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24 de jun. de 2019

Parada LGBT 2019

AC: silenciamento e exclusão, situações envolvendo crimes e violência.



Mais uma vez decidi me aventurar nesse evento controverso: a Parada LGBT(+?) de São Paulo. E por que raios fiz isso após toda desgraça das paradas anteriores (furto, bolo, colega inconsciente jogado pra fora do trio)? Bem, razões puramente políticas, tudo apenas por uma militância na qual acredito.

Nem me refiro ao cenário político atual, que, com certeza, deve ter deixado muita gente acuada. Agora depois de todo desastre e da incompetência descomunal do novo (des)governo, e após a criminalização da homofobia/homotransfobia/LGBT(I)fobia (não sei dizer com precisão o que foi criminalizado rs), a população LGBT+ pode ter dado uma relaxada e ido curtir com mais prazer a (suposta) maior Parada do mundo.

Bem, aqui falarei dentro dos âmbitos pessoal e militante: eu... gostei da Parada! Sério, de verdade, essa Parada deu certo e foi boa. Continuo não curtindo agitação, muvuca e música alta. Mas esse ano, assim como no anterior, foi diferente: fui no bloco do meu outro GT, o BiPanPoli+, que promoveu o bloco que, ouso dizer, era o mais diversificado e inclusivo e politizado do evento.

Como muitos espaços multi, nosso espaço tinha a proposta de englobar todes. E quando falamos todes, nos referimos a todes mesmo. Teve muita gente não-binária e a-espectral por lá. Foi tudo gostoso, andamos de boa, e fomos marchando com muitas bandeiras e faixas - incluindo uma faixa sobre estarmos resistindo ao silenciamento; uma indiretinha pra uma certa organização que faz um certo evento que até hoje silencia pessoas multi e favorece mais o segmento G.

O situação é tão grave que minha motivação (e talvez do resto do bloco) era muito mais a resistência e representação dentro da própria comunidade do que fora dela. Já temos um governo fascista e um mundo hostil, e ainda precisamos conquistar espaço dentro de grupos ditos LGBT(+?).

Sem entrar em mais detalhes, eu amei estar naquele bloco. Foi melhor que estar no trio da Parada anterior. E mais uma vez esse GT se mostra como mais contemplativo pra mim e mais alinhado com o que acredito.

O que eu teria mais para comentar seriam... bem, os problemas de sempre e mais outras coisinhas.

Como todo ano, rolam furtos, assaltos, brigas e ocorrências. No entanto, me pareceu que esse ano se intensificou e a segurança estava ainda mais falha. Muitas pessoas apontaram que o evento está cada vez trazendo mais e mais gente e não se prontifica a se preparar para esse número. Teve casos de pessoas desmaiando ou sendo esmagada em multidões. E casos de violência pesada.

E outra coisa que não pude deixar de notar foi em relação às atrações do evento. Tivemos muita gente cis hétero de fora da comunidade aparecendo e se apresentando em vez de pessoas da própria comunidade, o que ainda coloca em risco o propósito do evento. E teve a polêmica do camarote de Daniela Mercury, com um ingresso caríssimo e uma representatividade superficial.

Essas serão questões pra instituição da Parada. E ainda haverá muitas reclamações de quase todos os GTs, com seus devidos motivos de insatisfação.

Pra finalizar, um conselho: invistam mais em eventos como marchas trans, caminhada de mulheres sáficas, e etc. Esses podem compensar o que a Parada continua se recusando a fazer direito mesmo que por um dia. E pra quem quiser ver como foi o bloco, confiram no meu instagram.

Status: me sentindo orgulhose do meu GT e de mim mesme!

21 de mai. de 2019

Pessoas trans em mídias

AC: cissexismo, exclusão trans do mercado de trabalho.



Personagens trans estão cada vez mais sendo retratades nas mídias. Aqui comentarei especificamente sobre novelas, séries e filmes; mídias que necessitam de atuação.

Um fato comum e polêmico que ainda acontece muito na indústria dessas mídias é pessoas cis sendo escaladas para interpretar pessoas trans.

Quando isso é criticado, surge todo tipo de justificativa. Uma que já vi sendo muito usada é que "precisa de alguém pra representar a pessoa antes da transição". Algo risível se pensarmos nas possibilidades tecnológicas atuais (isso que há vezes que uma ótima maquiagem faz o serviço). E sem contar o reforço da ideia que toda pessoa trans quer fazer transição física.

Ainda existe muita desinformação sobre o tema da transgeneridade. É questionável o quanto as representações em obras atuais são realmente boas; ainda mais quando insistem em colocar uma pessoa que "odeia" o próprio corpo. Mas mesmo que a representação seja boa, quando acontece a premiação o ator que interpretou a mulher trans vai de terno e barba.

A comunidade trans carece muito de empregabilidade. Quando conseguem atravessar a escola e fazer faculdade ou curso, o que para muites é algo sofrível, o emprego não aparece. Não é por falta de gente disponível, gente formada na área.

Como a produção dessas mídias insiste agora em retratar personagens trans, mas não escala pessoas trans no elenco? Afinal, essa representatividade está servindo a uma causa ou apenas aos bolsos da produção? Há de se pensar nisso.

Considerando esses contextos, pessoas trans interpretando pessoas trans é uma necessidade imensa. Felizmente, acredito que houve uma ligeira mudanças. Só que não é suficiente.

Não digo que nenhuma pessoa cis possa interpretar pessoa trans. Se for escalada, o mínimo que a pessoa pode fazer é uma atuação digna e questionar seu local de privilégios. Ou mesmo enfrentar e recusar o papel, defendendo a presença de pessoas trans. (sonhar não dói, né)

Mas o ideal seria dar oportunidade às pessoas trans para atuarem em algo dentro de suas vivências e oferecerem representatividade durante e também após a obra. Queremos muito ver premiações com pessoas trans sendo indicadas ou ganhando.

Precisamos sim de mais pessoas trans atuando. Isso não é favor, é obrigação.

26 de mar. de 2019

Sobre a matéria da BBC

AC: exorsexismo, definições equivocadas, apagamento de identidades, validação academicista, ironia.



Estou escrevendo isso como uma análise a uma matéria lançada agora de manhã sobre pessoas não-binárias. Farei pontuações e comentarei as faltas dela.

Portanto recomendo que leiam essa matéria antes de prosseguir aqui, assim o artigo fará mais sentido: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47675093.

Já adianto que não achei a matéria ruim. Ela está boa em comparação a outras matérias sobre o assunto. Mas tem seus defeitos e esse blogue não existiria se fosse tudo perfeito.

Bem, mais uma vez perpetua-se a ideia de que pessoas não-binárias não são "nem homem nem mulher". Porque não existem pessoas que são desses gêneros, que fluem entre eles, que têm identidades relacionadas, né? Detalhe: só pessoas agênero ou sem uma identidade específica foram chamadas para as entrevistas. Hm...

Chamaram a primeira pessoa, que é agênero, de "indivíduo sem gênero definido". Sabe, não tem como você ter um gênero indefinido quando você não tem um gênero. Né?

"São pessoas que podem se sentir transitando entre os dois gêneros, sem necessariamente estar em um deles. São os indivíduos que resistem à normalização de gêneros. São pessoas cujos corpos denunciam uma resistência à imposição de normas". Uau, mais uma matéria sobre pessoas transgênero que botam uma pessoa cis da área da psiquiatria pra nos definir, e ainda de forma incompleta/equivocada. Incrível.

"A partir da década de 80, os estudos de gêneros passaram a abordar uma vertente que não incluía somente masculino ou feminino. Desde então, conforme especialistas consultados pela BBC News Brasil, surgiu o termo não-binários - também denominado por estudiosos como 'genderqueer'." Huh... o termo genderqueer não é propriedade de "estudiosos", tá? E não é apenas um sinônimo de não-bináries.

Bem, achei até positivo citarem a existência da neolinguagem. Porém, podiam ter explicado que existe uma linguagem universal e as linguagens pessoais, não? Não existe só o pronome elu e flexão com e. Resumir neolinguagem a "gênero neutro" é algo até esperável, mas ainda errado.

É importante falar sobre perguntar a linguagem da pessoa e respeitá-la. Só que existem pesos diferentes para pessoas que usam uma ou ambas as linguagens padrão e pessoas que usam neolinguagem. O fato da matéria tratar a única pessoa que usa pra si neolinguagem com a sintaxe neutra é uma evidência disso.

Eu até entendo por que ainda colocam esses detalhes. Mas seria tão bom ler uma matéria sobre pessoas trans/n-b sem menções a nomes mortos e gênero designado. E sem dar tanto foco a modificações corporais.

A parte de orientação sexual é bem ruim. "Entre os não-binários, assim como em casos de pessoas binárias", linguagem desumanizadora. Ninguém prestou atenção nisso? 

Ok... como pessoas que "não são nem homem ou mulher" podem se identificar como hétero ou homo? Só pra constar, sim, existem gays e lésbiques não-bináries. Mas dentro do contexto da matéria isso não é nada explicado. E a identidade heterossexual não funciona para pessoas n-b. A psiquiatra falou uma coisa bem sem sentido.

Sério que ninguém parou um minuto pra se preocupar sobre a identidade sexual de pessoas n-b, sendo que as definições/ideias do senso comum de hétero, homo e bi são centradas em pessoas binárias?

"Alguns não-binários se definem como assexual - característica que, conforme estudiosos, também pode ser considerada uma orientação sexual." Assexualidade não precisa de "especialistas" pra ser validada, tá? E... precisava mesmo dizer que a pessoa "nunca beijou na boca"?

Poxa, falaram de uma pessoa n-b transmasculina e não usaram esse termo. Perderam a oportunidade de falar de pessoas n-b transmasculinas e transfemininas.

"Tal característica, conforme especialistas no tema, não altera o fato de o indivíduo considerar que não pertence ao gênero masculino ou ao feminino." Precisou de especialistas pra afirmar isso? A palavra das próprias pessoas n-b não era suficiente? Já não é sabido que expressão de gênero e identidade de gênero são coisas distintas?

Pessoas não-binárias passam por muita coisa. Inclusive serem exotificadas em matérias sobre o tema feitas por pessoas cis que usam seus próprios parâmetros, mesmo quando não incluem o próprio grupo foco da matéria. Hm, onde vi isso?

Por fim, a psiquiatra frisa que pessoas n-b precisam ser vistas com base em estudos do tema. Hm, estudos com as vivências e que usem as terminologias dessas pessoas? Só assim para serem estudos de qualidade. Ah, e não é necessário estudos para validar o grupo, só ressaltando.

Então... que bom que existem espaços nos dando alguma voz ou visibilidade. Mas até quando seremos só criaturas exóticas dignas de uma matéria que fala em seus próprios termos, e não nos termos do grupo que ela se propõe a mostrar?

Assim como os tais estudos acadêmicos, me parece que somos só teoria, não somos as referências. Essa necessidade de botar "especialistas" nessas matérias me parece só uma forma de nos validar, porque só nossas vivências e palavras não bastam.

Mencionaram a neolinguagem, deram exemplos, mas optaram em usar a sintaxe neutra pra se referir a única pessoa da entrevista que usa pronome elu e flexão com e. Fazem uma matéria sobre pessoas que "não são homem ou mulher" e não podem usar devidamente a linguagem de uma pessoa que não usa as duas linguagens associadas aos gêneros binários?

Enfim, é isso que tenho a dizer sobre a matéria.

19 de set. de 2018

Posicionamento político

Muita gente cobra posicionamentos de figuras públicas sobre temas, grupos, e acontecimentos. Isso é natural, pois quando gostamos ou seguimos o trabalho de alguém, queremos nos identificar com aquela pessoa, tê-la como uma referência.

Por isso pessoas com destaque, que fazem algum sucesso, que estão envolvidas com produções audiovisuais e/ou musicais acabando tendo que assumir o peso de "escolher lados".

Não digo isso de forma negativa, ainda mais se tratando de minorias sociais (aqui não existe imparcialidade, tá?). Todes nós pensamos alguma coisa, mesmo quando temos pouquíssima informação. Sempre temos um lado.

Essa cobrança é ainda maior quando determinada pessoa atrai atenção de públicos bem específicos. Vou focar aqui na comunidade LGBTQIAPN+. Atrair a atenção da comunidade é um compromisso importante. Ter pessoas oprimidas pelo sistema consumindo seu produto e contribuindo com sua fama te torna, no mínimo, obrigade a esclarecer se está ou não ao lado dessas pessoas.

Estamos num período agitado de eleições, e as pessoas estão se separando mais e mais por causa das opções de presidenciáveis. E não estou reclamando disso. Pessoas revelaram seu caráter (ou falta dele) apoiando certos nomes que se comprometem com a desigualdade e a opressão. Por isso mais ainda figuras da mídia estão sendo cobradas de um posicionamento.

Não demonstrar posicionamento ou se recusar a dizê-lo são atitudes vistas de forma negativa. O silêncio pode indicar ser a favor de nomes problemáticos, ou a falta de coragem de se manifestar contra eles. E se há covardia, pode-se pensar muitos motivos, incluindo interesses próprios.

A comunidade está mais do que farta de silêncios e ambiguidades. Aqui não tem relativismo também. E não é mera questão de opinião política, é uma questão moral também.

Se quem está fazendo fama não compreendeu isso, ou essa pessoa é muito ingênua, ou ela realmente não se importa com seu público.

Essas pessoas devem ser cobradas sim! Independentemente da resposta, deve haver uma resposta. Não acho que podemos obrigar as pessoas a falarem. Mas caso não haja uma resposta, o público vai reagir como quer.

Fiquemos com quem tem posicionamentos, quem não tem medo de se manifestar, e quem está a favor da igualdade e do progresso. Posicionamento político é muito mais que uma simples opinião: é revelar sua forma de pensar sobre o mundo e as pessoas - e se essa forma está inclinada para a exclusão ou para a equidade.



25 de ago. de 2018

Crítica: Manual de Comunicação LGBTI+

AC: terminologias ultrapassadas; conceitos excludentes/equivocados; apagamento de pessoas intersexo, multi, não-binárias e a-espectrais.



O Manual de Comunicação LGBTI+ é um material que foi disponibilizado em maio para tornar o jornalismo mais inclusivo. O artigo é uma crítica a tudo que o manual falhou ou errou. A intenção não é atacar ou rechaçar, mas a crítica será dura porque esse material tem um alcance importante, foca na comunidade LGBTQIAPN+, e foi produzido por grandes instituições.



Vou copiando uns trechos e fazendo minhas críticas.Vamos lá:

"Este Manual visa apresentar aos meios de comunicação, incluindo jornalistas e estudantes desta área, a terminologia mais atualizada sobre a população lésbica, gay, bissexual, travesti, transexual e intersexual (LGBTI+)*, trazendo à discussão temas importantes para o debate nacional e internacional sobre seus direitos."

Terminologia mais atualizada, mas nem citam a palavra transgênero e usam intersexual em vez de intersexo. Começaram bem.

No Prefácio são inconstantes com a linguagem: num momento falam "as/os", no outro falam "os". Decidam-se: vão ser excludentes com pessoas não-binárias da forma tradicional ou da forma falsamente inclusiva?

"Para ajudar a encher esse copo com direitos e cidadania é preciso contar com todas/os as/os comunicadoras/es e jornalistas, que têm o compromisso ético de denunciar discriminações excludentes dos direitos assegurados constitucionalmente a todos os cidadãos, independente de sua orientação sexual ou identidade de gênero."

Cadê qualquer menção a sexo ou corporalidade? Diz respeito diretamente ao segmento intersexo, que fizeram questão de adicionar na sigla usada no material todo.

"Você sabia que a cada 25 horas uma pessoa lésbica, gay, bissexual, trans ou intersexo é assassinada no Brasil apenas por sua orientação sexual ou identidade/expressão de gênero?"

Eu já acho esse dado um tanto questionável por alguns motivos. Mas pessoas intersexo estão inclusas? Não era apenas LGBTs? Cadê pesquisas sobre violência diadista?

Bom, sobre os conceitos (não vejo necessidade de transcrever). Sexualidade, grande demais. Gênero, acho que tudo bem. Sexo biológico, só não curto os termos macho e fêmea. Intersexualidade, acho que tudo bem.

"Aliado(a). Pessoas que, independente da orientação sexual ou identidade de gênero, tomam ação para promover os direitos e a inclusão LGBTI+. Elas são comumente conhecidas como Simpatizantes."

"Independente da orientação sexual ou identidade de gênero"? Aliades da comunidade toda são apenas pessoas: perissexo, cis, hétero e alo. E você é aliade de todo grupo que não faz parte (gays e lésbicas são aliades de bi/multi, alos são aliades de a-espectrais, etc). "Simpatizantes"... mas o manual tem terminologia atualizada, né?

"A orientação sexual refere-se à capacidade de cada pessoa de ter uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero ou de mais de um gênero, assim como ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas."

Mesmo dizendo "gênero diferente", logo percebe-se que a definição parte de um viés exorsexista e diadista de que só existem dois gêneros e dois sexos.

"Basicamente, há três orientações sexuais preponderantes: pelo mesmo sexo/gênero (homossexualidade), pelo sexo/gênero oposto (heterossexualidade) ou pelos dois sexos/gêneros (bissexualidade). Estudos demonstram que as características da orientação sexual variam de pessoa a pessoa (KINSEY et al., 1948). Assim, as três orientações sexuais preponderantes mencionadas acima não são as únicas."

Tá, preponderantes, mas... já não deveríamos ter passado disso? Dessa tríplice hétero-homo-bi? Agora, definir atração por sexo não tem desculpa. Mas o manual é atualizado, né? E mais: assexualidade existe!

"Assexual. É um indivíduo que não sente nenhuma atração sexual, seja pelo sexo/gênero oposto ou pelo sexo/gênero igual."

Ah, lembraram da existência de assexuais. Mas colocaram uma definição ultrapassada, como se não existisse um espectro na assexualidade. Nem citaram demissexualidade, que há um bom tempo está sendo falada. Sem contar "gênero oposto" e "gênero igual".

Me recuso a transcrever a definição de bissexual. É a mesma coisa desatualizada e exorsexista de sempre...

As definições de gay e lésbica excluem a possibilidade de pessoas não-binárias se identificarem como tais, e da possível atração por outros gêneros, respectivamente, masculinos e femininos. Mas não esperava que soubessem disso.

"Assim, o termo homossexual pode se referir a homossexuais femininas – lésbicas, ou homossexuais masculinos – gays."

Super atualizado usar homossexual como substantivo, hein!

Homoafetivo: termo excludente porque relações do mesmo gênero não existem apenas entre gays e lésbicas bináries. E não há relações entre não-bináries ou bináries com não-bináries, né?

Pessoas gays, hétero, homossexuais, e lésbicas não precisam ter tido relações pelos gêneros que se atraem para se definirem nessas identidades? E quem precisa? Atração é definida por... atração, não relação. Engraçado que não ressaltaram isso sobre bissexuais.

"Significa que as pessoas pansexuais podem desenvolver atração física, amor e desejo sexual por outras pessoas, independente de sua identidade de gênero ou sexo biológico. A pansexualidade é uma orientação que rejeita especificamente a noção de dois gêneros e até de orientação sexual específica."

De novo enfiam sexo biológico na definição. Atração bi também considera mais de dois gêneros. Pansexualidade É uma orientação específica!

Não citaram nem polissexualidade, que direto é falada junto com pan.

E mais uma vez essa supervalorização da atração sexual como se só ela definisse as experiências das pessoas. Nada de atração romântica e, consequentemente, nada de pessoas arromânticas, que estão mais e mais em evidência também.

"Identidade de gênero é a percepção que uma pessoa tem de si como sendo do gênero masculino, feminino ou de alguma combinação dos dois, independente de sexo biológico."

Os três gêneros: homem, mulher, e... misto? Holher? Mumem? Não-binariedade se resume a ser uma mistura de homem e mulher, né? Pelamor, nem pra citarem agênero ou gênero-fluído!

"A expressão de gênero da pessoa nem sempre corresponde ao seu sexo biológico."

Sexo biológico não define identidade de gênero, mas define expressão de gênero???

"Agênero. Pessoa que não se identifica ou não se sente pertencente a nenhum gênero."

Ah, então existe a possibilidade de não ter gênero? Por que não foi dito antes?

"Binarismo de gênero. Ideia de que só existe macho | fêmea, masculino | feminino, homem | mulher, sendo considerada limitante para as pessoas não-binárias."

Bom, a palavra binarismo está sendo usada de forma errada. Ela na verdade foi cunhada para discutir sobre a imposição ocidental binária de gênero contra todas as culturas que aceitavam mais de dois gêneros. É uma discussão racial, inclusive. Só que aqui no Brasil a palavra popularizou. Soltam esse conceito sem nem explicar o que são pessoas não-binárias.

"Cisgênero. Um termo utilizado por alguns para descrever pessoas que não são transgênero (mulheres trans, travestis e homens trans). “Cis-” é um prefixo em latim que significa “no mesmo lado que” e, portanto, é oposto de “trans-” (GLAAD, 2016). Refere-se ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o gênero atribuído ao nascer."

"Alguns". Exclusão de não-bináries. "Em todos os aspectos", quais, além da identidade em si? Isso inclui expressão? Porque se sim, NÃO.

Conceitos de drag queen, drag king e transformista estão excludentes. Pessoas de qualquer gênero podem performar essas artes!

"Gênero fluído (gender-fluid). A pessoa que se identifica tanto com o sexo masculino ou feminino. Sente-se homem em determinados dias e mulher em outros."

Caramba! Mais uma opção fora do binário que não foi citada. E pessoas gênero-fluído só mudam entre os gêneros binários. Aham...

"Transgênero. Terminologia utilizada para descrever pessoas que transitam entre os gêneros. São pessoas cuja identidade de gênero transcende as definições convencionais de sexualidade."

"Pessoas que TRANSITAM entre os gêneros". É tão difícil escrever o contrário da definição de cisgênero??? E mais, definição mais sem sentido.

Bom, transexual é um termo controverso. Mas ainda muito usado no Brasil. Há pessoas n-b que também usam. Podiam ter explicado bem porque há gente que usa transexual, e gente que usa transgênero, né?

A definição de travesti abre brecha para pessoas designadas mulheres se identificarem como travesti. Nunca vi casos assim.

"Queer. Um adjetivo utilizado por algumas pessoas, em especial pessoas mais jovens, cuja orientação sexual não é exclusivamente heterossexual. De modo geral, para as pessoas que se identificam como queer, os termos lésbica, gay, e bissexual são percebidos como rótulos que restringem a amplitude e a vivência da sexualidade. O termo queer também é utilizado por alguns para descrever sua identidade e/ ou expressão de gênero. Quando a letra Q aparece ao final da sigla LGBTI+, geralmente significa queer e, às vezes, questioning (questionamento de gêneros)."

"Em especial pessoas mais jovens": essa identidade existe há décadas. Queer não é rejeição ou ausência de rótulos, pode ser uma outra identidade. E o grupo Questionando não é só sobre gênero, é sobre atração também.

E após todas essas explicações repletas de desinformação, colocam aquela porcaria daquele biscoitinho. E o melhor de tudo é que, além de informações também erradas, muitas contradizem tudo que foi falado anteriormente. A contradição da contradição xD. Alguém se deu ao trabalho de revisar as informações do capítulo e do infográfico?

Me recuso a comentar os conceitos. Quem chegou até aqui nem precisa disso.

"A LGBTIfobia pode ser definida como o medo, a aversão, ou o ódio irracional a todas as pessoas que manifestem orientação sexual ou identidade/expressão de gênero diferente dos padrões heteronormativos, mesmo pessoas que não são LGBTI+, mas são percebidas como tais."

Mais uma vez nenhuma menção a sexo/corporalidade, como se diadismo não existisse. Isso que colocaram o I nessa palavra horrível. Não há só padrões "heteronormativos". E sim, existe opressão maldirecionada, quando pessoas que não são da comunidade são discriminadas por serem lidas como membros dela, mas... botar essas exceções junto me deixou desconfortável - abre brecha pra dizer que hétero pode sofrer homofobia.

"Na maior parte das vezes, os fenômenos da intolerância, do preconceito e da discriminação em relação a gays (homofobia), lésbicas (lesbofobia), bissexuais (bifobia) e travestis e transexuais (transfobia) devem ser tratados não com terapia e antidepressivos, como no caso das demais fobias, mas sim com a punição legal e a educação."

Ah, então nem é doença mental? Então talvez usar sufixo -fobia não seja tão adequado? Por isso que existe a proposta de mudar os sufixos para -misia.

"É importante observar, que além da LGBTIfobia, o fenômeno da Misoginia também se manifesta neste contexto, podendo ser definida como discriminação e violência contra mulheres (cis ou trans) ou pessoas designadas como mulher."

Tá, mas para mulheres trans - que sofrem também com cissexismo - existe o termo transmisoginia. Pessoas designadas como mulher, mas todas elas? Porque se forem não-binárias, estamos falando de exorsexismo.

Bom, colocaram em seguida a definição de fobias, que não condiz com as ações envolvidas em crimes de ódio e discriminações. Decidam-se: os termos com sufixo -fobia são válidos ou não?

"Qual banheiro ou vestiário a pessoa trans deve usar? Se a pessoa se apresenta e se identifica como mulher, deve usar o banheiro/vestiário feminino, se a pessoa se apresenta e se identifica como homem, deve usar o banheiro/vestiário masculino."

Não-bináries não têm banheiro. Que bacana.

"Utiliza-se o artigo definido feminino “A” para falar da travesti (aquela que possui seios, corpo, vestimentas, cabelos e formas femininas)."

Se não tiver seios, corpo, vestimentas, cabelos e formas femininas não pode usar a linguagem a/ela/a, tá? Não tem dinheiro ou condição pra mudar o corpo? Se fodeu.

Nesse mesmo capítulo, sétimo, vem uma série de apagamentos multi e a-espectral nas partes sobre casamento e família, mas cansei de transcrever trechos. E, pelo visto, um casal aquileano ou sáfico onde uma parte é cis e a outra é trans não podem reproduzir. Fizeram questão de conceituar heteronormatividade e heterossexismo, mas não as demais opressões.

No capítulo 8 falam da rejeição ao sangue de homens aquileanos e perpetuam a ideia de que se resumem a gays. E sobre a intersecção PCD e LGBTI+, falaram bem sobre capacitismo, mas curiosamente citaram homofobia, lesbofobia, transfobia, menos bifobia.

Finalmente, capítulo 10. Não colocaram bandeiras lésbicas. Ah, quer dizer que a faixa branca da bandeira trans inclui as tais pessoas não-binárias que ninguém explicou? A faixa amarela da bandeira pan representa só três opções de pessoas não-binárias. Aham...



Engraçado que falaram que queriam mostrar terminologias mais atualizadas, porém temos referências de conceitos que são de 2006, 2007, 2009, e 2010! Me pergunto quantas comunidades foram consultadas por essas digníssimas referências?

Podia ter sido um bom manual. Infelizmente, foi péssimo. Parece que nem tentaram. Muita falta de pesquisa e de diálogo com os segmentos da comunidade. E acho grave vindo de grandes instituições que dizem estar empenhadas com a causa LGBTI+.

Sim, tem partes que prestam, como a parte de leis e direitos, pautas, sobre saúde e HIV, mas do que adianta se conceitos básicos estão contraditórios, excludentes e equivocados? Do que adianta se ainda há terminologia desatualizada e até opressiva? Melhorem!

Para quem ainda quiser o material, pode ler ou baixar aqui. (Boa sorte!)



14 de jul. de 2018

Militância ou pink money?

A maior polêmica da semana talvez tenha sido o novo clipe do artista Nego do Borel, onde o mesmo aparece vestido com roupas tradicionalmente femininas e encena um beijo com outro homem. O clipe recebeu muitas críticas e teve recepção negativa tanto da comunidade LGBTQIAPN+ quanto do público geral.

Nem tenho muito que dizer. O clipe não tem contexto, não há representatividade e sim caricaturas e estereótipos, Nego havia dias antes postado foto com um político fascista famoso, e continua mostrando apoio. Até o beijo foi forçado. Enfim, um desserviço.

Não vou ficar promovendo boicote ao clipe, e inclusive defendo o direito das pessoas de o apreciarem. Você pode gostar da obra. Apenas tenha o senso crítico sobre o efeito dela.

Tudo isso reacendeu a grande discussão sobre o famoso pink money. Várias pessoas apontaram e gritaram aos quatro ventos o oportunismo evidente do artista, além de criticar como ele usou a comunidade na produção. Outras figuras também foram adicionadas às discussões.

Tudo isso nos leva a uma questão interessante: pink money é inevitável?

Bom, toda entidade que falar sobre ou mostrar a diversidade vai lucrar com isso, de alguma forma ou de outra. O capitalismo funciona assim, não se pode escapar dele visto que estamos todes inserides nele. E a diversidade esteve chamando muita atenção atualmente, o que consequentemente a tornou alvo desse sistema.

O que realmente importa nessa questão é se essa tal entidade tem um histórico de apoio à comunidade, seja uma declaração pública, postagens nas redes sociais, reversão dos lucros para instituições focadas em ajudar a comunidade, enfim. É aí que sabemos diferenciar o oportunismo do altruísmo. E isso vale tanto para artistas de fora quanto de dentro da comunidade.

Claro que existe um critério diferente para esses dois grupos.

Pessoas de dentro são de alguma forma cobradas de fazer algo pela causa, mas não é incomum que quase toda produção seja vista com bons olhos apenas pela pessoa ser da comunidade. E quando pessoas de fora decidem ser a favor da causa, são cobradas de um ativismo que vai além de sua limitação enquanto artistas e aliadas. Precisamos nos atentar a esses detalhes para assim não darmos brecha à apropriações e não acusar injustamente de apropriações.

Ademais, e detesto admitir isso, mas até mesmo atitudes como a de Nego do Borel trazem alguma visibilidade à comunidade, pois o assunto repercutiu e gerou discussões envolvendo a diversidade e o oportunismo de artistas em relação a ela. É positivo que o tema do pink money seja abordado, então a situação não foi inteiramente ruim. Achei necessário apontar isso.

E como toda história tem vários lados, vamos para um outro: já perceberam a diferença entre as críticas e cobranças feitas às figuras periféricas e às figuras brancas ou marcas? Precisamos nos atentar a isso. Nego do Borel foi muito citado junto com Jojo Toddynho, ambes sendo atacades com uma agressividade que não é igual com outras figuras e que chega a ser um tanto desproporcional aos erros que cometeram.

Classismo, racismo e misoginia ainda existem, e podem muito bem se mesclar com críticas válidas e necessárias. Cuidado. Se policiem. Tenham autocrítica até para falar de quem está errade.



9 de set. de 2017

Pink money

Alguma vez você leu ou ouviu o termo "pink money" (lit. dinheiro rosa)?

Esse termo representa, falando de maneira bem resumida e crua, todo lucro gerado utilizando-se de alguma forma a comunidade LGBTQIAP+.

Inicialmente pesquisas apontavam que o público gay gastava mais que o público hétero-cis. A razão principal de haver renda para isso era o fato de gays não terem filhos. Então houveram empresas e organizações empenhadas em agradar esse público para gerar mais lucro. Até hoje o turismo é a maior fonte de pink money.

Quando marcas decidem ser inclusivas e mostrar apoio à causa LGBT+, elas atraem membros da comunidade e passam uma imagem positiva, o que acaba atraindo pessoas hétero-cis aliadas ou a favor da diversidade. Existem artistas e figuras públicas que seguem a mesma linha.

Estima-se que o pink money movimenta cerca de 3 trilhões de dólares no mercado mundial! Sim, é muita coisa. A causa pró-LGBT+ esteve sendo muito rentável...

Não há como negar que a promoção da tolerância por parte de indústrias e personalidades da mídia tem seus efeitos positivos para a comunidade, como aceitação e empregabilidade.

E também não podemos ignorar a questão de que os maiores movimentadores desse "capitalismo colorido" são homens cis gays brancos. Qual o problema de eles terem e gastarem dinheiro? Nenhum! Mas a prevalência deles abre discussões importantes (e ignoradas) sobre as desigualdades socioeconômicas em função de etnia e gênero.

A população negra e a população trans de modo geral ainda são muito marginalizadas e não têm acesso às mesmas oportunidades (e privilégios) que homens cis gays brancos. Onde o pink money está ajudando essas pessoas?

Além de tudo isso, a maior questão sobre o pink money é como o lucro gerado é utilizado posteriormente. Ele está apenas engordando bolsos ou sendo revertido para caridades e políticas pró-LGBT+? Ainda há muita discriminação e nem toda a comunidade está inserida nesse tal mercado LGBT+.

Por isso que incentivo a todxs a pesquisarem sobre o que empresas e pessoas fazem com os lucros conseguidos em ações pró-LGBT+. E também sobre o que fazem em prol da comunidade. Cuidado com os oportunismos!



12 de ago. de 2017

O sucesso de Pabllo Vittar

Cada vez mais a cantora drag queen Pabllo Vittar conquista seu lugar na mídia nacional e também na internacional. Uma boa parcela da população, especialmente da comunidade LGBTQIAP+, está se sentindo representada e está apoiando a artista.

Não vou discutir aqui se a Pabllo tem mesmo talento ou não. Ela está fazendo sucesso, um sucesso que tende a crescer, então algum talento ela deve ter. Gosto dela, mas não sou fã suficiente para ser intitulado de vittarlover. No entanto, preciso falar sobre ela. E defendê-la.

Ninguém consegue agradar todo mundo. Pabllo esteve sendo criticada por sua voz, por ser superestimada, pelas letras de algumas músicas e por sua contribuição a longo prazo para a comunidade. Todas as pessoas são passíveis de críticas. Porém, o que estive vendo está me incomodando e vou explicar o motivo.

Vou comentar dois casos específicos sobre as (pseudo-)críticas contra ela:

Compararam ela com Freddy Mercury, geralmente exaltando-o como um homossexual melhor, mais talentoso e mais representativo. Bom, sem entrar no mérito se Freddy era de fato gay ou bissexual (o que era possível, bissexualidade sempre foi apagada), vamos aos seguintes fatos: são duas pessoas de tempos diferentes fazendo seus ativismos. Freddy contribuiu para a comunidade. Pabllo está contribuindo para a comunidade. Ninguém é mais ou menos aqui. Não é porque Freddy agiu de um jeito que todx artista LGBT deve seguir a mesma fórmula.

Compararam ela com figuras LGBTs nacionais, como Vera Verão, Nanny People e Rogéria. Antes de tudo, essas pessoas tiveram sim um papel importante na história da visibilidade LGBT nacional. Não vou negar. Agora, todas elas têm algo em comum: são personagens de entretenimento. Quando vi essa comparação, a única coisa que entendi foi "bons tempos quando LGBTs só apareciam na TV pra gente dar risada". Melhor ainda é ver a galera reacionária fazendo essa comparação (nem se importam com a comunidade!).

Tudo isso só tem um objetivo: desmerecer a Pabllo. Só. Mais nada. Duvido que essa mesma galera tenha imensa paixão e admiração por todas as personalidades citadas.

Agora, ninguém está dizendo que a Pabllo vai revolucionar o mundo apenas com músicas e clipes e acabar com as opressões sofridas pela comunidade. Não. Até porque uma pessoa só não faz uma revolução. Mas eu, como pessoa LGBT, estarei cobrando mais do ativismo dela.

E, além disso, a Pabllo ainda está inserida num sistema capitalista. Ela precisa tomar o mesmo cuidado que artistas que se dizem pró-LGBT (como Anitta), que é não cruzar o limite entre o ativismo verdadeiro e o lucro em cima da causa LGBT (o famoso pink money).

Talvez ela esteja sendo muito exaltada pelxs fãs. Talvez esteja sendo um pouco superestimada por seu talento. Agora, ter alguém como ela sendo reconhecida no mundo é positivo para a visibilidade e representatividade LGBT. Sem contar que ela também está representando o Brasil.

O clipe Sua Cara foi gravado no Marrocos, onde é crime por lei ser homossexual. Conseguem imaginar o que é um homossexual interpretando uma drag queen e uma artista pró-LGBT gravando um clipe num país desses? Isso não é um rompimento de barreiras?

Com tudo isso e vendo os ataques que Pabllo esteve sofrendo, só posso concluir uma coisa: o que incomoda de verdade é termos uma pessoa LGBT, nordestina e que rompe padrões tendo sucesso. Com certeza há gente que não gosta da voz e das letras. Mas o incômodo maior é a pessoa dela estar ganhando espaço num meio artístico ainda predominado por pessoas hétero-cis.

As críticas sobre Pabllo estar inserida no capitalismo e as cobranças do que ela pode fazer pela comunidade são válidas. Meu ponto principal foi a importância de ter uma drag fazendo sucesso, o que isso significa para a diversidade. Estarei acompanhando a Pabllo, torcendo por sua carreira e por sua contribuição para um mundo mais tolerante.



6 de ago. de 2017

Comentando uma notícia

Faz pouco tempo uma dupla de artistas negras e lésbicas fizeram declarações polêmicas. Elas não apenas apoiaram uma figura política reacionária (famosa por ser homofóbica e racista), como também declararam que gays devem mostrar afetividade em quatro paredes.

Bem, eu nem tenho muito que comentar. É tão surreal que a gente nem consegue encontrar palavras. Sem falar sobre o que pode tê-las motivado a prestar esse imenso desserviço à comunidade LGBTQIAP+, o que elas falaram não tem como ser levado a sério. Sem contar o quanto é hipócrita da parte delas considerando todo seu histórico.

Mas o que pode levar duas pessoas de classes minoritárias a apoiarem um reacionário que não esconde seu ódio das minorias? Talvez tenha sido o que a maioria diz: desespero por uns minutinhos de fama. Sim, existem artistas que se rebaixam a níveis subterrâneos por um pouco de atenção.

Agora, considerando que elas realmente apoiam o sujeito, o que posso dizer? Sinceramente não sei dizer como duas mulheres negras e lésbicas possam aderir a uma ideologia política que as oprime, que as segrega, que quer tirar/privar direitos básicos. No entanto, não é novidade que existem pessoas da comunidade que são conservadores e contra a esquerda/o progressismo.

Lavagem cerebral? O oprimido aceitando sua condição de oprimido? Medo de enfrentar os sistemas de opressão? Como o conservadorismo pode seduzir uma de suas vítimas? Síndrome de Estocolmo?

Acho que (e eu falo por mim também) a esquerda atual deva começar a rever o que ela pode estar fazendo de errado (não apenas com as minorias). Agora, o que fazemos com as duas? Ignoramos. Apenas isso. Não as ataquem de forma alguma. Deixem que vivam de acordo com as consequências de seus atos. A luta da comunidade LGBTQIAP+ continuará. Por elas, inclusive.



22 de jun. de 2017

Parada LGBT 2017

"Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todas e todos por um Estado laico."

Essa foi a máxima do tema da Parada LGBT de 2017.


Optei por não ir nessa Parada. Mas tive a oportunidade de ter um contato maior com a APOGLBT, a organização da Parada LGBT no Brasil. Mês passado fui no Ciclo de Debates promovido pelo grupo e tive um conhecimento maior sobre como a Parada é organizada.

Esse ano o tema foi Estado Laico. O que é muito pertinente em relação ao nosso quadro político atual; a bancada evangélica no Congresso é uma constante ameaça aos direitos de minorias sociais e ao progresso do país.

A Parada LGBT é um evento cultural e uma manifestação político-social. A festa desse ano prometeu muita cor e muita música. Tivemos a presença de Anitta, Pabllo Vittar, Daniela Mercury e Leandra Leal. E foi prometido um número maior de participantes do que na Parada anterior. O clima também favoreceu o evento.

(Uma faixa com a primeira bandeira LGBT)

Certas marcas decidiram oferecer patrocínio, entre elas Doritos e Skol. Descobri que parte do dinheiro arrecadado na Parada foi revertido para instituições como a Casa 1, que acolhe LGBTs em situação de rua.

No entanto, ainda devo questionar toda empresa grande que decide mostrar apoio a causa LGBT e fazer discurso de inclusão. Colocar arco-íris em seus produtos e dizer umas palavras bonitas são atitudes até positivas para a causa. Mas essas mesmas empresas estão garantindo também empregabilidade de LGBTs, especialmente para transexuais, travestis, e todo grupo da periferia?

Não devemos deixar que usem a causa LGBT como um recurso para apenas conseguir dinheiro e criar uma boa imagem. Isso é desonesto. Patrocinar é algo fácil de fazer. O que a comunidade LGBT+ mais necessita de empresas grandes e ricas é de empregabilidade. Espero que as empresas que coloriram seus produtos esse ano tenham isso em mente.

Quero ressaltar que não importa quantas críticas eu faça, sempre apoiarei a existência da Parada LGBT. Ela é uma conquista da comunidade LGBT+ e como tal deve ser mantida. As falhas e a visibilidade mais G que LGBT+ que aponto antecedem a ela.

Por hoje a festa acabou, mas nossa luta não.



5 de mar. de 2017

Disney e o beijo gay

Acho difícil alguém não ter visto essa "polêmica" (por que deveria ser polêmica?). Mas vamos lá: um desenho da Disney chamado Star Vs. as Forças do Mal mostrou a primeira cena de um beijo gay numa animação do estúdio Disney.

A Disney finalmente atendeu ao pedido da comunidade LGBT por visibilidade e representatividade. A inclusão de casais homoafetivos em animações infanto-juvenis também serve para mostrar a diversidade e naturalizá-la às crianças, além de acolher crianças LGBTs.


Embora o primeiro beijo gay tenha sido o maior foco, houve também outros beijos entre casais homoafetivos entre uma maioria de casais heteroafetivos. Percebe-se também uma diversidade de etnias e idades entre os casais.


E, como de praxe, um certo pastor evangélico (cujo nome me recuso a pronunciar) deu mais um show de ódio e escândalo soltando ofensas contra a Disney e convocando seus seguidores a boicotar a empresa.

Seu posicionamento, segundo suas palavras (e sua falta de lógica), era que o beijo gay estava "erotizando" as crianças e estava "ensinando educação sexual". Desde quando beijar é sexo? Desde quando beijar é erótico? E se fossem só casais heteroafetivos, a regra seria a mesma?

Não vou me prolongar sobre as incoerências fundamentadas na extrema homofobia deste pastor porque nem vale à pena. Ele sozinho faz um ótimo trabalho se contradizendo, distorcendo as coisas e mostrando que amor cristão é o que menos tem. Só digo isso: a Disney está pouco se fudendo para os gritos e ameaças desse indivíduo.

Parabéns a Disney pela iniciativa. Que venha mais visibilidade e representatividade LGBT nas animações, para que as crianças aprendam sobre a diversidade e se tornem pessoas melhores que esse pastor.

Muitos beijos em suas vidas!



21 de dez. de 2016

MasterChef 2016

Esse ano teve um MasterChef para cozinheiros profissionais. O público foi presenteado com polêmicas que até então não haviam ocorrido. Embora eu tenha minhas dúvidas sobre o profissionalismo dos participantes, focarei num tema que foi muito presente nessa temporada: machismo. Especificamente, machismo na cozinha profissional.

Ao longo da temporada ocorreram momentos de tensão e agressividade entre participantes que evidenciaram uma discriminação de gênero, principalmente contra a candidata Dayse, que no fim saiu vitoriosa da temporada, recebendo muito apoio nas redes sociais.

Ontem teve um episódio especial de "lavagem de roupa suja", que conseguiu ser tão polêmico quanto a temporada inteira. E o machismo foi muito abordado. Quase todos os participantes estavam lá. O pior deles foi mostrado num telão, forçando-os a darem esclarecimentos para seus colegas, para a Ana Paula Padrão e seus críticos, e o público. Por sinal, adorei o posicionamento suave e ao mesmo tempo firme da Ana Paula sobre o machismo.

Esse episódio mostrou a ignorância dos homens sobre feminismo, a resistência deles em admitir seus atos machistas e ainda tentar justificá-los, e como ainda é difícil apontar esse preconceito. Tentaram explicar, tentaram distorcer, mas só revelaram mais sobre seu caráter. Diversas vezes os homens interrompiam a fala das mulheres. Ana Paula repreendeu o candidato Marcelo num momento por isso.

Outras coisas foram jogadas na roda, como a arrogância do candidato João (que desacatou a Chef Paola) e o quanto os candidatos são contraditórios em suas opiniões. O candidato Dario fez uma grave acusação ao programa, dizendo que a edição distorceu suas falas. E Marcelo incorporou o "omi hétero-cis" que não sabe perder e pensa que tudo hoje em dia é "mimimi".

Dayse e a candidata Fádia tentaram falar da discriminação sem acusar seus colegas machistas de machismo. Acredito que elas estavam com medo de fazer tal acusação. Mas a candidata Izabela tomou coragem e apontou sem dó o machismo que existe na cozinha profissional. Todxs que acompanharam a temporada puderam ver o desrespeito e subestimação da mulher por parte dos homens. Só não enxerga quem não quer.

Enfim, com toda essa exposição do ego masculino e as controversas em geral dos participantes, essa enorme e calorosa discussão teve um efeito positivo. Pelo menos eu vejo dessa forma: discutir machismo num programa de TV popular é um grande passo. Teve repercussão e incomodou. Quando incomoda é porque está dando certo. E espero que o programa sirva de inspiração e incentivo às mulheres da cozinha profissional.

Como Izabela falou uma vez: "mulher é cozinheira e homem é chef". Isso ainda é uma realidade. E precisa mudar. Essa temporada serviu para provar isso. A cozinha profissional precisa do feminismo.



21 de mai. de 2016

Vamos boicotar!

Recentemente uma ilustre figura evangélica (tinha que ser, né) expressou sua igualmente ilustre opinião sobre uma marca de roupa, a C&A, ter quebrado os papeis de gênero em seu novo comercial.

E justamente por isso essa figura decidiu promover boicote a tal marca.

Então vamos boicotar toda marca, empresa ou instituição que apoia a diversidade sexual e de gênero? Ok! Nesse caso, vamos ajudar.

Boicote também o Google, o YouTube, o Facebook, a Microsoft e a Apple. 
Nem pense em dirigir carros da Fiat, Chevrolet ou Renault. 
Espero que seu smartphone não seja nenhum do sistema android (Samsung, LG, HTC, Motorola).
Não coma no MacDonald's ou no Burger King (também não são saudáveis hahaha). E nem beba Coca-Cola ou Pepsi (faz bem pra saúde também).
Ah, e não use nada da empresa Unilever, o que inclui Omo, Knorr, Rexona, entre outras centenas de marcas (procure todas certinho depois, faça uma lista para não esquecer).
E se o Brasil estiver colorido demais pro seu gosto, contrate uma linha aérea que não seja a Gol. E faça boa viagem!

Se sobrou alguma marca de computador para usar, desista; os computadores existem graças a um gay e ~pasme~ ateu.

Brincadeiras à parte, boicotar por causa de apoio LGBT é uma babaquice tremenda. Cada vez mais empresas e marcas mostram apoio a causa, então... bem, boa sorte em parar de usar quase tudo que você usa no cotidiano.

O mundo está ficando difícil para quem tem preconceito, né? ^^

E vale lembrar que não devemos exaltar as empresas e marcas pelo apoio. Elas fazem isso mais pelo marketing do que por altruísmo. De qualquer forma é bom para a representatividade LGBT! Está tendo e terá cada vez mais!



3 de fev. de 2016

Comentando sobre o BBB16

Eu gostaria de nunca ter que precisar fala de Big Brother Brasil. Detesto o programa e prefiro fingir que esse show de futilidade não existe. Mas os últimos acontecimentos me forçaram a escrever este artigo.

A polêmica da vez é sobre um homem de 53 anos chamado Laércio. Um pouco depois dos participantes serem anunciados, houve nas redes sociais uma denúncia sobre este homem ter abusado de moças adolescentes, acusações de pedofilia. O próprio declarou ter duas namoradas, uma de 19 e outra de 17 anos, e até afirmou embebedar moças para "pegá-las". Sem contar que seu Facebook mostrou mais de sua verdadeira face - uma paixão estranha por armas de fogo, uma página suspeita sobre nazismo, e ele até mostra orgulho de ser branco...

Por mais que este homem seja evidentemente de péssimo caráter, temos que lidar com um fato: por lei, ele não é pedófilo. Ele é, na verdade, efebófilo. Comentei sobre a diferença entre esses dois conceitos num artigo. Porém, mesmo não sendo crime por lei, efebofilia deve ser problematizada, e este caso é a prova disso. Sinto muita vergonha de não ter enfatizado isso no outro artigo.

Pela lei do Brasil, o sexo consentido começa a partir dos 14 anos. Então assim que fazemos 14 anos estamos disponíveis para relação íntima com qualquer pessoa até os 18 e dos 18 em diante. Hm... pera aí! Hora de problematizar!

Há um número considerável de pessoas que tiveram tal experiência: relação com alguém maior de idade quando tinham menos de 18 anos. Os relatos variam de uma relação aceitável para uma relação abusiva. Quem fala bem pode chegar a comentar sobre ter que "enfrentar" a maturidade vinda da outra parte. Talvez seja uma consequência natural. E quem, infelizmente, relata uma experiência negativa revela opressão de várias formas. A parte mais velha domina e manipula, sem dó, causando um sofrimento psicológico na parte mais nova durante toda a relação, em alguns casos até agredindo.

Não basta apenas a idade biológica; a idade mental também é importante. Quantxs jovens por aí têm quase 18, mas na cabeça parecem ter 12? Até mesmo quem já passou dos 18! Essas pessoas estão realmente preparadas para uma relação com alguém de maior experiência? Imaturidade pode ser perigosa aqui...

A pergunta mais intrigante aqui deve ser esta: o que alguém de maior maturidade busca numa pessoa mais jovem, mais nova? O que um homem de mais de 50 busca em moças de menos de 18? Já pararam para refletir sobre isso? Não me venha com romance ou com "amor não tem idade", pois as relações abusivas mostram o lado obscuro da coisa.

Não existe sentimento quando um homem procura uma moça ingênua e inexperiente. Está claro que ele não quer uma companheira; quer alguém que sirva às suas vontades e que possa ser controlada. E não dá para ignorar a forte influência do patriarcado nessa questão, que desde sempre tenta moldar as mulheres para serem submissas e os homens para serem abusivos. Existe até pornografia que retrata homens mais velhos transando com moças de aparência bem jovem, com vestidinhos e cabelos presos com fitas. Conseguem ver a depravação do nosso patriarcado? O mesmo patriarcado que coloca tais ideias na mente da população como se fossem normais!

Com tudo isso, posso afirmar que relações efebófilas podem ser muito complicadas. Deve haver interferência de responsáveis quando adolescentes querem entrar numa relação dessas, ainda mais com uma imensa diferença de idade. E reforço que em toda relação deve haver maturidade de todas as partes. A falta dela pode abrir porta para uma relação abusiva baseada em dominação e manipulação. E sinto lhes informar, o mundo está cheio de homens (adultos e velhos) procurando jovens para isso. Cuidado, gente!

Além de toda essa problematização, o próprio Laércio admitiu em rede nacional que tocou em moças embriagadas por ele, o que é um crime! Sim, uma pessoa com esse perfil está namorando uma menor de 18. Ninguém acha isso, no mínimo, absurdo? Ver uma pessoa dessas solta por aí e ainda participando de um programa de TV revela mais sobre a realidade podre desse país. Sem contar as pessoas que levantaram bandeira a favor desse louco. Triste, mas é o Brasil atual.