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27 de jun. de 2018

De novo sobre aborto

Retorno com este tema porque foi muito discutido recentemente nas redes sociais. Deputades da Argentina aprovaram o projeto de legalização do aborto, que agora será analisado pelo Senado. O aborto é permitido no país apenas em casos de estupro ou risco à vida de gestante.

E com isso a discussão sobre a legalização do aborto ganhou força nas redes sociais, iniciando mais uma briga entre os polos a favor e contra o procedimento. Já falei sobre o tema aqui no blog. E sim, essa briga já ocorreu outras vezes, mas dessa vez queria apontar outras coisas.

Pessoas que defendem a legalização costumam falar muito sobre o "aborto masculino"; ou seja, quando a figura paterna decide não assumir o bebê. É problemático chamar abandono e fuga de uma responsabilidade como essa de "aborto masculino". 

Primeiro porque abandono realmente gera danos tanto ae gestante quanto à criança, enquanto aborto não faz nada disso. Segundo porque homens cis literalmente não abortam, e aborto não é feito somente por mulheres cis.

Mais uma vez a defesa veio falando que "somente quem tem útero pode opinar". Eu também repeti esse discurso e me fizeram perceber o quanto estava errado. E refleti depois sobre. 

Dizer que só pessoas com útero podem opinar exclui automaticamente mulheres cis/ipso sem útero e mulheres trans, o que seria bem contraprodutivo. Na verdade, todes opinar. Todes mesmo. As pessoas têm de fato a liberdade de ser a favor ou de ser contra. O problema é como se expressam.

A legalização do aborto não é uma mera questão de opinião, é uma questão de saúde pública. E sim, diz respeito unicamente a pessoas que possam engravidar; só elas são alvos dessa situação.

Mas mesmo que você seja contra, reconhecer essa questão como um tema social e que pode ser necessidade de outras pessoas é suficiente, pois demonstra empatia e consciência. Não podemos exigir que nossos posicionamentos pessoais sejam regra para todo mundo. E o mesmo vale especialmente para as mulheres que escolheram ter sues filhes numa gravidez indesejada ou após um estupro.

E nesse episódio teve um acontecimento inusitado: prints de conversas de homens rejeitando a gravidez das mulheres. As conversas revelaram o quanto homens podem ser hipócritas, imaturos, irresponsáveis, agressivos e misóginos. Um tapa na cara de quem joga toda a culpa da gravidez na parte gestante, e de quem diz que as pessoas engravidam só pra receber pensão (que muitas vezes nem compra todos os recursos usados mensalmente por um bebê).

Vou continuar defendendo a legalização, vou continuar apoiando como posso, e vou continuar torcendo para que o Congresso reconheça e valorize essa questão.



12 de mar. de 2017

Comentando uma notícia

Recentemente uma notícia chocante se espalhou nas redes sociais. Uma menina de 11 anos teve o aborto negado pelo SAMVVIS (Serviço de Atenção às Mulheres Vítimas de Violência Sexual) no estado do Piauí. Ela estava sendo abusada pelo padrasto há três anos. Mesmo com boletim de ocorrência, o padrasto não foi preso. A menina está na 25ª semana de gravidez.

São tantas coisas erradas num único trecho que nem sei por onde começar. Primeiramente, já é absurdo demais uma criança ter sido abusada por anos. Onde estava a família? Ou a família sabia e deixava isso acontecer? E mesmo após ser denunciado para a polícia, o pedófilo continua livre! Livre por aí!

Falando agora apenas da vítima, imaginem como deve estar a cabeça dessa criança. Abusada e sendo obrigada a levar adiante uma gestação! Ninguém acha isso problemático? Fico pasmo pela quantidade de gente mais preocupada com o feto do que com toda a situação da vítima.

O Ministério da Saúde realiza o aborto em até 12 semanas de gestação. E como já escrevi aqui, esse tempo foi estipulado por causa da formação do cérebro. Porém, esse caso me fez refletir: será que situações como esta não deveriam ser exceção? Para tudo há exceções. Estamos falando de uma criança traumatizada e negligenciada! Se bem que interromper a gravidez nesse estágio poderia ser um risco à vida da menina...

O SAMVVIS, o único grupo que poderia oferecer o apoio necessário para a menina, constou não haver "sintomas de anormalidade em sua saúde física e mental". Vem cá, quem fez esse exame??? Ela foi estuprada por três anos, como não havia danos físicos ou mentais? E agora vem o pior: a maternidade queria "encorajar" a menina a cuidar da criança, embora colocá-la para adoção seria outra opção.

A mãe da menina disse que vão doar o bebê para adoção. A criança vai ter que lidar com uma gestação e teremos mais um bebê sem família no mundo, fruto de um estupro pedófilo. Só quero fazer uma pergunta: que vida levará essas duas crianças?

O Brasil está num estado crítico. Apenas em uma notícia percebe-se a falha do próprio sistema de apoio a mulher, que a questão do aborto precisa ser mais discutida, a impunidade ainda existente e a recorrência da pedofilia. Até onde vamos? Que país bizarro...



1 de out. de 2016

Legalização do aborto

Falar de aborto ainda é um tabu. Isso é compreensível levando em conta toda complexidade, tanto ética quanto religiosa, que acompanha discussões sobre a vida e o direito a ela.

Desde já esclareço que ninguém é realmente a favor do aborto. O que quero discutir aqui é a legalização do aborto, que é um direito da mulher e uma questão de saúde pública. 

Legalizar o aborto não é simplesmente dar o direito da mulher abortar quando bem quer. Existe toda uma legislação sobre isso, considerando as causas da gravidez, a condição da mulher e também o tempo de desenvolvimento do embrião, um conjunto de células.

E daí vem aquela discussão polêmica: esse conjunto de células, que sequer tem um cérebro formado, é uma vida? Muitas religiões defendem que a concepção - a fusão do espermatozoide com o óvulo - é o início da vida. A ética, apoiada na ciência, ainda não chegou a um consenso. Entretanto, mundialmente o aborto é aceito se realizado até a 12ª semana (3º mês) de gestação, visto que após esse tempo há um feto com pequena atividade neuronal (embora ainda um ser inconsciente).

Falando das causas da gravidez, devemos considerar os seguintes fatos:

1- Nem todas as camadas sociais têm acesso à informação; no caso, me refiro às mais periféricas. Pessoas sem a devida educação e assistência vão, naturalmente, viver mais pelos seus instintos mais básicos. Sim, elas vão sentir tesão e, naturalmente, vão transar. E como são ignorantes e marginalizadas, elas não têm alternativa a não ser ter o bebê, mesmo em condições miseráveis.

Sempre que você disser “abrir as pernas foi fácil”, que é uma maneira simplista de enxergar a situação, tente se colocar no lugar dessas pessoas. Elas não tiveram a mesma sorte que você, de nascer com acesso ao conhecimento e à educação.

2- Existem muitos métodos anticoncepcionais disponíveis no mundo. Se bem que nem todos os países podem adquiri-los e distribui-los para a população. Sabe o que todos eles têm em comum? Nenhum é 100% eficaz.

Sim, camisinhas estouram, pílulas podem falhar, e assim por diante. E não, não é culpa da mulher, nem do homem, que seja. Pode acontecer com qualquer pessoa. Você, pessoa hétero-cis, tenha sempre isso em mente.

3- Infelizmente, estupro contra a mulher ainda é uma realidade e recorrente pelo mundo. Talvez esse seja o ponto mais relevado até mesmo por quem se diz “contra o aborto”. Porém, há quem defenda (principalmente homens cis) que nem estupro é desculpa.

Já imaginou o que deve ser carregar o bebê de um homem que te estuprou? Pense nisso.

Obs: vale lembrar que nosso lindo governo fez um projeto chamado “Estatuto do Nascituro”, que impedia mulheres de abortarem em casos de estupro e até ofereciam direito à paternidade ao estuprador. Só um homem cis para pensar num projeto desses.

Eu acabo relevando muito com boa parte das pessoas que se dizem contra. Porque assim que elas expressão sua opinião, percebo que elas têm uma visão simplista, não enxergam toda a dimensão do tema. Elas mesmas são ignorantes.

Acho que muitas delas devem achar que legalizar o aborto é permitir que as mulheres saíssem engravidando e arrancando os fetos quando querem. E não é isso, nem passa perto disso. Aborto é um procedimento incômodo demais. E como foi dito, o procedimento deve ser feito antes da formação completa do feto.

Quem se diz contra deveria ao menos pesquisar sobre países que legalizaram o aborto. Em todos eles diminuiu-se a taxa de abortos clandestinos (que, por sinal, ameaçam a vida da mulher) e a taxa de natalidade permanece aceitável.

Mais uma coisa: percebe-se que membros da direita, esses que se autodeclaram “pró-vida”, protegem a todo custo a vida da criança... até ela nascer. Não adianta nada se dizer pró-vida se você não se importa com a vida da mulher e com que condições ela cuidará da criança (ou se vai simplesmente dá-la para adoção). Você não é pró-vida. Você é pró-nascimento. Ah, defender pena de morte também não é ser pró-vida, ok?

Convenhamos, o aborto teria sido sempre legalizado se os homens cis tivessem útero.