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31 de dez. de 2018

Minhas descobertas do ano

2018 foi um ano de renovação. Sim, isso é bem clichê. Muita gente fala isso. Mas eu posso afirmar que me renovei desde ano passado.

Comparando meu eu do ano passado com o de agora tem diferenças gritantes.

Foi tudo um processo em sequência: não-binariedade, multissexualidade e poliamor. Não preciso explicar isso para quem acompanha os conteúdos daqui. Porém ressalto que meu processo diz respeito apenas a mim e que minhas vivências não são tudo parte da mesma salada.

Primeiro, após ter muito contato com pessoas não-binárias e fazer autorreflexão, percebi que eu estava fora do binário de gênero. Após isso, fui percebendo também que muitas pessoas fora do binário também me atraiam por isso, que a não-binariedade poderia ser atraente e que é uma atração possível. E, por fim, eu percebi logo que eu poderia e tenho capacidade de me relacionar com várias pessoas ao mesmo tempo.

Posso dizer que uma coisa foi puxando a outra. Logo me senti mais deslocade dos grupos que eu achava fazer parte, em especial o segmento G.

Tive uma leve crise de identidade com a descoberta da multissexualidade. Acabei escolhendo a identidade polissexual. E posso dizer que sua visão das coisas muda quando você muda de identidade e de segmento.

Com toda essa questão do gênero também decidi adotar neolinguagem para mim. Adotei o conjunto -/elu/e. Aceito também -/éle/e e -/elz/e. Só suporto o/ele/o como auxiliar. Esteve sendo uma experiência interessante e estressante.

E mesmo gostando da minha identidade de gênero atual, fiz várias descobertas sobre meu gênero. E talvez eu faça mais outras.

Eu, num sentido apenas político, me identifico como queer. Sou pessoa queer enquanto homem não-binárie, não-conformista de linguagem, polissexual, transexpressive, poliamorista, e fetichista. Amo a identidade queer e pretendo trazer mais uma cultura queer para cá.

É incrível como mudamos em questão de meses. Se eu pudesse voltar no tempo, encontrar meu eu de dezembro de 2017 e dizer tudo que sou agora, ele provavelmente daria uma risada alta (algo que dificilmente faço).

Somos uma metamorfose ambulante, estamos sempre aprendendo, crescendo, mudando. Por isso finalizo dizendo que não tenham medo de mudar de identidade, de se descobrir e redescobrir. Faz parte da vida. Identidades não devem ser absolutas.

Que venha 2019!



8 de out. de 2018

Terminologias para relações

É comum chamarmos relações de hétero, gay ou lésbica. Basta ver um casal, identificar as pessoas como um homem e uma mulher, ou dois homens, ou duas mulheres, e pronto, o casal está devidamente classificado. 

Primeiro de tudo, uma relação em si não tem orientação, e sim as pessoas envolvidas nela. Segundo, usar esses três termos - que são atrações mono - é excludente com pessoas multi e até a-espectrais. E terceiro, os termos muitas vezes não contemplam pessoas não-binárias (embora algumas possam acessar e usem as identidades gay e lésbica).

Considerando tudo isso, foram cunhados termos mais inclusivos que dependem principal ou exclusivamente dos gêneros envolvidos.

Eu já comentei nesse artigo quatro desses termos, por isso vou apenas repassá-los aqui de forma muito resumida.

Aquileana: relação entre homens.

Sáfica: relação entre mulheres.

Diamórica: relação entre não-bináries e bináries ou apenas não-bináries.

Enebeana: relação entre não-bináries.

Dórica/Quadrisiana: relação entre ume não-binárie e um homem. Define a atração de ume não-binárie por um homem.

(Bandeira dórica)

Trízica/Orbisiana: relação entre ume não-binárie e uma mulher. Define a atração de ume não-binárie por uma mulher.

(Bandeira trízica)

Duárica: relação entre mulher e homem. O termo inclui héteros, mas foi pensado com foco nas pessoas binárias multi e a-espectrais que se relacionam com o outro gênero binário. Também descreve atração entre pessoas binárias, seja exclusiva ou não.

(Bandeira duárica)

Ultramórica: relação entre mulher e homem heterodissidentes. Ou seja, pessoas binárias que se atraem pelo outro gênero binário, mas sem serem (estritamente) hétero. Um casal duárico onde uma ou ambas as partes são heterodissidentes é ultramórico.

(Bandeira ultramórica)

*Obs: ainda não há termos específicos para relações envolvendo mais de duas pessoas binárias.

Lembrando que pessoas com a mesma orientação podem definir a relação com base nela. Ou seja, um casal de homens gays pode se dizer um casal gay, não obrigatoriamente casal aquileano.

Os termos estão aí para quem quiser. No entanto, insisto sobre começarmos a adotar essas linguagens mais inclusivas, pois são úteis e podem trazer mais união entre os segmentos.



30 de jun. de 2018

É tudo sobre amor?

Quando vejo as massas e muites ativistas se pronunciando a favor da comunidade LGBTQIAPN+, é bastante comum discursos que giram em torno de amor e afeto entre dois homens ou duas mulheres. Discursos válidos? Claro! Mas... já saturaram.

Se toda a opressão da comunidade inteira fosse apenas um sistema que não quer deixar dois homens ou duas mulheres se amarem, nossa causa seria muito mais fácil.

Tenho uma visão diferente sobre esse tópico em específico. Não acho que a oposição queira impedir homens e mulheres de "se amar". Dois homens e duas mulheres podem se amar à vontade. Não há como proibir um sentimento, algo abstrato e incontrolável.

O que a oposição deseja é que o sistema não reconheça social e legalmente casais do mesmo gênero. Isso é uma briga política, um jogo de poderes, não uma novela mexicana onde famílias fazem de tudo pra impedir o relacionamento de duas pessoas.

Sim, não vou negar que não permitir casamento ou demonstração de afeto em público são ataques aes sentimentos e liberdades dos casais. Mas isso tudo faz parte de um grande mecanismo opressivo que quer invisibilizar esse tipo de afeto, ou ao menos escondê-lo da sociedade. E a motivação disso é apenas preservar a dominância da heterossexualidade.

E afinal, esse discurso todo de amor "entre iguais" contempla o resto da comunidade?

Primeiramente, temos que admitir um grande fato sobre toda essa ladainha melosa sobre amor, amor e amor: ela é muito amatonormativa. Vou explicar o motivo.

A arromanticidade ainda é vista como uma anomalia devido a toda essa imposição de que todas as pessoas devem amar, devem se apaixonar, namorar, ou devem ao menos ter vínculos de natureza afetivo-sexual com ume ou mais outres ao longo da vida. Falar o tempo todo de casais não ajuda em nada esse segmento.

O discurso do amor pode sim ser aplicável à maioria des heterodissidentes, mas os segmentos T, I, A e N estão brigando por muito mais. Aliás, galera, transgeneridade e intersexualidade não têm nada a ver com amor, tá? E pessoas arromânticas enfrentam justamente a amatonormatividade que acaba sendo espalhada nesses discursos tão romantizados. E ainda estou esperando lembrarem dos casais diamóricos também.

Vale lembrar que muites heterodissidentes estão lutando mais pelo direito de: transar livremente com quem quiser, garantir sua integridade física, e ter sue orientação/gênero/corporalidade validade do que pela mera oportunidade de amar quem quer.

Podem falar de amor? Claro que podem. Só não fiquem limitando todos os problemas da comunidade a casais aquileanos ou sáficos "lutando para se amar". Os discursos precisam ser mais amplos. E mais politizados também, porque se agarrar à emoções definitivamente não funciona com a forte oposição existente no Congresso.



27 de ago. de 2017

Tipos de atrações

Muito se fala sobre atração sexual. Mais recentemente a atração afetiva, até então colocada junto com a sexual, começou a ser discutida.

As comunidades assexual e arromântica, dentro de sua diversidade de vivências e experiências, nos trouxeram uma luz sobre os diferentes tipos de atração que o ser humano pode sentir. Segue abaixo essas atrações:



Sexual: o desejo sexual, a vontade de ter relações sexuais com a pessoa. Pode ser uma atração rápida baseada em características perceptíveis (o corpo, a genitália etc) ou pode ser desenvolvida com o tempo, de acordo com a convivência e conexão emocional.

Romântica: o sentimento romântico, a vontade de namorar, ter uma relação amorosa com a pessoa. Também pode ser imediata ou desenvolvida. Na maioria das pessoas é igual à atração sexual, mas pode ser diferente.

Estética: admirar a aparência física de alguém, achar a pessoa bonita, mas sem querer namorar e/ou transar.

Sensual: é a vontade de ter contato físico, sendo esse contato carinhoso (abraços, beijos, toques), mas sem ser sexual.

Platônica: querer uma amizade profunda, com uma conexão emocional mais intensa que as amizades comuns, mas sem um envolvimento romântico. Pessoas arromânticas tendem a desenvolver uma relação chamada "queerplatônica" que se encaixa nessa categoria.

Alternativa: ter vontade de uma aproximação emocional ou familiaridade forte, geralmente descrita como uma atração entre a romântica e a platônica.

Intelectual: quando o interesse é despertado pelo intelecto da pessoa, por seus conhecimentos e capacidades cognitivas. Com isso vem o desejo de interagir intelectualmente com a pessoa.

Emocional: voltada à personalidade da pessoa, gerando o desejo de conhecê-la. Geralmente antecede relações amorosas e sexuais.



Existem várias formas de uma pessoa atrair-se por outra(s) pessoa(s). Todas estão dentro de nós e podemos experimentá-las ao longo da vida, mesmo sem perceber. E você, já experimentou todas?



18 de fev. de 2017

Quem está fora da sigla LGBT?

Quem pesquisou a respeito do movimento e sobre toda diversidade existente deve ter se perguntado: por que a sigla é só "LGBT"? Afinal não existem só gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.

Quando nos referimos a pessoas LGBTs, não falamos apenas das classes da sigla, e sim de toda diversidade de sexualidade, gênero, sexo e afetividade que existe fora do padrão conhecido heterossexual-cisgênero-diádico-monogâmico.

As classes presentes na sigla são aquelas com movimentos político-sociais organizados e reconhecidos em escala mundial (apesar de muita gente nem conhecer a sigla ou o movimento). Faz pouco tempo que queers começaram a ser incluídxs por muitos grupos. Outras classes que estiveram recebendo atenção são intersexuais e assexuais.

Assexuais, assim como pansexuais, estão no processo de conquistar seus espaços, tanto dentro quanto fora do próprio movimento. Assexualidade esteve sendo mais abordada bem recentemente, enquanto pansexualidade é mais debochada do que ignorada. As demais identidades sexuais - grissexual, polissexual, escoliossexual - ainda não se manifestam no sentido político.

Se tratando de gênero, pessoas de gêneros não binários também estão lutando por visibilidade. Infelizmente, a transfobia ainda é muito presente pelas pessoas cisgênero em geral. O que ainda dá alguma esperança é que gênero é um dos maiores assuntos desse século.

Pessoas intersexuais conseguiram alguma atenção do público geral, embora ainda haja tanto ignorância quanto preconceito com elas. A comunidade LGBT lhes oferece uma segurança relativa, porém suas maiores pautas precisam ser debatidas, como a luta contra a patologização da medicina sobre seus corpos.

E, por fim, o movimento também acolhe as pessoas poliamorosas. Falar de poliamor não é novidade, mas é um tema muito apagado na sociedade devido ao sistema monogâmico da grande maioria dos países.

Internacionalmente, a sigla LGBT permanece como a oficial e a mais reconhecida. Há coletivos de outros países (ex: EUA) que fazem uso da sigla LGBTQ (incluindo queers), LGBTI (incluindo intersexuais) ou até LGBTQIA (incluindo assexuais). Está ficando popular o termo LGBT+ para se referir a todas as classes sem alongar a sigla.

Existem propostas que constroem siglas muito grandes, algumas incluindo H de hétero (no caso de transexuais) e até A de aliança (o que, particularmente, não acho necessário).

Não sei como ficará a sigla no futuro. Seria ótimo incluir todas as classes, porém, uma sigla gigante ficaria confusa. Talvez (opinião minha) o melhor fosse unir todas as classes como apenas "diversidade". 

Independentemente do que o movimento será chamado, torço para que as demais classes conquistem seus direitos e tenham reconhecimento mundial.



25 de jan. de 2017

Tipos de relacionamentos

Hoje em dia o modelo monogâmico e tradicional de relacionamento vem se rompendo. Além de a sociedade ter que aceitar relações entre pessoas do mesmo gênero, relações entre mais de duas pessoas ou pessoas que se relacionam constantemente com pessoas diferentes tornou-se pauta também, inclusive do movimento LGBT.

Por isso, e para evitar desinformações, reuni nesse artigo os modelos existentes de relacionamentos.



Relacionamento fechado: relação tradicional onde duas pessoas se relacionam apenas entre si, e entram num acordo de não se relacionarem com outras pessoas. Pode ser uma relação afetivo-sexual, só afetiva, ou só sexual também. É mais reconhecida socialmente quando evolui para um casamento.

Há casais que podem se abrir para experiências fora do tradicional, como sexo a três ou swing (troca entre casais).

Relacionamento aberto: duas pessoas estão numa relação afetivo-sexual, tendo compromisso uma com a outra, porém ambas as partes podem, ocasionalmente, terem relações sexuais com outras pessoas. Namoros abertos funcionam bem quando as partes constroem seu conjunto de regras e as cumprem. 

Uma relação fechada pode se tornar aberta, se ambas as partes concordarem.

Poligamia: relação envolvendo três ou mais pessoas. É uma prática aceita legalmente em vários países, principalmente no Oriente. Porém, a maioria dos modelos poligâmicos é influenciada pelo patriarcado - um homem pode casar-se com mais de uma mulher, e o inverso não é permitido.

Poliamor: a pessoa se relaciona livremente com várias simultaneamente (com consentimento de todas) de forma afetivo-sexual, podendo manter relações mais fixas ou mudar periodicamente de parceirxs. Poliamoristas fazem parte da comunidade LGBT. De certo modo, são poligâmicxs, mas flexíveis e livres de regras sociais. Um namoro a três se encaixa nessa categoria.

O poliamor não deve ser confundido com o amor livre, que defende que todas as relações, sejam monogâmicas ou não, devem ser livres de formalidades como casamento ou namoro assumido. Essa é uma das pautas de seus seguidores.

O que é popular na juventude atual é o "ficar". Duas pessoas "ficando" costumam trocar afetos, mas geralmente sem chegarem ao ato sexual. Nada impede de ocorrer sexo casual entre ficantes. Uma pessoa pode ficar apenas casualmente ou com a intenção de conhecer melhor a outra parte. Pode ser o primeiro passo para uma relação.



Existe ainda certa confusão a respeito de seguidores do poliamor ou do amor livre. Ninguém está impondo que monogamia é errada. O que deve ser problematizado atualmente é o sistema que nos impõe esse modelo como o único correto e adequado.

Todos esses tipos de relação não são nem certos ou errados. Cada pessoa é livre para se relacionar como bem quiser e com quantas pessoas quiser. Ninguém é melhor ou pior por adotar monogamia ou poligamia em sua vida sexual-afetiva.

Ah, e independentemente de qual seja seu modelo de relacionamento, sempre deixe isso claro para a(s) outra(s) parte(s). Às vezes queremos algo diferente da outra pessoa ou temos outras expectativas. Não enganem e não iludam. Amem (ou transem)!