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9 de jul. de 2018

Problematizar demais?

Já ouviram alguém dizer pra outra pessoa que ela "problematiza demais"? Já te disseram que você "problematiza demais"? Já disse que alguém "problematiza demais"?

Se tem uma coisa que aprendi por experiência é que não existe isso de "problematizar demais".

Nunca vi uma problematização que era demais. O que vi até hoje foram problematizações que ou não tinham coerência em suas ideias, ou que partiram de um ponto errado por equívoco ou falta de informação da própria pessoa.

Muita gente fala que certas problematizações são demais, mas curiosamente nunca souberam explicar precisamente onde está o exagero. Explicar isso poderia muito bem gerar debates produtivos principalmente no caso das problematizações incoerentes.

Vivemos num mundo repleto de opressões tão estruturadas, enraizadas por todo lado, além de termos todas essas opressões internalizadas, e a socialização nos molda para sermos tanto opressories quanto oprimides, e enxergar uma naturalidade em ambas as posições.

Considerando tudo isso, com qual propriedade podemos afirmar que uma problematização é exagerada, ainda mais quando ela se refere a um grupo oprimido que nem fazemos parte?

Se uma pessoa sente necessidade em problematizar algo, ela deve ter algum motivo. Se ela percebe algo de errado e investe tempo e esforço para analisar e explicar porque algo está errado, isso deve ser respeitado. E as pessoas não gastam energia à toa com um assunto muito ignorado, nem falando algo que uma maioria pode facilmente invalidar.

O mínimo que podemos fazer é tentar compreender a ideia. Não entendeu? Pergunte. Continua sem te fazer sentido? Pense no que levou aquela pessoa a ter essa ideia.

Essa história de "problematizar demais" já foi muito usada para deslegitimar ideias que realmente apontavam uma ou mais opressões, vinda principalmente de pessoas que nem eram alvos dessas mesmas opressões (coincidência, né?). Por isso deve-se tomar cuidado com essa frase.

Você tem todo direito de achar que uma problematização não faz sentido ou não te acrescenta em nada. Agora, se achou demais e expressou essa opinião, ao menos tenha a decência de explicar. Você pode esclarecer alguém ou mesmo ser esclarecide.

E sobre pessoas que constantemente soltam essa pérola e não mostram abertura para discussão, recomendo distância. Quem não se esforça para entender não merece atenção.



25 de mar. de 2018

Aquelas microagressões do cotidiano

Uma microagressão é entendida como frases, comportamentos e atitudes que demonstram um pensamento preconceituoso ou normativo numa escala considerada menor, quase sempre cometida sem a real intenção de discriminar.

Mas toda microagressão ainda é uma manifestação dos sistemas opressivos, e por isso precisam ser combatidas. Logo abaixo colocarei as mais comuns cometidas contra a comunidade LGBTQIAP+ (por pessoas de dentro e de fora dela).

- Presumir qualquer característica positiva de pessoas da comunidade.
Que gays são inteligentes, que pessoas bi têm "muitas opções" de parceires, que assexuais e arromântiques não sofrem por relacionamentos ou por amor, enfim, só parem. Enquanto algumas ideias são equivocadas e ofuscam opressões, há outras que mostram cobranças sociais para "compensar" o fato da pessoa estar fora dos padrões.

- Questionar por que a pessoa tem certo gosto ou faz tal coisa só por ela ser [insira o grupo].
Pessoas são pessoas, tá? Orientações, gêneros e sexos biológicos não vêm com um pacotinho de preferências, tendências, aptidões, etc. Isso é só reforçar estereótipos.

- Duvidar da orientação e/ou do gênero da pessoa por qualquer motivo.
Se a pessoa está afirmando que é de tal grupo ou identidade, só podemos dar um voto de confiança e acreditar. Não temos como saber orientação e gênero das pessoas, não temos como entrar na cabeça delas pra "confirmar". E garanto que pessoas não saem por aí afirmando serem de uma classe oprimida sem motivo.

- Falar que algo da comunidade virou "modinha".
Sim, é muita modinha pertencer a uma comunidade discriminada, ter sua existência apagada, sofrer agressão física, ser privade de direitos básicos, etc.

- Não aceitar determinada identidade por ser "desconhecida" ou "confusa" e exigir que a pessoa se identifique com algo mais comum.
As pessoas precisam urgentemente entender que identidades são criadas para descrever experiências. E que nem todes têm experiências que se encaixam em identidades "mais populares". Exigir que aceitem identidades já prontas é apagar a diversidade e um desrespeito imenso com a pessoa.

- Conversar com um homem ou uma mulher já pressupondo que são héteros ("tem namorada?" / "gosta que tipo de homem?").
Muito heteronormativo. Não existe só hétero no mundo. Supere. E não, não venha com as desculpas "a maioria ainda é hétero", "é mais provável que seja hétero", "a pessoa não vai se ofender por ser confundida com hétero", entre outras.

- Negar uma discriminação relatada por alguém ou achar que seu sofrimento é "exagerado" porque conhece uma pessoa que não passou por isso/não é atingida pelo preconceito.
Bom, vou começar admitindo uma coisa: não, nem toda pessoa LGBTQIAP+ do planeta Terra é discriminada todo santo dia e de uma forma violenta. Agora, vamos aos fatos: a) essas pessoas são uma minoria; b) cada pessoa lida com preconceito de formas diferentes e isso deve ser respeitado; c) pessoas discriminadas costumam omitir seu sofrimento ou parecer que nada as ofende para lidarem melhor com a opressão. E essa cartada de "amigue que não sofre preconceito" é uma das várias formas de invalidar opressões existentes. Pare, só pare.

- Perguntar para gays e lésbicas se já se relacionaram com, respectivamente, mulheres e homens para "ter certeza do que são".
Resquício daquela ideia bizarra de que a heterossexualidade é a sexualidade padrão e que o resto só se desvia dela. Por que não fazem a mesma pergunta para héteros?

- Achar que todo homem afeminado é gay e que toda mulher bofinho é lésbica.
Expressão de gênero não tem a ver com orientação sexual. E é muito normativo julgar as pessoas pela expressão delas.

- Afirmar que todo homem acompanhado de um homem gay ou toda mulher acompanhada de uma mulher lésbica são sues parceires/ficantes/namorades.
Sabiam que gays e lésbicas também fazem amizade com pessoas do mesmo gênero?

- Ficar perguntando para as pessoas, principalmente gays, como elas transam.
A vida íntima alheia não é pública!

- Separar gays (cis) em ativos ou passivos, e ainda de acordo com a expressão (masculino, ativo; feminino, passivo).
É tão normativo que nem sei por onde começar, e infelizmente é algo cometido entre gays com frequência. Além de nem considerar versatilidade e gouinage, esse pré-julgamento tem uma base heteronormativa, associando "homem" com "dominância" e "mulher" com "submissão". E esse mesmo princípio faz com que pessoas hétero-cis perguntem para casais de homens e de mulheres "quem é o homem e quem é a mulher da relação".

- Brincar com gays e lésbicas como se elus tivessem repulsa de, respectivamente, vagina/mulheres e pênis/homens.
Orientação sexual não implica em ter repulsa a um gênero e/ou uma corporalidade. E os "nojos" de certas genitálias vindo de gays e lésbicas cis revelam cisnormatividade e diadismo de suas partes.

- Presumir a orientação sexual das pessoas e só pensar nas opções: hétero ou homo.
Existem pessoas que sentem atração por mais de um gênero, tá?

- Perguntar para pessoas bi se elas são "mais homo" ou "mais hétero".
Elas são bi apenas. Parem de usar atração hétero ou homo pra medir bissexualidade!

- Duvidar da existência das atrações fluídas, principalmente a sexual.
Outra forma de contribuir com o monossexismo, como se não fosse possível existir atração por mais de um gênero, mesmo que essa atração seja temporária.

- Dizer que orientações multi são "basicamente bi" ou que "só existe hétero, homo e bi".
A maior opressão aqui é o exorsexismo, pois coloca pessoas não-binárias como homens e mulheres, e que, portanto, só existe atração por dois gêneros (e isso também porque ainda consideram bi como atração apenas por bináries). E apaga uma diversidade de experiências que saem do padrão binário.

- Ficar perguntando para mulheres e homens trans se elus já fizeram cirurgias genitais.
As virilhas alheias não são públicas!

- Dizer para mulheres e homens trans que "nem parecem trans".
Não é elogio. É agressivo, inclusive. É escroto. Coloca ser trans como um tipo de falsificação e que "parecer cis" é o objetivo das pessoas trans.

- Resumir pessoas com pênis a homens e pessoas com vagina a mulheres.
Isso é cisnormativo com homens e mulheres trans que não têm disforia com as genitálias, diadista com pessoas intersexo com genitálias diferentes de pênis e vagina, e exorsexista com todas as pessoas não-binárias.

- Perguntar sobre a genitália de pessoas intersexo.
Novamente, as virilhas alheias não são públicas. Além disso, nem toda intersexualidade tem variações na genitália.

- Perguntar para assexuais se já transaram ou tiveram interesse em sexo.
Isso é claramente a vida privada das pessoas. E mesmo que algumas possam responder tranquilamente, existem assexuais que não gostam nem de falar de sexo. Respeitem!

- Presumir que toda pessoa é alo.
Olha a pessoa e já imagina que ela deve ser alguém sexualmente ativa e/ou procurando o amor da vida dela. Não, nem toda pessoa é assim. Supere.

- Afirmar que "é bom" ser do espectro A porque a pessoa "não sofre por sexo, relacionamentos ou amor".
Pode não aparecer, mas é um pensamento normativo, pois presume que: assexuais não podem transar, arromântiques não se relacionam, e pessoas do espectro não amam por não sentirem atrações sexual e/ou romântica. Amor é um sentimento amplo e não acompanha necessariamente sexualidade e romanticidade. Pessoas A ainda têm sentimentos!

- Achar que viver sem sexo e/ou sem namoro é uma vida infeliz ou incompleta.
A vida é muito mais do que sexo e namoro. Pessoas A podem ser felizes e completas sem nada disso, sem nem ao menos experienciar essas coisas. Pergunte a elas ao invés de usar sua realidade como parâmetro para todes.

- Dizer que não-bináries são "basicamente homens/mulheres" por causa de suas corporalidades e/ou apresentações.
Genitálias e roupas não definem o gênero da pessoa! Não-bináries são basicamente não-bináries. Sempre. A todo momento. Com qualquer corpo e apresentação.

- Duvidar que é possível sentir atração por não-bináries sem encaixar essas pessoas em homem ou mulher.
É um pensamento extremamente exorsexista, pois continua apagando as identidades n-b e reafirma que as pessoas só conseguem enxergar dois gêneros.

- Ditar como pessoas não-binárias devem parecer.
Não, elas não são obrigadas a ter aparência andrógina. Elas não têm que parecer fora da norma, é a norma que tem que deixar de existir.

- Impor que não-bináries usem somente as linguagens o/ele/o ou a/ela/a.
A língua portuguesa foi moldada de uma forma exorsexista, feita apenas para homens e mulheres. E os dois conjuntos foram feitos para esses dois gêneros. Aceitar essa norma é contribuir com a cisnormatividade. Assim como muites transgridem as normas vestindo o que querem e mostrando afeto em público, questionar e desafiar a língua também é válido.

- Falar "todas e todos" como se incluísse todes.
De novo, nem todas as pessoas usam as duas linguagens normalizadas. E a questão não é resolvida dizendo "todas, todos e todes", pois a neolinguagem propõe justamente neutralidade e inclusão totais. Ou você usa só neolinguagem ou usa a língua normativa mesmo.

- Perguntar sobre o sexo biológico de pessoas trans binárias ou não-binárias para "entender" o que elas são.
É muito comum perguntarem isso para assim encaixarem a pessoa como "macho" ou "fêmea" ou confirmar se o corpo é "masculino" ou "feminino". Esse pensamento é cisnormativo e diadista também. E exorsexista, por ainda querer jogar a pessoa em um dos gêneros binários.

- Dizer para pessoas trans binárias ou não-binárias que elas estavam "melhor" sendo do gênero designado.
Elas estão melhor sendo quem são e não estão nesse mundo pra te agradar.



Bora parar de fazer essas coisas? ^-^



27 de dez. de 2017

Discriminações não são fobias

Este é um daqueles tópicos que muita gente vai protestar ou tentar se justificar. Mas isso precisa ser dito.

Popularizou-se pelo mundo palavras de sufixo -fobia que definissem discriminações contra segmentos específicos da comunidade LGBTQIAP+ e outros grupos minoritários.

Todas elas - homofobia, lesbofobia, bifobia, transfobia, intersexofobia, acefobia, arofobia, gordofobia, sorofobia, xenofobia, islamofobia, entre outras - estão sendo usadas de forma errônea. E não, não é pelo significado literal do sufixo, um argumento furado muito usado por gente preconceituosa numa tentativa de desmerecer os crimes de ódio.

A explicação é que palavras de sufixo -fobia caracterizam medos excessivos e irracionais que fazem parte dos transtornos de ansiedade; portanto são distúrbios mentais. Muitas PCDs (pessoas com deficiência) dos ativismos sociais apontam que esses termos acabam reforçando estigmas contra os transtornos mentais e as pessoas que os possuem; ou seja, são capacitistas.

Muita gente pode achar que as discriminações mais violentas podem ser associadas a alguma doença mental, pois quem as pratica costuma mostrar uma instabilidade perigosa. Realmente não é nada normal alguém em plena consciência querer xingar, agredir e até matar pessoas unicamente por suas características. Porém essas atitudes não são frutos de um transtorno mental. E nem de pura e simples ignorância.

A ignorância pode sim gerar preconceitos. Mas mesmo pessoas com acesso à informação podem ainda ter preconceito e discriminarem. Isso denota apenas falta de caráter, uma moral defeituosa.

Essa moral é construída em cima de decisões conscientes: não querer se colocar no lugar das pessoas, não fazer autorreflexão sobre suas ações mesmo que estejam causando sofrimento evidente, se recusar a respeitar e aceitar diferentes características pessoais, mostrar indiferença com a violência contra minorias, etc. Pessoas muito reacionárias chegam até a se orgulhar de discriminar e mostrar um prazer sádico nisso.

Nada disso vem de um contexto traumático ou inexplicável, como as fobias. Essas pessoas sequer se incomodam com seus pensamentos e suas ações. E por isso também que discriminações devem ser criminalizadas, afinal são atitudes conscientes.

Termos alternativos são mais indicados e estão sendo adotados gradualmente em outros países, principalmente aqueles que falam inglês. Pode-se usar “preconceito/discriminação contra [insira o grupo]”, “anti-[insira o grupo]” ou o nome do sistema opressivo (ex: heteronormatividade).

Eu mesmo estive evitando os termos e preferindo usar os nomes dos sistemas. Na minha opinião são uma ótima alternativa porque: são palavras únicas, mais abrangentes e definem toda forma de discriminação. A heteronormatividade, por exemplo, caracteriza qualquer tipo e nível de discriminação contra toda orientação que não seja hétero.

Sei que é difícil admitir um erro dessa proporção e ainda alterar um vocabulário acostumado. Mas devemos sempre buscar combater todo tipo de opressão, isso inclui o capacitismo. Não coloquem ódio, desvio de caráter e falta de empatia no mesmo patamar que distúrbios mentais que causam sofrimento e são clinicamente tratáveis. 

A mudança será bem lenta aqui no Brasil. Entendo a dificuldade de trocar uma terminologia que se espalhou tanto e usada até mesmo em espaços formais como o legislativo. Por isso todxs nós devemos cooperar. De modo algum essa mudança vai interferir nas causas. Era só isso.



20 de dez. de 2017

Discursos de apagamento

Atenção: esse artigo contém muita ironia.

Talvez muita gente não saiba, mas existe uma forma de discriminação chamada apagamento. Há alguns tipos bem específicos de apagamento, e um deles são discursos superficiais que desviam o foco de uma discussão ou que ignora/diminui suas ideias.

Apagamentos são mais comuns do que imaginam. No entanto deve-se pontuar que muitas pessoas não fazem isso de propósito ou com total consciência disso. Por isso espero do fundo do coração que levem o que será dito aqui como crítica construtiva.

Nunca o discurso somos todos iguais me irritou tanto como atualmente. Você está lá junto com outras minorias abordando sobre o preconceito, suas nuances e seus efeitos, daí vem alguém - geralmente de nenhuma classe oprimida - dizendo que somos todxs iguais.

Uau! É mesmo? E onde está essa igualdade? Porque estamos nesse exato momento discutindo sobre essa igualdade teórica que nada tem de prática enquanto você está aí com as borboletas do privilégio dançando a sua volta e nos jogando as flores da utopia. Se não tem nada de útil para acrescentar, não fale nada.

Um discurso muito similar é aquele da humanidade. Ao invés das pessoas se declararem hétero, gay, bi, trans etc elas devem apenas reafirmar que são humanas.

Primeiramente, agradecemos por constatar o óbvio. Segundamente, gente preconceituosa está ciente de que somos todxs humanxs, e isso não as impede de querer exclusões e até mortes de certos grupos. E por fim, rótulos não estão "desumanizando" ninguém; eles são identidades que expressam existência e resistência. É difícil gente que até uns anos atrás não precisava de tais definições porque era tida como "normal" entender a necessidade de rótulos.

Outro dia vi uma imagem sobre opções de gênero e eram as seguintes: "homem", "mulher", e "pra que rótulos?". Olhei aquilo e pensei "que maneira criativa de apagar as identidades não-binárias". Quer dizer, enquanto as pessoas são ou homem ou mulher, tudo bem. Passou disso é "muito rótulo". E entramos novamente na questão dos rótulos. Aliás, por que ninguém questiona se homem e mulher são mesmo rótulos necessários?

E para finalizar, o discurso mais perturbadoramente irresponsável, que chamo de todo mundo sofre!!!. Ele aparece muito em discussões envolvendo violência e morte contra minorias. Daí vem alguém falando "ah, mas pessoas [insira grupo que não sofre opressão] também morrem todo dia".

Esse lixo de discurso coloca todos os grupos, minorias e maiorias, como alvos das mesmas situações e ignora violências específicas. O que me dá mais raiva é esse monte de estatística e crimes de ódio comprovando que existem violências motivadas unicamente por sexualidade e afetividade, gênero, etnia, etc e vem gente leviana com "todo mundo sofre violência". É, verdade, todo mundo sofre com alguma violência. Há muitas violências. E nem todas atingem todas as pessoas. Porra!

Não estou dizendo que agora está proibido fazer discursos bonitinhos com um viés progressista. O problema de todos os discursos apontados aqui é como e quando são feitos, quase todas as vezes em meio a discussões importantes. Cuidado com o apagamento. É uma merda. Fim.



16 de mar. de 2016

Frases problemáticas ditas por gays

Quem disse que gays não falam umas merdas? Ninguém é perfeito, né?

Nesse nosso querido mundo atual, todas as pessoas são ensinadas a falarem besteiras. Todas, sem exceção. E por isso os movimentos sociais falam tanto em desconstrução, que é o exercício interno e externo de destruir todo preconceito e também a ignorância.

Vamos analisar algumas frases muito repetidas por gays:



1- "Homofóbicos são gays enrustidos."
Essa declaração é muito perigosa. Os estudos científicos que comprovam isso são questionáveis quando generalizam. Ao afirmar isso, estamos colocando a culpa da homofobia nos próprios gays; no fim somos nossos opressores. Isso não está certo. Se todo homofóbico é gay enrustido, então já somos em maior número que héteros hahaha. Nem preciso dizer sobre quando afirmam que um homofóbico é gay e ainda usam a palavra e variações como ofensa, né?

2- "Gay, lésbica, travesti, transexual; é tudo gay!"
Bicha, pare! Gay já foi erroneamente sinônimo de LGBT por muito tempo. Esse tempo acabou. Somos um movimento de diversidade de sexualidade e de gênero, e dentro dessa diversidade há várias identidades. Gay é uma delas. Respeite as demais! Não tire a voz delas e nem as invisibilize!

3- "Ser gay tudo bem. Mas tem que ser homem!"
Frase de gente heteronormativa. Isso é dito por muitas pessoas que acham que homem tem que seguir aquele padrão antiquado que conhecemos e odiamos. Cada um é como deve ser. E ao pessoal LGBT que diz isso: vocês defendem tanto a liberdade sexual, mas ainda querem viver em prisões de gênero? Contraditório...

4- "Eu sou gay! Gosto de pau/piroca/pinto!"
Isso é cisnormativo e falocêntrico. Cisnormativo pela ideia de que homem é somente os indivíduos com pênis. Falocêntrico pelo endeusamento do pênis. Esses dois preconceitos excluem os homens trans. Talvez seja a desconstrução mais difícil para os gays atuais.
*Nota: um artigo meu sobre isso.

5- "Ativo ou passivo?"
Gente, parem de reduzir sexo gay a somente penetrar ou ser penetrado. Sexo pode ter outras possibilidades. Existem gouines, que praticam o gouinage (sexo sem penetração). E não há apenas ativos e passivos, há versáteis também.
*Nota: um artigo meu sobre isso.

6- "Hétero que pega gay também é gay."
A diversidade sexual não ensinou nada para esse ser... Qual é o problema de um hétero se relacionar com outro homem, nem que seja uma vez, por curiosidade? Já ouviu falar sobre homens hétero-flexíveis? Ou sobre homens bissexuais?

7- "Isso é coisa de gay/viado/bicha."
Se for usado como ofensa, nem preciso explicar. Não precisa nem ser usado ofensivamente. O simples fato de querer ditar regras de como ser/parecer é uma atitude preconceituosa.

8- "Ou gosta de mulher ou gosta de homem. Não existe meio-termo."
Você acha mesmo que a sexualidade humana, tão ampla e complexa, se divide em apenas dois extremos? Pff. Aliás, reveja sua bi/poli/panfobia!

Vocês já falaram algumas dessas?
Acho difícil haver um gay que não repetiu ou ao menos pensou em todas as frases citadas. Não se culpem, ninguém nasce desconstruído.

Bora praticar a desconstrução? :D



3 de fev. de 2016

Comentando sobre o BBB16

Eu gostaria de nunca ter que precisar fala de Big Brother Brasil. Detesto o programa e prefiro fingir que esse show de futilidade não existe. Mas os últimos acontecimentos me forçaram a escrever este artigo.

A polêmica da vez é sobre um homem de 53 anos chamado Laércio. Um pouco depois dos participantes serem anunciados, houve nas redes sociais uma denúncia sobre este homem ter abusado de moças adolescentes, acusações de pedofilia. O próprio declarou ter duas namoradas, uma de 19 e outra de 17 anos, e até afirmou embebedar moças para "pegá-las". Sem contar que seu Facebook mostrou mais de sua verdadeira face - uma paixão estranha por armas de fogo, uma página suspeita sobre nazismo, e ele até mostra orgulho de ser branco...

Por mais que este homem seja evidentemente de péssimo caráter, temos que lidar com um fato: por lei, ele não é pedófilo. Ele é, na verdade, efebófilo. Comentei sobre a diferença entre esses dois conceitos num artigo. Porém, mesmo não sendo crime por lei, efebofilia deve ser problematizada, e este caso é a prova disso. Sinto muita vergonha de não ter enfatizado isso no outro artigo.

Pela lei do Brasil, o sexo consentido começa a partir dos 14 anos. Então assim que fazemos 14 anos estamos disponíveis para relação íntima com qualquer pessoa até os 18 e dos 18 em diante. Hm... pera aí! Hora de problematizar!

Há um número considerável de pessoas que tiveram tal experiência: relação com alguém maior de idade quando tinham menos de 18 anos. Os relatos variam de uma relação aceitável para uma relação abusiva. Quem fala bem pode chegar a comentar sobre ter que "enfrentar" a maturidade vinda da outra parte. Talvez seja uma consequência natural. E quem, infelizmente, relata uma experiência negativa revela opressão de várias formas. A parte mais velha domina e manipula, sem dó, causando um sofrimento psicológico na parte mais nova durante toda a relação, em alguns casos até agredindo.

Não basta apenas a idade biológica; a idade mental também é importante. Quantxs jovens por aí têm quase 18, mas na cabeça parecem ter 12? Até mesmo quem já passou dos 18! Essas pessoas estão realmente preparadas para uma relação com alguém de maior experiência? Imaturidade pode ser perigosa aqui...

A pergunta mais intrigante aqui deve ser esta: o que alguém de maior maturidade busca numa pessoa mais jovem, mais nova? O que um homem de mais de 50 busca em moças de menos de 18? Já pararam para refletir sobre isso? Não me venha com romance ou com "amor não tem idade", pois as relações abusivas mostram o lado obscuro da coisa.

Não existe sentimento quando um homem procura uma moça ingênua e inexperiente. Está claro que ele não quer uma companheira; quer alguém que sirva às suas vontades e que possa ser controlada. E não dá para ignorar a forte influência do patriarcado nessa questão, que desde sempre tenta moldar as mulheres para serem submissas e os homens para serem abusivos. Existe até pornografia que retrata homens mais velhos transando com moças de aparência bem jovem, com vestidinhos e cabelos presos com fitas. Conseguem ver a depravação do nosso patriarcado? O mesmo patriarcado que coloca tais ideias na mente da população como se fossem normais!

Com tudo isso, posso afirmar que relações efebófilas podem ser muito complicadas. Deve haver interferência de responsáveis quando adolescentes querem entrar numa relação dessas, ainda mais com uma imensa diferença de idade. E reforço que em toda relação deve haver maturidade de todas as partes. A falta dela pode abrir porta para uma relação abusiva baseada em dominação e manipulação. E sinto lhes informar, o mundo está cheio de homens (adultos e velhos) procurando jovens para isso. Cuidado, gente!

Além de toda essa problematização, o próprio Laércio admitiu em rede nacional que tocou em moças embriagadas por ele, o que é um crime! Sim, uma pessoa com esse perfil está namorando uma menor de 18. Ninguém acha isso, no mínimo, absurdo? Ver uma pessoa dessas solta por aí e ainda participando de um programa de TV revela mais sobre a realidade podre desse país. Sem contar as pessoas que levantaram bandeira a favor desse louco. Triste, mas é o Brasil atual.