E pessoas xeno são inofensivas demais num mundo que não reconhece nem gêneros dentro de concepções comuns.

Se estamos mais preocupades com a impressão que causaremos, então isso mostra que estamos mais tentando agradar ae inimigue do que romper de verdade com barreiras, e que nossos discursos sobre diversidade e liberdade são hipócritas e vazios, pois estamos selecionando quais experiências são válidas ou não e quais ajudam ou não com a militância.

Percebo que a rejeição/descrença aos xenogêneros gira em torno principalmente do fato de serem definidos por outras concepções que nada tem a ver com as qualidades mencionadas. Mas agora eu pergunto: por que é tão absurdo gêneros fora dessas concepções sendo que as qualidades conhecidas são subjetivas em si? Se as pessoas podem definir seus gêneros por essências que fazem sentido só para elas, o que impede a existência de gêneros baseados em sensações, emoções, elementos da natureza, etc?

Conheço algumas pessoas xeno e já tive contato com conteúdo feito por pessoas xeno. Isso vai soar mais como um apelo pro lado emocional, mas não tenho dúvida da existência de pessoas com essas identidades por causa do que passam. São pessoas bem marginalizadas, acabam se isolando por isso, não têm sentimento de pertencimento nem em espaços n-b, e muitas evitam revelar suas identidades. Por que pessoas aceitariam passar por todo esse sofrimento por assumir identidades "estranhas demais"? Isso aponta que assumir essas identidades pra si está muito além de uma mera opção, de um capricho, ou de querer algum destaque.

Onde esse monte de identidade "esquisita" ajuda na luta contra o cis-tema? Bom, toda identidade de gênero que não seja baseada em genitálias acrescenta nessa luta de alguma forma. Assim como ampliar nossas concepções de gênero e trazer à luz novas experiências, rompendo mais e mais com a ideia de que pessoas só vivem seus gêneros de acordo com estereótipos e construções sociais ou com ideias que ainda têm alguma base prévia (não há um consenso sobre o que é masculino e feminino, mas ainda existem diversas concepções sociais dessas qualidades).

E mesmo que haja identidades cunhadas por trolls, assim como palavras ofensivas (viado, sapatão, queer etc) foram ressignificadas, pessoas n-b também ressignificam essas identidades, afinal dentro da xeninidade tudo é possível e válido.

Pensando que as identidades xeno surgem da falta de palavras para descrever experiências, e que existe uma ideia de que gêneros só podem estar dentro de concepções humanas, acho necessário uma ampla reflexão e análise sobre possíveis ações capacitistas e racistas dentro do ódio e da intolerância aos xenogêneros; afinal muitos gêneros influenciados por neurodivergências (neurogêneros) são considerados xeno, e existem identidades de gênero restritas de culturas não-ocidentais definidas por questões espirituais.

Existe ainda um conteúdo extremamente escasso sobre esse tema aqui na Internet brasileira (talvez na lusófona mesmo). Por isso acabo relevando muitas reações negativas ao assunto. Acredito que seja uma questão de abordar e trazer discussões maiores sobre essas identidades. Espero que esse artigo ao menos ajude a refletir sobre essas possibilidades e preparar território para o tema.

4 de abr. de 2019

Parece que não aprendemos

AC: intolerância e opressões em redes sociais, eleição, capacitismo, menção a estupro e violência, menção à genitália.



Recentemente eu passei por uma situação de extremo estresse nas redes sociais. Não entrarei em detalhes. O ocorrido envolveu algo que vejo com certa frequência, que é como muitas pessoas dos grupos marginalizados não tem senso crítico com suas ações, e acabam tanto reproduzindo opressões quanto promovendo mais opressories.

Passamos tanto tempo falando e fazendo tantas postagens sobre misoginia, racismo, heterossexismo, cissexismo, etc etc etc, e no fim vemos reproduções disso vindo até de pessoas que têm acesso aos conteúdos.

Um monte de gente esquece que não praticar opressões não serve só para quem gostamos ou concordamos. Serve para todes, incluindo opositories.

Atacar a oposição com misoginia quando vem de uma mulher, atacar com racismo quando vem de ume negre, atacar com heterossexismo quando vem de um gay, tudo isso me causa uma sensação imensa de frustração. Parece inofensivo quando é com inimigues, mas não é.

Fica muito difícil nos defender contra a oposição porque ela vê isso, se aproveita disso, e consegue pegar um punhado de gente sem noção na Internet e torná-lo como regra geral para todos os grupos minoritários + galera progressista/esquerdista (porque são todes jogades no mesmo saco). Nós que viramos es intolerantes da história.

Estamos aprendendo?

Redes sociais como Facebook e Twitter se tornam palcos para figuras reacionárias e aliades dessas figuras que nem deveriam ter tanta atenção. Até figuras ridículas como uma moça privilegiada que tem milhões na conta recebe tamanha atenção que acaba se promovendo.

Isso foi um dos fatores de nosso país ter elegido um fascista declarado como presidente. Damos importância demais, deixamos essa gente tomar as rédeas de nossa vida, gastamos tempo e paciência criticando fervorosamente essa gente a ponto de divulgar mais e mais seus discursos e nomes e rostos.

Não pode mais criticar? Pode e deve. O problema é como fazemos. Atacamos muito a pessoa e não suas ideias. Críticas construtivas se misturam com críticas imaturas. É muito meme e muita zoeira, mesmo quando problemátiques, e discursos mais politizados se apagam nessa onda de risadas e escárnios porque são "sérios demais".

Estamos aprendendo?

E cada vez mais as redes sociais se tornam insuportáveis para os próprios grupos marginalizados, ainda mais os mais esquecidos, como as PCDs (vejam quantos termos capacitistas são usados para atacar a oposição).

Estamos expostes à toxicidade dos discursos dessas figuras mesmo quando as bloqueamos; porque tem gente ainda compartilhando seus conteúdos para respondê-las, e porque ainda temos que ver prints das malditas postagens.

Várias pessoas perdem tempo discutindo com robôs ou com gente que evidentemente não quer debater ou rever suas ideias, quando poderiam estar conversando com gente mais aberta ou mais ignorante, e se articulando com mais grupos progressistas pra espalhar informação e promover figuras progressistas.

E, novamente, fica difícil defender a galera quando a mesma se torna tão irracional e intolerante quanto fascistas, xingando ministra de termos misóginos e zoando o estupro que ela passou, torcendo para vereador gay de direita tomar lampadada, sabotando artistas negres que fizeram besteira com um ódio que nem é visto com artistas branques. Ah, e isso inclui querer tirar filho do fascista do suposto armário ou zoar com o tamanho do pênis do outro.

Mais uma vez me pergunto: estamos aprendendo? Muitas vezes parece que não. Nem as eleições parecem ter ensinado. E mais e mais nos vejo afundando num buraco que nem cavamos, mas estamos nos jogando nele tudo em prol do "lacre".

27 de fev. de 2019

Palavras alternativas - neolinguagem

Como já falei por aqui, nossa língua tem uma estrutura muito binária. Não temos apenas as linguagens padrão a/ela/a e o/ele/o, como também temos conjuntos de palavras bem específicas e únicas, como pai e mãe.

Criar alternativas para esses conjuntos é mais desafiador que os conjuntos de neolinguagens. A questão das flexões (linda, linde, lindo etc) é resolvida pelos conjuntos de neolinguagem. Agora, no caso de pessoas que não usam nenhum conjunto da língua padrão, existe ainda esse problema que falei.

Isso ainda está em desenvolvimento. Por isso as informações aqui podem se atualizar. Depois de pesquisar e pensar, consegui formar umas palavras alternativas. Explicarei também a lógica usada para isso.

Para o conjunto princesa/príncipe pensei tanto em alternativas que alterar as palavras existentes quanto alternativas que lembrem um pouco de ambas. Formulei as palavras: príncipa, princeso (sim, já foi inventada de zoeira), prince e princis.

Palavras terminadas em -dor e -triz vêm da raiz latina –tor e –trix, que são sufixos, respectivamente, masculino e feminino. Então pensei em algo que soasse neutro e parecesse um pouco com ambas terminações padrão. Formulei a terminação –ter.  Exemplos de palavras: embaixater, imperater.

Para os conjuntos boa/bom e má/mal, sugiro bone e male. Bone vem direto do latim bono. E male soa neutro.

Alternativas para o conjunto mãe/pai são um imenso desafio de tão complicado que é. No momento consegui apenas pensar em alternativas que apenas trocam as primeiras letras entre si, pãe e mai.

Outros adjetivos com as mesmas origens, no caso, madrinha/padrinho e matriarca/patriarca, foram mais fáceis. Todas partem das mesmas raízes latinas, mater e patre. E assim como existe materno e paterno, me inspirei na palavra fraterno e formulei fadrinhe e fatriarca. Interessante notar também que assim como M e P, sílabas com F também precisa juntar os lábios pra falar.

Outras possíveis soluções seriam mudar essas letras para outras mais parecidas, que são os casos de N e B. Então, nãe e bai seriam alternativas propostas. Mas acredito que o ideal seriam alternativas diferentes de -ãe e -ai.

Formular palavras alternativas requer estudar bem a origem e o processo de formação das palavras existentes. E talvez precise de um pouco de criatividade. Seria ótimo mais pessoas dispostas a isso.



11 de fev. de 2019

Falta de espaços

AC: exclusão, apagamento.



Eu acho que faltam espaços. Muitos espaços. De muitos tipos e formatos.

Pra mim faltam mais espaços multi, não-binários e poliamoristas. Espaços que contemplem dois ou todos os três grupos.

Faltam espaços para pessoas intersexo e pessoas a-espectrais. Faltam espaços para outras possíveis identidades, como atrações fluídas e atrações indefinidas.

Faltam espaços para muitas pessoas lésbicas, gays, bissexuais e trans binárias e travestis que podem não se encaixar no comum, que são espaços focados em curtição e festa.

Faltam espaços para pessoas LGBTQIAPN+ que querem se politizar mais, que querem compartilhar gostos e preferências como interesse em ciência ou mídias, 

Faltam espaços para pessoas questionando sua atração e/ou seu gênero, que podem estar descobrindo que não são perissexo.

Mesmo dentro dos espaços LGBT+ já existentes falta muitas vezes contemplar outras intersecções (negres, PCDs, idoses, etc) e pessoas que não vão curtir o que a maioria curte. Não adianta existir o espaço e você não ter lugar.

Não estou dizendo que não pode existir espaços exclusivos (L/G/B/T etc) e nem que todos deveriam abrigar toda possível diversidade. Isso numa balada, por exemplo, é improvável e nem está de acordo com a proposta do local.

Estou apenas dizendo que existe sim uma carência de mais espaços LGBT que englobem pessoas de muitos pensamentos e gostos, assim como falta espaços para todas as identidades fora dessa sigla mais convencional.

Podem existir sim espaços pra diversão, entretenimento e pegação. Mas têm que existir espaços também para nerdices, para quem é otaku, quem gosta de física quântica, quem gosta de filmes antigos, para discutir opressões, e também para namoros e relações diferenciadas (alternativas, queerplatônicas, etc).

Sinto falta disso. Percebo essa falta em outros grupos. Vejo mais pessoas dos meus grupos e/ou de outros grupos falando dessas faltas.

Acho que precisamos unir uma galera aí e construir esses espaços. Mesmo que seja do zero. Se ninguém faz por nós, fazemos por nós e por outres.



4 de fev. de 2019

É exagero corrigir as pessoas?

AC: exorsexismo, opressão/microagressão ocasional, situação de estresse.



Ano de 2019 e tive que ouvir de uma pessoa conhecida que corrigir as pessoas é exagero, que corrigir coisas que elas estão fazendo errado é constrangedor pra elas.

Huh... foda-se?

Claro que tive que ouvir uma merda dessas de um homem cis gay que tem sua linguagem pessoal respeitada onde quer que ele vá. Sim, o assunto era corrigir pessoas me maldenominando, e isso mesmo após eu acabar de explicar a questão da minha linguagem.

As pessoas nunca dão importância para o que não as atingem. Duvido que essa pessoa iria aceitar ou concordar se eu falasse a mesma coisa diante de uma situação de heterossexismo com ela.

Isso me faz lembrar também do quanto nós de grupos marginalizados sempre estamos tentando relevar, ponderar, pensamos antes de avisar a pessoa sobre algo, avaliamos nossas palavras nos preocupando em fazer a pessoa entender e não se ofender. Muitas vezes temos medo de falar, mesmo tendo razão. Muitas vezes achamos que exageramos até quando somos educades.

Eu faço a linha diplomática na maior parte do tempo. Mas tem dias como nesse que minha paciência se esgota. E eu penso no quanto isso deve acontecer com outras pessoas, ainda mais pessoas que aturam muito mais merda diariamente que eu. Pessoas que depois ficam conhecidas como chatas ou intolerantes.

Muites de nós temos sim paciência pra explicar, mesmo não sendo nossa obrigação. Porque se nós que temos vivência e consciência não pararmos pra explicar, ninguém fará isso. Infelizmente adotamos uma missão árdua de educar as pessoas que nem deveria existir. Mas o mundo é uma bosta e lidamos com ela frequentemente. Não é todo dia que temos paciência. E tem gente que nos coloca em diálogos frustrantes e estressantes.

Não, pessoas, não é errado corrigir alguém. É um favor que você faz a si mesme, ao seu grupo e para a outra pessoa. Se ela não aceita, daí já é problema dela e talvez ela não seja uma boa companhia. Mas não julgo quem não corrige por receio ou por não achar que valerá seu esforço.

De qualquer forma nosso bem-estar será sempre mais importante que o constrangimento da outra pessoa. Sei que não gostamos de sermos corrigides. Mas esse sentimento é problema nosso. Temos que engolir o ego e admitir as falhas.

Não tenham medo também de incomodar ou de perderem contatos. Não deveríamos nos submeter a relações que nos fazem mal. Quem realmente quer nosso bem e quer aprender vai ouvir. São essas pessoas que importam no fim, pois têm consciência de seu local de escuta.



24 de jan. de 2019

Validação e sofrimento

AC: invalidação, menção a opressões, policiamento de identidades e experiências.



Acho que nos acostumamos muito a validar pessoas marginalizadas através do sofrimento (aparente ou declarado) delas. Ou seja, quanto mais a pessoa sofre, mais ela é válida.

Muitas vezes eu não sinto que sou pessoa não-binária, polissexual e poliamorista suficiente.

Há momentos em que eu me comparo com outras pessoas desses segmentos e enxergo em mim tantes privilégios e fugas das opressões.

Há instantes que algo dentro de mim diz sou apenas um homem cis gay querendo ser mais marginalizado do que sou; para assim se sentir mais parte da comunidade LGBTQIAPN+ e negar que sou privilegiade perto de muita gente da comunidade.

Quando penso que essas descobertas foram bem recentes e me trouxeram mais êxtase que estresse, tudo piora. Porque, vish, eu não sofri tanto (ainda) com exorsexismo, monossexismo e mononormatividade (ou até amatonormatividade)!

Então penso os detalhes da minha vida íntima. Não tenho disforia de gênero e tenho uma apresentação socialmente "masculina". Até agora só tive relações e contatos afetivos com pessoas designadas homens com expressão totalmente ou quase totalmente dentro do social masculino. E ainda não consegui ter uma verdadeira e oficial relação poliamorosa.

Junta tudo isso com as próprias expectativas desses grupos e até da sociedade. Pronto. O veredito é: eu não sou nada do que digo ser.

Não vou tentar contornar tudo isso me reafirmando o tempo todo, ou tentando "ser mais não-binárie/polissexual/poliamorista" de alguma forma, ou procurando situações de opressão. Há pessoas que recorrem a esses métodos.

Procuro evitar ao máximo pessoas e espaços que têm potencial para me apagar, me silenciar ou me invalidar. Isso faz eu me isolar mais. E já sou uma pessoa mais reclusa.

Apesar de sofrimento não ser critério para validação, só esse sentimento de solidão me coloca numa posição marginalizada. Porque marginalização tem várias faces e níveis. E aí eu lembro que sim, eu sou marginalizade. Não importa o quanto. Importa que sou.

Preciso me lembrar constantemente que ninguém precisa ter atravessado um mar de sofrimento para ser válide. Continuamos sendo alvos de várias opressões, mesmo que não atinjam todes com a mesma frequência e intensidade. Nem pertencer a muitos grupos oprimidos simultaneamente garante isso (embora aumente as chances).

Não faria sentido colocar as pessoas "mais fudidas" num pedestal, dizer que elas são as mais válidas e usá-las como referência e justificativa para derrubar as opressões. Onde exatamente isso ajudaria nas lutas e discussões? Acabamos caindo na famosa "olimpíada de sofrimento".

Pessoas como eu precisam falar mais nisso, pois muita gente não se sente válida suficiente por motivos assim ou alguns outros. O que sofremos ou não são circunstâncias, não as evidências de que somos o que somos. Caramba, não somos apenas lágrimas e sangue!

Eu sou válide! Eu existo!