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24 de jun. de 2019

Parada LGBT 2019

AC: silenciamento e exclusão, situações envolvendo crimes e violência.



Mais uma vez decidi me aventurar nesse evento controverso: a Parada LGBT(+?) de São Paulo. E por que raios fiz isso após toda desgraça das paradas anteriores (furto, bolo, colega inconsciente jogado pra fora do trio)? Bem, razões puramente políticas, tudo apenas por uma militância na qual acredito.

Nem me refiro ao cenário político atual, que, com certeza, deve ter deixado muita gente acuada. Agora depois de todo desastre e da incompetência descomunal do novo (des)governo, e após a criminalização da homofobia/homotransfobia/LGBT(I)fobia (não sei dizer com precisão o que foi criminalizado rs), a população LGBT+ pode ter dado uma relaxada e ido curtir com mais prazer a (suposta) maior Parada do mundo.

Bem, aqui falarei dentro dos âmbitos pessoal e militante: eu... gostei da Parada! Sério, de verdade, essa Parada deu certo e foi boa. Continuo não curtindo agitação, muvuca e música alta. Mas esse ano, assim como no anterior, foi diferente: fui no bloco do meu outro GT, o BiPanPoli+, que promoveu o bloco que, ouso dizer, era o mais diversificado e inclusivo e politizado do evento.

Como muitos espaços multi, nosso espaço tinha a proposta de englobar todes. E quando falamos todes, nos referimos a todes mesmo. Teve muita gente não-binária e a-espectral por lá. Foi tudo gostoso, andamos de boa, e fomos marchando com muitas bandeiras e faixas - incluindo uma faixa sobre estarmos resistindo ao silenciamento; uma indiretinha pra uma certa organização que faz um certo evento que até hoje silencia pessoas multi e favorece mais o segmento G.

O situação é tão grave que minha motivação (e talvez do resto do bloco) era muito mais a resistência e representação dentro da própria comunidade do que fora dela. Já temos um governo fascista e um mundo hostil, e ainda precisamos conquistar espaço dentro de grupos ditos LGBT(+?).

Sem entrar em mais detalhes, eu amei estar naquele bloco. Foi melhor que estar no trio da Parada anterior. E mais uma vez esse GT se mostra como mais contemplativo pra mim e mais alinhado com o que acredito.

O que eu teria mais para comentar seriam... bem, os problemas de sempre e mais outras coisinhas.

Como todo ano, rolam furtos, assaltos, brigas e ocorrências. No entanto, me pareceu que esse ano se intensificou e a segurança estava ainda mais falha. Muitas pessoas apontaram que o evento está cada vez trazendo mais e mais gente e não se prontifica a se preparar para esse número. Teve casos de pessoas desmaiando ou sendo esmagada em multidões. E casos de violência pesada.

E outra coisa que não pude deixar de notar foi em relação às atrações do evento. Tivemos muita gente cis hétero de fora da comunidade aparecendo e se apresentando em vez de pessoas da própria comunidade, o que ainda coloca em risco o propósito do evento. E teve a polêmica do camarote de Daniela Mercury, com um ingresso caríssimo e uma representatividade superficial.

Essas serão questões pra instituição da Parada. E ainda haverá muitas reclamações de quase todos os GTs, com seus devidos motivos de insatisfação.

Pra finalizar, um conselho: invistam mais em eventos como marchas trans, caminhada de mulheres sáficas, e etc. Esses podem compensar o que a Parada continua se recusando a fazer direito mesmo que por um dia. E pra quem quiser ver como foi o bloco, confiram no meu instagram.

Status: me sentindo orgulhose do meu GT e de mim mesme!

12 de jan. de 2019

Falhas dos movimentos sociais

Quando falo movimentos sociais, não falo só de ativistas e militantes, mas também de pessoas que não se consideram como tais e ainda participam de atos e protestos e/ou costumam se posicionar sobre causas sociais. Falo de pessoas em geral envolvidas em algum nível com justiça social.

É evidente que sou uma pessoa engajada e nunca vou desistir das causas sociais, ainda mais da causa LGBTQIAPN+. E por isso também desejo que as lutas por essas causas sejam travadas das melhores formas possíveis. Com isso, tenho muitas críticas a como as pessoas se manifestam.

Não vou falar de barulho, de exposição de corpo nu, nem de textão. Apoio tudo isso, inclusive. Vou fazer três pontuações principais que resumem muitos dos problemas que vejo atualmente.

Acho que o primeiro ponto que eu deveria fazer é: não estamos sabendo argumentar e nem debater. Não falo de ter diálogos com fascistas ou reaças ou trolls da Internet. Falo de diálogos com pessoas que, muitas vezes, são mais ignorantes do que intolerantes. 

Nós que temos acesso à Internet e estamos na bolha das causas sociais acabamos criando a ideia de que todo mundo tem acesso às mesmas informações ou que as pessoas não procuram informação por desinteresse. Muita gente não tem mesmo acesso. E quando têm, existe ainda a possibilidade de serem pessoas com uma rotina tão corrida ou num estado tão grande de alienação que elas não têm tempo de pesquisar ou nem sabem o que pesquisar, entre outros fatores.

Passou da hora de nos prepararmos para diálogos de verdade. Por isso também precisamos conhecer muito bem sobre as causas que defendemos e também como a oposição age. Assim temos na ponta da língua como rebater e informar as pessoas que podem estar abertas a ouvir, mesmo que não pareçam.

Meu segundo ponto é: há muito ataque contra as pessoas e pouco ataque às suas ideias e atitudes. Sim, existe muita gente escrota. Essa mesma gente faz e fala muita merda. E é isso que devemos apontar de verdade, é nisso que devemos focar.

E não, as pessoas parecem esquecer até princípios que as próprias defendem e preferem atacar características físicas ou ridicularizar ações que nada tem a ver com a escrotice da pessoa. Pra quem ainda não entendeu: zoar bolsa de colostomia, prótese peniana, suposto vídeo pornô da pessoa não prestam nenhum serviço às causas sociais. E ainda são ações contraditórias, visto que dentro da justiça social existem as bandeiras de positividade corporal e da quebra de tabus sexuais.

E meu terceiro ponto é: precisamos saber bem sobre pelo que estamos lutando. Muita gente ainda vai na onda, muita gente vai em protesto sem nem saber direito do que se trata, muita gente compra discurso pronto e não forma por si suas opiniões e seus posicionamentos.

Assim, é muito provável que nossas ideias irão coincidir com as ideias pregadas pelos movimentos sociais. Buscamos equidade, fim das violências, liberdades individuais, direitos iguais, enfim. Mas percebo que nós ainda caímos muito de cabeça nas coisas e seguimos no impulso. 

Vocês sabem exatamente por que o aumento da tarifa é abusivo? Sabem por que há gente pedindo o fim da PM? Conhecem mesmo esses tópicos a fundo? Não? Tudo bem. Conheçam então! Pesquisem, perguntem por aí, vejam mais de uma perspectiva, reflitam!

Acho que posso incluir como quarto ponto que há gente que só quer "lacrar". Não é proibido fazer memes e umas chacotas. O problema é que vejo gente focada só em rechaçar, o que passa a impressão de que nas causas sociais só tem gente escandalosa que responde com meme e palavras de ordem. E já vi pessoas sendo rechaçadas por muito pouco nas redes sociais. Isso é um desserviço. Isso afasta, assusta pessoas.

Não acho que esses pontos são a maior razão da justiça social não estar avançando. Porém com certeza desaceleram o progresso. Mesmo que a oposição use tudo isso contra nós, bem, que seja; sempre encontrarão motivos para deslegitimar as causas sociais. Escrevo para alertar que não devemos dar munição, pois vão mirar nas parcelas da população que precisam nos ouvir.

Seguimos resistindo.



29 de dez. de 2018

Leiam isso, aliades

Ocorreu uma polêmica recente no Facebook que me fez pensar na questão des aliades das causas sociais, em especial a LGBTQIAPN+.

Grupos aliados podem ser compostos por "simpatizantes", amigues e familiares das pessoas, e toda pessoa de fora do grupo marginalizado que deseja apoiar a causa.

Acredito que haja pessoas aliadas de verdade, por mais que possam não ser tão desconstruídas, por mais que possam não fazer o suficiente ou o ideal às vezes. Pessoas podem ser movidas por altruísmo e querer ajudar a acabar com opressões que não as atingem.

Mas ainda há muites aliades (ou pessoas que acham que são) que precisam entender o seguinte:

- você não está fazendo nenhum favor ou alguma caridade aqui

- ser aliade não te faz magicamente uma pessoa desconstruída e livre de preconceitos

- local de fala existe. Não é que você não pode falar da causa, a questão é que quem tem a vivência tem preferência

- se vai entrar ou entrou na causa achando que vai salvar o grupo oprimido, esquece. Isso não é apenas egocêntrico como também... impossível

- você definitivamente não é alvo das opressões, direta ou indiretamente. Sofrer pela outra pessoa não é opressão. E não, você não sofre junto com ela

- você não perde amizades ou contatos só por "apoiar a causa". Se considera o afastamento de gente escrota como perda, reveja seus conceitos. E as possíveis perdas nunca serão maiores que a das pessoas marginalizadas

- ou você é aliade, ou você mantém relações com pessoas que são contra a causa que você diz defender. As duas coisas não dá

- não precisa se martirizar, não foi você que inventou os sistemas opressivos

- dizer que "odeia" seu próprio grupo é... forçado. E desnecessário

- em vez de "ficar com medo" de falar besteira ou de perguntar as coisas que não sabe, você pode pesquisar antes ou ler conteúdos de pessoas ativistas

- sim, você tem o direito de ter dúvidas e de perguntar o que não sabe ou não entende. Só que nem todo mundo vai ter paciência ou didática pra explicar. De novo, pesquise

- colocar filtro na foto de perfil da rede social não prova que você é aliade

Obrigade. De nada.



29 de nov. de 2018

Razões de adotar uma identidade

AC: reducionismo identitário, intolerância contra identidades.



Com o avanço das discussões sobre a diversidade veio uma erupção de identidades. Não apenas as identidades LGBTQ, mas também outras além da sigla mais reconhecida (intersexo, assexual, pan etc), e muitas outras que já foram cunhadas e ficam na obscuridade dos espaços virtuais mais isolados. E com certeza ainda há identidades sendo cunhadas ainda, talvez nesse exato minuto. Sem contar outras identidades que podem existir por aí, exclusivas de um país, de uma comunidade, ou de um grupo fechado, e que não são divulgadas.

O que costuma criar uma identidade são demandas e a necessidade de descrever experiências ou características em comum de um grupo. E pessoas adotam identidades para ter um senso de pertencimento (ser de um lugar, parte de um grupo), assim como dar um sentido para suas vivências. Quando falamos de identidades de pessoas marginalizadas, temos também o lado sociopolítico. É o caso das identidades da comunidade LGBTQIAPN+.

Mulheres que se atraem apenas por mulheres vão se sentir contempladas pela identidade lésbica. Pessoas com atração por homens e mulheres vão se reconhecer na identidade bi. Todes que não se identificam com o gênero imposto pelo meio vão se encontrar entre pessoas com a identidade trans. Enfim. Esse é o ponto central para se adotar identidades.

Entretanto, não é a única razão para isso. Existem outras razões, pessoais ou não, positivas ou negativas, para se adotar ou se apresentar para outres com determinada(s) identidade(s). 

Pessoas podem adotar identidades mais gerais por serem mais conhecidas, e assim ser melhor entendidas e/ou acessar melhor comunidades com pessoas com a mesma identidade ou pelo menos as mesmas experiências.

Pessoas podem adotar identidades mais gerais com receio de serem rejeitadas ou agredidas devido a atitudes antagônicas frequentes contra identidades mais específicas. Identidades multi, a-espectrais, ou não-binárias são alvos constantes disso. Pessoas podem se apresentar como bi para evitar discursos contra pan, por exemplo, mesmo que atração pan esteja mais em pauta atualmente. Imaginem outras identidades multi menos conhecidas?

E precisamos muito falar nisso, pois é realmente opressivo ter que esconder uma identidade para evitar essas situações, ainda mais se aquela identidade é aquela que te descreve plenamente. Precisamos começar a romper com ataques contra identidades menos conhecidas, seja por intolerância ao segmento todo ou apenas reducionismo.

Pessoas podem adotar identidades que as contemplem no momento. Mas quando passam por uma fase de descoberta podem mudá-la. Pessoas que antes se consideravam gay/lésbica e hétero podem depois se descobrir multi e adotar uma identidade multi.

Falar na possibilidade de mudar de identidade como algo válido e pessoal também é importante, pois é algo também taxado negativamente como confusão ou necessidade de aparecer.

E mesmo pessoas numa identidade contemplativa, mas que após descobrirem-se mais podem achar outras mais úteis ou relevantes, podem permanecer na mesma identidade quando há poucas pessoas a usando, para assim manter um número desse segmento. Pode ser o caso de uma pessoa que sabia ter uma atração múltipla, escolheu poli, depois percebeu ter atração por todos os gêneros, e em vez de mudar para pan ou oni, permanece usando poli, por ser uma comunidade muito pequena no Brasil.

Lembrando também que falo de identidades que não reproduzam opressões ou ideias problemáticas, como no caso de g0y. Porém não creio que mesmo nesses casos rechaçar ou impedir pessoas de adotarem seja um método tão viável. Analisar a identidade e apontar o que há de ruim e argumentar é um caminho mais pacífico.

Enfim, identidades precisam ser respeitadas. A ausência delas também, claro. Mas dou ênfase principalmente nas identidades fora do popular. Antes de ficarmos divulgando e empurrando palavras, acredito que precisamos contar a história das identidades LGBTQIAPN+, para que as pessoas entendam a importância que uma identidade pode ter, seja pra elas ou para outras mesmo.

E se precisar catalogar um milhão de nomes para todas as experiências humanas, que seja um milhão! O ser humano sempre foi complexo demais para ser colocado e trancafiado nas caixinhas normativas perissexo/cisgênero/heterossexual.



1 de ago. de 2018

Questões controversas #3

Mais questões controversas da comunidade em geral.

Parte 1.
Parte 2.

"Seria possível uma sigla menor e que englobe toda diversidade? 
É realmente necessário aumentar a sigla LGBT?"

Já houve muitas propostas de siglas alternativas para evitar as expansões. Talvez a sigla alternativa mais conhecida seja MOGAI (Marginalized Orientations, Gender Alignments and Intersex). E há também QUILTBAG (Queer, Undecided, Intersex, Lesbian, Trans, Bi, Asexual, Gay) e MGSROI (Marginalized Genders, Sexual and Romantic Orientations and Intersex).

Em todo caso, quando a sigla alternativa falha em ser inclusiva ela tem alguma palavra ou expressão controversa. E devido a popularização da sigla LGBT, quase todos os espaços e grupos socio-políticos acham mais fácil e prático utilizar LGBT e suas expansões. No cenário atual, colocar o sinal de mais (+) em LGBT é o mínimo que pode ser feito para não perpetuar a invisibilidade dos demais segmentos.

Até o momento nenhum movimento LGBT+ tornou essa questão uma demanda. Por isso, até então, pessoas e grupos utilizam as siglas que quiserem ou acharem melhor.


"Termos ofensivos e preconceituosos devem ser reapropriados e ressignificados?"

Uma das estratégias dos grupos oprimidos de tentar combater a opressão foi "roubando" os termos ofensivos. O maior exemplo disso é a palavra queer, que é equivalente a viado, sapatão etc aqui. Pode ser traduzida como esquisite, estranhe, ou mesmo desviante. Usar a palavra ofensiva a seu favor é uma forma de resistência e de desafio.

As pessoas têm todo direito de não querer se reapropriar de termos ofensivos. Dependendo do que passaram, elas podem não conseguir trazer a palavra para si de forma positiva. Isso deve ser respeitado. O que é errado é exigir que termos reapropriados não sejam usados por outras pessoas.

Viado e sapatão tornaram-se identidades políticas para homens aquileanos e mulheres sáficas. Bicha tornou-se uma identidade única e muitos a usam junto com o contexto das periferias. Queer tornou-se um movimento e criou comunidades extremamente diversas e inclusivas. A reapropriação funciona. Mas está disponível para quem quiser.

(Bandeira queer)


"Como lidar com exclusionistas da própria comunidade num espaço inclusivo?"

É uma pergunta bastante complicada. Pensem no quanto é incômodo gays e lésbicas sendo monossexistas, gente cis invalidando o gênero de quem é trans, pessoas alo tentando patologizar a assexualidade, e por aí vai, tudo isso ocorrendo num espaço que deveria ser seguro e acolhedor com toda diversidade.

O que fazer com essas pessoas? Expulsá-las? Se sim, como fazer isso sem fazer um escândalo? Tentar desconstruí-las? Bom, é o caminho mais pacífico. Temos que levar em conta que ninguém nasce desconstruíde e estamos todes inserides em vários sistemas de opressão que nos ensinam a discriminar. Porém, torna-se questionável, dependendo do discurso da pessoa, se vale a pena tentar um diálogo. Há uma linha bem fina entre um discurso de ignorância e um discurso de ódio.

E as pessoas estão mais do que fartas de rebater discursos de ódio vindos de quem não mostra o mínimo interesse em pensar diferente e ter empatia. Inclusive elas procuram espaços mais "isolados" (como no mundo virtual) justamente para escaparem de toda e possível discriminação. Policiar esses comportamentos são bem mais fáceis em comunidades virtuais.



30 de jun. de 2018

É tudo sobre amor?

Quando vejo as massas e muites ativistas se pronunciando a favor da comunidade LGBTQIAPN+, é bastante comum discursos que giram em torno de amor e afeto entre dois homens ou duas mulheres. Discursos válidos? Claro! Mas... já saturaram.

Se toda a opressão da comunidade inteira fosse apenas um sistema que não quer deixar dois homens ou duas mulheres se amarem, nossa causa seria muito mais fácil.

Tenho uma visão diferente sobre esse tópico em específico. Não acho que a oposição queira impedir homens e mulheres de "se amar". Dois homens e duas mulheres podem se amar à vontade. Não há como proibir um sentimento, algo abstrato e incontrolável.

O que a oposição deseja é que o sistema não reconheça social e legalmente casais do mesmo gênero. Isso é uma briga política, um jogo de poderes, não uma novela mexicana onde famílias fazem de tudo pra impedir o relacionamento de duas pessoas.

Sim, não vou negar que não permitir casamento ou demonstração de afeto em público são ataques aes sentimentos e liberdades dos casais. Mas isso tudo faz parte de um grande mecanismo opressivo que quer invisibilizar esse tipo de afeto, ou ao menos escondê-lo da sociedade. E a motivação disso é apenas preservar a dominância da heterossexualidade.

E afinal, esse discurso todo de amor "entre iguais" contempla o resto da comunidade?

Primeiramente, temos que admitir um grande fato sobre toda essa ladainha melosa sobre amor, amor e amor: ela é muito amatonormativa. Vou explicar o motivo.

A arromanticidade ainda é vista como uma anomalia devido a toda essa imposição de que todas as pessoas devem amar, devem se apaixonar, namorar, ou devem ao menos ter vínculos de natureza afetivo-sexual com ume ou mais outres ao longo da vida. Falar o tempo todo de casais não ajuda em nada esse segmento.

O discurso do amor pode sim ser aplicável à maioria des heterodissidentes, mas os segmentos T, I, A e N estão brigando por muito mais. Aliás, galera, transgeneridade e intersexualidade não têm nada a ver com amor, tá? E pessoas arromânticas enfrentam justamente a amatonormatividade que acaba sendo espalhada nesses discursos tão romantizados. E ainda estou esperando lembrarem dos casais diamóricos também.

Vale lembrar que muites heterodissidentes estão lutando mais pelo direito de: transar livremente com quem quiser, garantir sua integridade física, e ter sue orientação/gênero/corporalidade validade do que pela mera oportunidade de amar quem quer.

Podem falar de amor? Claro que podem. Só não fiquem limitando todos os problemas da comunidade a casais aquileanos ou sáficos "lutando para se amar". Os discursos precisam ser mais amplos. E mais politizados também, porque se agarrar à emoções definitivamente não funciona com a forte oposição existente no Congresso.



6 de jun. de 2018

Parada LGBT 2018

O tema deste ano foi "Poder pra LGBTI+: Nosso Voto, Nossa Voz". A verdadeira intenção foi conscientizar sobre a importância do voto, ainda mais considerando que estamos em ano de eleições, e também considerando o cenário atual de tanta corrupção e tantes candidates retrógrades.

Claro, não basta votarmos em candidates que sejam da comunidade LGBTQIAPN+ ou de outras minorias. Necessitamos de pessoas realmente comprometidas com as causas sociais, que queiram uma sociedade tolerante e inclusiva, que não usem minorias só para ganhar voto. A comunidade precisa ter ciência do poder que ela tem. Não somos uma ínfima parte da população nacional: somos milhões! Milhões podem fazer mudanças!

Depois de acompanhar todo o processo de formação e condução da Parada, mudei até minhas perspectivas sobre ela. Eu ainda me preocupava com a consciência política das pessoas no evento. Mas eu agora penso que o evento não consegue realmente mudar as pessoas, ainda mais em um único dia que é mais festa do que um protesto político. E que bom que vai tanta gente pra festejar! E que a cada ano vá mais pessoas.

A APOGLBT precisa também melhorar muito sua inclusividade e interseccionalidade, tanto com a própria diversidade da comunidade quanto com outros grupos. Sinceramente, embora tenha sido ótimo a adição da letra I de intersexos, não presenciei qualquer discussão sobre o segmento, então a letra ficou muito de enfeite. E o Grupo de Trabalho BiPanPoli sofreu o maior descaso a ponto de nem terem um trio elétrico próprio, e ainda quase serem jogades com gays e lésbicas.

E sobre minha experiência, estava tudo bem enquanto pude me soltar um pouco e mostrar meus cartazes (fiz cinco cartazes só para o evento). Depois aconteceu uma série de eventos que estragou minha festa, e não quero narrar aqui. Essa Parada conseguiu ser melhor e também pior que as anteriores. Dificilmente irei em outra. Vida que segue.



12 de abr. de 2018

Reducionismo identitário

Decidi criar esta terminologia para explicar um fenômeno que ocorre frequentemente dentro da comunidade LGBTQIAP+ (e também ocorre fora, mas não importo com a opinião des héteros-cis), e atinge principalmente pessoas de atração multi, pessoas a-espectrais e pessoas não-binárias.

O reducionismo das identidades não deixa de ser uma forma de apagamento. Porém tem suas diferenças de apagamentos que visam negar ou mesmo discriminar certas identidades. 

O monossexismo, o alossexismo e o exorsexismo invalidam, respectivamente, orientações multi, orientações a-espectrais e identidades não-binárias. Isso é um apagamento. Mas o reducionismo identitário não invalida essas diversidades. Ele foca em apenas reduzi-las a identidades que são consideradas comuns, fáceis de entender, críveis ou (minimamente) aceitáveis.

Reducionistas estão sempre resumindo qualquer rótulo multi a "basicamente bi", qualquer rótulo a-espectral a "basicamente assexual", e qualquer rótulo não-binário a apenas não-binárie.

E qual é o problema de querer reduzir as coisas?

Bom, primeiramente, o desrespeito ao direito da pessoa de ser quem ela quiser e se identificar como quiser. Identidades são individuais e não devem ser controladas ou reguladas pelas outras pessoas. E vindo de uma comunidade que luta pelas liberdades individuais, é bem contraditório.

Essa atitude invalida incontáveis vivências e experiências que as pessoas podem ter. Nem todes que sentem atração por mais de um gênero vão querer usar o rótulo bi. Nem toda assexualidade e arromanticidade é estrita, limitadas à atração inexistente por toda a vida. E por que pessoas não-binárias não podem ter uma identificação própria, assim como homens e mulheres têm?

Querer encaixar as pessoas em rótulos conhecidos não deixa de ser um tipo de normalização, algo que a própria comunidade combate diariamente. Vivemos sob um sistema que normaliza só pessoas hétero cis perissexo. Quanta diversidade não deve ser apagada por isso e só agora está aparecendo? Que parâmetros usamos para decidir qual rótulo pode existir e qual é estranho demais para existir?

Reducionistas virão com discursos de que identidades novas de orientação e gênero são desnecessárias, não são acessíveis, e que não ajudam em nenhuma causa. É comum ainda dizerem que fazem a comunidade parecer uma piada. Embora seja possível encontrar bissexuais, assexuais e não-bináries que reproduzam esses discursos, podem reparar que a grande maioria des reducionistas nem pertence a estes segmentos. Coincidência?

Deixo aqui umas perguntinhas: Desnecessárias pra quem? Se não são acessíveis, o que podemos fazer para torná-las acessíveis? As comunidades que englobam essas identidades acreditam que elas não ajudam em suas causas?

Por fim, não caiam no papo reducionista. E se você for reducionista, pare com essa escrotice.



7 de fev. de 2018

Uma sigla enorme!

Essa semana começou com uma polêmica: ativistas gays do Reino Unido afirmaram que a nova sigla da comunidade LGBTQIAP+ mundial é: LGBTQQICAPF2K+. Essa sigla é recente, cerca de duas semanas. A revista The Gay UK a anunciou, e só agora a notícia chegou aqui no Brasil.

Vou decifrar a sigla para vocês antes de comentar: lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queers, questionando, intersexos, curioses, assexuais, agêneros, aliades, polissexuais, pansexuais, família & amigues (family & friends), two-spirit, kink e demais orientações e identidades de gênero. Ok...

Os meios de notícia fizeram um sensacionalismo barato em relação a isso. Um pequeno grupo de ativistas gays desconhecidos e que estão lá no Reino Unido sequer têm força pra decidir qual sigla o mundo deve usar. E, sinceramente, suspeito que certos veículos tenham propagado essa notícia mais com a intenção de atrair chacota contra a comunidade.

Bom, eu defendo expansões da sigla (tanto que uso uma) e quem as criticam ou não tem consciência da importância de dar visibilidade para outros segmentos, ou apenas não se importam e acham que LGBT é "suficiente". Por isso costumo rejeitar críticas vazias às expansões. Mas vale lembrar que elas não são obrigatórias. E não, não existe uma sigla correta ou global.

Porém, expansões também precisam ter coerência. E essa definitivamente não tem isso...

Dobraram a letra Q por haver mais de um grupo com essa letra. No entanto, A e P também têm mais de um grupo e não dobraram. Incoerente, mas não foi o pior erro desses tais ativistas.

O grupo Questionando são pessoas incertas sobre sua orientação e/ou gênero. Não há real problema na inclusão, mas ela não é necessária. Curioses, pessoas que podem ter experiências sexuais fora de suas orientações, menos necessária ainda.

Agêneros são incluídes por outras organizações e, embora estejam teoricamente dentro da não-binariedade, muites não se consideram n-b (pela própria ausência de gênero). A comunidade agênero deveria se reunir para discutir esse tópico.

Sobre aliades, me recuso a comentar (já falei disso). Pior que isso foi esse F, que inclusão mais sem sentido e ridícula, parece piada com todos os segmentos verdadeiros.

O 2 (que normalmente é 2S) é para two-spirit, uma identidade exclusiva de culturas nativas da América do Norte. Não entendi porque ingleses falaram desse segmento. E se fôssemos incluir gêneros restritos de culturas numa sigla global, deveríamos incluir também as hjiras da Índia e outras identidades. E por isso que 2(S) é uma inclusão válida, mas apenas na América do Norte.

E kink, que são basicamente fetichistas, têm todo um histórico de perseguição e estão próximes da comunidade. No entanto, a inclusão na sigla não faz sentido algum.

Para finalizar, esses ativistas são tão tão inclusivos que nem cogitaram adicionar N de não-bináries, algo que alguns grupos virtuais anglófonos já estão fazendo. Se consideram pessoas n-b como parte do T ou se esqueceram delas, não sei dizer (estou inclinado a crer na segunda opção).

Agora, embora seja compreensível a rejeição que vi da grande maioria das pessoas LGBTQIAP+ nas redes sociais, dentro dessa parcela teve gente fazendo declarações excludentes. Gente zoando com todas as letras depois do LGBT (porque pessoas QIAP+ que se fodam), falando que a sigla reduzida LGBT é a correta ou até pedindo a volta de GLS, e zombando da visibilidade que as expansões deveriam promover.

E sabem que outra parcela da população estava tirando sarro da sigla e se aproveitando da situação para fazer chacota contra a comunidade inteira? Isso mesmo, a escória reacionária de sempre, que não perde nenhuma oportunidade de atacar a comunidade.

LGBTs excludentes e reaças, ambes a 80 km/h, quem passa primeiro pela linha da vergonha da humanidade? Valendo!

É realmente difícil pedir o bom senso da própria comunidade sendo que muites não entenderam ou não aceitam nem as expansões mais coerentes. A situação é deprimente. E tudo foi causado por uma notícia sensacionalista.

Tanto esforço e tanta atenção usades contra uma sigla que nem deveria ser levada a sério ao invés de algo bem mais produtivo e útil para a comunidade. Esse pessoal precisa rever suas prioridades.



13 de jan. de 2018

Questões controversas #2

Trago mais questões que geram discussões dentro e fora da comunidade LGBTQIAP+. Ressalto que poderei no futuro escrever artigos mais explicativos sobre alguns dos tópicos apresentados.

Confira a primeira parte aqui.



"Poliamoristas são um grupo da comunidade?"

Ainda não há um consenso se poliamoristas deveriam estar evidenciades por uma letra nas expansões da sigla - no caso, mais uma identidade do P. Há quem concorde, há quem discorde. Quem concorda costuma afirmar que enxerga a experiência poliamorista como queer, logo poderia ser um segmento único. E quem discorda diz que a identidade está incluída no segmento Q (queer) e isso basta. Em todo caso, é difícil encontrar alguém que não queira incluir poliamoristas como parte legítima da comunidade.

Particularmente não vejo problema na adição na sigla, e, sendo a mononormatividade (a imposição da monogamia) uma opressão sistêmica, acho adequado incluir nas siglas um grupo fora de padrões impostos de relação e afetividade. Afinal a comunidade está repleta de pessoas também discriminadas por suas relações e afetividades, não?

(Bandeira poliamorista)


"Pessoas trans binárias e intersexos ipsogênero heterossexuais necessitam reafirmar sua sexualidade, pois mesmo sendo héteros são alvos de discriminação?"

Deve-se considerar antes de tudo que as opressões sofridas por esses grupos são causadas unicamente devido a identidade de gênero e sexo biológico. A cisnormatividade invalida o gênero de mulheres e homens trans. E o diadismo coloca os corpos intersexo como anomalias e defeituosos. Pesando ambas as opressões, intersexos ainda têm sua orientação reconhecida, enquanto mulheres e homens trans são frequentemente tratades como "homossexuais que querem ser do gênero oposto".

Por outro lado, muitas pessoas não-hétero da comunidade focam tanto na diversidade sexual que desconsideram a existência des héteros nos segmentos T e I. Pessoas trans ainda têm a missão árdua  de validar seu gênero para então reafirmar a sexualidade. Talvez seja necessário esses segmentos gritarem "sou [insira o segmento] e sou hétero" ou "sou parte da comunidade e sou hétero", colocando a orientação em segundo plano. Talvez.


"A pauta do HIV deve fazer parte das pautas do movimento LGBT?"

O movimento Aids/HIV+ e o movimento LGBT são fundamentalmente movimentos separados. No entanto, na prática, o movimento LGBT acabou adotando as pautas de soropositives justamente pelo estigma que ainda perdura sobre HIV e LGBTs (principalmente gays). Além disso, mesmo havendo uma grande quantidade de héteros-cis HIV+, nunca foi registrada alguma grande mobilização de héteros-cis em prol dessa causa.

Existe também um receio de muitas pessoas da comunidade de que adotar a pauta HIV acaba apenas reforçando mais o estigma. No entanto, muitos ativistas e militantes continuam a abordar o tema, o que é a atitude mais consciente a se fazer. Espera-se que o movimento Aids/HIV+ seja mais autônomo e que rompa o estigma junto com o LGBT.



13 de dez. de 2017

Questões controversas #1

Dentro da comunidade LGBTQIAP+ há alguns pontos que geram opiniões divergentes e discussões que perduram até hoje, às vezes sendo abordados por pessoas de fora da comunidade (como a pauta HIV e as extensões das siglas).

Embora eu responda ou tente responder às questões apresentadas, posso muito bem discuti-las de maneira bem mais ampla e aprofundada em artigos posteriores.



"A bandeira arco-íris consegue representar todos os segmentos da comunidade 
ou no fim acaba sendo exclusiva dos gays?"

A bandeira foi criada por um ativista gay, Gilbert Baker, e sua intenção era criar um símbolo do "orgulho gay". Embora pessoas bi e trans estivessem inclusas na luta e nas pautas do movimento, o segmento que sempre teve maior visibilidade foi dos homens gays. Até hoje ainda há gente que resume "LGBT" a gay.

Ao longo do tempo os demais segmentos da "sigla oficial" foram reivindicando maior visibilidade e reconhecimento de suas pautas específicas. A bandeira "gay" foi aos poucos expandindo sua representação até ser reconhecida mundialmente como bandeira "LGBT".

(Bandeira LGBT+? Bandeira LGBT+ e gay? Bandeira gay?)

No entanto isso não é o suficiente. Há muitos espaços ditos LGBTs que são dominados por homens gays, que também reproduzem discriminações contra os demais segmentos. E quando esses espaços conseguem de fato alguma inclusão, acabam focando nos quatro segmentos do "LGBT" e excluindo os demais. Não é difícil encontrar pessoas lésbicas, bissexuais, transgêneros que não se sentem representadas pelo arco-íris; e menos difícil ainda encontrar intersexos, assexuais, etc que sentem o mesmo. Sim, é complicado...


"Pessoas aliadas devem estar na sigla, no caso na letra A junto com assexuais? 
E devem ter uma bandeira?"

Não é incomum ver alguns grupos e algumas organizações adicionando aliad@s em extensões da sigla, colocando esse segmento ao lado de assexuais. E sim, existe uma bandeira para essas pessoas.

Antes de tudo, a formação da bandeira já é controversa porque ao fundo está a "bandeira hétero" (essa coisa de listras brancas e pretas, parecendo uma roupa de prisão).


Bom, é quase unânime os posicionamentos contra a inclusão. Os argumentos são simples e nem precisam de uma explicação elaborada: os segmentos na sigla são as pessoas discriminadas e oprimidas por sexualidade, romanticidade, gênero e sexo biológico; com isso, quem está na sigla são protagonistas de uma luta social e política; e alid@s mesmo podendo ser alvos de eventual repreensão nunca perderão seus direitos e privilégios (além de nem serem uma identidade!). 

E respondendo à segunda pergunta, não vejo real problema de haver uma bandeira. Mas vale lembrar que bandeiras são usadas como símbolos de orgulho, e quem tem algum orgulho é quem enfrenta diretamente uma opressão. Que opressão aliad@s vivenciam?


"Pessoas hétero-cis têm algum lugar na comunidade? (sem ser aliança)"

A comunidade que sempre forneceu um lugar é a queer. A identidade queer sempre foi muito diversa e engloba toda pessoa fora dos padrões sociais. Com isso, pessoas hétero-cis que não se encaixavam ou se rebelavam contra as normatividades eram queers. A comunidade queer sempre foi aberta para homens hétero-cis afeminados e mulheres hétero-cis masculinizadas, assim como para quem teve experiências homoafetivas ou bicuriosas (hétero-flexíveis).

No contexto atual, considerando a comunidade arromântica na letra A junto com assexuais (ou mesmo considerando A como "espectro-A"), pessoas hétero-cis arromânticas também podem ser incluídas como parte da comunidade - pois estão no espectro arromântico. Esse tópico é um pouco controverso, mas a inclusão estará sempre disponível.

Se o grupo poliamorista fosse adicionado como uma identidade exclusiva (mais uma letra P), também poderia-se incluir héteros-cis nesse grupo. Porém há controvérsias sobre relações poliamorosas entre homens hétero-cis com mais de uma mulher.



Aguardem para mais questões como essas!



8 de out. de 2017

Datas da Diversidade

Em consideração à luta e à existência das pessoas da comunidade LGBTQIAP+, foram criadas certas datas para comemorar o orgulho da comunidade ou de um segmento dela, conscientizar sobre um desses grupos ou mesmo prestar uma homenagem a eles.

Segue abaixo meses, semanas e dias (nacionais e internacionais) em comemoração à diversidade:



Janeiro

27/01 – Dia Internacional da Lembrança do Holocausto (em memória a todas as vítimas do nazismo, em especial homossexuais)
29/01 – Dia Nacional da Visibilidade Trans

Fevereiro

Semana da Consciência do Espectro Arromântico: comemorada a partir do domingo posterior ao dia 14/02, Dia de São Valentim

Março

25/03 – Dia Nacional do Orgulho Gay
31/03 – Dia Internacional da Visibilidade Trans

Abril

26/04 – Dia da Visibilidade Lésbica

Maio

Dia Internacional da Equidade Familiar: comemorado no primeiro domingo do mês, faz homenagem a todos os modelos de família
17/05 – Dia Internacional Contra Homo/Lesbo/Bi/Transmisia 
19/05 – Dia do Orgulho Agênero
24/05 – Dia de Consciência e Visibilidade Pansexual e Panromântica

Junho: mês do Orgulho LGBT+

28/06 – Aniversário da Revolta de Stonewall

Julho

14/07 – Dia Internacional das Pessoas Não-Binárias

Agosto: mês da visibilidade lésbica

29/08 – Dia Nacional da Visibilidade Lésbica

Setembro: mês da visibilidade bissexual

Semana da Consciência Bissexual: comemorada a partir do domingo anterior ao dia 23
23/09 – Dia de Celebrar a Bissexualidade

Outubro: mês da visibilidade assexual

17/10 – Dia Internacional dos Pronomes
Semana da Consciência Assexual: toda última semana do mês
26/10 – Dia da Consciência Intersexo

Novembro

Semana da Consciência Transgênero: comemorada nas duas primeiras semanas do mês
08/11 – Dia da Solidariedade Intersexo
20/11 – Dia da Memória Transgênero

Dezembro

01/12 – Dia Mundial do Combate ao HIV/AIDS
08/12 – Dia do Orgulho Pansexual



Pode haver adição de novas datas futuramente!
Fiquem de olho, anotem e celebrem!



27 de mai. de 2017

16º Ciclo de Debates LGBT

Essa semana ocorreu o evento 16º Ciclo de Debates LGBT promovido pelo grupo APOGLBT SP, a organização responsável pela Parada LGBT do Brasil. Todo ano antes da Parada o grupo promove cinco dias seguidos de debates com temas variados.

Vou apenas narrar resumidamente o que aconteceu, sobre os palestrantes e os assuntos abordados em cada dia:

Primeiro dia (22/5) - Tema: Estado Laico (tema da Parada LGBT 2017)

Os três palestrantes discutiram sobre a interferência e influência da religião - o cristianismo - no Estado e discriminação de crenças africanas. O primeiro palestrante, um evangélico, falou sobre o processo dos neopentecostais até os dias atuais. O segundo palestrante focou mais no legislativo e comentou sobre a bancada evangélica. E o terceiro palestrante, um pai de santo transexual, abordou mais a intolerância religiosa.

Segundo dia (23/5) - Tema: Violência contra a mulher LBTT - Mulheres vítimas de intolerância religiosa, racismo, misoginia, bullying e machismo

As quatro palestrantes, entre elas a vereadora Soninha e a transativista Viviany Beleboni, falaram sobre a mulher branca, negra, lésbica, bissexual e trans na sociedade atual. Soninha falou sobre o machismo no meio profissional. Viviany abordou sobre as transexuais e travestis, transfobia, violência e apagamento no meio LGBT. A terceira palestrante, uma moça bissexual, falou sobre o processo da mulher de se inserir na sociedade, buscando a igualdade de gênero. E a quarta palestrante, uma moça lésbica e a única negra, dissertou muito sobre lesbofobia e racismo, LGBTs da periferia, e o apagamento na sociedade e no meio LGBT.

Terceiro dia (24/5) - Tema: Jovens; Sexualidade e Prevenção

O grupo convidado fez uma palestra mais interativa. Foram citadas diversas práticas sexuais e foi discutido quais delas possuem riscos variados ou não de transmissão de DSTs. E, com isso, prevenções e tratamentos foram apontados por profissionais da área. Houve um foco em HIV nas discussões.

Quarto dia (25/5) - Tema: Família, crianças transgêneros, adoção e terceira idade

As pessoas convidadas foram: três mulheres cis, uma mulher trans e um homem cis. Duas mulheres cis, mães de pessoas trans (uma de uma moça e outra de um rapaz) relataram a descoberta da transexualidade dos filhos e o que aprenderam. O palestrante é casado com outro homem, e juntos adotaram um menino. Então relatou o processo e a burocracia da adoção no Brasil. A mulher trans, que adotou dois meninos cis (um é deficiente) e uma menina trans, relatou a vivência pessoal e com a família transafetiva. E a terceira mulher cis, uma senhora lésbica, falou sobre discriminação etarista na sociedade e no meio LGBT, e até trouxe a companheira com que está junta há 22 anos.

Quinto dia (26/5) - Tema: Empregabilidade e empoderamento LGBT da Pessoa com Deficiência (PCD)

O grupo palestrante era composto de três mulheres deficientes (duas cis e uma trans) e dois homens cis. A primeira mulher a falar, uma hétero-cis cadeirante, relatou sua vivência e abordou a sexualidade de PCDs e a discriminação e tabus sobre isso. A segunda, uma hétero-trans cadeirante, também relatou sua vivência, combinando o mundo das PCDs e das transexuais. O primeiro homem falou sobre LGBTs no mercado de trabalho e empregabilidade. A terceira mulher, bissexual-cis, dissertou sobre PCDs desde tempos remotos e suas pautas, além de contar sua vivência. E o segundo homem ressaltou sobre sexualidade de PCDs e suas pautas.

Como meu primeiro Ciclo de Debates, devo dizer que estou impressionado e fascinado com os ensinamentos de cada dia. Eu aprendi, eu refleti, eu mudei! Embora eu tivesse uma ideia de todos os assuntos, os debates ampliaram minha visão de todos. E com todo esse conhecimento adquirido, farei mais discussões sobre esses temas (só não faço aqui para não ficar um artigo quilométrico).

Cada dia de debate teve sua força, sua mensagem, sua reflexão. Entretanto, preciso fazer três notas, pontos que de alguma forma me sacudiram por dentro:

1- A cobrança por representatividade feita no segundo, terceiro e quinto dias. No segundo dia, foi cobrada pelas lésbicas e LGBTs da periferia. No terceiro, pelos soropositivos. E no quinto, pelas PCDs. Assim como a APOGLBT foi devidamente cobrada, eu me senti cobrado enquanto o militante que digo ser.

2- A experiência do quarto dia foi simplesmente fantástica! A família transafetiva de uma palestrante foi a estrela da palestra. Fantástica! E empoderada! O símbolo do rompimento do conservadorismo e da "família tradicional" (que continuará existindo, relaxem).

3- Assim como a palestra do dia anterior, o quinto dia promoveu um debate rico e empoderador de um grupo ainda muito discriminado. Falar de PCDs ainda é um tabu. Falar de PCDs LGBTs, mais ainda. As três mulheres brilharam, cada uma com sua cor e intensidade.

Estarei aguardando com êxtase o próximo Ciclo de Debates LGBT 🌈.



12 de abr. de 2017

Uma carta para o gay anti-militância

Olá, senhor gay que é contra a militância LGBT.

Como está? Tudo bem? Espero que sim.

Espero que esteja seguro em seu quarto ouvindo suas divas pop, ou passeando de boa pela rua, ou bebendo com os amigos em alguma balada, ou até tendo uma transa gostosa com algum bonitão que viu no aplicativo.

Você diz que não gosta de militantes e ativistas. Diz que acha militância desnecessária. Até diz que o movimento LGBT é que promove a desigualdade, porque "se separa" do resto da sociedade.

Bom, você sabe como começou o movimento LGBT? Em 1969, nos Estados Unidos, o sistema era hostil com homossexuais. Policiais invadiram um bar chamado Stonewall Inn, conhecido como um bar gay, e LGBTs se uniram em protesto contra a violência da polícia. Isso marcou a libertação gay nos EUA. E surgiu o "movimento gay", que se desenvolveu e se expandiu por lá e pelo mundo até se tornar o que é atualmente.

Mesmo que você tenha milagrosamente assistido ao filme Stonewall, que fala justamente sobre esse evento, saiba que o filme mentiu. Quem protagonizou o protesto não foi nem um homem gay, foram duas mulheres trans e negras da época.

Lembre-se disso quando falar mal ou fazer piada sobre pessoas trans, ok? O "movimento gay" começou por iniciativa das trans!

Até o ano de 1990 a homossexualidade (na época, homossexualismo) era classificada como um transtorno mental pela OMS (Organização Mundial de Saúde). E após anos e anos de barulho, foi desconsiderada. Sabe quem fez o barulho? Militantes e ativistas de vários países!

Detalhe: mesmo assim a homofobia ainda existe! Muitos jovens gays são expulsos de casa, agredidos em público, e até assassinados. Você pode não correr esse perigo, mas tem gente passando por isso. E militantes e ativistas estão lutando pelo fim dessas atrocidades. Não são apenas crimes, são crimes de ódio, um ódio específico - ódio contra homossexuais.

Hoje você pode se assumir nas redes sociais, seguir páginas LGBTs, entrar em grupinhos para trocar nudes e conhecer outros como você. Sabe por quê? Porque por anos a militância esteve enfrentando a sociedade para incluir LGBTs como pessoas comuns e dignas do mesmo respeito e direitos que heterossexuais-cisgêneros.

Agora temos até aplicativos de relacionamento gay, como o Grindr, onde você pode marcar sexo com um cara de pau grande e malhado. De onde veio esse direito? Foi dado de mão beijada? Não, foi graças às ações de militantes LGBTs pela liberdade sexual e individual.

E veja você aí, assumindo para o mundo inteiro que é gay e contra a militância. Após muito muito muito tempo de luta, a militância conseguiu o direito de você se assumir tranquilamente. Tamanha é sua liberdade atual que você pode até desmerecer todo o trabalho dela!

Aí você pode dizer agora que essa "militância virtual" que é o verdadeiro problema, que escrever textão no Facebook e ficar problematizando é desnecessário. Olha, filho, pode ser desnecessário para você, mas para um jovem que acabou de se descobrir e só tem a Internet como contato com o universo LGBT, pode significar muita coisa.

Ninguém está te obrigando a levantar a bandeira e sair na rua protestando. Você não é obrigado a ser militante. Porque ser militante é sair da zona de conforto e peitar o sistema, a sociedade. Nem todos têm cabeça pra isso.

Apenas pense em tudo isso antes de se posicionar contra a militância LGBT. Não vale aproveitar os direitos conquistados e cuspir no rosto de quem os conquistou. É feio.

Talvez você tenha uma vida confortável o suficiente para não sentir os males da homofobia (e ela ainda existe, ok?), mas foi por causa de quase cinco décadas de militância que agora você não está internado numa clínica levando choque só por sentir tesão em homem.

Ah, você não gosta de militantes porque apontam e criticam seu machismo, sua lesbobitransfobia, seu racismo, seus preconceitos? Ao invés de ficar chorando, tenta refletir um pouco sobre isso.

E reflita sobre seus privilégios, afinal você ainda é um homem numa sociedade machista, então você pode reproduzir opressão contra a mulher. Se for branco, pode reproduzir racismo. E lembre-se que não existe só homem/mulher e heterossexuais/homossexuais no mundo, tá?

O mundo está caminhando. Cuidado para não ficar para trás. E não atrapalhe quem está tentando melhorar algo. Não tem nada a acrescentar? Fique na sua então.

Beijinhos coloridos.



1 de mar. de 2017

O que penso sobre a Parada LGBT

Fui em duas Paradas até agora, em 2015 e 2016. Falei sobre elas, o tema e minha experiência. Porém, senti necessidade de falar mais criticamente sobre a Parada em si.

Até entre LGBTs há opiniões divergentes sobre a Parada. Não vou discutir se ela deve ou não existir. Farei apenas uma análise particular enquanto militante LGBT+.

Sempre tive uma ideia errada da Parada LGBT. Formei minha opinião com base no que falavam dela (quase todas essas pessoas sequer foram em uma) e no que eu via na TV (isso quando eu me preocupava em ver). Resumindo: para mim a Parada era um tipo de carnaval.

Felizmente, em 2015 confirmei com meus próprios olhos que não é toda essa baderna e "falta de respeito" que as pessoas tanto falam. A mídia também presta um desserviço quando foca mais em brigas e atos de irresponsabilidade e desrespeito do que no evento completo.

Tirando os temas abordados em cada ano, comecei a observar e levei em conta os relatos de quem já participou de pelo menos uma Parada. Sinto dizer, mas ela deixou de ser um protesto político-social e se tornou mais uma enorme balada ao ar livre.

Não é pelos corpos expostos, não é pelos beijos, não pela suposta "putaria" que acontece por lá; tudo isso são formas de protesto também! É justamente pela intenção e visão das pessoas que vão lá. Elas vão pela festa, não pelo protesto.

Na minha primeira Parada fui abordado por uma menina enviada por um rapaz que ficou interessado em mim. Ele tentou me beijar, mas eu não estava lá para aquilo. Quando falei isso, ele disse: "Então por que você veio aqui?" Fiquei sem resposta... Ele estava lá apenas para beijar! Só! A Parada perdeu o sentido político-social para aquele indivíduo.

Se perdeu o sentido para ele, para quem mais pode ter perdido? Eu diria que para centenas de outras pessoas. Nem consigo culpar as pessoas hétero-cis de também verem a Parada como um "carnaval LGBT".

Será que se pegarmos aleatoriamente dez pessoas na Parada e perguntarmos o motivo desse evento, elas saberão responder? E se, por milagre, falarem do sentido político-social, elas estão lá com essa consciência?

Não quero ser interpretado como moralista e nem estou dizendo que a Parada deveria acabar ou que nem deveria existir. Longe de mim falar um absurdo desses. A Parada é uma conquista da luta do movimento LGBT e deve ser mantida; se possível, deveria existir em todas as cidades de todos os países.

Apenas acredito que deveria ser mais política e que as pessoas, LGBTs ou não, fossem com esse pensamento. Enquanto o pessoal está beijando e dançando ao ar livre, há incontáveis LGBTs no Brasil e pelo mundo sendo vítimas de toda forma de LGBTfobia. A Parada é, em sua origem, uma resposta contra isso!

Para todxs que forem numa Parada LGBT, por favor, lembrem-se disso.



18 de fev. de 2017

Quem está fora da sigla LGBT?

Quem pesquisou a respeito do movimento e sobre toda diversidade existente deve ter se perguntado: por que a sigla é só "LGBT"? Afinal não existem só gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.

Quando nos referimos a pessoas LGBTs, não falamos apenas das classes da sigla, e sim de toda diversidade de sexualidade, gênero, sexo e afetividade que existe fora do padrão conhecido heterossexual-cisgênero-diádico-monogâmico.

As classes presentes na sigla são aquelas com movimentos político-sociais organizados e reconhecidos em escala mundial (apesar de muita gente nem conhecer a sigla ou o movimento). Faz pouco tempo que queers começaram a ser incluídxs por muitos grupos. Outras classes que estiveram recebendo atenção são intersexuais e assexuais.

Assexuais, assim como pansexuais, estão no processo de conquistar seus espaços, tanto dentro quanto fora do próprio movimento. Assexualidade esteve sendo mais abordada bem recentemente, enquanto pansexualidade é mais debochada do que ignorada. As demais identidades sexuais - grissexual, polissexual, escoliossexual - ainda não se manifestam no sentido político.

Se tratando de gênero, pessoas de gêneros não binários também estão lutando por visibilidade. Infelizmente, a transfobia ainda é muito presente pelas pessoas cisgênero em geral. O que ainda dá alguma esperança é que gênero é um dos maiores assuntos desse século.

Pessoas intersexuais conseguiram alguma atenção do público geral, embora ainda haja tanto ignorância quanto preconceito com elas. A comunidade LGBT lhes oferece uma segurança relativa, porém suas maiores pautas precisam ser debatidas, como a luta contra a patologização da medicina sobre seus corpos.

E, por fim, o movimento também acolhe as pessoas poliamorosas. Falar de poliamor não é novidade, mas é um tema muito apagado na sociedade devido ao sistema monogâmico da grande maioria dos países.

Internacionalmente, a sigla LGBT permanece como a oficial e a mais reconhecida. Há coletivos de outros países (ex: EUA) que fazem uso da sigla LGBTQ (incluindo queers), LGBTI (incluindo intersexuais) ou até LGBTQIA (incluindo assexuais). Está ficando popular o termo LGBT+ para se referir a todas as classes sem alongar a sigla.

Existem propostas que constroem siglas muito grandes, algumas incluindo H de hétero (no caso de transexuais) e até A de aliança (o que, particularmente, não acho necessário).

Não sei como ficará a sigla no futuro. Seria ótimo incluir todas as classes, porém, uma sigla gigante ficaria confusa. Talvez (opinião minha) o melhor fosse unir todas as classes como apenas "diversidade". 

Independentemente do que o movimento será chamado, torço para que as demais classes conquistem seus direitos e tenham reconhecimento mundial.



19 de nov. de 2016

Militância pós-moderna

Talvez esse texto gere certa revolta contra minha pessoa. Recomendo a todxs que leiam com mente aberta, imparcialidade e estando muito zen.

Entrar nos grupos virtuais de militância foi um enorme passo para mim. Não foi como seguir ou acompanhar páginas por aí ou algumas pessoas militantes. Foi algo maior e libertador. Naturalmente, afinal são grupos com uma quantidade enorme de gente, o que possibilita uma diversidade de personalidades, opiniões, pensamentos, ideias e relatos.

Aprendi muito com esses grupos. Eu não seria quem sou se não fosse por eles. Eu não seria o militante que sou sem eles. E continuo aprendendo enquanto faço minha parte de desconstruir o preconceito interno e externo.

Contudo, tenho minhas críticas e divergências sobre a conduta das militâncias que observo nesses grupos e de militantes de quase todos os movimentos sociais.

1- Militantes estão cada vez mais formando grupinhos restritos onde só discutem entre si e não levam debates para fora, para outros lugares e para pessoas de grupos majoritários. No fim todxs se isolam.

2- O radicalismo cria pessoas explosivas e grosseiras, que dão um show de raiva frente a qualquer mínima demonstração de ignorância vinda de alguém de um ou mais grupos majoritários, e que acham que podem distribuir patadas gratuitas. Há quem use o argumento do "reação do oprimido" como justificação.

3- Tem debates sobre preconceitos e discriminações que acabam virando uma competição bizarra de "quem sofre mais". Entendam que todo preconceito é ruim e que sofrimento é relativo e varia de pessoa em pessoa.

4- Acabam focando tempo e energia mais rechaçando uma pessoa que não entendeu algo do que esclarecendo e ajudando na desconstrução dela. Ninguém nasce desconstruído! Vejo com frequência as respostas clássicas "seje menas" ou "close errado" ou memes (da Inês Brasil, por exemplo). Sim, precisamos ter paciência para explicar e conscientizar!
Obs: não me refiro a pessoas que fazem discurso de ódio e só sabem xingar e tirar sarro.

5- Os próprios grupinhos restritos acabam excluindo seus membros quando não pensam igual a todxs ou pelo menos a maioria. E por fim recebem o mesmo tratamento que o item anterior.

6- Existe um grande número de militantes que age e fala como se qualquer pessoa dos grupos majoritários fosse incapaz de ter empatia e se desconstruir. Sem contar que não aprovam nem que mostrem apoio por suas causas, alegando "roubo de protagonismo". É importante pessoas da maioria passarem adiante o que aprenderam com a minoria! A aliança serve para isso!

Há alguns outros pontos, porém não vou abordá-los nesse artigo. São pontos que precisarão de uma discussão bem maior e elaborada.

Eu acabei aderindo a radicalismos e irracionalidades que aprendi nesses grupos. Após muito tempo comecei a me questionar sobre se meus pensamentos e minhas ações estavam realmente fazendo alguma revolução, contribuindo para a mudança. Percebi então que haviam certas falhas nesses grupos. E que há aspectos que podem ser melhorados.

Tudo que falei pode ser desconsiderado apenas por eu ser homem cisgênero branco de classe média. Pois estou numa posição privilegiada que pode me impedir de enxergar a necessidade e o sofrimento dos grupos minoritários os quais não pertenço. Ademais, nem falar com propriedade pelos gays posso, já que nunca sofri homofobia no mesmo nível que a maior parte.

Ainda assim, peço que pensem sobre tudo que escrevi. Analisem esses grupos e suas atitudes, reflitam sobre vocês mesmos, questionem-se. Façam isso antes de me xingarem e disserem "olha aí, o omi cis branquelo burguês querendo opinar na militância de todo mundo".

Mesmo com todas essas críticas apontadas, acredito que, de alguma forma, estamos caminhando a algum lugar. Do nosso jeito maluco, mas estamos. Creio que chegaremos na mudança, passando por fases mais pacíficas ou conturbadas.

Errar é humano, e quem milita são humanos. A militância deve continuar sua missão e deve procurar sempre o melhor caminho para cumpri-la.



24 de ago. de 2016

União LGBT-feminista

Entre todas as pautas dos movimentos sociais podemos encontrar semelhanças entre certos movimentos. A luta feminista existe devido a opressão de gênero. E a luta LGBT existe devido às opressões do padrão social hétero-cis.

Como não falar de gênero dentro do movimento LGBT?
Como não interligar as questões feministas com as de LGBTs?

Uma pauta que ambos os movimentos têm em comum é a quebra dos papéis de gênero. 

As feministas, sejam hétero-cis ou LGBTs, se defendem contra à opressão dos papéis impostos à mulher (ou ao sexo feminino) na sociedade. Buscam liberdade de escolha e de serem e fazerem o que bem quiserem com suas vidas, sem serem diminuídas em qualquer aspecto apenas por serem mulheres.

LGBTs defendem-se contra a opressão de terem que seguir os papéis impostos a homens e mulheres e contra a heterocisnormatividade. Gays e lésbicas já desviam das normas por se relacionarem com pessoas do mesmo gênero. E todas as pessoas trans lutam para ter sua identidade reconhecida.

Temos sim tantas semelhanças, temos pessoas que vivem as duas realidades, temos pensamentos e filosofias que visam desconstruções de normas impostas socialmente. Por que é tão difícil nos unirmos então?

Talvez haja um receio de que uma combinação poderia fazer os movimentos perderem suas identidades. Mas acredito que o grande problema é o preconceito que existe nesses movimentos; o machismo entre LGBTs e a LGBTfobia entre feministas.

Existe um movimento que une o mundo feminino com o LGBT. Entre os segmentos do movimento feminista há o transfeminismo, o feminismo específico das mulheres transexuais e travestis. Segmento que infelizmente tem que se defender também de feministas transfóbicas. Esses ataques reforçam a urgência que é combater a transfobia e discutirmos mais sobre gênero na sociedade. 

Contudo, não basta só o transfeminismo. Os dois movimentos deveriam ter uma união maior, uma parceria mútua entre seus protagonistas. No fim, os movimentos lutam pelos mesmos princípios: igualdade para todxs e liberdade de ser o que é. Todas as lutas por um mundo melhor são válidas e devem andar abraçadas.



23 de jul. de 2016

Conscientização sobre a diversidade

Falando como militante LGBT, em muitos momentos me vejo cansado e impaciente para lidar com gente ignorante, seja na vida real ou virtual. Cansa explicar os conceitos básicos (tipo a diferença entre sexualidade e gênero), cansa formular respostas educadas e racionais (ainda mais para gente grosseira), cansa ter que explicar inúmeras vezes que sou uma pessoa normal e apenas quero os mesmos direitos que pessoas hétero-cis.

Esse mesmo cansaço me leva a dois caminhos: da preguiça e da raiva. Quando alguém ignorante fala uma besteira (nem sempre faz por mal), tanto eu quanto outrxs militantes acabamos ou não fazendo questão de debater com a pessoa ou podemos partir para agressão.

Não explicar nada e ainda xingar não leva nenhum dos lados a lugar algum. Claro, não falo daquelas pessoas que só sabem vomitar LGBTfobia pura, com ódio e irracionalidade. O melhor a fazer é ignorá-las, não dar ibope ao preconceito delas. Falo daquelas pessoas que mesmo em sua plena ignorância ainda abrem uma porta. Porta que podemos aproveitar para praticar a conscientização.

Não basta termos acesso ao conhecimento. Temos que também ter interesse em buscá-lo. Quando não buscamos, podemos estar fazendo isso por teimosia (persistência na ignorância) ou por simples alienação (rejeitamos sem perceber até).

Recentemente fiz uma limpeza em meu quarto. Tenho um armário repleto de coisas que não faço uso há anos. Eu tinha dentro dele muitas fontes de conhecimento que adquiri na infância e na adolescência e fiz ou pouco uso ou nenhum uso.

Absurdo? Pode até ser. Mas do que adianta ter conhecimento nas mãos e não ser estimulá-lo a fazer uso, correr atrás, descobrir. A educação brasileira não é mesmo das melhores, seja nas instituições de ensino ou nas residências.

Se podemos ser alvos dessa alienação quando o conhecimento está próximo, imaginem para aquelas pessoas que ele está mais distante. Pessoas que tem pouco acesso a Internet ou vivem em regiões tão remotas que o mundo delas se resume apenas àquela região e sua população. Exatamente por isso que até mesmo a ignorância de quem usa as redes sociais deve ser relativizada.

Muitas vezes se torna difícil ter paciência com a ignorância alheia. Mas sim, precisamos ter. Conscientizar as pessoas hétero-cis sobre nossa humanidade exige isso. E lembrem-se: ninguém nasce sabendo. Até nós da militância cometemos umas gafes!

Acredito que chegará um dia que pessoas hétero-cis e pessoas LGBTs coexistirão apenas como pessoas, sem rótulos ou separações, todxs iguais. Não é uma utopia se formos unidxs. A mudança também deve começar em nós.



13 de abr. de 2016

O movimento GGGG

O movimento LGBT é o núcleo da diversidade humana. Aqui está toda a diversidade de sexualidade, gênero, sexo e afetividade. Aqui estão todas as pessoas que saem dos padrões e por causa disso lutam para viver, para amar, para existir.

E à parte dessa luta nossa, após muitos conflitos e discussões nas redes sociais, surgiu o que no ativismo chamamos de "movimento GGGG"; aqueles gays que discriminam todas as demais minorias sociais e só pensam em seus próprios interesses.

O pior é que estão surgindo grupos por aí reunido essa gente, grupos que se manifestam contra tudo que o ativismo LGBT defende. Todos gays cis egocêntricos e ignorantes que não querem se desconstruir. Eles até afirmam que atualmente o próprio movimento LGBT os discrimina (*risos*).

Os homens gays cis e brancos são os GGGGs. Há alguns homens cis negros padrões que agem como GGGGs, apesar da discriminação que sofrem (a rejeição ou a objetificação). Contudo, os brancos ainda tem seu destaque maior, ainda mais pelo racismo estrutural.

O movimento LGBT já foi conhecido como "movimento gay" porque a diversidade, na ignorância da população geral, sempre foi resumida a 'gays'. Essa imagem ficou tão marcada que é mais fácil pensarmos em gays do que nas demais classes. Como se não bastasse isso, nossa imagem dos gays também é um tanto problemática. O mais comum é nos lembrarmos dos gays masculinos, de corpos malhados, aqueles dentro dos padrões de beleza, esbanjando popularidade e sensualidade. E por que isso? Simples: eles que têm destaque na mídia e nas redes sociais!

Compreendam que o problema não é a existência dos gays brancos padrões. Eles fazem parte do movimento e representam assim como todas as pessoas de todas as classes dentro da diversidade. Não há nada de errado em ser padrão. O problema é a idealização imensa da imagem deles, essa mesma idealização que os torna símbolo de todo o movimento LGBT e modelos de um 'gay perfeito'.

O gay afeminado também representa.
O gay gordo também representa.
O gay negro também representa.
O gay trans também representa.
O gay portador de HIV também representa.
O gay com deficiência também representa.

Todos esses homens gays estão aí, no mundo, em nossa sociedade. Não só lutando contra a homofobia, mas também contra o machismo* e a heterocisnormatividade, a gordofobia, o racismo, a transfobia, o estigma e o capacitismo.

*nota: há feministas que defendem que a classe homem não sofre machismo. Mas o preconceito contra a feminilidade do gay afeminado tem uma raiz machista, até porque o machismo exalta e exige masculinidade do homem.

E não apenas os homens gays, como também todas as demais classes também representam o movimento, nossa grande diversidade de pessoas. 
Nossa diversidade também abrange lésbicas, bissexuais, assexuais, polissexuais, pansexuais, travestis, transexuais, gêneros não binários, queers, intersexuais e pessoas poliamorosas.

Olhem o tamanho da nossa diversidade!

Se ainda lhe resta dúvida sobre o que estou escrevendo aqui, comece a observar seu redor. Preste mais atenção na mídia e nas redes sociais. Busque conteúdo LGBT. O que você mais encontrará? Gs ou LBTs? Repare na atenção dada a todas as classes, e me diga qual recebe maior atenção.

E para quem acompanha o ativismo LGBT não é incomum achar prints ou observar brigas em que vemos homens gays cis brancos dando um show de, principalmente, misoginia, racismo, gordofobia, transfobia. Além de enaltecerem o padrão estético e o estilo de vida normativo em que se encaixam, como se fossem deuses da beleza e da boa conduta. Pff ¬¬

É difícil lutar contra o preconceito da própria sociedade (as pessoas hétero e cis) quando dentro do próprio movimento há também preconceitos. A luta contra a lesbo/bi/transfobia também se faz entre as classes da diversidade, além da luta contra o machismo e o racismo.

Todos os movimentos sociais estão entrelaçados de alguma forma, não importa se você é uma mulher hétero-cis ou uma pessoa negra hétero-cis. Dentro do movimento feminista e negro há também LGBTs, estamos em todo lugar. A luta está em todo lugar, seja você LGBT ou não.

Mais voz, visibilidade e reconhecimento para os outros Gs, de todas as expressões, corpos, etnias e condições!
Mais voz, visibilidade e reconhecimento para quem é L, para quem é B, para quem é T, para todxs que precisam!