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14 de jun. de 2018

Palavras capacitistas

Capacitismo é um outro tema muito ignorado. Termos capacitistas provavelmente devem ser os mais usados e os menos questionados em geral, ao contrário de termos que ofendem outros grupos - negres, gays, mulheres etc.

Segue abaixo palavras capacitistas usadas frequentemente:

Estúpide
Idiota
Imbecil
Otárie
Doide
Louque
Maluque
Retardade
Lesade
Demente
Lunátique
Insane
Maníaque
Débil
Cretine
Mongol
Capenga
Babaca
Trouxa
Burre
Besta

Todas essas palavras na verdade descrevem condições mentais específicas, que manifestam vários níveis de deficiência cognitiva, ou dificuldade de aprendizagem, ou desconexão com a realidade, entre outras coisas.

Precisamos parar de ficar usando tais condições para definir pessoas escrotas, ridículas, sem caráter, irresponsáveis etc. Afinal, além de pessoas não serem inferiores por suas condições mentais, deficiências mentais não têm a ver com qualidades negativas de um indivíduo.

O mesmo vale para palavras que não são em si capacitistas, mas que são usadas nesse contexto (ex: dizer que a pessoa tem "probleminha" na cabeça).

Sei que é difícil por causa do costume, mas evitem usá-las. Especialmente quando forem atacar gente preconceituosa. Elas não são doentes mentais, são apenas gente sem caráter e moral, bem conscientes do que estão fazendo.

Por esse mesmo motivo que há a proposta de substituírem as palavras de sufixo -fobia que definem preconceitos por palavras com -misia.

Vamos parar com o capacitismo.



2 de mai. de 2018

Tudo começa numa piada

Há muito tempo encontrei esse método de medir o preconceito numa sociedade. Foi desenvolvido por um psicólogo chamado Gordon Allport. Detalhe: isso foi desenvolvido em 1954. E pensar que já naquela década uma pessoa havia pesquisado e definido bem os níveis do preconceito, como começa e até que ponto pode chegar.


Achei interessante divulgar. Não apenas por ser um tema atual, como também não pude deixar de lembrar das inúmeras postagens e discussões já feitas sobre as piadas com minorias. Muita gente tem dificuldade de perceber que as piadas são o primeiro passo de uma opressão ativa. E elas também auxiliam a sustentar determinada opressão.

As piadas criam ideias, ideias que tornam um grupo de pessoas como algo ridículo, algo dispensável, algo inferior. Essas ideias, quando muito sedimentadas na cabeça, criam sentimentos de antipatia e desprezo. E assim por diante (acredito que não preciso dissertar sobre o que está escrito no gráfico).

Isso é apenas uma informação sobre o cenário atual das minorias. Quase todos os grupos já atingiram o nível 5. Espero que isso possa abrir mentes, fazer pessoas enxergarem melhor toda a dimensão dessa questão. Sim, tudo começa numa piada...



25 de mar. de 2018

Aquelas microagressões do cotidiano

Uma microagressão é entendida como frases, comportamentos e atitudes que demonstram um pensamento preconceituoso ou normativo numa escala considerada menor, quase sempre cometida sem a real intenção de discriminar.

Mas toda microagressão ainda é uma manifestação dos sistemas opressivos, e por isso precisam ser combatidas. Logo abaixo colocarei as mais comuns cometidas contra a comunidade LGBTQIAP+ (por pessoas de dentro e de fora dela).

- Presumir qualquer característica positiva de pessoas da comunidade.
Que gays são inteligentes, que pessoas bi têm "muitas opções" de parceires, que assexuais e arromântiques não sofrem por relacionamentos ou por amor, enfim, só parem. Enquanto algumas ideias são equivocadas e ofuscam opressões, há outras que mostram cobranças sociais para "compensar" o fato da pessoa estar fora dos padrões.

- Questionar por que a pessoa tem certo gosto ou faz tal coisa só por ela ser [insira o grupo].
Pessoas são pessoas, tá? Orientações, gêneros e sexos biológicos não vêm com um pacotinho de preferências, tendências, aptidões, etc. Isso é só reforçar estereótipos.

- Duvidar da orientação e/ou do gênero da pessoa por qualquer motivo.
Se a pessoa está afirmando que é de tal grupo ou identidade, só podemos dar um voto de confiança e acreditar. Não temos como saber orientação e gênero das pessoas, não temos como entrar na cabeça delas pra "confirmar". E garanto que pessoas não saem por aí afirmando serem de uma classe oprimida sem motivo.

- Falar que algo da comunidade virou "modinha".
Sim, é muita modinha pertencer a uma comunidade discriminada, ter sua existência apagada, sofrer agressão física, ser privade de direitos básicos, etc.

- Não aceitar determinada identidade por ser "desconhecida" ou "confusa" e exigir que a pessoa se identifique com algo mais comum.
As pessoas precisam urgentemente entender que identidades são criadas para descrever experiências. E que nem todes têm experiências que se encaixam em identidades "mais populares". Exigir que aceitem identidades já prontas é apagar a diversidade e um desrespeito imenso com a pessoa.

- Conversar com um homem ou uma mulher já pressupondo que são héteros ("tem namorada?" / "gosta que tipo de homem?").
Muito heteronormativo. Não existe só hétero no mundo. Supere. E não, não venha com as desculpas "a maioria ainda é hétero", "é mais provável que seja hétero", "a pessoa não vai se ofender por ser confundida com hétero", entre outras.

- Negar uma discriminação relatada por alguém ou achar que seu sofrimento é "exagerado" porque conhece uma pessoa que não passou por isso/não é atingida pelo preconceito.
Bom, vou começar admitindo uma coisa: não, nem toda pessoa LGBTQIAP+ do planeta Terra é discriminada todo santo dia e de uma forma violenta. Agora, vamos aos fatos: a) essas pessoas são uma minoria; b) cada pessoa lida com preconceito de formas diferentes e isso deve ser respeitado; c) pessoas discriminadas costumam omitir seu sofrimento ou parecer que nada as ofende para lidarem melhor com a opressão. E essa cartada de "amigue que não sofre preconceito" é uma das várias formas de invalidar opressões existentes. Pare, só pare.

- Perguntar para gays e lésbicas se já se relacionaram com, respectivamente, mulheres e homens para "ter certeza do que são".
Resquício daquela ideia bizarra de que a heterossexualidade é a sexualidade padrão e que o resto só se desvia dela. Por que não fazem a mesma pergunta para héteros?

- Achar que todo homem afeminado é gay e que toda mulher bofinho é lésbica.
Expressão de gênero não tem a ver com orientação sexual. E é muito normativo julgar as pessoas pela expressão delas.

- Afirmar que todo homem acompanhado de um homem gay ou toda mulher acompanhada de uma mulher lésbica são sues parceires/ficantes/namorades.
Sabiam que gays e lésbicas também fazem amizade com pessoas do mesmo gênero?

- Ficar perguntando para as pessoas, principalmente gays, como elas transam.
A vida íntima alheia não é pública!

- Separar gays (cis) em ativos ou passivos, e ainda de acordo com a expressão (masculino, ativo; feminino, passivo).
É tão normativo que nem sei por onde começar, e infelizmente é algo cometido entre gays com frequência. Além de nem considerar versatilidade e gouinage, esse pré-julgamento tem uma base heteronormativa, associando "homem" com "dominância" e "mulher" com "submissão". E esse mesmo princípio faz com que pessoas hétero-cis perguntem para casais de homens e de mulheres "quem é o homem e quem é a mulher da relação".

- Brincar com gays e lésbicas como se elus tivessem repulsa de, respectivamente, vagina/mulheres e pênis/homens.
Orientação sexual não implica em ter repulsa a um gênero e/ou uma corporalidade. E os "nojos" de certas genitálias vindo de gays e lésbicas cis revelam cisnormatividade e diadismo de suas partes.

- Presumir a orientação sexual das pessoas e só pensar nas opções: hétero ou homo.
Existem pessoas que sentem atração por mais de um gênero, tá?

- Perguntar para pessoas bi se elas são "mais homo" ou "mais hétero".
Elas são bi apenas. Parem de usar atração hétero ou homo pra medir bissexualidade!

- Duvidar da existência das atrações fluídas, principalmente a sexual.
Outra forma de contribuir com o monossexismo, como se não fosse possível existir atração por mais de um gênero, mesmo que essa atração seja temporária.

- Dizer que orientações multi são "basicamente bi" ou que "só existe hétero, homo e bi".
A maior opressão aqui é o exorsexismo, pois coloca pessoas não-binárias como homens e mulheres, e que, portanto, só existe atração por dois gêneros (e isso também porque ainda consideram bi como atração apenas por bináries). E apaga uma diversidade de experiências que saem do padrão binário.

- Ficar perguntando para mulheres e homens trans se elus já fizeram cirurgias genitais.
As virilhas alheias não são públicas!

- Dizer para mulheres e homens trans que "nem parecem trans".
Não é elogio. É agressivo, inclusive. É escroto. Coloca ser trans como um tipo de falsificação e que "parecer cis" é o objetivo das pessoas trans.

- Resumir pessoas com pênis a homens e pessoas com vagina a mulheres.
Isso é cisnormativo com homens e mulheres trans que não têm disforia com as genitálias, diadista com pessoas intersexo com genitálias diferentes de pênis e vagina, e exorsexista com todas as pessoas não-binárias.

- Perguntar sobre a genitália de pessoas intersexo.
Novamente, as virilhas alheias não são públicas. Além disso, nem toda intersexualidade tem variações na genitália.

- Perguntar para assexuais se já transaram ou tiveram interesse em sexo.
Isso é claramente a vida privada das pessoas. E mesmo que algumas possam responder tranquilamente, existem assexuais que não gostam nem de falar de sexo. Respeitem!

- Presumir que toda pessoa é alo.
Olha a pessoa e já imagina que ela deve ser alguém sexualmente ativa e/ou procurando o amor da vida dela. Não, nem toda pessoa é assim. Supere.

- Afirmar que "é bom" ser do espectro A porque a pessoa "não sofre por sexo, relacionamentos ou amor".
Pode não aparecer, mas é um pensamento normativo, pois presume que: assexuais não podem transar, arromântiques não se relacionam, e pessoas do espectro não amam por não sentirem atrações sexual e/ou romântica. Amor é um sentimento amplo e não acompanha necessariamente sexualidade e romanticidade. Pessoas A ainda têm sentimentos!

- Achar que viver sem sexo e/ou sem namoro é uma vida infeliz ou incompleta.
A vida é muito mais do que sexo e namoro. Pessoas A podem ser felizes e completas sem nada disso, sem nem ao menos experienciar essas coisas. Pergunte a elas ao invés de usar sua realidade como parâmetro para todes.

- Dizer que não-bináries são "basicamente homens/mulheres" por causa de suas corporalidades e/ou apresentações.
Genitálias e roupas não definem o gênero da pessoa! Não-bináries são basicamente não-bináries. Sempre. A todo momento. Com qualquer corpo e apresentação.

- Duvidar que é possível sentir atração por não-bináries sem encaixar essas pessoas em homem ou mulher.
É um pensamento extremamente exorsexista, pois continua apagando as identidades n-b e reafirma que as pessoas só conseguem enxergar dois gêneros.

- Ditar como pessoas não-binárias devem parecer.
Não, elas não são obrigadas a ter aparência andrógina. Elas não têm que parecer fora da norma, é a norma que tem que deixar de existir.

- Impor que não-bináries usem somente as linguagens o/ele/o ou a/ela/a.
A língua portuguesa foi moldada de uma forma exorsexista, feita apenas para homens e mulheres. E os dois conjuntos foram feitos para esses dois gêneros. Aceitar essa norma é contribuir com a cisnormatividade. Assim como muites transgridem as normas vestindo o que querem e mostrando afeto em público, questionar e desafiar a língua também é válido.

- Falar "todas e todos" como se incluísse todes.
De novo, nem todas as pessoas usam as duas linguagens normalizadas. E a questão não é resolvida dizendo "todas, todos e todes", pois a neolinguagem propõe justamente neutralidade e inclusão totais. Ou você usa só neolinguagem ou usa a língua normativa mesmo.

- Perguntar sobre o sexo biológico de pessoas trans binárias ou não-binárias para "entender" o que elas são.
É muito comum perguntarem isso para assim encaixarem a pessoa como "macho" ou "fêmea" ou confirmar se o corpo é "masculino" ou "feminino". Esse pensamento é cisnormativo e diadista também. E exorsexista, por ainda querer jogar a pessoa em um dos gêneros binários.

- Dizer para pessoas trans binárias ou não-binárias que elas estavam "melhor" sendo do gênero designado.
Elas estão melhor sendo quem são e não estão nesse mundo pra te agradar.



Bora parar de fazer essas coisas? ^-^



17 de mar. de 2018

Política está separando pessoas?

Vocês já devem ter ouvido que estamos todes cada vez mais isolades em nossas bolhas, que não devemos cortar contatos por causa de política, que posicionamento político não define caráter. Estive ouvindo esses discursos de pessoas de todos os lados.

Essa onda toda de polarizações e extremos e supostos radicalismos esteve incomodando muites, e há pessoas em meio a esse caos todo tentando ser mais racionais e promovendo alguma paz.

Por mais que a intenção seja boa - e eu gostaria muito que houvesse mais paz - essas questões são bem mais complexas. E eu vou explicar.

Estamos nos isolando em bolhas? Sim, estamos. As redes sociais e o sistema delas cooperam com isso também. Agora, isolar-se numa bolha é algo produtivo? Bom, a longo prazo, não muito. Conviver só com pessoas com opiniões e pensamentos muito similares ou iguais não nos acrescenta, apenas reafirma o que é sabido e entendido.

Contudo, isso não é aval para exigir que grupos minoritários convivam com gente que lhes ataca, fazendo discursos violentos de ódio, exclusão e discriminação. Se manter distância de gente tóxica e sem caráter é isolar-se numa bolha, pois que assim seja. É muito conveniente pessoas de grupos majoritários exigirem que minorias tenha "tolerância" com opressories.

E por isso há gente encontrando proteção e conforto em bolhas. A curto prazo é bom e necessário isolar-se. Porque há momentos que precisamos preservar nossa saúde mental, e discussões políticas na Internet são cansativas, mais ainda as minorias.

Mas admito que precisamos estar abertes a ideias contrárias, mesmo que possam até atacar nossos direitos (sem a real intenção disso). Conhecer ideias divergentes é essencial para entender como o "outro lado" enxerga as coisas, e assim pode-se formular estratégias para ou mudar o pensamento da outra parte ou mesmo chegar a um denominador comum. E para enfrentar opressories que não desejam o progresso.

Não devemos cortar contatos "só por causa de política"? Discordo totalmente! Ninguém é obrigade a manter relações com gente que apóia ideologias que pregam discriminação e exclusão, que firam os direitos humanos, que proponham retrocessos, enfim. A pessoa é uma amizade de longa data? Alguém da família? Foda-se. Já pensaram em priorizar sua saúde mental ao invés de desperdiçá-la enquanto tenta fingir tolerância com intolerantes?

E com isso já faço gancho com outro pensamento que discordo também: que posicionamento político não define caráter. Define! Define total!

Se a pessoa defende ume polítique cuja fama é centrada em ódio e polêmicas, que só reproduz preconceitos, que não apoia grupos oprimidos, sim, isso diz tudo sobre o caráter dessa pessoa. Recomendo distância. E um pouco de desprezo.

E não, não vem com as desculpas de que tal polítique é a "opção menos pior", ou inventar que "pelo menos é honeste", ou dizer que seus discursos são "distorcidos". Figuras escrotas atraem só gente escrota. Na dúvida confira você mesme; compare a figura e quem a apoia.

Eu sei que no fundo a maior parte das pessoas não quer mesmo brigar por causa de política. Mas isso é pessoal. Não adianta negar. Política está em todo lugar, ela molda nossa sociedade, e vivemos nessa mesma sociedade. E não é ela que está "separando" a população, são as ideologias das pessoas, sejam elas excludentes ou inclusivas.

Poderia existir harmonia entre todos os lados. Só que, infelizmente, no cenário atual isso não é possível considerando que um dos lados "disponíveis" segue um caminho reacionário e fascista. Precisamos escolher nosso lado, não existe imparcialidade aqui. E as pessoas estão fazendo isso muito bem, mesmo que se revelem escrotas.



17 de fev. de 2018

Lista de discriminações

O artigo de hoje será simples. Vou apenas passar essa lista, colocando os termos mais atualizados de acordo com o que já falei sobre as palavras de sufixo -fobia e termos referentes às discriminações não relacionadas com a diversidade sexual e de gênero.

Discriminações contra a comunidade LGBTQIAPN+

Dicisheterossexismo: contra toda a comunidade.
Queermisia: contra a comunidade, ou também contra pessoas queer e a identidade queer.

Discriminações relacionadas à orientação

Heterossexismo: contra heterodissidentes em geral, incluindo todo tipo de atração.
Homomisia: contra homossexuais (muito mais usada para gays).
Lesbomisia: contra lésbicas.
Bimisia: contra pessoas bi.
Panmisia: contra pessoas pan.
Monossexismo: contra pessoas multi e também dos espectros A.
Alossexismo: contra pessoas assexuais e arromânticas e de todos os espectros A.
Acemisia/Amisia: contra pessoas assexuais e do espectro.
Amatonormatividade: contra pessoas arromânticas. Pode também atingir algumas pessoas não-monogâmicas.
Aromisia: contra pessoas arromânticas e do espectro.
Periorientismo: contra pessoas variorientadas.

Discriminações relacionadas a gênero

Sexismo: discriminação com base em gênero.
Misoginia: contra mulheres.
Misoginoir: contra mulheres negras.
Cissexismo: contra pessoas transgêneros/que não são cis.
Transmisia: contra pessoas trans (mais usada para as binárias).
Transmisoginia: contra mulheres trans e pessoas transfemininas (ex: muitas travestis).
Travestimisia: contra travestis.
Enebemisia/Exorsexismo: contra pessoas não-binárias e a não-binariedade.
Exormisoginia: contra pessoas não-binárias que são parcialmente/eventualmente mulher (ou que sentem que misoginia se aplica a elas).
Reducionismo de gênero: exorsexismo que reduz pessoas não-binárias a um dos gêneros binários.
Binarismo: contra todas as pessoas fora do padrão binário imposto, o que inclui pessoas trans/não-binárias, pessoas intersexo, e pessoas com identidades de gênero exclusivas de culturas ameríndias e não-ocidentais.
Fememisia: contra feminilidade.
Mascunormatividade: contra toda expressão que não seja a tradicional masculina; pode também beneficiar outras masculinidades (em qualquer pessoa).

Discriminações relacionadas à corporalidade e saúde

Inter(sexo)misia/Diadismo: contra intersexos.
Gordemisia: contra gordes.
Capacitismo: contra PCDs (pessoas com deficiência, incluindo com neurodivergências).
Psicomisia: contra pessoas neurodivergentes/neuroatípicas.
Soromisia: contra soropositives.

Discriminações relacionadas à raça, etnia e cultura

Nativismo: contra imigrantes.
Etnocentrismo: contra uma cultura ou outro país.
Racismo: contra uma etnia ou raça; atualmente os racismos mais conhecidos são contra raças de origem africana, ameríndia e asiática, sues descendentes e pessoas multirraciais.
Xenomisia: contra estrangeires, seja de outra cidade, outro estado, ou outro país.
Islamomisia: contra muçulmanes e sua doutrina e cultura.
Antissemitismo: contra o povo judeu e sua cultura.

Discriminações relacionadas à classe social

Classismo/Elitismo: contra classes econômicas "menores".
Academicismo: contra pessoas analfabetas ou com pouca escolaridade/conhecimento linguístico.
Aporomisia: contra pobres.
Putemisia: contra profissionais do sexo e a profissão.

Outras discriminações

Etarismo: contra idoses.
Ateomisia: contra ateístas.
Mononormatividade: contra pessoas poliamoristas e não-monogâmicas em geral.



13 de set. de 2017

O que é opressão estrutural?

Demorei um tempo para compreender o conceito de opressão estrutural. Fui lendo e pesquisando sobre o assunto e consegui formular minha própria concepção. Entretanto, percebo que muitas outras pessoas sabem e ao mesmo tempo não sabem o que é.

Em minhas reflexões, acabei pensando numa resposta simples para essa questão. É uma analogia um tanto infantil, mas de fácil entendimento.

Temos uma casinha. Ela foi construída por formas geométricas que são quadradas. A porta de entrada da casinha é, portanto, quadrada. Somente quem é quadrado passa por ela.

A casinha é a sociedade. Quem entra nela tem acesso aos privilégios. Quem não consegue entrar, não acessa os privilégios - fica na exclusão, à margem da sociedade.

A entrada da casinha foi estruturada para apenas uma forma. Logo também é estruturada para impedir a entrada de outras formas.

Isso é uma opressão estrutural. Quando uma sociedade está estruturada para privilegiar um ou mais grupos enquanto ao mesmo tempo exclui outro grupo ou mais.

Por isso pode-se observar que os preconceitos não se limitam a apenas agressões verbais ou físicas vindo de cidadãos comuns ou dos discursos de ódios no cotidiano ou nas redes sociais. O sistema, as instituições, a legislação, a educação, todos esses fatores também praticam as discriminações.

Antes não existia casamento homoafetivo, porque a heteronormatividade estruturou a sociedade para excluir casais homoafetivos. Pessoas negras não têm acesso fácil à educação por causa do racismo estrutural. Muitas lojas de roupa não têm todos os tamanhos de vestimenta para pessoas gordas. E assim por diante.

Espero que o conceito tenha ficado mais claro agora.



6 de jul. de 2017

Sistemas de opressão

Dentro das militâncias sociais esteve se falando muito sobre sistemas de opressão. Quando se fala que um determinado preconceito é estrutural, isso significa que ele se faz presente em todos os setores de uma sociedade, começando do topo - as instituições - até o cotidiano. 

O que origina e mantém os preconceitos são esses sistemas, que funcionam dividindo as pessoas, criando hierarquias entre elas, e sustentando essas diferenciações por diversos motivos, principalmente para ter controle e poder.

Com isso, temos as classes opressoras e as classes oprimidas. Embora pareçam termos um tanto pesados, eles estão dentro de um contexto histórico-social e não representam necessariamente todas as pessoas de determinada classe.

As classes opressoras seguem um ou mais sistemas de opressão, portanto são privilegiadas e são as maiores reprodutoras de um ou mais preconceitos. E as classes oprimidas são aquelas que estão fora de um ou mais sistemas de opressão, consequentemente sendo alvos de discriminação em vários níveis e formas. Como os sistemas são muito influentes e enraizados, as classes oprimidas também podem reproduzir preconceitos, até mesmo aqueles direcionados a elas.

Vou falar de forma resumida sobre os sistemas de opressão da atualidade:

Heteronormatividade/Heterossexismo: impõe o padrão heterossexual, mais especificamente, impõe que as pessoas sejam heterossexuais e aceitem o comportamento hétero como a única sexualidade válida e natural. Esse sistema é muito ligado à cisnormatividade, por isso acaba também impondo papéis de gênero.

Cisnormatividade/Cissexismo: impõe o padrão cisgênero e reforça padrões de aparência e comportamento de gênero. Ou seja, esse sistema determina que as pessoas devam se encaixar no padrão binário homem-mulher, aceitar o gênero imposto no nascimento de acordo com o sexo biológico, e que devem ter expressão de gênero "correta" (homem masculino/mulher feminina).

Diadismo: anormaliza a intersexualidade e exclui ou invisibiliza pessoas intersexo. Está intimamente ligado com a cisnormatividade devido à imposição de gênero baseada na biologia, e por isso bebês intersexo são submetidos às cirurgias genitais obrigatórias.

Monossexismo: impõe que as pessoas são monossexuais, se atraem por apenas um gênero (logo, ou são héteros ou homos), o que deslegitima bissexuais, polissexuais, pansexuais etc. Pode também reforçar o alossexismo e a amatonormatividade.

Alossexismo: determina que o normal do ser humano é ser alossexual, sentir desejo sexual. Age em conjunto com a sexonormatividade, que coloca as relações sexuais como indispensáveis na vida humana.

Amatonormatividade: determina que as pessoas devem sentir atração afetiva (ou romântica), que ela é essencial nas relações e que uma relação amorosa tem valor maior que outras (como amizade).

Obs: monossexismo, alossexismo e amatonormatividade derivam da heteronormatividade.

Exorsexismo: deslegitima todas as pessoas não-binárias, reforçando que as pessoas só podem ser ou homens ou mulheres.
Obs: esse sistema está dentro da cisnormatividade.

Mononormatividade: determina que as relações monogâmicas são as únicas legítimas, rejeitando e estigmatizando qualquer outro modelo de relacionamento. É reforçada pela amatonormatividade e foi criada dentro da heteronormatividade (afinal só foram previstas relações monogâmicas entre um homem e uma mulher).

Nota: referente à comunidade LGBTQIAP+, os sistemas que causam todas as opressões vivenciadas pela diversidade são todos esses listados acima.

Patriarcado: coloca a classe homem como figura dominante e autoritária na sociedade. Trabalha em conjunto com a heterocisnormatividade, beneficiando muito mais os homens hétero-cis de expressão masculina. No entanto, homens de forma geral ainda se beneficiam com esse sistema.

Racismo: é toda opressão construída através de um processo histórico-social onde uma etnia tem dominância sobre outra etnia. O racismo mais comum e evidente é contra pessoas negras e mestiças e/ou descendentes de povos africanos.

Capacitismo: toda discriminação, exclusão e invalidação de pessoas com deficiência (PCDs).

Etarismo: discrimina uma faixa etária, sendo que o etarismo mais comum é contra pessoas idosas.

Elitismo: como vivemos em um mundo capitalista, pessoas de classe média e classe alta podem usufruir do capitalismo e ter ótimas condições de vida. Então além de receberem um status social, o elitismo discrimina pessoas de classe baixa e impede que elas não subam de classe ou faz com que não tenham as mesmas oportunidades que as outras classes.

Todos os sistemas abordados aqui estão presentes no mundo inteiro. Podem trabalhar em conjunto ou até mesmo separados. Por exemplo, embora a heterocisnormatividade oprima LGBTs em geral, a cisnormatividade pode ser praticada por pessoas cisgênero, sejam héteros, homos, bis etc.

Existem também discriminações interseccionais, como lesbofobia (patriarcado+heteronormatividade) e transmisoginia (patriarcado+cisnormatividade). E discriminações que circulam entre os sistemas e têm outras origens (ex: culturais), como xenofobia e sorofobia (preconceito contra pessoas HIV+).

Discutir sobre esses sistemas, questioná-los e trabalhar para sua desconstrução faz parte das lutas de todos os movimentos sociais. Mesmo as lutas sendo protagonizadas pelas classes oprimidas, as classes opressoras também podem fornecer muita ajuda. Todo preconceito deve ser combatido. Não é uma batalha ideológica ou partidária, é uma questão humana.



19 de mar. de 2017

Pensamento do dia

A pessoa me diz: 

- "Não sou eu que estou matando."

Realmente, a pessoa não matou, não agrediu, não ofendeu. Que mal haveria em dizer algo preconceituoso se palavras não batem ou matam?

Infelizmente, o ser humano não funciona assim.

O que ouvimos, lemos, aprendemos desde crianças moldam nossa mentalidade e visão do mundo. O preconceito do sistema é uma semente. Sementes germinam.

Quem agride, quem persegue e quem assassina minorias também, algum dia, fez o mesmo discurso intolerante. A semente germinou até crescer na violência.

Não estou dizendo que você se tornará homicida. Mas sim, seu discurso mata também.

Seu pensamento retrógrado, sua falta de empatia pelo sofrimento alheio, sua teimosia em admitir seu preconceito e suas palavras alimentam a violência.

O que você fala se propaga, pessoas repetem, pessoas quem pesam igual espalham mais. E mais e mais e mais.

Pior ainda é nesse mundo atual; o que falamos para uma pessoa falamos para centenas!

Na sua mente, o discurso fica apenas nas palavras. Na mente alheia, pode gerar algo pior. Intolerância evoluiu para ódio. Violência é a filha do ódio.

Indiretamente, você está matando também.



12 de fev. de 2017

Vamos expor!

Recentemente teve um caso que repercutiu nas redes sociais de um estagiário de uma empresa que fez postagens anti-feministas. Ele publicou duas fotos e nas legendas falou as merdas machistas típicas.

Essas fotos vazaram e em pouco tempo a empresa o demitiu, fazendo uma nota de esclarecimento.

Muita gente aplaudiu o ocorrido (eu, inclusive) e a história parecia ter tido um final feliz, quase uma fábula com uma lição de moral no final. Até eu considerei aquilo uma justiça. O problema é o que veio depois desse "final feliz".

O rapaz está numa nova empresa (que também já gerou polêmicas com feministas) e ganhou fama nas redes sociais por parte de seguidores de ideologias conservadora e fascista. Ops, o tiro saiu pela culatra...

Como explicar esse efeito?

Pode parecer uma excelente estratégia - e justiça - expor pessoas escrotas que estão estagiando ou trabalhando e causar sua demissão. Mas esse caso (e alguns outros) comprovou que isso não funciona como esperamos.

A Internet é vasta e nela há todo tipo de pessoa. As fotos chegaram tanto nos grupos de movimentos sociais quanto nas famosas oposições. E elas fizeram o que militantes e ativistas estão deixando de fazer: uniram-se.

Expusemos uma pessoa espalhando ódio na esperança de que o ódio fosse combatido. Ao invés disso demos voz ao ódio. Permitimos que outras pessoas se unissem ao rapaz para propagarem mais discriminação. Sim, fizemos propaganda para ele. A mesma propaganda que fazemos de outras figuras de ódio, como um certo deputado cujo nome nem pronunciarei.

E convenhamos, se fosse para cada pessoa preconceituosa perder o emprego, então milhares de pessoas deveriam estar na rua agora. Isso é realmente uma boa estratégia? Direito ao trabalho é um direito básico das pessoas. Pensem nisso.

Sim, está na hora de uma mudança na estratégia. Precisamos dar mais visibilidade a todxs que produzem conteúdo progressista e inclusivo, que problematizem e ensinem a desconstrução, que atuem de verdade nas militâncias e ativismos.

Se tiver as opções de compartilhar as palavras de uma pessoa preconceituosa ou um texto que fale sobre preconceito, compartilhem o texto. Mostrem esse tipo de conteúdo. Espalhem. Alguém com certeza lerá e poderá abrir a mente, melhorar.

Militantes e ativistas precisam de visibilidade! E não ódio!

Esse caso me fez perceber que ignorar gente retrógrada é o melhor caminho; deixem elas vomitar ódio para o nada e lutem por um mundo com menos ódio.



13 de ago. de 2016

Comentando uma notícia

As Olimpíadas desse ano estão sendo marcadas pela presença de atletas LGBTs de muitos países, incluindo aqui do Brasil. Pessoas de todo lugar estão vindo visitar o país, e pelo que ouvi falar por aí, os gringos estão fazendo sucesso nos famosos aplicativos gays hahaha.

Entretanto, venho aqui com uma notícia revoltante que até agora está me revirando o estômago. Dessa vez não houve agressão física, xingamento ou morte contra LGBTs. O que ocorreu aqui foi exposição da vida particular de alguns atletas.

Um "jornalista" que trabalha para um jornal londrino foi para a Vila Olímpica, no Rio de Janeiro, usando os tais aplicativos. Lá ele encontrou alguns atletas, conversou com eles e até marcou encontro. Com isso ele fez sua preciosa matéria expondo os atletas, incluindo que esporte faziam e seus países de origem. A matéria teve uma repercussão negativa, depois foi retirada, e o abençoado até se desculpou... ¬¬

Ou esse "jornalista" é muito ignorante sobre direitos gays pelo mundo ou agiu na mais pura maldade. Muitos desses atletas não eram assumidos e alguns vieram de países em que práticas homossexuais são condenadas por lei! Eles correm o risco de terem sua carreira encerrada e inclusive risco de vida! Será que este ser não pensou nessas coisas???

Parece que não existe mais respeito e escrúpulos para se fazer uma matéria no meio jornalístico. É necessário rever essa tal "liberdade de imprensa" aí. Sinceramente, o que ele fez deveria ser considerado crime! No mínimo ele deveria ser demitido e perder permanentemente o direito de exercer a profissão!

E por favor, não me venha com "ah, ele se desculpou e tirou a matéria". A merda já foi feita! Publicou na Internet, esquece, não sai mais dela. As desculpas dele não vão mudar o passado e de nada servirão para os atletas que terão que enfrentar a discriminação em seus países ou nem poderão retornar para eles.

É difícil se assumir, ainda mais no meio esportivo? Sim! Especialmente em países LGBTfóbicos. Pior ainda é ser tirado à força do armário! Fico com muita pena desses atletas; precisam viver suas sexualidades de forma oculta, treinaram para os jogos, viajaram até aqui, e então recebem uma bomba dessas. Horrível!

E não venha também culpando as vítimas por "se exporem nos aplicativos". Eu não vejo aplicativos com bons olhos, mas defendo a liberdade total dos atletas (de qualquer pessoa) de usarem, se encontrarem com alguém, beijarem e transarem e gozarem muito, sem serem expostos dessa maneira, expostos ao mundo todo.

Contudo e apesar de tudo, espero do fundo da alma que esse acontecimento e a representatividade LGBT nas Olimpíadas atentem o mundo inteiro sobre os direitos LGBTs, principalmente aos países que ainda possuem uma conduta anti-LGBT.

Ser LGBT nesse mundo é um desafio diário, e nenhum jogo olímpico se compara a isso.



16 de jul. de 2016

Meu coleguinha da escola

Olá, coleguinha. Nos conhecemos na 7ª série (8º ano). Você caiu na minha sala porque repetiu de ano. Você era a figura mais polêmica da escola.

Você era parente da diretora. E você gritava aos quatro ventos que era gay. Todo mundo ouvia. Havia quem risse, havia quem se irritasse. Havia quem ficava quieto. Era meu caso.

Você, até onde se sabe, era o único gay assumido de lá, o único LGBT declarado.

Naquela época eu desnecessária a sua auto-exposição. Seu jeito afeminado me incomodava. Eu te achava uma típica bicha feia e escandalosa do gueto.

Quando você caiu na minha sala, tive um conflito interno. Uma parte minha se lamentava, pois havia caído justo na minha sala uma pessoa inconveniente. Outra parte se sentia ameaçada, pois agora havia dois gays naquela sala.

Um era assumido. 
O outro era duvidoso, escondido numa máscara de aparente heterossexualidade/ambiguidade.

Tentei ser amigável ao máximo que eu podia. Mas, assim como os demais, eu não te respeitava.

Você merecia respeito! Você merece respeito! Todo mundo merece!

A classe era maldosa, sim. Muito homofóbica. Nunca te xingamos ou te agredimos fisicamente, mas as brincadeiras eram cruéis. Era quase todo dia. Você era nosso "saco de pancada".

Zoávamos, insinuávamos coisas, até o lixo da sala colocamos em sua mochila. Você morava muito longe da escola, e nem isso a gente perdoava,

Eu fui conivente. Eu deixei acontecer. Eu participei. Eu te oprimia para a turma me aceitar. Muitas vezes gostei. Outras vezes eu ficava com culpa depois.

Eu fui um lixo com você!

Hoje, sou diferente. Me assumi, sou militante, não fico quietinho quando falam merda e todo dia trabalho internamente a desconstrução, para garantir que eu não reproduza preconceitos, inclusive a homofobia!

Homofobia dói! Você teve força suficiente para aguentar sozinho essa dor até o último ano da escola. Você dançava e sorria na formatura. Espero que tenha muito sucesso.

Devo ressaltar que não concordo com tuuudo que você fazia (você também errava). Entretanto, defeitos e faltas à parte, você teve uma coragem que demorei mais sete anos para ter.

Se eu pudesse te dizer algo agorinha mesmo, diria: me perdoe por tudo.

Escola... 
Não gosto de lembrar da escola!



22 de jun. de 2016

Doação de sangue por LGBTs

Em mais de 40 países, pessoas LGBTs ou são proibidas de doar sangue ou só podem doar em certas condições. Quase todos os países que permitem a doação exigem como condição 12 meses de abstinência de relação sexual com pessoas do mesmo gênero/sexo. As legislações costumam parecer mais imparciais, colocando como grupos de risco "homem que fazem sexo com homens" (HSH).

No caso do Brasil, a lei fala de HSH e exige que esses homens não devam ter tido relações homoafetivas dentro de 12 meses. Ela é mais específica para homens porque a prática do sexo anal é considerada um fator de risco (DSTs). Socialmente, a relação gay ainda é associada a sexo anal, embora heterossexuais também o pratiquem.

"Ah, então pessoas trans poderiam doar?"
Travestis são consideradas "grupo de risco" pelo mesmo motivo de HSH (além de ainda serem vistas como homens). Pessoas transexuais heterossexuais poderiam doar, porém mulheres trans também ainda são vistas como homens por profissionais da saúde ignorantes no assunto e intolerantes.

As bolsas de sangue, depois de recolhidas, passam por testes antes de serem disponibilizadas. A bolsa de uma pessoa que tenha alguma DST e mentiu sobre isso no relatório pré-doação será descoberta e descartada.

Na imunologia há o conceito de "janela imunológica". Este é um período em que o organismo ainda não identificou um patógeno (vírus, bactéria etc) e ainda não produziu anticorpos contra ele. Defensores da restrição usam isso como argumento principal para impedir homens gays/bis de doarem, visto que a DST não é identificada nessa janela. 

Contudo, há um teste chamado NAT que diminui essa janela e encontra a doença com mais rapidez, através de seu material genético (ao invés de procurar anticorpos). Ainda há motivo para essas restrições?

Não vou negar que o HIV ainda é um risco grande entre a população masculina homoafetiva. A questão vai além disso, bem antes da contaminação. Fatores sociais também influenciam muito no contexto; discriminar e marginalizar esses homens pode afastá-los do conhecimento e informação sobre DSTs. E o preconceito não está apenas na casa, na escola ou nas ruas, está também nos hemocentros. A desinformação por parte de profissionais impede muitas doações.

Viram como educação sobre diversidade e tolerância são determinantes até na própria saúde LGBT e, consequentemente, na saúde da população geral? Quantas bolsas de sangue são descartadas ou nem são coletadas? Quantas vidas poderiam ser salvas? Está na hora do próprio âmbito científico questionar tais atitudes e também do governo rever sobre essas legislações e a desinformação, tanto por profissionais quanto pela população.

É importante sim haver legislações que garantam a segurança e integridade nas doações de sangue. Assim como também é importante começarmos a praticar a tal "igualdade" prevista por lei para todas as pessoas e criarmos legislações verdadeiramente racionais, e não discriminatórias e contraditórias. 

Informação e inclusão social podem salvar pessoas!



21 de mai. de 2016

Vamos boicotar!

Recentemente uma ilustre figura evangélica (tinha que ser, né) expressou sua igualmente ilustre opinião sobre uma marca de roupa, a C&A, ter quebrado os papeis de gênero em seu novo comercial.

E justamente por isso essa figura decidiu promover boicote a tal marca.

Então vamos boicotar toda marca, empresa ou instituição que apoia a diversidade sexual e de gênero? Ok! Nesse caso, vamos ajudar.

Boicote também o Google, o YouTube, o Facebook, a Microsoft e a Apple. 
Nem pense em dirigir carros da Fiat, Chevrolet ou Renault. 
Espero que seu smartphone não seja nenhum do sistema android (Samsung, LG, HTC, Motorola).
Não coma no MacDonald's ou no Burger King (também não são saudáveis hahaha). E nem beba Coca-Cola ou Pepsi (faz bem pra saúde também).
Ah, e não use nada da empresa Unilever, o que inclui Omo, Knorr, Rexona, entre outras centenas de marcas (procure todas certinho depois, faça uma lista para não esquecer).
E se o Brasil estiver colorido demais pro seu gosto, contrate uma linha aérea que não seja a Gol. E faça boa viagem!

Se sobrou alguma marca de computador para usar, desista; os computadores existem graças a um gay e ~pasme~ ateu.

Brincadeiras à parte, boicotar por causa de apoio LGBT é uma babaquice tremenda. Cada vez mais empresas e marcas mostram apoio a causa, então... bem, boa sorte em parar de usar quase tudo que você usa no cotidiano.

O mundo está ficando difícil para quem tem preconceito, né? ^^

E vale lembrar que não devemos exaltar as empresas e marcas pelo apoio. Elas fazem isso mais pelo marketing do que por altruísmo. De qualquer forma é bom para a representatividade LGBT! Está tendo e terá cada vez mais!



9 de jan. de 2016

Conceito: heteronormatividade

Em locais de ativismo LGBT aparece muito este termo. Mas ainda pode haver pessoas que não compreendem ao certo o que significa, mesmo que pela palavra possa se ter uma noção.

Originalmente o termo se refere a ideia de que a heterossexualidade é a sexualidade "correta" e que o mundo inteiro deve segui-la. Consequentemente isso menospreza e apaga as demais sexualidades. Quem defende essa ideia acredita que nosso mundo é feito apenas de macho e fêmea e que só ambos podem se completar.

Às vezes, principalmente entre ativistas LGBTs, esse termo é ampliado para heterocisnormatividade, pois não apenas o padrão heterossexual é defendido como "o correto", mas o padrão cisgênero também. A sociedade quer sempre impor normas de comportamento e papeis sociais para os sexos, e isso é o padrão cisgênero: nasceu do sexo masculino, então é homem, e deve se comportar como homem; o mesmo vale para o sexo feminino.

Sinceramente, eu acho mais correto dizer heterocisnormatividade, visto que não vivemos apenas num mundo moldado por héteros, mas também por pessoas cis. Até mesmo uma mulher transexual e heterossexual que se encaixa nos padrões femininos será discriminada apenas por sua condição de trans.

Dentro do ativismo também se ouve falar de gays hetero(cis)normativos. Quem seriam eles? São exatamente aqueles homens gays que se encaixam nos padrões masculinos determinados pela sociedade, que acreditam que seguir o padrão é o correto, e, com isso, acabam discriminando outros gays que não seguem o padrão, principalmente os afeminados.

A crença de que num casal de homens ou de mulheres deve haver sempre "um homem e uma mulher" também é uma ideia heteronormativa. E essa ideia ainda é presente na mentalidade tanto de pessoas hétero-cis quanto pessoas LGBTs.

Lutar contra a hetero(cis)normatividade não é lutar contra a heterossexualidade e a cisgeneridade. Até porque pensar que existe um movimento de minorias lutando contra uma maioria que sempre existiu e sempre existirá é, no mínimo, um grande delírio.

O ativismo luta contra a ideia de que ser hétero-cis é o correto para todas as pessoas. Todas as pessoas devem ser livres para serem o que devem ser. Quem se sente confortável com padrões, tudo bem, siga-os. E quem não se sente, liberte-se e seja quem você é.



16 de mai. de 2015

A censura de alguns games

A censura é uma barreira para o conteúdo considerado ofensivo para um Estado. Embora os jogos listados aqui sejam de épocas diferentes (não muito distantes, mas diferentes), nota-se, além dos preconceitos típicos da "era moderna", certa hipocrisia. Será que algumas censuras não foram injustas e sem lógica quando analisamos os jogos em questão, mesmo para suas respectivas épocas?

Só para esclarecer, não vou discutir sobre games banidos. Posso falar disso em outro post futuro.

Vou começar por uma série de survival horror que gostei muito no passado: Resident Evil.

No primeiro jogo lançado da franquia, a cena (fodasticamente terrível) do primeiro zumbi gerou polêmica. Na versão original, o zumbi comia (literalmente!) um cara e, antes de ele mostrar sua face, a cabeça da vítima caía no chão e revelava metade do rosto comido. Esse detalhe da cabeça foi censurado em outras versões. O pessoal achava violento demais...



E vem cá: onde Resident Evil não é violento? Você mata zumbis canibais, explode a cabeça deles, mata criaturas e monstros (incluindo cachorros, tubarões, plantas gigantes etc), vê cenas horríveis de morte, o jogo apresenta sustos e ambientes de tensão, você fica pasmo com a brutalidade da cena do Tyrant atravessando as garras no Wesker... Mas não, não podemos ver uma cabeça meio comida. Traumatizante demais, né?

Outras censuras foram relacionadas ao sangue e a violência das cenas de morte dos personagens, tanto em RE 1 quanto em RE 2. Cai exatamente nessa mesma linha de raciocínio.

Outro caso (ainda mais hipócrita) foi a censura de duas cenas: uma apresentava os personagens de RE 1 usando atores reais e outra era o Bad Ending do Chris. Nessas cenas, originalmente, o ator do Chris acendia um cigarro (fazendo aquela pose sexy de bad boy *---*). As demais versões cortaram essa parte.



Vamos entender a lógica: num jogo de terror com zumbis, matança, morte, sangue, tiroteio, monstros e etc, um cara fumando um cigarro é mais ofensivo. Tá serto!

No clássico The Legend of Zelda: Ocarina of Time, originalmente Ganon cuspia sangue quando derrotado na primeira batalha; isso no Nintendo 64 NTSC-U/J versão 1.0 e 1.1. Nas versões seguintes, NTSC-U/J 1.2 e PAL, e no GameCube, a cor vermelha foi substituída por verde. E pronto! Disfarçaram a violência! ¬¬


Claro, né! A história conta sobre um menino, que nem chegou na puberdade, sendo colocado numa missão árdua de salvar o mundo, que mata inimigos diversos com uma espadinha, alguns inimigos (aranhas, Stalfos) se despedaçam quando morrem, com até uma princesa-peixe que exige casamento dele (Princesa Ruto), com aparição de zumbis e cenários tenebrosos (cemitério, poço, Templo da Sombra; principalmente esse templo!). Mas não, ofensivo é mostrar um pouco de sangue no final, na luta contra o chefão...

Ainda na mesma franquia, Majora's Mask, um dos capítulos mais "tenebrosos" da série, teve uma censura que supostamente relacionada a racismo. O personagem Skull Kid, na versão original do Japão, tem a cor da cabeça mais escura. Nas demais versões (essa eu tenho), sua cor é mais clara.



Há indícios de que isso tenha sido feito para evitar acusações de racismo. Eu, particularmente, não acharia racista manterem a cor mais escura do Skull Kid. Nem consigo enxergar algum racismo nisso. Porém, não é por que eu não vejo racismo que ele não possa existir. Vale lembrar que eu, por ser branco, posso não ter uma visão ampla. O mais apropriado seria perguntar a gamers negrxs o que elxs pensam sobre isso.

Meu amado Perfect Dark do Nintendo 64, também foi alvo de censura de sangue. A versão japonesa corta o sangue e faz os cadáveres dos inimigos desapareceram rapidamente. Nas demais versões (por sorte, eu tenho uma delas :D), o sangue é presente (bem presente!) e os cadáveres demoram mais tempo para sumir. Faz realmente alguma diferença eu atirar na cabeça de um inimigo, ele cair no chão, e sair ou não sair sangue? O ato de matar é menos pior do que sangue? Cadê a lógica?



Outro jogo de sucesso, Shenmue 2, apresentava Yuan, uma personagem travesti. Na versão japonesa, Yuan tinha uma voz masculina, e Dou Niu (um antagonista) diz que Yuan é "seu namorado". Mas a empresa Sega da Europa achou isso "inadequado" e colocou Yuan com voz feminina, e qualquer menção de seu "gênero masculino" foi retirada.



Há certa ignorância e um grande preconceito vindo tanto dos japoneses quanto dos europeus. Se Yuan é uma travesti, seu gênero é feminino. Sua identidade deve ser respeitada. E a sede europeia da Sega teve uma atitude muito transfóbica. Ah, pelamor! Ver uma mulher com voz masculina é tão ameaçador? Engraçado que nem os personagens do jogo fazem comentários transfóbicos (tirando aquela frase do Dou Niu). Se eles não fazem, então por que os jogadores deveriam?

Paper Mario: The Thousand-Year Door, também teve um caso de transfobia. A personagem Vivian, uma bruxinha feita de sombra, é declarada nas versões japonesa e algumas europeias (espanhola, francesa) como uma mulher trans. Embora alguns personagens afirmem (preconceituosamente) que ela é "na verdade" homem, Vivian se impõe e no final consegue que suas duas irmãs reconheçam sua identidade. Na versão americana do jogo, qualquer referência a transexualidade é retirada.



Visto que o jogo é mais moderno, vemos que a Europa até que melhorou. Mas os Estados Unidos mostraram-se transfóbicos. Não importa que seja um jogo mais infantil. Nenhuma criança ou adolescente vai sofrer um colapso ao descobrir que existem pessoas trans. Até quando as pessoas vão tentar esconder a diversidade? E só para constar, Vivian sempre foi e sempre será uma das minhas favoritas.

Descobri sobre a transexualidade anos depois, e mesmo ainda ignorante não tive problema em aceitar a personagem como ela é. Viu? Mente de criança consegue aceitar novas coisas. Ainda mais quando não é contaminada com preconceitos. ^^

O polêmico South Park: The Stick of Truth, baseado na polêmica série South Park, foi alvo de censura na Europa e Austrália por conter sondas anais alienígenas e uma cena de aborto. Ok... todo resto é permitido então, incluindo as piadas racistas de Cartman e uma cena de sexo explícita? Não faz muito sentido. Além disso, o jogo herda o humor negro presente na série, e entramos na discussão controversa sobre os limites do humor (não estou julgando o jogo e a série de forma alguma).






Censura é e sempre será um assunto polêmico e controverso, que pode variar de país em país, região em região. Embora tenhamos que respeitar as legislações de certos lugares, acredito que se for para censurar algo que ao menos tenha uma lógica. O objetivo aqui não foi mudar as leis da censura mundialmente, e sim apontar se há uma lógica nesses exemplos. 

Eu penso assim: se um jogo tem conteúdo racista e homofóbico, não foi aprovado, e só a parte homofóbica foi retirada, também deveriam tirar a parte racista. Censuras seletivas e baseadas em preconceitos só refletem dois dos maiores maus da humanidade: ignorância e hipocrisia. O mundo dos games não é tão diferente da realidade...



25 de abr. de 2015

Analisando um vídeo (anime)

Uma vez eu estava navegando pela net, quando acabei encontrando esse vídeo do anime Yu Yu Hakusho. Fiquei espantado com o show de preconceitos e ignorância que vi e ouvi. Decidi então colocar o vídeo em questão aqui e analisar cada besteira proferida pelos personagens Yusuke e Kuwabara.


Vamos começar?

- 0:55: "Mas antes eu preciso verificar uma coisinha"
E então, sem o consentimento de Miyuki, Yusuke "verifica" se os peitos dela são ou não de verdade. E depois é revelado que ele também tocou em sua genitália.

- 2:44: "É uma covardia você atacar uma mulher, Yusuke"
Fala isso para uma boxeadora. Essa mulher é uma lutadora, e ela aceitou lutar contra homens. Para de subestimar a mulher como se ela não fosse capaz de lutar.

- 3:16: "Se eu tivesse certeza de que era uma mulher, é claro que eu teria maneirado. Por isso eu me certifiquei"
Assediou a personagem para "confirmar" seu sexo biológico (o qual ele confundiu com gênero). Transfobia clara e explícita.

- 3:23: "Não é uma mulher, é um homem"
Nossa, essa doeu na alma... O corpo de Miyuki definiu sua identidade. Não importa a identidade dela. E a transfobia continua.

- 3:29: "Ah, então quer dizer que é uma drag queen"
Não. Drag queen é um homem que se veste de mulher por motivos artísticos, para apresentações, por exemplo. Miyuki é uma transexual; se veste de mulher porque se identifica e é mulher!

- 3:41: "Mas aí quando eu apalpei mais embaixo, ah meu filho, o negócio ficou esquisito. Aí eu descobri, tive certeza, sabe?
Quer dizer, tocou nela sem seu consentimento, expôs ela ao ridículo (como se ela fosse algo ridículo, o que ela não é!), e vem com esse comentário babaca. 
E daí que ela tem pênis? Mulher não pode ter pênis? Ter um pênis não a torna menos mulher. E se ela está satisfeita de ter esse órgão, ninguém tem nada a ver com isso, é um direito dela, o corpo é dela, a identidade é dela.

- 3:55: "Eu não sei se admiro você ou se eu me espanto"
Mano... que babaca... Assédio e invasão de privacidade viraram dignos de admiração. 
"Ah, ele quis dizer que o Yusuke fez aquilo tudo muito rápido." 
Foda-se! Continua sendo desrespeito!

- 4:11: "Se você é um homem, aja como homem"
Ai, que sono... "Se você é omi, seje omi". É tanto machismo, cissexismo e cisnormatividade que eu queria estar super mortA.

- 4:18: "E se o seu coração é de mulher mesmo, trate de se tornar uma mulher por inteira. Você está ouvindo???"
De repente, por um segundo, aparentou aceitar a identidade. Mas logo em seguida voltou com o cissexismo e a cisnormatividade (se ela quer ser mulher, tem que ter vagina). Sem contar a diarreia sexista de regras, tentando mandar em como a mulher deve ser.

E depois disso, com Miyuki inconsciente, Kuwabara ainda tenta invadir seu espaço, querendo confirmar por si mesmo que ela era "homem". Nenhum respeito por Miyuki, pela identidade dela e pelo corpo dela. Ela é um objeto de fascinação.

O estranho foi ela mesma por um momento afirmar que era "homem". Talvez ela se referisse ao sexo biológico, não ao gênero. Afinal, logo em seguida ela reafirma sua identidade (que o coração e a voz são de mulher). E no fim, antes de desmaiar, ela acaba se rendendo à opressão de Yusuke... Triste.



Em 4 minutos e 45 segundos de vídeo nós presenciamos: transfobia, machismo, cissexismo e cisnormatividade.

Sim, eu sei que é um anime de 1992. Apenas mostrei o vídeo como um ótimo exemplo de quantos preconceitos podemos encontrar numa cena. Essa cena, na época, poderia não causar tanto espanto (pois muitas pessoas concordariam com os "pensamentos" de Yusuke). Mas, felizmente, atualmente podemos assistir essas cenas e mostrar o verdadeiro repúdio que elas merecem.

Espero que os animes melhorem cada vez mais, sem estimular a opressão.



22 de abr. de 2015

Homofobia ≠ Lesbofobia

Alguns (tipo eu) podem ter se perguntado:

"Por que inventaram esse termo, lesbofobia? Homofobia se aplica aos dois gêneros."

Lesbofobia não deixa de ser uma homofobia. Mas o que a torna diferente, exclusiva? Bom, começa com o fato de que ela é direcionada às mulheres. Preciso dizer mais? Ok, vamos dissertar.

Não é novidade de que a classe mulher é alvo do machismo, a ideologia fundada pela nossa querida sociedade patriarcal que objetifica, inferioriza e menospreza a mulher. Portanto, e consequentemente, as violências cometidas contra homens gays e contra mulheres lésbicas são bem diferentes.

Lésbicas são um tabu na sociedade; ainda não possuem a visibilidade que necessita. E a invisibilidade é causada tanto pelos preconceitos da população quanto pelo próprio movimento LGBT, que é mais representado por homens gays. Quando alguém fala 'LGBT' para você, você pensa imediatamente no quê? Em gays ou lésbicas (ou bissexuais e transgêneros)? 

Contudo, apesar invisibilidade, lésbicas são as estrelas principais do maior fetiche de homens héteros (até mesmo daqueles que se dizem 'contra o homossexualISMO'). Muitos héteros fantasiam com duas ou mais mulheres se pegando na frente deles, e com eles participando. E a partir daí temos aquele babaca sem noção que chega num casal lésbico e pergunta "posso participar?". E também devido a isso observamos a hipersexualização das lésbicas (ou do comportamento lésbico) em sites de pornografia hétero ou até mesmo nas mídias.

"Ah, já que lésbicas são 'adoradas' pelos héteros, elas deviam ser mais aceitas do que os gays, né?"
Ha ha ha, sua ingenuidade me comove.

Existe uma imensa diferença entre o fetiche do hétero e o prazer lésbico. O homem aceita aquela relação entre mulheres enquanto elas estão ali unicamente para realizar sua fantasia (se elas estão gostando ou não, não importa realmente). Mas no momento em que as lésbicas mandam o idiota se fuder e se relacionam unicamente para o prazer delas, o homem fica puto e dá chilique. Não há só machismo extremo nisso, há muita hipocrisia também.

O maior diferencial aqui é justamente o gênero feminino. O ato de estupro é predominante contra a classe mulher. Existe "estupro corretivo" para homens? Não. Quando tentam "curar" um gay, ou usam métodos subjetivos (como exorcismos) ou aplicam tratamentos que visam estimular o gosto pela mulher/vagina (sei que não são sinônimos, mas a sociedade ainda pensa que são). Já a mulher... vish, a mulher lésbica... até mesmo o estupro contra ela é diferente, pois há a intenção doentia de curá-la.

Ainda existe o pensamento de que há mulheres que são lésbicas por "não acharem o homem certo" ou ainda por terem sido muito rejeitadas ou decepcionadas. E pior ainda é vermos a harmonia conjugal de lésbicas sendo questionada porque a relação sexual delas não tem a presença do pênis...

Percebam que existe um pensamento falocêntrico na sociedade de que o pênis é um órgão divino; somente ele produz milagres e traz a felicidade que todxs precisam. Ele cura lésbicas e somente ele pode proporcionar prazer a todas as mulheres (e talvez as demais pessoas).

Além de tudo isso, como li num artigo, a lesbofobia também pode ser o medo que uma mulher tem de amar outra mulher, o medo da rejeição e da hostilidade por ela não estar seguindo os "padrões" da sociedade.

Embora o machismo promova ódio e desprezo contra a feminilidade, mulheres lésbicas de expressão mais masculina também não escapam da lesbofobia, e sofrem tanto quanto as mulheres mais femininas por também não seguirem os padrões heteronormativos da sociedade.

Espero que a razão desse termo tenha sido explicada e seja compreendida.

Assim como a transfobia e a bifobia possuem alvos específicos, a lesbofobia também possui um alvo específico. Considerá-la igual a homofobia é desconsiderar as lutas e os sofrimentos das mulheres lésbicas, que sofrem a opressão por serem mulheres e por serem lésbicas. E uma mulher lésbica negra? Vish, pior ainda, pois além das duas opressões citadas, também sofre racismo.



E um último adendo: movimento LGBT, vocês precisam dar (MUITO) mais voz às lésbicas!



7 de fev. de 2015

Preconceito em potencial

"Eu não tenho preconceito". Frase usada por muitas pessoas.

Na grande maioria das vezes não é verdade. Se bem que, no fundo, todxs nós somos preconceituosxs, por mais mínimo que seja. Acho que quando chegamos nesse mínimo podemos dizer essa frase sem receio. Eliminar um preconceito é algo difícil, um trabalho interno que requer tempo e mente aberta.

Mas vamos a outra perspectiva. Já parou para pensar no seu "preconceito em potencial"? Talvez você nunca tenha ouvidx falar nisso, ou ao menos ter pensadx nisso.

Primeiro de tudo quero ressaltar que ninguém tem culpa por isso. Vivemos numa sociedade muito preconceituosa que molda nossas mentes com intolerância e com a prepotência de que existe um conjunto de regras sobre o que é certo e errado. Isso é feito desde nosso nascimento.

Somos criadxs dentro de um poço escuro repleto de ideologias que condenam pessoas fora de um "padrão" e que ditam para nós como devemos ser. Nem sei se posso chama-las de ideologias, mas não deixam de ser ideias, apesar de preconceituosas. Quando abrimos a mente, vemos um foco de luz nesse poço. E quanto mais a abrimos, maior é a luz. (poético, não?)

Dito isso, e sinto informar, todxs estamos "contaminados" desde sempre. Principalmente a maior parte da população, que pertence a um "padrão". Esse "padrão" inclui a heterossexualidade,  a cissexualidade, a cor branca, entre outros.

Refletir sobre as facilidades da vida de maioria e sobre as dificuldades da vida de minorias é um exercício que precisa de uma boa vontade da pessoa.

O que quero dizer com isso? Bom, vamos a um exemplo simples: pessoas heterossexuais podem ser homofóbicos em potencial. Não são porque querem, mas o preconceito está enraizado. Elas, como pertencem a maioria, vivem uma vida plena de privilégios. E muitas vezes não conseguem enxergar que pessoas homossexuais não possuem os mesmos direitos que elas.

E aí está o medo: se refletirem e chegarem nessa conclusão, terão que largar o preconceito. Livrar-se da ignorância é um desafio, pois ela é uma zona de conforto. Especialmente para a maioria.

"Em potencial" não quer necessariamente que uma pessoa vai reproduzir determinado preconceito. Mas como dito anteriormente, vivemos numa sociedade que, desde nosso nascimento, nos implantam o preconceito. Logo, todxs estamos "contaminados".

Minorias estão excluídas disso? Claro que não! Todxs nós temos algum preconceito. E cabe a todxs nós refletirmos sobre nosso(s) preconceito(s) em potencial. Ninguém foge disso.

Vou me usar como exemplo. Vou listar seis características minhas.

1- Sou homem; meu sexo e gênero são masculinos. Logo, sou um machista em potencial. 
Nota: o que torna esse o pior dos preconceitos é tanto ser muito forte (pois está enraizado na Humanidade) quanto abrir porta para outros preconceitos.
2- Nem preciso falar, mas sou cisgênero. Logo, sou um transfóbico* em potencial. Além disso, também sou um binarista em potencial (pois posso desconsiderar pessoas não binárias).
3- Sou branco. Logo, sou um racista em potencial.
4- Sou magro. Logo, sou um gordofóbico em potencial.
5- Não tenho deficiências. Logo, sou um capacitista em potencial.
6- Em relação a meu corpo, sou diádico (minha genitália é a dita masculina). Logo, sou um diadista em potencial (pois posso desconsiderar pessoas intersexuais).
7- Sou homossexual.

Minha única característica de minoria é minha sexualidade. Se for parar para pensar, posso ser muito mais opressor do que oprimido. Doideira, não? Não, não é.

Isso significa que eu, apenas pela homossexualidade, não poderia ter um preconceito? Normalmente minorias não desenvolvem um preconceito (então "heterofobia", "racismo inverso" etc não existem, ok?).

Mas esse não é o caso. Já discuti isso em outros dois artigos. Embora eu seja minoria, eu sou um bifóbico em potencial. Por quê? Bem, não sei explicar ao certo, mas heterossexuais e homossexuais tendem a pensar que não existe uma sexualidade entre esses extremos. Negar a bissexualidade é negar a diversidade humana. Grave para héteros, e ainda mais grave para homos (afinal são quem deveriam ter mais empatia).

Outras coisas que eu poderia citar são minha posição social e minha crença particular. Sou de classe média (média baixa XD), então posso ser elitista. Sou de uma doutrina, então posso ser ateofóbico.

Vou mais além: combinando minhas condições de gênero, sexo e sexualidade, posso também ser um "panfóbico" em potencial. Posso até mesmo ter preconceito contra assexuais, ter "afobia". (ainda não existem termos definidos para essas fobias)

Imagine a dimensão que essa reflexão pode chegar! Confesso que é amedrontador você fazer isso e perceber que é muito mais preconceituoso do que imagina. Toda sua vida desaba, pois ela é construída de preconceitos. Por isso eu disse que a ignorância é uma zona de conforto. 

E você aí do outro lado, já refletiu sobre isso? Que tipo de preconceito em potencial você tem, e se você está atentx suficiente para não praticá-lo?

Acho que nunca estamos 100% livres desses preconceitos em potenciais. Contudo isso não é desculpa para não lutarmos internamente e também externamente contra eles. ^^

Fica aí um ótimo exercício para ampliar sua visão do mundo. Apenas esteja preparadx para encontrar milhares de coisas erradas em sua vida e determinadx a admitir o erro e mudar, mudar para melhor.

*Obs: transfobia se refere à transgêneros (travestis e transexuais).


Segue abaixo um vídeo excelente do Canal das Bee sobre o tema.




Beijo na alma de todxs!!!