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19 de dez. de 2018

Terminologias problemáticas na saúde

AC: saúde, ISTs, estigma, linguagem excludente, cissexismo, monossexismo, diadismo.



Eu descobri que adoro a área de prevenção. Nunca tive tanto contato como estive tendo desde ano passado. É uma área muito rica e ao mesmo tempo necessitada de pessoas.

Porém a área da saúde ainda utiliza termos problemáticos, critérios questionáveis para avaliações, e fazem uns formulários ruins. Já critiquei muito concepções médicas atuais, e aqui não poderia ser diferente, ainda mais no Brasil onde a informação é precária.

Camisinha masculina e feminina ainda são termos muito usados e disseminados para falar de preservativos penianos e vaginais. Eu e mais um tanto de pessoas estivemos tentando desconstruir isso, apontando a importância de incluir pessoas trans e o quanto não faz sentido chamar um objeto por palavras subjetivas.

Quando falam em populações mais vulneráveis segundo as estatísticas de infecção, ainda se usa por aí "grupos de risco". Colocar essas populações nessa posição só coopera com o estigma e enxerga toda a complexidade da situação de forma simples. Não é a existência das pessoas que as colocadas em riscos específicos, apenas suas práticas sexuais.

Ainda separam muito esses grupos em: gays, HSH, travestis e transexuais, profissionais do sexo e usuáries de drogas. Focando nas pessoas da comunidade, não é difícil notar que quando falam "gays" estão falando apenas de homens cis, e muito possivelmente colocando todos os homens aquileanos como gays.

O termo HSH poderia não ser problemático, pois é um termo que define apenas um homem que teve relação com outro homem sem rotulá-lo com alguma identidade sexual. Mas, na prática, é um termo que só se refere a homens cis. E há relatos de mulheres trans e travestis sendo colocadas nesse grupo. O mesmo ocorre com MSM, termo para as mulheres e muito pouco citado, como se mulheres sáficas sexualmente ativas não tivessem seus riscos.

Existem formulários, como um que preenchi para pegar um autoteste de HIV, que são feitos para auxiliar no levantamento de estatísticas de infecção e vulnerabilidade e acesso à saúde. No entanto, acho questionável como exatamente utilizam nossas informações; gênero/sexo e atração.

Parece que dizer que você é um homem e que se relaciona só com homens é o suficiente para pressupor todas as possibilidades de infecção que você tem. Frequentemente os discursos que vejo/ouço fazem parecer que ser um homem aquileano é sinônimo de praticante de sexo anal.

Assim, se querem realmente avaliar riscos e falar sobre eles, deveriam focar nas práticas sexuais em si, não em pressuposições baseadas em gênero/sexo e atração. Mesmo que um homem cis diga que se relaciona com homens, ele terá riscos diferentes de acordo com a anatomia da outra pessoa e com sua modalidade de sexo. Ele pode: praticar sexo anal (fazendo um ou ambos papeis), praticar sexo vaginal (com um homem trans), praticar gouinage, enfim.

Separar pessoas travestis e trans de pessoas cis também não faz sentido em relação a práticas sexuais. Corpos diferentes têm probabilidades diferentes, e, novamente, tudo depende das práticas sexuais. A mulher trans operada pode transar com a vagina apenas, a travesti pode ser apenas passiva em relação anal, o homem trans pode fazer apenas sexo oral, etc. Claro que discussões mais amplas sobre esses segmentos levam em conta contextos sociais. Mas, ainda assim, a medição de riscos só depende das relações praticadas.

E, além de tudo isso, continuo sem ver qualquer material sobre ou preocupação com a população intersexo. Conhecemos bem os riscos trazidos pelas vias oral e anal, sabemos os riscos nos órgãos peniano e vaginal. Mas qual o risco das genitálias intersexuais? Tem alguém em algum lugar pesquisando isso? Saúde é para todes, né?

Não quero soar arrogante e que sei muito mais que todes es profissionais da saúde. Estou apenas questionando os termos e métodos que usam para coletar e disseminar as informações. Se bem que, profissional ou não, continuaria tendo o direito de questionar. Não é absurdo pensar que a área da saúde está equivocada, afinal ela é formada por seres humanos.

Enfim, essas foram minhas pontuações sobre a área da saúde. Quando eu puder também divulgarei aqui materiais inclusivos sobre prevenção e saúde.



27 de jun. de 2018

De novo sobre aborto

Retorno com este tema porque foi muito discutido recentemente nas redes sociais. Deputades da Argentina aprovaram o projeto de legalização do aborto, que agora será analisado pelo Senado. O aborto é permitido no país apenas em casos de estupro ou risco à vida de gestante.

E com isso a discussão sobre a legalização do aborto ganhou força nas redes sociais, iniciando mais uma briga entre os polos a favor e contra o procedimento. Já falei sobre o tema aqui no blog. E sim, essa briga já ocorreu outras vezes, mas dessa vez queria apontar outras coisas.

Pessoas que defendem a legalização costumam falar muito sobre o "aborto masculino"; ou seja, quando a figura paterna decide não assumir o bebê. É problemático chamar abandono e fuga de uma responsabilidade como essa de "aborto masculino". 

Primeiro porque abandono realmente gera danos tanto ae gestante quanto à criança, enquanto aborto não faz nada disso. Segundo porque homens cis literalmente não abortam, e aborto não é feito somente por mulheres cis.

Mais uma vez a defesa veio falando que "somente quem tem útero pode opinar". Eu também repeti esse discurso e me fizeram perceber o quanto estava errado. E refleti depois sobre. 

Dizer que só pessoas com útero podem opinar exclui automaticamente mulheres cis/ipso sem útero e mulheres trans, o que seria bem contraprodutivo. Na verdade, todes opinar. Todes mesmo. As pessoas têm de fato a liberdade de ser a favor ou de ser contra. O problema é como se expressam.

A legalização do aborto não é uma mera questão de opinião, é uma questão de saúde pública. E sim, diz respeito unicamente a pessoas que possam engravidar; só elas são alvos dessa situação.

Mas mesmo que você seja contra, reconhecer essa questão como um tema social e que pode ser necessidade de outras pessoas é suficiente, pois demonstra empatia e consciência. Não podemos exigir que nossos posicionamentos pessoais sejam regra para todo mundo. E o mesmo vale especialmente para as mulheres que escolheram ter sues filhes numa gravidez indesejada ou após um estupro.

E nesse episódio teve um acontecimento inusitado: prints de conversas de homens rejeitando a gravidez das mulheres. As conversas revelaram o quanto homens podem ser hipócritas, imaturos, irresponsáveis, agressivos e misóginos. Um tapa na cara de quem joga toda a culpa da gravidez na parte gestante, e de quem diz que as pessoas engravidam só pra receber pensão (que muitas vezes nem compra todos os recursos usados mensalmente por um bebê).

Vou continuar defendendo a legalização, vou continuar apoiando como posso, e vou continuar torcendo para que o Congresso reconheça e valorize essa questão.



25 de jun. de 2018

Transexualidade e a OMS

Há uma semana o mundo teve uma grande notícia: a OMS retirou a transexualidade de seu catálogo de doenças mentais. Ela publicou seu novo CID (Classificação Internacional de Doenças) e nele a transexualidade não é mais um "transtorno de gênero".

No entanto a CID-11 a coloca como uma "incongruência de gênero", uma condição relacionada com a saúde sexual. 

A justificativa para isso é continuar permitindo o acesso aos serviços de saúde específicos para pessoas que queiram transicionar; principalmente a cirurgia de redesignação sexual. Isso revela que ainda existe toda uma burocracia - sustentada pelo cissexismo - sobre o que as pessoas podem ou não fazer com seus próprios corpos.

Claro que é um avanço a OMS reconhecer que pessoas fora da cisnorma não são doentes mentais, mas os corpos trans ainda não têm total liberdade. Vejam a diferença que ocorre entre pessoas querendo transicionar e pessoas cis que queiram colocar silicone ou aumentar o pênis.

A nova CID entrará em vigor no primeiro dia de 2022, o que significa que até lá todos os países que aplicarem a CID-11 devem se adaptar a essa mudança. Isso deverá destruir toda e qualquer brecha para pessoas e instituições que ainda tentam "curar" pessoas trans.

Talvez isso ainda não melhore a situação de pessoas trans em certos países que ignoram completamente as palavras e decisões da OMS. Mesmo em países que seguem a CID atual ainda há casos de terapias de conversão para heterodissidentes. Porém... é alguma coisa, ainda mais considerando que foram longos 28 anos após a despatologização da homossexualidade para que algo assim acontecesse.

A luta da comunidade trans continua.



23 de dez. de 2017

Precisamos falar de HIV

Precisamos falar sobre HIV. Ou melhor, precisamos voltar a falar mais sobre HIV. O vírus ainda existe, há milhares de pessoas vivendo e convivendo com ele, temos epidemias e índices de infecção que necessitam de análises para assim formularmos medidas de prevenção e adesão ao tratamento. Muita coisa? Então vamos com calma.

Não quero que o artigo seja uma chatice com informações científicas e parecendo apenas uma cartela de posto de saúde. Mas devo antes passar uns conceitos básicos, visto que uma grande parte da população geral é muito alheia ao assunto.

Primeiramente, HIV e AIDS não são a mesma coisa. O HIV é o vírus. A AIDS é a doença causada pelo vírus quando não há tratamento adequado. Embora ainda haja muita infecção por HIV, cada vez mais o número de pessoas com AIDS tem diminuído. Isso se deve aos tratamentos modernos e à adesão a eles.

Pessoas vivendo com HIV são aquelas infectadas com o vírus. As pessoas convivendo são aquelas não infectadas e que têm relações (amorosas, familiares, fraternas, sociais etc) com pessoas HIV+. Em primeira instância, mesmo que haja suspeita de infecção, toda pessoa é alguém convivendo.

Muita gente, mesmo quem nasceu na década passada, ainda tem uma ideia antiquada de uma pessoa soropositiva. O estigma da década de 1980, quando sequer existia os tratamentos que temos hoje, ainda perdura.

O tema do HIV está pouco falado. E quando se fala, o maior erro que costumam cometer é dar mais ênfase à infecção do que às pessoas. Elas não são o vírus, nem um exame médico ou uma contagem de células de defesa!

Esse ano mesmo tive a maravilhosa oportunidade de entrar em contato com grupos e organizações cujo foco é o HIV e pessoas vivendo e convivendo. Há diversas entidades como UNAIDS Brasil, GIV (Grupo de Incentivo à Vida), Associação Civil Anima, Koinonia Presença Ecumênica e Serviço, Pela Vidda, Fundação Poder Jovem, Conexão Positiva, entre outras. A causa HIV+ é um dos assuntos que estive devendo aqui no blog, e agora abordarei mais. Não apenas para enriquecer o conteúdo, mas também para que aqui seja um espaço incluso para as pessoas soropositivas.

Os medicamentos avançaram tanto que há pessoas que podem tomar apenas um e ter bem menos efeitos adversos. Foi comprovado que pessoas com uma carga viral (presença do vírus nas células) indetectável - ou seja, extremamente baixa - por seis meses não pode transmitir o vírus através de relações sexuais. É realmente gratificante perceber que o tratamento está se aprimorando e dando chance às pessoas soropositivas de terem uma vida saudável e plena assim como as soronegativas.

Isso não resolve o problema! Devemos nos atentar ao lado humano. Não somos apenas um corpo físico e saúde não é apenas bem-estar do organismo. A população soropositiva ainda lida com preconceito e discriminação (sorofobia) e conflitos internos com a aceitação, que é um fator importante na adesão ao tratamento e na vida individual e social. Lidar com esse lado humano tem sido uma prioridade também, assim como a tão sonhada cura do HIV.

O estigma, fundamentado na falta de conhecimento, faz com que pessoas soropositivas fiquem desconfortáveis em assumir a sorologia em público, que não mantenham relacionamentos pelo medo da rejeição, que tenham receio de serem julgadas e vistas como promíscuas e sem auto-cuidado, e entre outros efeitos nocivos que prejudicam a qualidade de vida. E a melhor arma contra estigmas é justamente o conhecimento.

E por isso elas precisam ser ouvidas, suas pautas precisam ser atendidas. O HIV precisa ser discutido constantemente, e não mencionado apenas em época de carnaval ou no mês de dezembro. A população geral necessita de campanhas de conscientização e acesso à informação. É um trabalho árduo, mas a iniciativa pode vir de todxs nós.

Sobre dezembro, o mês é conhecido como Dezembro Vermelho em referência ao laço vermelho, símbolo do combate ao HIV/AIDS e que representa solidariedade e comprometimento com a vida. O dia 1 de dezembro é o Dia Mundial de Combate a AIDS, feito para conscientizar sobre as pandemias do vírus e suas vítimas.

HIV não é de interesse exclusivo de pessoas soropositivas e nem da comunidade LGBTQIAP+. É uma questão de saúde. E a saúde é de interesse da humanidade. Precisamos conscientizá-la disso. Novamente, precisamos falar de HIV.

(O símbolo internacional criado em 1991)