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29 de mar. de 2018

Os limites

Qual é a linha que traça o limite entre uma relação consentida e uma relação abusiva? Entre o flerte e o assédio? Entre o sexo e o estupro? Quem traça essa linha? Como traça?

Aqui estou falando de crimes contra a liberdade sexual e contra o corpo e a moral de pessoas. Parece pesado, né? Mas infelizmente tais crimes ainda são muito naturalizados e relativizados. E como já abordei sobre isso em redes sociais, decidi escrever algo mais elaborado.

Não é preciso estudo científico para ver que o ser humano tem todo um conjunto de linguagens corporais e expressões faciais que demonstram suas emoções do momento. Por isso que não desculpo nenhum assédio feito pessoalmente. É evidente quando as pessoas estão incomodadas, desconfortáveis, com medo, repulsa, enfim. 

Se a pessoa não consegue ler esses sinais, ela com certeza tem algum problema moral. E se ignora conscientemente os sinais, é gente da pior espécie.

As pessoas em geral têm uma ideia do que é um assédio. Como julgam isso? Pela reação de quem está recebendo o ato - seja um toque e/ou palavras. Porém, antes de olhares de terceiros, temos o olhar da própria pessoa.

Não importa qual seja o ato, ou se ele foi pedido ou não; se a pessoa aceita esse ato, ele foi consentido, logo, não fere a liberdade individual. Mas se a pessoa não o aceitar, sim, isso fere a liberdade individual. Simples, não? Sim, é simples assim.

E não importa o motivo que levou a pessoa a aceitar. Não importa se foi porque era parceire, amigue, colega; ou porque a pessoa era bonita; ou por algum interesse obscuro. É assim que funciona. Só nós mesmes decidimos quem feriu ou não a nossa liberdade.

Existem situações em que uma pessoa é invasiva. Ou seja, ela aborda a outra de uma maneira que é inconveniente, incômoda, enfim. Não dá para já apontar o dedo e acusar de assédio, porque muitas vezes as pessoas não percebem quando estão sendo invasivas. Então o que podemos fazer é alertar. Dizer o não. Ponto final.

Agora, se depois do não a outra parte persistir, sim, é um assédio declarado e com todas as letras. E como tal não deve ser relevado nem desculpado, tem que ser apontado e recriminado.

Resumindo, quem decide o que foi o ato é a própria pessoa. Somente ela. E o dever de todes nós é nos policiarmos para não desrespeitar a outra parte. Temos que saber parar e aprender a entender o não mesmo quando é dito de outra forma. É uma pena que o sistema educacional falha em abordar essa questão como deve ser abordada.

Para reforçar, aqui está o vídeo de uma analogia bem didática: https://www.youtube.com/watch?v=D5l3ks5O_Hw.



8 de mai. de 2016

Conceito: problematização e desconstrução

Duas palavras que aparecem muito nos ativismos sociais modernos, seja dentro ou fora das redes sociais: problematização e desconstrução.

A problematização, resumidamente falando, é uma análise que revela qualquer ideia preconceituosa ou ignorante que possa estar escondida ou que possa passar despercebida a princípio. Isso pode ser numa frase, numa imagem, num texto, que seja. Essa análise é feita de mais de uma perspectiva, e por isso pode nos fazer enxergar coisas novas, especialmente quando através de uma perspectiva diferente da nossa.

A desconstrução não é nada mais que eliminarmos de nós ideias, pensamentos e comportamentos que acabamos adotando pela nossa socialização; tudo que possa, de alguma forma, alimentar o preconceito e a ignorância. Nossa socialização é repleta disso, tanto que nem percebemos. Tanto que para nós é difícil ver através de perspectivas diferentes da nossa.

Basicamente, a problematização aponta um erro e a desconstrução é a correção do erro. 
Já parou para pensar em quanta coisa errada aprendemos e repetimos em nosso cotidiano?

Ambas trabalham em conjunto para quebrar paradigmas e todos os padrões que criam e perpetuam todo tipo de opressão. E não falo apenas da opressão contra minorias, mas toda opressão que atinge todas as pessoas, tudo que prende o ser humano num mundo pequeno de intolerância, limitações e regras que no fim não fazem sentido. A meu ver, ambas são um exercício intelectual.

Já parou para imaginar como seria um mundo onde o ser humano é verdadeiramente livre, sendo quem quiser e como quiser, amando e respeitando todas as pessoas ao seu redor, convivendo perfeitamente com toda diversidade e diferenças?

Há brigas sobre certas problematizações serem "exageradas". E há questionamentos se, de fato, é possível nos desconstruirmos. Ademais, não é incomum ativistas fazerem problematizações e demonstrarem um nível alto aparente de desconstrução apenas para alimentarem seus egos nas redes sociais.

Acredito que exagero é questão de perspectiva (nossa dificuldade de enxergamos o problema do outro). E a desconstrução é algo possível, porém requer tempo e boa vontade da própria pessoa.

Seja no mundo real ou no mundo virtual, é importante aplicarmos esses conceitos na prática em nossas vidas. Isso abre nossos horizontes e nos direciona para sermos melhores como pessoas. Romper paradigmas e padrões liberta as pessoas e liberta o mundo.



5 de mar. de 2016

As formas do ativismo LGBT

Recentemente uma pessoa questionou sobre minha forma de ativismo. Alegou que "não basta colocar bandeirinha colorida e ficar discutindo em um grupo de Facebook" (como se eu fizesse apenas isso). E falou também que ativista deve ser estudadx no assunto e sair na militância (acredito que ele estava falando de protestos na rua).

Afinal, existe uma fórmula universal de como ser ativista?
Existe somente uma forma de ser ativista?

Primeiramente vamos perguntar: o que é ativismo?
Ativismo é questionar o sistema, enfrentar e desconstruir o preconceito, posicionar-se contra a opressão e quem a pratica, ajudar quem precisa se aceitar, defender uma causa e tentar mudar o mundo ao nosso redor através de vários métodos - manifestações, diálogos, textos didáticos, enfim.

E para fazer tudo isso precisamos apenas participar de protestos nas ruas? Não! O ativismo não é uma estrada única; são várias estradas, que podem se cruzar dependendo de quem as percorre. E todas conduzem para a mesma direção.

Sair na rua em protestos, levantar a bandeira, é ativismo!
Apoiar ou ajudar uma pessoa a aceitar sua sexualidade e/ou identidade de gênero é ativismo!
Desconstruir coleguinhas ou parentes que têm preconceito é ativismo!
Escrever textão pró-LGBT nas redes sociais é ativismo!
Beijar na rua e andar de mãos dadas é ativismo!

E pasmem: esse blog também é ativismo!

Até mesmo as personagens LGBTs mostradas em filmes e séries ou o beijo gay/lésbico na novela estão incluídos. Isso é representatividade, o que também é ativismo!

Claro que cada forma de ativismo tem sua força e alcance. Os protestos sociais são um ícone na militância, sem dúvida. E acredito que a maioria dxs ativistas terá essa experiência, algum dia. Agora, será que todxs podem sair nas ruas? E quem não pode sair por algum motivo (doença, acidente, depressão, família etc)? Como fica?

Discussões em grupos virtuais costumam ser subestimadas por alguns ativistas. E por que deveriam? Apenas por serem nas redes sociais? São as próprias redes sociais que ajudam muita gente por aí, especialmente jovens que ainda estão se descobrindo. E essas mesmas discussões são excelentes para problematizações e desconstruções.

Às vezes a Internet é o único meio de informação de algumas pessoas. O noticiário na TV pode até mostrar os protestos pró-LGBT, mas ele explica detalhadamente as pautas? Não. E nem é feito para isso.

Colocar foto colorida no Facebook pode não ser um ativismo forte, mas já é alguma coisa. Pense numa pessoa ainda no armário, de família muito religiosa, em alguma cidade mais conservadora. Botar foto colorida é um passo tremendo para essa pessoa! Respeitem o tempo de cada um!

Não adianta apenas sair na rua balançando a bandeirinha e gritar aos quatro ventos. Tem que saber o que gritar e saber sobre o que é sua luta e quais são as pautas do movimento. E também tem que se desconstruir! O que mais há atualmente são gays que levantam a bandeira, mas praticam lesbo/bi/transfobia. Incoerente, não?

Outro ponto que já ouvi em conversas é sobre ativistas individuais. Enquanto a maioria se reúne em grupos (coletivos), essas pessoas preferem militar sozinhas a favor da causa (geralmente são ativistas virtuais). Não há nada de errado nisso. Se estiver contribuindo com a causa, ótimo!

Antes de ser ativista, é ideal conhecer a história do movimento LGBT, se informar muito bem e praticar a desconstrução interna. Assim que você inicia a luta por seus direitos e contra o preconceito, você está sendo ativista. Todas as pessoas têm sua forma de ser ativista, dentro de seu tempo e condições. E todas as formas devem ser respeitadas!

Se você não respeita o ativismo de alguém, achando que só o seu é o correto, então não aprendeu nada. Todas as formas de ativismo são válidas!



12 de dez. de 2015

Estou amando duas pessoas

Oh céus, o que se deve fazer numa situação tão inusitada como esta?

Confesso que isso nunca me aconteceu. Pelo menos não de forma intensa. O que direi aqui é mais baseado em pesquisas a respeito do assunto.

Não é novidade que há gente que se apaixona por duas pessoas, e que tal situação é vista e tratada de uma forma geralmente negativa. Como a monogamia ainda é muito presente na grande maioria das sociedades pelo mundo, uma relação não-monogâmica - poligamia - é definida como perversão, safadeza, etc.

Porém, como sabemos, o ser humano é um bicho complexo demais. As coisas não são tão simples. Ter afetividade por mais de uma pessoa não é nada horrível. 

Normalmente costumamos nos apaixonar por uma pessoa e, com isso, passamos a querer somente aquela pessoa. Mas até mesmo gente monogâmica pode se apaixonar por mais de uma pessoa. Acontece, é natural, e não há nada de errado nisso. Cada um é um. Qual é o problema de ter afinidade por duas pessoas? Nenhum!

Se você que está amando duas pessoas quer manter a monogamia, o ideal a fazer é analisar a situação de maneira racional. Compare as duas pessoas, faça uma lista dos interesses em comum, veja as possibilidades de uma relação, e conheça ambas o suficiente para conseguir imaginar como seria uma relação com elas.

As pessoas se juntam por compatibilidade. Se perceber que você tem uma compatibilidade maior com uma delas, o melhor a fazer é começar um exercício interno de desapego com a pessoa menos compatível. Lembre-se que vocês podem ter uma amizade, que é uma espécie de amor.

Existe uma frase de um ator famoso internacionalmente que diz: "Se você acha que ama duas pessoas ao mesmo tempo, escolha a segunda. Porque se você realmente amasse a primeira, não teria uma segunda opção". Sinceramente, não creio muito nessa filosofia. É possível se apaixonar primeiro por uma pessoa menos compatível. Acontece.

"Ah, mas acabo de perceber que ambas são igualmente compatíveis comigo, O que fazer?"

Agora, saindo das relações monogâmicas, você talvez seja uma pessoa poliamorosa. Poliamor é um tipo de relação em que uma pessoa mantém relações afetivas com mais de uma pessoa. Claro que isso deve ser feito com consentimento mútuo; se você namora duas pessoas, ambas devem estar cientes disso!

Supondo que as duas pessoas que te interessam estejam acessíveis a ti, você pode conversar com elas sobre isso. É uma relação que enfrenta muita dificuldade devido a forte influência da monogamia no mundo, mas não é impossível. E se for possível, aproveite! Melhor do que ter uma pessoa amada só tendo duas pessoas amadas.

Se não houver um acordo e as duas pessoas ainda forem compatíveis contigo, só o tempo dirá qual delas será mais adequada para você. Ou talvez pode surgir um novo interesse.

Não existe uma receita universal para resolver esse dilema. Como foi dito, só o tempo dirá.



21 de nov. de 2015

Dia da Consciência Negra

O que representa essa data no calendário?

Simbolicamente representa a luta contra o racismo, contra a exclusão da população negra na sociedade. Essa data surgiu em homenagem a Zumbi dos Palmares, um negro que foi escravizado e se tornou o líder do Quilombo dos Palmares. O Quilombo era uma resistência composta por escravos fugitivos da época. Séculos após a morte de Zumbi, o Dia da Consciência Negra foi criado como uma reflexão sobre a influência histórica da cultura africana e do povo africano no Brasil.

(Zumbi dos Palmares)

É impossível desconsiderar a vasta influência africana trazida para o Brasil. Além da economia do país ter crescido ao longo da História à custa de milhares de vidas, temos também as religiões e crenças africanas, como a Umbanda e o Candomblé. Essa influência está mais presente no Nordeste brasileiro, como na Bahia ou em Pernambuco.

O povo africano sofreu. Sim, sofreu muito. Mas deixou sementes aqui, que só floresceram após muitos anos de luta e resistência por parte de seus descendentes, que atualmente compõem mais da metade do país.

Há quem diga que o racismo no Brasil acabou. E dizem isso só porque pessoas negras não são mais escravizadas, tratadas como produto e trazidas em navios negreiros. Sinto lhe informar: a escravidão não acabou. Só não tem mais grilhões e chicotes, mas ainda está aí. Só não a enxerga quem não quer.

E mesmo tendo apoio de pessoas brancas, a população negra ainda sofre a opressão de todo um sistema que beneficia mais as pessoas brancas. Não importa se você, brancx, não comete o racismo; o preconceito ainda está presente, está no sistema.

Pessoas negras ainda não conseguem os mesmos empregos que pessoas brancas, ainda não têm as mesmas oportunidades. Essa parcela da população ainda é muito marginalizada. Quantas pessoas negras vemos numa escola ou numa faculdade particular? Quantas vemos em profissões de destaque, como medicina ou engenharia? Quantas estão no Poder Judiciário ou na política?

O Dia da Consciência Negra era um feriado nacional até 2011, quando foi sancionada uma lei que tornava facultativo ser feriado no dia. Na maioria dos municípios dos Estados ainda é feriado. Mas, infelizmente, nem todas as pessoas estarão de folga nesse dia, como os lixeiros, cuja maioria é composta por pessoas negras...

Não apenas nesse dia devemos lembrar do racismo e do sistema que beneficia mais as pessoas brancas, devemos lembrar todos os dias. E não apenas lembrar, mas fazermos nossa parte. 

O movimento negro lutará por seus direitos. 
E as pessoas brancas devem apoiar e questionar o sistema.

A classe oprimida deve lutar. E a classe opressora deve apoiar. 
Só assim criaremos uma sociedade realmente igualitária para todxs.



12 de set. de 2015

Conceito: protagonismo e aliança

Afinal qual a diferença de, dentro de um movimento social, ser protagonista ou ser aliado?

A diferença pode ser facilmente percebida por algumas pessoas, mas há outras que não compreendem bem por alguns motivos, incluindo ignorância e persistência no preconceito.

Um movimento social nasce quando uma classe de pessoas é oprimida socialmente. Essa opressão inclui: falta ou restrição de direitos civis, agressões físicas, morais ou verbais motivadas por ódio, silenciamento e invisibilidade em relação a liberdade de se expressar e se manifestar.

Quem protagoniza um movimento social é justamente quem sofre um determinado tipo de opressão e, portanto, quem tem a voz. Ter a voz significa que aquela pessoa é quem está lutando contra aquela determinada opressão, lutando para ser incluída na sociedade assim como a maioria (o lado opressor), lutando por igualitarismo.

Gays e lésbicas lutam contra a homolesbofobia, e logo protagonizam suas respectivas siglas do movimento LGBT. E assim funciona com as demais siglas e os demais movimentos sociais.

Agora, vamos propor os seguintes protagonismos:

1- Pessoa heterossexual e cisgênera protagonizando o movimento LGBT. 
2- Homem protagonizando o feminismo.
3- Pessoa branca protagonizando o movimento negro.

Isso faz algum sentido? Não, não faz, e a explicação é mais simples do que parece:

1- Pessoas hétero-cis não sofrem LGBTfobia.
2- Homem é beneficiado histórica e diariamente pelo machismo.
3- Não existe racismo contra gente branca.

Essas classes de pessoas não sofrem as opressões citadas e, portanto, não têm voz nos movimentos sociais mencionados. Se essas pessoas não são protagonistas, mas querem fazer parte ou já fazem parte de algum desses movimentos, o que elas são? Simples: essas pessoas são aliadas.

A aliança também faz sua parte na luta contra a opressão, mas ela, dentro de um movimento social, é mais o suporte ou um auxílio a mais. Pessoas aliadas são muito bem-vindas, e dentro dos movimentos elas aprendem a desconstruir os preconceitos internos e também externos. E, claro, lá elas não têm voz; estão lá mais para ouvir e mostrar apoio.

Vale ressaltar que ninguém tem obrigação de se aliar a um movimento. Porém, sinto dizer, atualmente não é mais possível "ficar em cima do muro". Ou você é contra ou você é a favor. Não tem essa de "ah, nada contra, mas também nada a favor". Se você é a favor dos movimentos, você é contra a opressão. Se é contra eles, você é a favor da opressão. E se você é "imparcial", ainda está cooperando com a opressão, pois está se calando diante dela e deixando que ela aconteça. Sim, pessoinhas, no fim não existe "imparcialidade" aqui.

Quem quiser aliar-se, fique à vontade. Procure os movimentos, saiba ouvir, e tenha a mente e o coração abertos. Contudo, aliar-se pensando que está fazendo um favor àquela classe oprimida é muita presunção, e nenhum movimento precisa de gente assim.



29 de ago. de 2015

Minha primeira experiência noturna

Eu nunca tinha saído para curtir a noite até a segunda semana de julho. Mesmo assim eu já tinha uma ideia de como era a vida mundana em São Paulo depois das 23h até o término da madrugada.

Por essa razão não me surpreendi com nada do que presenciei. Tudo era o que eu esperava: gente bêbada, estranha e desinteressada, maconha e narguilé, vendedores de LSD (que passavam rápido e me enganaram dizendo que era docinho #xatiado), mendigos (bêbados ou sóbrios), pessoas procurando relações casuais (desde beijos e pegação a sexo)... enfim, o básico.

Eu sentia a necessidade de ir à uma balada. Tanto por curiosidade como também para dizer que fui pelo menos uma vez.

Planejei me encontrar com uma colega e não deu certo. Um amigo foi ao metrô me resgatar e me levou ao grupo dele de quatro meninos. Um eu já conhecia, pois faz o mesmo curso que eu.

Descemos a Rua Augusta, pegamos o carro de um dos meninos, e fomos à Praça Roosevelt. Incrível a quantidade de mendigos, maconheiros e drogados lá! Fomos a um bar de ambiente exótico. Lá conheci mais algumas pessoas, aguentei o olhar de um homem de uns 50 anos ou mais, fiquei muito na minha. Acabamos ficando lá por menos de uma hora. Voltamos para a Augusta e discutimos sobre ir ou não numa balada, e enfim optamos por ficar na frente de uma.

Meu amigo estava muito bêbado e queria a todo custo pegar um cara. Devo dizer que ele fica insuportável nesse estado. Ele chamava os caras com o dedo (parecia um doido), beijou alguns meninos sem prévio aviso (e estes aceitaram de boa...), e me incomodou com comentários desnecessários (ressaltando que eu não fazia o tipo dele - como se eu tivesse perguntado). Ele foi deplorável, daquela hora até o final.

Um casal de amigos do meu amigo me fez boa companhia e aparentemente gostaram de mim. Tivemos uma conversa bacana, e me pareceram pessoas legais. Só não gostei quando tentaram me empurrar um menino (aparentemente "compatível" comigo"). O mesmo nem queria nada comigo...

Uma situação medonha foi quando um cara passou pela gente, parou e ficou me encarando. Ignorei, claro, afinal não sou obrigado, e pessoas assim me assustam. Ele me fez lembrar do quanto odeio gente me encarando. Aliás, que forma bizarra de "atrair" alguém.

As horas passaram lentas até. Andamos um pouco além do nosso "ponto fixo", vimos meu amigo ser ridículo de vários jeitos, e conhecemos algumas pessoas. Lá eu via todo tipo de pessoa, incluindo algumas travestis.

Teve um momento, eu quieto na minha, a amiga do menino que tentaram me empurrar chegou em mim e disse que eu estava diante de um cardápio; as pessoa eram os pratos, e era só eu escolher. Fiquei quieto, pois achei aquele pensamento idiota. Além disso, não havia boas opções XD.

Confesso que fiquei muito a fim de dois caras, ambos com jeito de moleque, joviais, lindos. Um deles eu já tinha visto rondando aquela área. Ele estava irritado porque alguém havia quebrado o vidro da janela de seu carro. Não consegui me aproximar, nem descobri o nome. O segundo veio junto com um amigo. Não tirei os olhos dele. Pena que percebi logo que ele era "da vida". Mesmo assim pedi pra um dos meninos que gostou de mim perguntar se aquele cara pegaria meu número. Ele disse que sim, mas em nenhum momento pediu... Bem que dizem que palavras são como vento.

Depois daquilo tudo ainda tivemos tempo e paciência de irmos a uma lanchonete de alguma marca que esqueci agora (Ragazzo, talvez). Fiquei meio deprimido... entrei num conflito interno. Um lado meu queria ter aproveitado aquela madrugada, queria ter agarrado e beijado alguém. Outro lado meu ficou desmotivado pela juventude atual, afinal a maioria, especialmente os gays, não querem mais namoro, compromisso. Aquela vivência fez eu me sentir num app ao vivo, e essa é nossa realidade atual; somos um cardápio para as outras pessoas.

Concluindo, o que posso dizer de tudo isso? Bem, essa vida realmente não é para mim. E tenho um pouco de pena de quem vive em função disso. Essa pequena experiência serviu apenas para confirmar o quanto será difícil meu caminho enquanto eu buscar um príncipe encantado. Talvez eu experimente a vida noturna mais algumas pouquíssimas vezes. E farei isso mantendo minha dignidade. Pode não ser meu estilo de vida, mas achei interessante observar de perto as pessoas que vivem assim. Não deixa de ser uma forma de aprendizado.



12 de nov. de 2014

Meu eu feminista

Recentemente passei por um conflito nas redes sociais.

Questionei um machista sobre homens feministas e mulheres machistas.
Eu disse que o homem feminista está buscando, ao lado das mulheres feministas, a luta pela igualdade entre os sexos. Já a mulher machista está apenas reproduzindo o que lhe foi imposto desde sempre, afinal vivemos numa sociedade essencialmente machista.

Houve um rapaz que me questionou sobre eu chamar machismo de ideologia. Mas é mesmo, por definição, pois ideologia é um conjunto de ideias e regras estipuladas por um grupo. O machismo possui todo um conjunto de pensamentos que ditam o que homens e mulheres devem fazer, como devem ser. Isso causa um dano em ambas as partes, principalmente, e majoritariamente na mulher.

Enfim. Uma moça respondeu meu comentário alegando que eu, sendo homem, não poderia ser feminista, e que o feminismo busca a libertação da mulher.

Primeiro de tudo, falando do feminismo em si, ele busca sim a libertação da mulher. Entendo isso. Libertação das regras impostas, da opressão, da submissão, enfim, tudo que a coloca abaixo do homem nos aspectos sociais, culturais e intelectuais. Até hoje estive sendo apoiado por outras mulheres feministas, e homens também, mas essa foi a primeira mulher que me soltou diretamente esse questionamento. Aliás, do jeito que ela falou, parecia que minha afirmação sobre a igualdade  de gênero estava errada. E não está. A luta pela igualdade social está mais do que esclarecida e incluída no movimento.

A princípio fiquei com raiva da moça. Pensei: "Quem é ela para me dizer o que eu posso ou não ser?". Suas palavras causaram-me muito desconforto, pois pareceram desvalorizar minha contribuição para o feminismo.
Não, ainda não participei de passeatas, mas já há uns dois anos venho fazendo minha parte. Que parte é essa? Minha parte, como seguidor da ideologia feminista, de retirar todo machismo que eu tenho (ainda devo ter um pouco) e despertar minha mente para uma nova forma de enxergar mulheres e homens, enxergar mais igualdade, mais respeito, mais humanidade.

Refleti e pesquisei.
Tive o desprazer de ver outras mulheres afirmando que homens não podem ser feministas.
Em minha reflexão interna, concluí que a moça que me questionou deve pertencer a uma vertente mais "extremista" do feminismo. Existem várias vertentes, das mais flexíveis até essas. E de fato as feministas "extremistas" usam esse mesmo discurso.
Em minhas pesquisas, encontrei algumas feministas alegando que homens são na verdade pró-feminismo. O termo pró-feminismo seria usado pelos homens para mostrar apoio, mas não que eles sejam líderes, ou protagonistas do movimento. Existe certo receio de que os homens possam dominar até mesmo esse movimento.
Em relação aos termos, não existe ainda um consenso unânime sobre o homem ser ou "feminista" ou "pró-feminismo". Isso ainda é discutido.

Beleza. Fiz outra reflexão.
Deixa eu esclarecer uma coisa a todos os movimentos feministas: não quero ser líder de vocês. Pelo contrário, só quero apoiar. A luta é mais das mulheres mesmo, isso é evidente.
Querendo ou não, essa luta traz libertação para mulheres e homens. Existem vertentes voltadas mais para o lado masculino, como o movimento Homens, Libertem-se, mas desejo apoiar todos os lados da melhor forma possível. Se eu quiser ter voz, será em vertentes como essa. Nas demais, a voz é das mulheres, sempre!

Agora, vamos largar dessa briga de palavras e conceitos.
Acima de tudo, eu, como pessoa, devo considerar como me vejo e como me sinto. Vejo-me e sinto-me como um feminista.
Não sou protagonista do movimento, repito. Mas sim, sou feminista sim! Tenho a mentalidade e as atitudes de alguém que segue o feminismo, logo, na minha concepção, isso faz de mim um feminista. Posso ainda não ser 100%, mas sou!
E não vou me abalar por causa de uma minoria de extremistas. Até porque recebi imenso apoio de uma maioria, maioria composta por muitas mulheres e alguns homens. Não vou julgar ou criticar essas feministas, mas eu prefiro me manter afastado dos extremismos.

Tenho muito que aprender ainda. Contudo, não permitirei que por qualquer motivo alguém desconsidere o eu feminista que já existe dentro de mim. Minha convicção é maior que isso.



17 de out. de 2014

Homens, Libertem-se!

O machismo não é um veneno exclusivo para as mulheres. É uma ideologia tão bruta quanto uma granada; explode e acerta muitos. Tanto que até o próprio homem torna-se sua vítima, também bebe uma porção do veneno. Não é a mesma quantidade da mulher, lógico, mas ainda assim é destrutivo.

Por isso há um movimento chamado "Homens, Libertem-se!" feito pelo coletivo mo[vi]mento-MG/RJ e o grupo The Living Theatre de Nova Iorque. Esse movimento não é uma reação contra o movimento feminista! Ele apresenta ideias que enfrentam o machismo que ataca a classe homem. Assim como o movimento feminista é um movimento anti-patriarcal. E necessário, pois o homem também deve se posicionar contra o patriarcado e questionar seus privilégios sociais e as exigências em relação a 'hombridade'.

"Ah, mas desde quando o machismo afeta o homem?"
Ora, amigx, quando zoam ele por não gostar de futebol, ou quando ele quer brincar de casinha junto com as primas, quando usa/veste qualquer coisa rosa, quando demonstra emoção ou quando chora. E o medo de ser esculachado pelos amigos no bar porque broxou na hora H? A insegurança com relação ao tamanho do pênis? A cobrança social de ser sempre bem-sucedido?

Duvido que nenhum homem tenha passado por um desses exemplos (isso que tem mais!). Ou presenciou isso. Ou talvez tenha sido o opressor... Sei que ninguém perguntou, mas eu já passei pelas três situações hahaha XD.

A nova campanha apresentada pelo grupo chama-se "Homem, o que você queimaria?" (sem piadas, por favor). Ela é uma homenagem a um suposto acontecimento de 1968, quando mulheres protestaram contra os papéis sociais impostos a elas queimando seus sutiãs. O que a campanha propõe é que os homens também queimem aquilo que lhes prende, que lhes faz mal, toda ideia primitiva, conservadora e arcaica pregada pelo machismo que ainda tanto impregna a sociedade, o mundo num geral.

Aderentes da campanha estão contribuindo se manifestando com fotos ou vídeos com a hashtag #homemoquevocequeimaria e dizendo algo que gostariam de eliminar de suas vidas. Embora eu não mostre meu rosto aqui, farei a minha manifestação em total apoio.


Vamos espalhar essa ideia! o/ o/ o/ o/ o/

E para fechar, um vídeo sobre a campanha e os links do site oficial e a página no Facebook:


Link da página oficial: Homens Libertem-se

Link do Facebook: Homens Libertem-Se