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19 de dez. de 2019

Comentando uma notícia

AC: lesbomisia, violência heterossexista.



Há uns dias uma mulher lésbica e direitista que apoiou o presidente atual foi vítima de agressão motivada por heterossexismo.

Com isso, houve muitas reações. Focando na comunidade, houve uma divisão entre aquelus que se solidarizaram e aquelus que debocharam.

Bem, posso dizer que jamais apoiaria mensagens de ódio e aplaudindo o ocorrido. Considero algo desnecessário, revanchista-punitivista, e anti-estratégico. Mas não dá pra controlar essas coisas. E o que me irrita ainda mais é que a direita utilizará bem essas reações para dizer o quanto "a esquerda" é a "verdadeira intolerante".

E vi muita gente indo pelo caminho "paz e amor", colocando a pessoa como uma ignorante, uma coitada, ou alguém que deveria ser acolhida e receber solidariedade da comunidade, contudo e apesar de tudo, mesmo sendo alguém que se posiciona tão contra a comunidade toda; que deveríamos ser "diferentes" da direita.

Vamos lá....

Eu defendo e sempre defenderei o direito dessa pessoa de ser lésbica e não ser vítima de qualquer violência heterossexista. Não defender isso e ainda aplaudir a agressão seria hipócrita e contraditório de minha parte. Ponto. Agora, não me peçam solidariedade e nem pra acolher alguém como ela. Guardo solidariedade e acolhimento pra todes que são vítimas desse sistema que até pessoas como ela reforçam e sustentam.

Nem acho que deveríamos levar pro lado de que ela não merece acolhimento ou solidariedade. Ela nem quer essas coisas da comunidade. É bobagem achar que dá pra ser uma alma iluminada com toda vítima de alguma violência. Se ao menos o ocorrido tivesse mostrado a realidade e dado alguma consciência a ela, mas as atitudes posteriores dela mostram que ela continua a mesma pessoa.

Acredito que o caso dela deveria ser encarado como um reforço de que heterossexismo é uma realidade e não escolhe lados políticos. Poderia ser alguma conscientização para quem está ainda alienade ou que engole as retóricas falaciosas da direita de que heterossexismo não existe.

Minha conclusão em poucas palavras é: apanhou, não deveria ter apanhado, continua sendo um lixo, foda-se. Força pra minha comunidade LGBTQIAPN+.

11 de set. de 2019

Censuras

AC: censura, heterossexismo e cissexismo, criminalização, impunidade.


Dentro de uma semana tivemos duas grandes polêmicas envolvendo censura de conteúdos sobre diversidade. A primeira foi quando o governador de São Paulo mandou recolher materiais didáticos de escolas públicas com conceitos de sexualidade e gênero. A segunda foi na Bienal, ocorrida no Rio de Janeiro, quando o prefeito mandou que fossem confiscadas obras com temática LGBT+.

Confesso que nem achei os materiais didáticos bons, pois colocaram as concepções equivocadas de sempre; porém, antes tendo isso nas escolas do que todo tema de diversidade continuar sendo apagado. O governador, que deveria se preocupar mais com a qualidade de ensino e os recursos das escolas, ainda fez aquele discurso típico de reaça de ser contra a "ideologia de gênero".

E então teve a Bienal, que acho que nem preciso comentar sobre os acontecimentos, afinal foi a notícia que mais repercutiu na semana, sendo até capa da Folha.

O que eu gostaria de abordar aqui são as circunstâncias, colocando ambas situações lado a lado.

Não vou desmerecer a ação em si de Felipe Neto, pois ela foi muito boa e acredito nos efeitos positivos a longo prazo. O que me incomoda é o fato dos materiais didáticos, os quais seriam direcionados a jovens estudantes de classes socioeconômicas baixas (classes sem muitas condições de comprar muitos dos livros da Bienal), não ter causado a mesma repercussão e o mesmo nível de protesto e reação contrária.

E não para por aqui: não tivemos em nenhuma das situações qualquer mínima ação oriunda da criminalização da "LGBTfobia", que muites consagraram e confiaram na eficiência esperada. O prefeito de RJ poderia ter sido preso a qualquer momento. Não foi. E as tentativas de confiscamento ocorreram por dois dias seguidos, com aval prévio do próprio Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

Quando o STF suspendeu essa ação, tivemos mais um crime cometido pela prefeitura: uso de notícias falsas para reforçar os motivos da fiscalização. Usaram a foto de um livro paródico que nem era daqui (tem uma etiqueta com valor em euros na própria foto!). O prefeito de RJ continua livre. 

Lembro de ter feito muitas ressalvas sobre a criminalização da "LGBTfobia". Bem que foi avisado que nada mudaria. Acabamos de ter a prova.

Felizmente, houve resistência!

A Justiça ontem deu prazo ao governador de SP para devolver os materiais recolhidos. O prazo termina amanhã. Vamos ver no que se dará. Mas já sabemos que não poderemos contar com a tal da criminalização.

Esses casos gravíssimos de censura e as circunstâncias só comprovam ainda mais o cenário desesperador da comunidade LGBTQIAPN+ brasileira: desamparo total pela própria lei. E isso só enfatiza do quanto necessitamos de mais corpos dissidentes nas áreas jurídicas e legislativas (bem, enquanto vivemos sob esse sistema). Ainda assim, o povo resistiu. Só precisávamos ter também investido mais energia contra a situação de SP; pois atacar o ensino básico reverbera em toda a sociedade.

Seguimos sendo resistência, seja contra prefeituras e governadorias, seja contra gente do próprio sistema judicial parcial e reaça que temos.

26 de mar. de 2019

Sobre a matéria da BBC

AC: exorsexismo, definições equivocadas, apagamento de identidades, validação academicista, ironia.



Estou escrevendo isso como uma análise a uma matéria lançada agora de manhã sobre pessoas não-binárias. Farei pontuações e comentarei as faltas dela.

Portanto recomendo que leiam essa matéria antes de prosseguir aqui, assim o artigo fará mais sentido: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47675093.

Já adianto que não achei a matéria ruim. Ela está boa em comparação a outras matérias sobre o assunto. Mas tem seus defeitos e esse blogue não existiria se fosse tudo perfeito.

Bem, mais uma vez perpetua-se a ideia de que pessoas não-binárias não são "nem homem nem mulher". Porque não existem pessoas que são desses gêneros, que fluem entre eles, que têm identidades relacionadas, né? Detalhe: só pessoas agênero ou sem uma identidade específica foram chamadas para as entrevistas. Hm...

Chamaram a primeira pessoa, que é agênero, de "indivíduo sem gênero definido". Sabe, não tem como você ter um gênero indefinido quando você não tem um gênero. Né?

"São pessoas que podem se sentir transitando entre os dois gêneros, sem necessariamente estar em um deles. São os indivíduos que resistem à normalização de gêneros. São pessoas cujos corpos denunciam uma resistência à imposição de normas". Uau, mais uma matéria sobre pessoas transgênero que botam uma pessoa cis da área da psiquiatria pra nos definir, e ainda de forma incompleta/equivocada. Incrível.

"A partir da década de 80, os estudos de gêneros passaram a abordar uma vertente que não incluía somente masculino ou feminino. Desde então, conforme especialistas consultados pela BBC News Brasil, surgiu o termo não-binários - também denominado por estudiosos como 'genderqueer'." Huh... o termo genderqueer não é propriedade de "estudiosos", tá? E não é apenas um sinônimo de não-bináries.

Bem, achei até positivo citarem a existência da neolinguagem. Porém, podiam ter explicado que existe uma linguagem universal e as linguagens pessoais, não? Não existe só o pronome elu e flexão com e. Resumir neolinguagem a "gênero neutro" é algo até esperável, mas ainda errado.

É importante falar sobre perguntar a linguagem da pessoa e respeitá-la. Só que existem pesos diferentes para pessoas que usam uma ou ambas as linguagens padrão e pessoas que usam neolinguagem. O fato da matéria tratar a única pessoa que usa pra si neolinguagem com a sintaxe neutra é uma evidência disso.

Eu até entendo por que ainda colocam esses detalhes. Mas seria tão bom ler uma matéria sobre pessoas trans/n-b sem menções a nomes mortos e gênero designado. E sem dar tanto foco a modificações corporais.

A parte de orientação sexual é bem ruim. "Entre os não-binários, assim como em casos de pessoas binárias", linguagem desumanizadora. Ninguém prestou atenção nisso? 

Ok... como pessoas que "não são nem homem ou mulher" podem se identificar como hétero ou homo? Só pra constar, sim, existem gays e lésbiques não-bináries. Mas dentro do contexto da matéria isso não é nada explicado. E a identidade heterossexual não funciona para pessoas n-b. A psiquiatra falou uma coisa bem sem sentido.

Sério que ninguém parou um minuto pra se preocupar sobre a identidade sexual de pessoas n-b, sendo que as definições/ideias do senso comum de hétero, homo e bi são centradas em pessoas binárias?

"Alguns não-binários se definem como assexual - característica que, conforme estudiosos, também pode ser considerada uma orientação sexual." Assexualidade não precisa de "especialistas" pra ser validada, tá? E... precisava mesmo dizer que a pessoa "nunca beijou na boca"?

Poxa, falaram de uma pessoa n-b transmasculina e não usaram esse termo. Perderam a oportunidade de falar de pessoas n-b transmasculinas e transfemininas.

"Tal característica, conforme especialistas no tema, não altera o fato de o indivíduo considerar que não pertence ao gênero masculino ou ao feminino." Precisou de especialistas pra afirmar isso? A palavra das próprias pessoas n-b não era suficiente? Já não é sabido que expressão de gênero e identidade de gênero são coisas distintas?

Pessoas não-binárias passam por muita coisa. Inclusive serem exotificadas em matérias sobre o tema feitas por pessoas cis que usam seus próprios parâmetros, mesmo quando não incluem o próprio grupo foco da matéria. Hm, onde vi isso?

Por fim, a psiquiatra frisa que pessoas n-b precisam ser vistas com base em estudos do tema. Hm, estudos com as vivências e que usem as terminologias dessas pessoas? Só assim para serem estudos de qualidade. Ah, e não é necessário estudos para validar o grupo, só ressaltando.

Então... que bom que existem espaços nos dando alguma voz ou visibilidade. Mas até quando seremos só criaturas exóticas dignas de uma matéria que fala em seus próprios termos, e não nos termos do grupo que ela se propõe a mostrar?

Assim como os tais estudos acadêmicos, me parece que somos só teoria, não somos as referências. Essa necessidade de botar "especialistas" nessas matérias me parece só uma forma de nos validar, porque só nossas vivências e palavras não bastam.

Mencionaram a neolinguagem, deram exemplos, mas optaram em usar a sintaxe neutra pra se referir a única pessoa da entrevista que usa pronome elu e flexão com e. Fazem uma matéria sobre pessoas que "não são homem ou mulher" e não podem usar devidamente a linguagem de uma pessoa que não usa as duas linguagens associadas aos gêneros binários?

Enfim, é isso que tenho a dizer sobre a matéria.

25 de jun. de 2018

Transexualidade e a OMS

Há uma semana o mundo teve uma grande notícia: a OMS retirou a transexualidade de seu catálogo de doenças mentais. Ela publicou seu novo CID (Classificação Internacional de Doenças) e nele a transexualidade não é mais um "transtorno de gênero".

No entanto a CID-11 a coloca como uma "incongruência de gênero", uma condição relacionada com a saúde sexual. 

A justificativa para isso é continuar permitindo o acesso aos serviços de saúde específicos para pessoas que queiram transicionar; principalmente a cirurgia de redesignação sexual. Isso revela que ainda existe toda uma burocracia - sustentada pelo cissexismo - sobre o que as pessoas podem ou não fazer com seus próprios corpos.

Claro que é um avanço a OMS reconhecer que pessoas fora da cisnorma não são doentes mentais, mas os corpos trans ainda não têm total liberdade. Vejam a diferença que ocorre entre pessoas querendo transicionar e pessoas cis que queiram colocar silicone ou aumentar o pênis.

A nova CID entrará em vigor no primeiro dia de 2022, o que significa que até lá todos os países que aplicarem a CID-11 devem se adaptar a essa mudança. Isso deverá destruir toda e qualquer brecha para pessoas e instituições que ainda tentam "curar" pessoas trans.

Talvez isso ainda não melhore a situação de pessoas trans em certos países que ignoram completamente as palavras e decisões da OMS. Mesmo em países que seguem a CID atual ainda há casos de terapias de conversão para heterodissidentes. Porém... é alguma coisa, ainda mais considerando que foram longos 28 anos após a despatologização da homossexualidade para que algo assim acontecesse.

A luta da comunidade trans continua.



7 de fev. de 2018

Uma sigla enorme!

Essa semana começou com uma polêmica: ativistas gays do Reino Unido afirmaram que a nova sigla da comunidade LGBTQIAP+ mundial é: LGBTQQICAPF2K+. Essa sigla é recente, cerca de duas semanas. A revista The Gay UK a anunciou, e só agora a notícia chegou aqui no Brasil.

Vou decifrar a sigla para vocês antes de comentar: lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queers, questionando, intersexos, curioses, assexuais, agêneros, aliades, polissexuais, pansexuais, família & amigues (family & friends), two-spirit, kink e demais orientações e identidades de gênero. Ok...

Os meios de notícia fizeram um sensacionalismo barato em relação a isso. Um pequeno grupo de ativistas gays desconhecidos e que estão lá no Reino Unido sequer têm força pra decidir qual sigla o mundo deve usar. E, sinceramente, suspeito que certos veículos tenham propagado essa notícia mais com a intenção de atrair chacota contra a comunidade.

Bom, eu defendo expansões da sigla (tanto que uso uma) e quem as criticam ou não tem consciência da importância de dar visibilidade para outros segmentos, ou apenas não se importam e acham que LGBT é "suficiente". Por isso costumo rejeitar críticas vazias às expansões. Mas vale lembrar que elas não são obrigatórias. E não, não existe uma sigla correta ou global.

Porém, expansões também precisam ter coerência. E essa definitivamente não tem isso...

Dobraram a letra Q por haver mais de um grupo com essa letra. No entanto, A e P também têm mais de um grupo e não dobraram. Incoerente, mas não foi o pior erro desses tais ativistas.

O grupo Questionando são pessoas incertas sobre sua orientação e/ou gênero. Não há real problema na inclusão, mas ela não é necessária. Curioses, pessoas que podem ter experiências sexuais fora de suas orientações, menos necessária ainda.

Agêneros são incluídes por outras organizações e, embora estejam teoricamente dentro da não-binariedade, muites não se consideram n-b (pela própria ausência de gênero). A comunidade agênero deveria se reunir para discutir esse tópico.

Sobre aliades, me recuso a comentar (já falei disso). Pior que isso foi esse F, que inclusão mais sem sentido e ridícula, parece piada com todos os segmentos verdadeiros.

O 2 (que normalmente é 2S) é para two-spirit, uma identidade exclusiva de culturas nativas da América do Norte. Não entendi porque ingleses falaram desse segmento. E se fôssemos incluir gêneros restritos de culturas numa sigla global, deveríamos incluir também as hjiras da Índia e outras identidades. E por isso que 2(S) é uma inclusão válida, mas apenas na América do Norte.

E kink, que são basicamente fetichistas, têm todo um histórico de perseguição e estão próximes da comunidade. No entanto, a inclusão na sigla não faz sentido algum.

Para finalizar, esses ativistas são tão tão inclusivos que nem cogitaram adicionar N de não-bináries, algo que alguns grupos virtuais anglófonos já estão fazendo. Se consideram pessoas n-b como parte do T ou se esqueceram delas, não sei dizer (estou inclinado a crer na segunda opção).

Agora, embora seja compreensível a rejeição que vi da grande maioria das pessoas LGBTQIAP+ nas redes sociais, dentro dessa parcela teve gente fazendo declarações excludentes. Gente zoando com todas as letras depois do LGBT (porque pessoas QIAP+ que se fodam), falando que a sigla reduzida LGBT é a correta ou até pedindo a volta de GLS, e zombando da visibilidade que as expansões deveriam promover.

E sabem que outra parcela da população estava tirando sarro da sigla e se aproveitando da situação para fazer chacota contra a comunidade inteira? Isso mesmo, a escória reacionária de sempre, que não perde nenhuma oportunidade de atacar a comunidade.

LGBTs excludentes e reaças, ambes a 80 km/h, quem passa primeiro pela linha da vergonha da humanidade? Valendo!

É realmente difícil pedir o bom senso da própria comunidade sendo que muites não entenderam ou não aceitam nem as expansões mais coerentes. A situação é deprimente. E tudo foi causado por uma notícia sensacionalista.

Tanto esforço e tanta atenção usades contra uma sigla que nem deveria ser levada a sério ao invés de algo bem mais produtivo e útil para a comunidade. Esse pessoal precisa rever suas prioridades.



19 de set. de 2017

"Cura gay"

Eu não queria comentar sobre isso, mas vi necessidade principalmente por causa do tipo de repercussão que a notícia está tendo. E preciso fazer umas pontuações necessárias.

Ontem estava eu na TL do Facebook e me deparo com a seguinte notícia: “Justiça permite tratar homossexualidade como doença”. Em seguida vi que era notícia da Veja. Respirei fundo e abri a notícia.

Comecei a ler. Na primeira leitura, fiquei enojado com o absurdo retrocesso desse país. Mas ainda assim li mais uma vez. Fiz uma breve pesquisa. Refleti sobre o assunto e comentei de forma resumida no Twitter.

Estou escrevendo esse texto para esclarecer toda essa polêmica, visto que há pessoas que nem leram a notícia e outras que nem estão entendendo o que está acontecendo. E também para apresentar outras perspectivas pertinentes sobre esse caso.

A resolução de 1999 editada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) passou a proibir que profissionais de Psicologia realizassem terapia de “reversão sexual” ou de reorientação – ou seja, mudar a orientação sexual do indivíduo. Mesmo que a pessoa exija, não é permitido. O mais correto e humano é encaminhar a pessoa para que aceite sua sexualidade. E vale lembrar que até hoje ninguém conseguiu mudar de orientação sexual, seja por vontade própria (não, não existe ex-gay) ou por métodos terapêuticos (sendo que vários foram empregados de maneira antiética e causaram transtornos mentais e suicídios).

Essa resolução foi feita em virtude da OMS ter retirado em 1990 a homossexualidade (não é mais homossexualismo, tá?) dos catálogos de transtornos mentais.

Alguns "profissionais" da área tiveram seu registro cassado por promoverem a tal "reversão sexual". E, claro, todos motivados por religião. Dessa vez, uma fanática cassada, apoiada por outros da mesma laia, entrou com uma ação judicial contra a resolução.

Um juiz de DF acatou e entrou com uma liminar, que é um pedido específico dentro de uma ação. Ele não anulou a decisão da OMS e nem a resolução de 1999. Ele está tentando abrir uma concessão dentro da resolução. Ou seja, homossexualidade não voltou a ser classificada como transtorno, nem a nível nacional. Ressalto isso porque vi gente interpretando assim.

Mas ainda assim, essa liminar é definitivamente um gigantesco retrocesso sem precedentes e uma atitude que reflete a homofobia internalizada no âmbito jurídico e o avanço do fanatismo religioso. Estão novamente tentando patologizar a homossexualidade (consequentemente todas as orientações que não são hétero)!

Com essa liminar, gays e lésbicas podem ser tratados como doentes e podem ser atendidos, por escolha própria, por psicólogos para tentar mudar sua orientação sexual. Na psicologia existe um termo chamado “orientação sexual egodistônica”, que é a condição em que um indivíduo deseja mudar sua orientação por ela lhe causar algum sofrimento. Então essa liminar, até onde pude entender, serve a princípio para as pessoas egodistônicas.

No entanto, e como já foi falado, está mais do que comprovado (e isso porque homossexuais foram cobaias por muitos anos) que não é possível mudar a orientação sexual de alguém. A egodistonia tem uma única causa: o preconceito. A homofobia é uma opressão estrutural, ou seja, ela está na sociedade em todos os âmbitos. Ela é a causa do sofrimento e das estatísticas de violência e morte contra homossexuais. Infelizmente parece que é mais fácil quererem tratar uma sexualidade do que uma discriminação.

E aliás, falei de pessoas egodistônicas maiores de idade! Essa mesma liminar abre uma brecha perigosa para famílias religiosas e conservadores quererem "internar" crianças a adolescentes LGBTs (como se não bastasse as igrejas por aí que ainda tentam converter as pessoas).

Independentemente da idade, essa decisão poderá abrir portas para experimentações antiéticas e torturas psicológicas. Se mesmo com a resolução do CFP ainda ocorrem casos de tentativa de reorientação, então a situação pode piorar. Resoluções e leis mal são cumpridas nesse país.

E tendo em vista o conhecimento precário de muitos profissionais da própria área sobre sexualidade e gênero, essa liminar com certeza pode atingir também bissexuais e transexuais e travestis. Afinal, na mentalidade da população geral, bissexual é “meio-homossexual” e transexuais e travestis são uma evolução dos gays.

Outro ponto importante e que é raramente discutido é como estamos usando a palavra homofobia. Na prática, a população geral acaba usando homofobia para discriminação de pessoas LGBTs. Está errado, visto que as opressões vivenciadas por homossexuais, bissexuais e pessoas trans são distintas. Mas nem é disso que vou falar. Ontem no Twitter milhares de pessoas utilizaram em repúdio a liminar a tag #HomofobiaÉDoença. Até eu participei disso. E depois percebi meu erro. Homofobia é um preconceito que pode se tornar crime de ódio. Ela é uma opressão estruturada na sociedade, e afirmá-la como uma “doença mental” reforça mais os estigmas contra a parte da população que é portadora de transtornos e doenças mentais. Por favor, evitem fazer essa afirmação!

Sobre todas as pessoas se manifestando, fico imensamente feliz com isso. Agora devo também cobrar: onde está toda essa união para retirar a transexualidade do CID (Código Internacional de Doenças)? E sabiam que a bissexualidade – mesmo não sendo considerada, em si, um transtorno – aparece como “sintoma” de alguns transtornos? Linda essa revolta contra um retrocesso que atinge (primariamente) gays e lésbicas cisgêneros. Mas as outras letrinhas da sigla LGBT estão precisando de ajuda também.

Concluindo, a liminar foi feita por apenas um juiz (nem é formado em psicologia!) e o CFP em conjunto com organizações pró-LGBT irão recorrer contra isso. Projetos de “cura gay” já foram derrubados e espero que dessa vez não seja diferente.

Toda essa polêmica reforça o quanto precisamos falar da homofobia estrutural e tomarmos cuidado para o rumo que nosso país está tomando, que até então tem sido retrocesso atrás de retrocesso. A comunidade LGBTQIAP+ continua sendo ameaçada! Precisamos parar de ficar fazendo meme e lutar!



16 de ago. de 2017

Neonazistas

Ano de 2017 e ainda existem grupos seguidores da ideologia que dizimou milhares de pessoas e se tornou uma das maiores vergonhas da história da humanidade.

Não, não é ignorância, falta de informação, falta de educação, problema mental, doença, não é nada disso. Nem é intolerância. O que estamos vivenciando está além da intolerância e chegou na loucura.

Podia ter sido aqui no Brasil, mas foi nos Estados Unidos que ocorreu uma manifestação neonazista. As pessoas que compuseram esse show de horrores fizeram discursos contra judeus, negros e homossexuais e defenderam a supremacia branca.

Não sei o que o país ou as organizações internacionais vão fazer ou o que podem fazer. Mas algo deve ser feito. Urgentemente!

Você percebe que a humanidade falhou quando nesses tempos modernos existem grupos de pessoas defendendo abertamente e sem medo opressão, violência e morte contra outros grupos. Isso não é liberdade de expressão!

E estou mais do que farto de ouvir discursos pacifistas, de que não devemos revidar essa gente com violência, que devemos manter o diálogo, que devemos ser "humanos".

Eu até relevo com as minorias insistindo no pacifismo. Mas ver gente que não é alvo dos neonazistas fazendo esse discurso me deixa muito puto! Tenho vontade de perguntar para essa gente: como é nunca ser ameaçado de morte por pertencer a determinado grupo?

Qual seria minha solução? Digo aqui e agora para o mundo inteiro: fuzilar! Matar esses lixos! Matar antes que nos matem, matar antes que matem, matar porque com essa gente está além da recuperação.

Todas as pessoas têm direito à vida? Bom, eu acredito que sim. Tanto que sou contra a pena de morte. Podem defender o direito à vida dos neonazistas. Agora, quem vai defender o mesmo direito de viver das minorias?

Para mim o direito à vida da outra pessoa termina no momento em que ela é uma ameaça a minha vida. Pior ainda se for ameaça a minha e de outras pessoas.

Violência é a melhor resposta? Sinceramente, não sei mais responder. Eu preferiria evitar violência. Mas infelizmente a violência é necessária, principalmente quando ela vem como resistência. As minorias precisam se armar, ter como se defender.

Sinto muito quem achar minha opinião radical. Mas entre jogar uma flor ou uma bomba, eu jogo aquilo que for preservar minha vida. Chega de pacifismo com essa gente! Isso é guerra! Não é questão de "escolher lados". Isso é questão de vida.



13 de ago. de 2016

Comentando uma notícia

As Olimpíadas desse ano estão sendo marcadas pela presença de atletas LGBTs de muitos países, incluindo aqui do Brasil. Pessoas de todo lugar estão vindo visitar o país, e pelo que ouvi falar por aí, os gringos estão fazendo sucesso nos famosos aplicativos gays hahaha.

Entretanto, venho aqui com uma notícia revoltante que até agora está me revirando o estômago. Dessa vez não houve agressão física, xingamento ou morte contra LGBTs. O que ocorreu aqui foi exposição da vida particular de alguns atletas.

Um "jornalista" que trabalha para um jornal londrino foi para a Vila Olímpica, no Rio de Janeiro, usando os tais aplicativos. Lá ele encontrou alguns atletas, conversou com eles e até marcou encontro. Com isso ele fez sua preciosa matéria expondo os atletas, incluindo que esporte faziam e seus países de origem. A matéria teve uma repercussão negativa, depois foi retirada, e o abençoado até se desculpou... ¬¬

Ou esse "jornalista" é muito ignorante sobre direitos gays pelo mundo ou agiu na mais pura maldade. Muitos desses atletas não eram assumidos e alguns vieram de países em que práticas homossexuais são condenadas por lei! Eles correm o risco de terem sua carreira encerrada e inclusive risco de vida! Será que este ser não pensou nessas coisas???

Parece que não existe mais respeito e escrúpulos para se fazer uma matéria no meio jornalístico. É necessário rever essa tal "liberdade de imprensa" aí. Sinceramente, o que ele fez deveria ser considerado crime! No mínimo ele deveria ser demitido e perder permanentemente o direito de exercer a profissão!

E por favor, não me venha com "ah, ele se desculpou e tirou a matéria". A merda já foi feita! Publicou na Internet, esquece, não sai mais dela. As desculpas dele não vão mudar o passado e de nada servirão para os atletas que terão que enfrentar a discriminação em seus países ou nem poderão retornar para eles.

É difícil se assumir, ainda mais no meio esportivo? Sim! Especialmente em países LGBTfóbicos. Pior ainda é ser tirado à força do armário! Fico com muita pena desses atletas; precisam viver suas sexualidades de forma oculta, treinaram para os jogos, viajaram até aqui, e então recebem uma bomba dessas. Horrível!

E não venha também culpando as vítimas por "se exporem nos aplicativos". Eu não vejo aplicativos com bons olhos, mas defendo a liberdade total dos atletas (de qualquer pessoa) de usarem, se encontrarem com alguém, beijarem e transarem e gozarem muito, sem serem expostos dessa maneira, expostos ao mundo todo.

Contudo e apesar de tudo, espero do fundo da alma que esse acontecimento e a representatividade LGBT nas Olimpíadas atentem o mundo inteiro sobre os direitos LGBTs, principalmente aos países que ainda possuem uma conduta anti-LGBT.

Ser LGBT nesse mundo é um desafio diário, e nenhum jogo olímpico se compara a isso.



15 de jun. de 2016

Massacre em Orlando

Fiquei pensando e pensando se eu deveria fazer um artigo sobre isso. Não por falta de ter o que falar, e sim pelo choque. "Será que vou conseguir escrever sobre isso?", me perguntei algumas vezes, ainda tremendo. Muita gente falou sobre isso. Chegou minha vez.

Um homem entrou na boate Pulse, na cidade de Orlando, EUA, e atirou em uma centena de pessoas. Ele morreu durante o confronto com a polícia. Até agora foram registradas 50 vítimas mortas e outras 53 feridas.

A mobilização nas redes sociais foi imediata, predominando o apoio às vítimas e o repúdio contra essa atitude tão bárbara. Dezenas de pessoas se juntaram para doar sangue às vítimas que ainda estão se recuperando. Foi um momento propício para questionar a restrição de homossexuais em doar sangue. Quanto sangue poderia ser doado, já pensaram?

É difícil explicar para certas pessoas, principalmente quem é hétero-cis, que ser LGBT não é apenas sofrer bullying, receber ofensas, ser expulsx de casa; é também sair de casa para se divertir e não saber se voltará com vida. Conseguem imaginar o que é isso? Após esse banho de sangue, vocês conseguem ter uma ideia do que é morrer só por ser o que é?

O caso gerou algumas controversas sobre a razão do assassino. Muitas figuras reacionárias (de lá e daqui também) tentaram fazer esse crime, motivado evidentemente por homofobia, ser reconhecido como apenas um ataque terrorista. O setor estado-unidense reacionário sempre teve uma posição anti-islâmica, claro que não perderiam essa oportunidade. Ademais, homofobia não existe para conservadores.

O pai do assassino esclareceu mais sobre ele, dizendo que o filho era homofóbico, que meses antes ele havia tido um ataque de fúria ao ver casais gays na rua. Sua ex-mulher afirma que ele a agredia. Embora esse senhor tenha parecido "inocente", sua última declaração foi: "cabe a Deus punir os homossexuais". Percebe-se que a homofobia começava em casa. A sociedade é culpada. A religião é culpada. O pai é culpado.

Esse incidente horrível provou o que o preconceito mais a liberação das armas pode causar. E ainda temos que ver gente desprezível destilando ódio e ignorância, comemorando as mortes e ainda apoiando o armamento livre. Por isso a militância LGBT vive batendo nessa tecla: Falta educação sobre diversidade! Nas escolas, principalmente! E a esquerda permanece contra o livre porte de armas por eventos como esse.

E sabem o que é mais temível aqui? As sementes que isso pode plantar! Será que esse massacre não pode inspirar mais gente preconceituosa a fazer o mesmo? Ainda mais aqui no Brasil, o país que mais mata LGBTs (sem precisar de chacinas como essa). E também o medo que isso gerou, não apenas nos EUA, mas no mundo inteiro. Quantas pessoas LGBTs não estão com mais receio de sair de suas casas? "Podia ter sido comigo..."

Nas redes sociais o mundo inteiro colocou a tag "Pray For Orlando", que pela tradução seria "rezar por Orlando". Houve gente que criticou a tag por fazer uma referência a religiosidade. Mas eu enxergo de outro modo: o ato de rezar pode independer de crenças e religiões. Você pode orar pelas almas das vítimas usando sua própria fé. Você é ateu? Então reze pelas memórias dessas pessoas, por tudo que elas representaram enquanto vivas.

Com toda essa violência e sofrimento, houve uma quantidade enorme de pessoas revoltadas com o ocorrido e solidárias com as famílias das vítimas. Muita gente do meio artístico se manifestou. até pessoas do meio político. Talvez, só talvez, isso possa ter aberto mais os olhos do mundo inteiro a respeito da população LGBT.

Mais uma vez LGBTs se tornaram estatísticas de morte por intolerância.
Não foi apenas um homem que apertou o gatilho. Foi todo o preconceito, desde a piadinha na mesa do bar até o espancamento na rua.
Estamos de luto, mas a luta continua!

#PrayForOrlando #PrayForTheWorld #PrayForLGBT