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25 de jun. de 2018

Transexualidade e a OMS

Há uma semana o mundo teve uma grande notícia: a OMS retirou a transexualidade de seu catálogo de doenças mentais. Ela publicou seu novo CID (Classificação Internacional de Doenças) e nele a transexualidade não é mais um "transtorno de gênero".

No entanto a CID-11 a coloca como uma "incongruência de gênero", uma condição relacionada com a saúde sexual. 

A justificativa para isso é continuar permitindo o acesso aos serviços de saúde específicos para pessoas que queiram transicionar; principalmente a cirurgia de redesignação sexual. Isso revela que ainda existe toda uma burocracia - sustentada pelo cissexismo - sobre o que as pessoas podem ou não fazer com seus próprios corpos.

Claro que é um avanço a OMS reconhecer que pessoas fora da cisnorma não são doentes mentais, mas os corpos trans ainda não têm total liberdade. Vejam a diferença que ocorre entre pessoas querendo transicionar e pessoas cis que queiram colocar silicone ou aumentar o pênis.

A nova CID entrará em vigor no primeiro dia de 2022, o que significa que até lá todos os países que aplicarem a CID-11 devem se adaptar a essa mudança. Isso deverá destruir toda e qualquer brecha para pessoas e instituições que ainda tentam "curar" pessoas trans.

Talvez isso ainda não melhore a situação de pessoas trans em certos países que ignoram completamente as palavras e decisões da OMS. Mesmo em países que seguem a CID atual ainda há casos de terapias de conversão para heterodissidentes. Porém... é alguma coisa, ainda mais considerando que foram longos 28 anos após a despatologização da homossexualidade para que algo assim acontecesse.

A luta da comunidade trans continua.



13 de mai. de 2017

Terminologia T

A comunidade transgênero trouxe, junto com sua luta por seus direitos, muitos debates questionando as imposições e noções de gênero. Desde a formação do movimento LGBT, pessoas trans combatem ativamente um sistema cisnormativo (que está na sociedade, na medicina e nas religiões) que nega suas identidades.

Militantes e ativistas reuniram-se e, utilizando-se de suas vivências e perspectivas, formaram um conjunto de termos utilizados dentro da comunidade transgênero. Termos que também auxiliam na luta e na desconstrução do sistema discriminatório em que vivemos.



Identidade de gênero: é o gênero com o qual a pessoa se identifica pessoalmente.
Expressão de gênero: é o comportamento da pessoa, que independe de seu gênero. É composta pelos gestos, aparência e vestimenta. Pode ser feminina, masculina, andrógina, neutra ou alguma outra.
Sexo biológico: é composto por cromossomos sexuais, gônadas, genitais e hormônios. As pessoas podem ser designadas como de um dos sexos predominantes (feminino ou masculino) ou como intersexo. O gênero das pessoas é socialmente definido pelo sexo biológico ou ao menos pelo fenótipo no caso de intersexos.
Gênero binário: é um gênero que pertence ao padrão social homem-mulher, seja a pessoa cis ou trans. É um padrão presente na maior parte do mundo e um conceito ocidental.
Gênero não-binário: todo gênero fora do padrão social. Mais especificamente, toda identidade que não é nem totalmente homem e nem totalmente mulher.
Cis: termo genérico para cisgêneros.
Cisgênero: pessoa que vivencia a cisgeneridade - que tem uma identidade de gênero de acordo com o gênero imposto no nascimento. São ou homens ou mulheres.
Trans: termo genérico para transgêneros (e transexuais).
Transgênero: pessoa que vivencia a transgeneridade - que tem uma identidade de gênero que não está de acordo com as normas sociais ou o gênero imposto no nascimento. Pode ser de gênero binários ou não-binário. Há países - como o Brasil - que utilizam ainda o termo transexual, assim como pessoas trans que o adotam em suas identidades. No entanto, o consenso internacional é de que transgênero é uma palavra mais apropriada.
Transição: representa o tempo em que a pessoa trans passa a se adequar ao seu gênero, deixando de viver como no gênero imposto. Pode incluir ou não o processo gradual em que a pessoa modifica seu corpo através de hormonização e/ou procedimentos cirúrgicos (mastectomia, próteses, implantes, transgenitalização).
Disforia: toda sensação de inconformidade com o próprio corpo, havendo necessidade de modificá-lo para assim refletir melhor sua verdadeira identidade. Nem toda pessoa trans tem alguma disforia.
Cirurgia de redesignação sexual: ou também transgenitalização, é todo o processo científico realizado para alterar a genitália de uma pessoa trans. Antigamente chamada de "cirurgia de mudança sexo" (não se chama mais assim). Nem toda pessoa trans tem vontade de fazer a cirurgia.
Nome social: é o nome pelo qual a pessoa trans deve ser atendida, pois é o nome que a mesma escolheu para sua identificação. Deve ser respeitado!
Passabilidade: são os quesitos para que uma pessoa trans seja "aceita" baseados na aparência e na corporalidade. Quanto mais mulheres e homens trans se encaixarem nas ideias e nos moldes do que a sociedade considera como mulher e homem (em outras palavras, quanto mais se parecem com pessoas cisgênero normativas), maior a aceitação.
Maldenominar: o ato de desconsiderar a identidade de gênero da pessoa, seja na prática (referindo-se a ela pelo gênero errado) ou mesmo em pensamento (ex: a pessoa se identifica como mulher, mas na sua cabeça ela será sempre um homem). Pode ser proposital ou acidental, mas mesmo que seja acidental indica preconceitos internalizados.
Transfobia: qualquer tipo de discriminação contra pessoas trans. Inclui: discurso de ódio, agressão física e/ou verbal, negação de direitos, desrespeito à identidade da pessoa, hiper-sexualização, e silenciamento.
Cisnormatividade (ou cissexismo): basicamente representa toda ideia de que o gênero é definido pelo sexo biológico. Toda imposição de gênero é essencialmente cisnormativa, assim como a discriminação contra a comunidade trans.
Binarismo: é a ideia de que as pessoas se separam apenas em homem-sexo masculino e mulher-sexo feminino. Está dentro da cisnormatividade.
Exorsexismo: um tipo de cisnormatividade que oprime e discrimina exclusivamente pessoas de gêneros não-binários.
Transmisoginia: é a discriminação específica contra mulheres trans, sendo a intersecção da cisnormatividade com o sexismo (oriundo do patriarcado). Se diferencia da misoginia devido à transfobia envolvida.
Transmisandria: é a discriminação específica contra homens trans, baseando-se apenas na cisnormatividade (visto que não existe sexismo contra o sexo/gênero masculino). É um termo sem uso prático.
FTM (female to male): uma possível tradução seria "de mulher para homem". Um termo usado para homens trans.
MTF (male to female): "de homem para mulher". Usado para mulheres trans.
*Obs: ambos os termos são controversos para militantes e transativistas, pois reforçam a ideia de que transexuais nascem de um sexo e mudam para outro. Esses grupos defendem que sexo biológico é uma construção social.
AFAB (assigned female at birth): "designadx mulher no nascimento", termo referente às pessoas transgênero que nasceram do "sexo feminino". É mais usado por homens trans, mas pode ser usado por qualquer pessoa registrada como mulher que não é mulher.
AMAB (assigned male at birth): "designadx homem no nascimento", termo referente às pessoas transgênero que nasceram do "sexo masculino". É mais usado por mulheres trans, mas também pode ser usado por qualquer pessoa registrada como homem que não é homem.
Transfeminina: toda pessoa designada homem no nascimento que tem um gênero relacionado com feminilidade/mulheridade. As mulheres trans são o maior exemplo. Pode ser uma identidade não-binária.
Transmasculino: toda pessoa designada mulher no nascimento que tem um gênero relacionado com masculinidade/hombridade. Os homens trans são o maior exemplo. Pode ser uma identidade não-binária.
Pessoa ovariada: um termo mais formal e acadêmico para se referir às pessoas que possuem sistema reprodutor (ou genital) ovariano, que dentro da biologia atual é chamado de sexo feminino ou também fêmea típica. O conceito é usado para evitar definições científicas que reforcem a cisnormatividade e o binarismo.
Pessoa testiculada: um termo mais formal e acadêmico para se referir às pessoas que possuem sistema reprodutor (ou genital) testicular, que dentro da biologia atual é chamado de sexo masculino ou também macho típico. O conceito é usado para evitar definições científicas que reforcem a cisnormatividade e o binarismo.
Crossdresser: uma pessoa que se veste com roupas tradicionalmente de outro gênero, podendo ser por alguma profissão ou para vivenciar temporariamente o outro gênero.
Drag queen: personagem que expressa artisticamente feminilidade no comportamento e na aparência. Pode ser interpretada por qualquer pessoa e não é uma identidade de gênero.
Drag king: personagem que expressa artisticamente masculinidade no comportamento e na aparência. Pode ser interpretado por qualquer pessoa e não é uma identidade de gênero.
Androginia: expressão e aparência que misturam características femininas e masculinas. Pessoas cis ou trans podem ser andróginas. Há pessoas trans que se identificam como andróginas.
Butch: expressão de gênero muito masculina de qualquer pessoa de um gênero que não seja masculino.
Femme: expressão de gênero muito feminina de qualquer pessoa de um gênero que não seja feminino.
NCG: do inglês GNC (gender non-conforming), significa "não-conformidade de gênero", que é quando uma pessoa tem uma expressão de gênero que, socialmente, não está "de acordo" com o gênero imposto ou binário. Ou seja, homens e mulheres que não expressam, respectivamente, apenas masculinidade e feminilidade.
Destransição: é quando uma pessoa que está transicionando, mas por algum motivo decide parar e retorna às características físicas e/ou à apresentação do gênero designado.
Queer: originalmente um termo utilizado de forma pejorativa contra LGBTs. Depois foi reapropriado por militantes e ativistas do movimento LGBT+. Pode ser usado como sinônimo de "gay" ou por uma pessoa cuja(s) identidade(s) estão fora da heteronorma e/ou da cisnorma.
Genderqueer: é um termo amplo e de cunho mais político. Pode ser usado por qualquer pessoa de gênero não-binário, servindo também como termo guarda-chuva para as identidades não-binárias.

Pode conferir meu outro artigo sobre diversidade de gênero aqui.



25 de jul. de 2015

Transexuais, travestis e andróginos em games

Na década de 80, personagens transgêneros apareciam raramente, e eram retratados mais como piada do que como personagens comuns. Personagens homossexuais e bissexuais também tiveram essa fase, entretanto transgêneros demoraram mais ainda para terem uma imagem mais positiva nos jogos.

Mesmo na modernidade, o T de LGBT ainda é muito esquecido e é alvo de muito preconceito, até mesmo de outras classes da comunidade. A transfobia e o cissexismo se manifestam até hoje no mundo gamer.

Segue a lista:



  • Mario Bros.

A personagem Birdetta (referida mais como Birdo) é uma transexual. Em sua primeira descrição, em 1988, ela era definida como “um menino que pensa ser menina”, e que preferia ser chamada de Birdetta. Em respeito à personagem (foda-se que ela seja fictícia), eu a chamarei assim.

(Birdetta)

Como já foi citado em outro artigo, em Paper Mario: The Thousand-Year Door a personagem Vivian é uma mulher trans. O próprio jogo já faz um discurso intolerante sobre a personagem, tratando-a pelo masculino. Porém, eventualmente, ela consegue fazer as irmãs aceitarem sua identidade. A versão japonesa a mantem como trans, mas nas versões em inglês sua condição de trans foi retirada.

(Vivian)

  • Street Fighter

A lutadora Poison é atualmente reconhecida como uma mulher transexual. Antes disso, originalmente a personagem seria uma mulher cis. Porém, a audiência da América do Norte não achou apropriado mostrar uma mulher apanhando, então Poison foi mudada para uma intersexual (não entendi a lógica). Após muita polêmica e discussão, ela adquiriu a identidade atual.

(Poison)

  • Shenmue 2

Essa personagem também foi mencionada em outro artigo, e também foi alvo de censura transfóbica. Yuan é uma travesti na versão original, mas foi mudada para uma mulher na versão americana. E, apesar de ser travesti, ela é referida erroneamente no masculino pelos demais personagens.

(Yuan)

  • Banjo-Tooie

Na quarta fase um personagem chamado Jolly Roger pede a Banjo e Kazooie para que encontrem sua parceira, chamada Merry. Não há uma revelação oficial, mas devido a sua voz muito aguda, fãs do jogo teorizam que ela possa ser uma travesti.

(Merry Maggie Malpass)

  • Dark Souls

A personagem Gwyndolin, que é um dos chefes do jogo, nasceu do sexo masculino. Porém, devido a sua afinidade pela lua (símbolo de feminilidade), ela foi criada como mulher desde seu nascimento.

(Dark Sun Gwyndolin)

  • Animal Crossing

A girafa Gracie parece a princípio ser fêmea. Mas na versão japonesa dos jogos da franquia Gracie é uma girafa macho de aparência afeminada, enquanto em outros países Gracie é uma girafa fêmea. A questão do gênero deve ter sido alterada pelo fato de Animal Crossing ser um jogo infantil. O Japão pelo menos não fez tabu em relação ao personagem.

(Gracie)


  • Thief

A personagem Madam Xiao-Xiao é uma mulher trans e proprietária de um prostíbulo chamado The House of Blossoms.

(Madam Xiao-Xiao)

  • Dragon Age 

1- Serendipity é uma travesti e prostituta de Dragon Age II.

(Serendipity)

2- Cremisius Aclassi é um homem trans de Dragon Age: Inquisition. Krem se conhecia como homem desde sempre, e recusou-se a se casar com o filho de um comerciante rico, mesmo sendo pressionado pela mãe. Quando seu pai foi escravizado, ele se juntou ao exército. Como o papel das mulheres era restrito, ele subornou o examinador que checava os soldados. Anos depois, um novo examinador foi contratado e denunciou Krem, mas ele foi salvo de ser punido por um guerreiro mercenário (que até perdeu um olho por isso). Este, por sua vez, aceitou Krem em seu grupo, e a amizade deles permaneceu até então.

(Cremisius Aclassi)

  • Assassin's Creed Syndicate

Ned Wynert é um homem trans e empresário que trabalha em Londres, usando seu serviço para esconder suas atividades criminosas, principalmente roubo de mercadorias de navios. Ele auxilia o protagonista Jacob na trama.

(Ned Wynert)

  • Resident Evil

Embora não seja transexual ou travesti, Alfred Ashford de Code: Veronica e Darkside Chronicles costumava se vestir como sua irmã gêmea, Alexia, devido a sua obsessão por ela. Ele imitava a irmã perfeitamente, até mesmo sua voz. Sua definição real, tecnicamente, seria um crossdresser - um homem que se veste com roupas femininas.

(Alfred Ashford)



Como eu já disse, personagens transgêneros tiveram (e ainda têm) mais dificuldade de conquistarem seu espaço em comparação aos LGBs cisgêneros. Só bem recentemente sua retratação começou a melhorar. Estamos torcendo para que os games melhorem cada vez mais e retratem transgêneros com a mesma naturalidade que retratam cisgêneros.



10 de dez. de 2014

Transexuais, travestis e andróginos em animes/mangás - Parte 2

Para quem ainda não viu, aqui está a Parte 1.

Continuando a lista.



  • Sailor Moon

Sailor Moon, assim como outras histórias do tipo shoujo, teve sua cota desses personagens, além dos homossexuais. A série mostra dois casos:

1- Olho de Peixe: ele faz parte de um trio antagônico de alguma temporada que roubava espelhos dos sonhos de civis. Enquanto seus outros dois parceiros faziam mulheres de alvo, ele sempre escolhia homens. E, para atrair seus alvos, ele sempre se vestia de mulher. Aliás, ele se travestiu até para conversar com uma das personagens.

(Olho de Peixe)

2- As Sailor Starlights: na versão anime, o grupo Sailor Starlights, um grupo extraterrestre de Sailors composto apenas por mulheres, tomam uma forma masculina quando disfarçadas de terráqueos. Elas se disfarçam de um trio de cantores pop: Seiya, Taiki e Yaten. Porém, quando ativam seus poderes e entram no modo Sailor, elas revertem para a forma feminina. Elas seriam como... como... hã... pessoas trans-reversíveis? Acho que seria um conceito assim hahaha.

E só um adendo: prefiro suas formas masculinas.

(Seiya)

(Taiki)

(Yaten)

  • Shingeki no Kyoujin

Hange Zoë, personagem importante na série, tem sexo e gênero ambíguos na versão mangá. O autor faz questão de referir-se a Hange com pronomes neutros, sem gênero definido. No anime, Hange tem um físico feminino, embora ainda haja o recurso dos pronomes neutros. Seu sexo e gênero são deixados para a imaginação fértil e curiosa dxs fãs. Mas, de qualquer jeito, Hange ainda é foda! E isso é o que realmente importa.

(Hange Zoë)

  • Tokyo Godfathers

Esse na verdade é um filme, mas não deixa de ser anime. Um anime-filme, se preferirem XD. A história conta sobre três mendigos em época natalina que encontram um bebê abandonado. Um dos integrantes chama-se Hana, uma transexual. Ela mesma afirma num momento que Deus havia cometido um erro por colocá-la num "corpo de homem".

Comentário pessoal: esse filme é lindo!!!

(Hana)

  • Umineko no Naku Koro ni

Eu comentei sobre essa série em outro post e também afirmei que voltaria a comentar. Para quem não conferiu essa série e pretende, ou quem acompanhou até certa parte, a informação a seguir é um spoiler gigantesco de toda a trama. Aí vai...

Para quem jogou toda a Visual Novel, sabe que Shannon, Kanon e Beatrice são a mesma pessoa, conhecida pelxs fãs como Yasu. A versão VN mostrou pouquíssimos detalhes sobre Yasu, não revelando seu sexo biológico. O autor, talvez cansado de segurar a verdade, decidiu falar tudo (tudo mesmo!) na versão mangá da série.

Primeiramente, Yasu nasceu do sexo masculino. A criança foi dada a uma personagem para ser cuidada, mas a mesma empurrou o bebê e a empregada que o carregava de uma colina. O bebê sobreviveu, porém teve severos danos na genitália, e os órgãos foram removidos. A criança foi nomeada Sayo Yasuda e foi criada como menina. Desde pequena, Sayo sofreu por não entender seu corpo. Mesmo como mulher, ela tinha diversos complexos, como a menstruação que nunca vinha ou os seios que nunca cresciam. O resto é sabido: Sayo criou a personalidade Shannon (a serva perfeita), depois Beatrice (a bruxa poderosa) e Kanon (o servo rabugento). A personalidade Kanon foi incorporada após Sayo ter descoberto a verdade, e foi uma forma de ela viver como um menino. Ela quase enlouqueceu. Ela sofria constantemente quando se lembrava de que nunca poderia ter filhos, fosse como mulher ou como homem; e isso somado com suas paixões pelos primos (Battler, George e Jéssica) e pelo fato de ela ser fruto de um incesto apenas a fez piorar. O mangá tem capítulos exclusivos em que Sayo narra todo seu sofrimento e conflitos internos.

Fiquei depressivo quando li esses spoilers. Parece até de mau gosto colocar uma trans como vilã, mas não vejamos por esse lado. Acredito que Sayo foi criada justamente como uma mensagem sobre o que é ser trans (embora ela não seja por vontade própria). Entre muitas histórias fudidas de personagens, essa é uma das piores. Mas a mensagem foi dada: transexuais são pessoas como todo mundo.

(Sayo Yasuda)

Além de Sayo, há personagens de aparência física andrógina. Dois deles são os demônios do amor, Zepar e Furfur, e o outro é Lion Ushiromiya, que na verdade é a versão de Sayo numa realidade alternativa onde ela não sofre o acidente. Zepar e Furfur possuem aparência feminina, mas o autor revelou que ambos são de sexos opostos. E Lion, assim como Sayo, nunca teve seu sexo ou gênero definidos, e os personagens se dirigem a ele com palavras neutras (porém fica implícito em alguns momentos que seu gênero é masculino). Mas após a revelação do sexo biológico de Sayo, Lion é aceito oficialmente como homem.

(Zepar)

(Furfur)

 (Lion Ushiromiya)

  • YuYu Hakusho
A demônio Miyuki é uma transexual. Inclusive, ela se incomoda profundamente quando não reconhecem seu gênero. Isso é um preconceito muito comum vivido por pessoas transgêneras (transfobia). Inclusive, em sua primeira aparição, que também é sua primeira cena de luta, o protagonista dá um terrível show de intolerância com a personagem. Ver essa cena dublada meu deu ânsia. Os produtores precisam melhorar...

(Miyuki)



Embora o povo japonês se mostre um tanto conservador, essas categorias de personagens sempre foram tratadas, a meu ver, com boa visibilidade (posso estar enganado). Embora ainda possa haver, como no caso de Miyuki, demonstrações desnecessárias de intolerância vinda de outros personagens. Alguns podem até ter aquele toque cômico, mas nós não vemos personagens que são puro alvo de deboche. Uns são meros civis, outros são superpoderosos. No fim, são pessoas com seu próprio histórico, personalidade, moral, seu modo de pensar e agir, enfim, nada diferente de qualquer outro personagem.

Acredito que a apresentação dessas pessoas, assim como homo/bissexuais, seja uma atitude positiva vinda dos japoneses. Apesar que eu ainda acho que a visibilidade LGBT poderia ser muito melhor, em todos os aspectos... Ao menos isso está melhorando com o andar da modernidade.

Lembro-me até hoje do primeiro personagem que vi na infância: Olho de Peixe, de Sailor Moon. Naquela época eu já sabia que existiam homens e mulheres, e que eles se atraiam um pelo outro. Mas quando vi um homem que se atraia por outros homens, e também se vestia de mulher, lembro-me de encarar aquilo com naturalidade. Não sei explicar, mas não julguei, não zoei, não pensei mal.

Creio que animes (e também mangás) consigam, apesar de muitas falhas, implantar nas pessoas, seja desde a infância ou adolescência, uma semente de tolerância e aceitação. Pena que em algumas pessoas a semente não germina... Infelizmente existem otakus reacionários. :(

Apesar de eu também ser "fora dos padrões", acredito que graças aos animes tive uma facilidade maior em ser tolerante com as diferenças e também tive desde sempre uma mente mais aberta. Precisei abri-la mais, sim, porém consegui abri-la num tempo menor do que muitos adolescentes que vejo atualmente, gente até da minha geração.

O que mais tenho a dizer? Japoneses, vocês são fodas!
Mas alguns de vocês precisam melhorar, viu??? Estamos de olho ^^



22 de nov. de 2014

Transexuais, travestis e andróginos em animes/mangás - Parte 1

Animes e mangás não fizeram muito tabu a respeito de transexualidade, travestilidade e androginia. Os japoneses podem até serem um tanto conservadores, mas de alguma forma não reprimiram em suas obras a visibilidade das pessoas diferentes da maioria. Isso é muito bom! Admirável, na minha opinião. Eles apresentaram essas pessoas como apenas personagens; protagonistas, antagonistas, coadjuvantes.

Segue abaixo uma lista com personagens dentro das categorias tratadas neste post.



  • Cinderella Boy

Bem, embora não seja um caso realístico de transexualidade, a trama da série envolve dois detetives, Ranma e Rella, que num experimento acabam dividindo o mesmo corpo. A cada 24 horas eles trocam de sexo, e com isso começa suas desventuras em série.

Como eu disse, mesmo não sendo condizente com a realidade, essa história mostra que japoneses também gostam de usar a ideia da ambiguidade de um personagem. Aqui temos um homem e uma mulher dividindo a mesma vida e o mesmo corpo. Talvez seja uma representação dos lados masculino e feminino que todos nós temos dentro da gente XD.

(Ranma à esquerda e Rella à direita)

  • Rurouni Kenshin


Kamatari Honjō é um membro do Juppongatana, grupo liderado pelo antagonista Shishio Makoto. Ela tem sentimentos por Shishio, mas sabe que não será correspondida por causa de seu sexo biológico. Sua lealdade a ele era tanta que ela estava disposta a se suicidar quando perdeu a luta contra as personagens Kaoru e Misao. No mangá ela chega a mostrar sua genitália, constrangendo Misao.

(Kamatari Honjō)

  • Fairy Tail

A série tem dois casos:

1- Frosch, um ser felino vestido de sapo, nunca teve seu gênero confirmado. Normalmente os gatos da série tem o mesmo gênero do dono. Seu dono, Rogue, já usou indicativos femininos para Frosch. O autor até hoje decidiu manter essa questão um segredo.

Seja gato ou gata, Frosch ainda é kawaii! *---*

(Frosch)

2- Bob, o chefe da guilda Blue Pegasus, é um personagem extravagante e cômico. Ele é um senhor que se veste de maneira muito feminina, com batom e até duas asas nas costas. Embora tenha essa aparência, ele é um mago poderoso, e também possui um lado sério assustador. Ele chega a flertar com dois protagonistas, Natsu e Gray, sendo que com Gray acontece mais de uma vez. É compreensível, ainda mais no caso do tesudo Gray XD.

(Bob)

  • Fullmetal Alchemist

Inveja, que faz parte do grupo dos sete homúnculos, tem uma aparência completamente andrógina. Na versão anime de 2003, Inveja é representado como sendo originalmente homem. No mangá e no anime Brotherhood, seu sexo mantem-se ambíguo. Como sua verdadeira forma é um verme, é possível que Inveja não tenha sexo.

Por sinal, seu poder de transformação é um dos melhores!

(Inveja)

  • Gintama

O personagem Kotarou Katsura é o líder de uma facção e procurado pelas autoridades. Devido a isso, ele costuma se transvestir, adotando a identidade Zurako. Sua definição mais correta seria um crossdresser, um homem que se veste de mulher por algum motivo. Foi revelado que ele tem preferência por mulheres mais velhas.

(Kotarou Katsura)

  • Hunter X Hunter

Killua Zoldyck, um dos protagonistas, é um dos cinco irmãos de uma família de assassinos profissionais. Foi oficialmente confirmado na tradução do mangá e adaptado para o anime que eram todos homens. Os outros são: Illumi, Milluki, Alluka e Kalluto. Entre eles, há dois que chamam a atenção para o tema.

1- Kalluto é um menino de aparência andrógina, vestindo um kimono preto. Sua voz no anime é feminina. Como teve pouca participação, ainda não está totalmente claro se Kalluto é o mesmo caso de Alluka ou se é um menino andrógino. Os personagens se referem a Kalluto no masculino.

(Kalluto Zoldyck)

2- Alluka, uma das minhas favoritas. Uma personagem encantadora com o poder de realizar desejos, uma benção e também uma maldição. Talvez seja a personagem mais poderosa de toda a série. Alluka é referida no masculino por quase todos os personagens, com exceção de Killua, que realmente a ama e respeita sua condição de trans. Essa condição não é revelada com palavras, mas fica evidente pelo tratamento errôneo no masculino e por Alluka ter sido vestida de menino na infância. Espero poder ver Alluka mais vezes!

(Alluka Zoldyck)

  • Kuroshitsuji

A personagem Grell confundiu fãs da franquia por muito tempo, pois ela era definida como um homem gay que usava pronomes pessoais femininos. A autora confirmou que ela se identifica como mulher, o que a torna conceitualmente uma transexual. Como a história se passa em Londres da Era Vitoriana, Grell não deve ser operada. Mas vale ressaltar que a transexualidade não está na cirurgia, e sim na identidade da pessoa.

(Grell Sutcliff)

  • Naruto

Haku, um dos primeiros antagonistas e um personagem famoso. Um garoto perigoso, com um poder especial (se pensam que ele é delicado, enganam-se). Ele usava roupas femininas, um laço no pescoço e pintava as unhas. Ele está na categoria de andrógino por ser do gênero masculino e com aparência feminina.

Aliás, só comentando uma experiência pessoal, já ouvi fãs dizendo que Haku era menina. A única base disso era sua aparência. Será que o pessoal desconhece a existência de pessoas andróginas?

(Haku)



Termino por aqui para não tornar o artigo muito grande. Continuarei a lista num futuro próximo.