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9 de jun. de 2018

O sexo biológico

Há pouco tempo perambulou por aí pela Internet essa imagem:


E eu propus a seguinte resposta: E) Masculino, masculina, provavelmente homossexual.

Provavelmente homossexual porque, bem, não foi constatada uma atração exclusiva por homens. N pode ser bi, pan, poli, oni, assexual homorromântico, entre muitas outras possibilidades.

Agora, sobre o sexo. Primeiramente, se N já estava com sua documentação retificada, por lei, seu sexo é masculino. Mas sei que a questão foi formulada pensando na corporalidade de nascença, e muita gente também nem se importa com o que tem respaldo por lei.

Não apenas gêneros começaram a ser questionados como também os sexos. Como foram classificados? Por que são classificados? Para que são classificados? Vamos discutir então!

Primeiro de tudo, a classificação dos sexos em masculino e feminino já é uma exclusão aos intersexos por definição. Ainda assim corpos intersexos são logo mutilados justamente para serem encaixados em uma dessas definições. E para se encaixarem no que a sociedade considera como um sexo aceitável, para também serem encaixados na visão social de homem e mulher.

Pois bem, antes falam que a biologia define gênero, mas sexos "adversos" devem ser "corrigidos" para então a pessoa "ser homem/mulher"? Percebe-se aqui então que: nem a biologia sexual é binária e misturam-se noções sociais (subjetivo, afinal são mutáveis) com anatomia (objetivo, pois é material). Então... nada é muito absoluto como tanto afirmam, né?

Sem contar que as noções do ser homem e do ser mulher mudam de cultura em cultura, de época em época. Nem isso é absoluto, até isso é subjetivo. Mas vamos focar no sexo.

Sexo é composto por cromossomos, hormônios, gônadas e genitália. Os sexos definidos como masculino e feminino são bem construídos, com padrões a serem atendidos. Nos ensinam que o masculino é XY, testosterona, testículos e pênis; e o feminino é XX, progesterona e estrogênio, ovários e vulva.

Pois bem, nem vou falar das pessoas intersexo e da diversidade imensa na intersexualidade, vou falar da diversidade dentro dos sexos "binários": existem muitas variações hormonais entre as pessoas. Pode haver atividade baixa ou alta dos hormônios predominantes, ou pode haver atividade dos outros hormônios (pois todos estão presentes em todos os corpos).

E tais atividades produzem variações nas anatomias, que podem entrar ou não em discordância com outras noções sociais do que são corpos "masculinos" ou "femininos" (tamanho do pênis é associado com virilidade, tamanho dos seios com feminilidade, etc).

Agora, a mera classificação de masculino e feminino. O que exatamente é masculino e feminino? O que torna um pênis masculino? O que torna uma vulva feminina? O que determinou que o cromossomo Y é masculino? O que determinou que o cromossomo X é feminino (isso quando não acompanhado do Y, porque... sei lá)?

Desafio alguém a dissertar sobre tudo isso sem cair em achismos, estereótipos de gênero, explicações vagas, termos abstratos ou ideias mutáveis sobre masculinidade e feminilidade.

Até agora a única função que percebi dessas classificações sexuais é apenas para impor os gêneros binários às pessoas, junto com papéis e comportamentos de gênero (que podem ser opressivos até mesmo para as pessoas cis). Se gênero é questionável, por que sexo não o seria também? Sexo não é binário e classificá-lo não tem base científica.

Por isso prefiro seguir os pensamentos da Teoria Queer e aceitar que o sexo esteja sempre de acordo com o gênero. Portanto nosso amigo N, um homem trans, tem sexo masculino, porque seu gênero é masculino. Ele é homem; sua vulva, seus ovários e seu útero são de homem.

"Ah, se agora as pessoas podem dizer o que quiser do seu sexo, como fica as questões de saúde?"

Ora, a comunidade médica que crie um novo sistema de identificação sexual!

Uma alternativa que imaginei seria utilizar códigos que definissem que tipo de genitália, gônadas, hormônios e cromossomos a pessoa tem. Basta identificar o tipo sexual da pessoa ao nascer, registrar seu código, e pronto, problema resolvido. E a pessoa pode nomear seu sexo como quiser, dentro de sua subjetividade enquanto ser humano (que não interessa ao sistema de saúde).

Isso resolveria também muitos problemas de pessoas transicionando biologicamente e de pessoas intersexo. Ideias existem, só não há força de vontade. Classificações sexuais apenas servem para sustentar o cissexismo e o diadismo.

É bizarra essa necessidade de mencionar sexo "masculino"/"feminino" quando se trata de pessoas trans. Isso definitivamente não é respeitar a identidade da pessoa, parece sempre uma forma de dizer que "no fim ela é o que nasceu".

Corporalidade é um assunto íntimo. E nem está inclusa nas definições de atrações ou de identidade de gênero. Saúde? Ora, quem tem próstata vai em proctologista, quem tem vagina vai em ginecologista, e etc. Simples. Só precisam saber o órgão, não classificação do sexo.

Finalmente estamos percebendo o que sexo realmente é: apenas sexo.



16 de mai. de 2018

Heterodissidentes e as normas de gênero

Muito se fala que orientação sexual e identidade de gênero são coisas diferentes e que não tem nada a ver uma com a outra. A opressão contra pessoas que não são hétero é uma, a opressão contra quem não é cis é outra. Ponto final.

Não, não vou negar os conceitos e nem que as opressões contra pessoas heterodissidentes e pessoas transgêneros são específicas e singulares. Mas não posso deixar de notar que esses discursos trazem uma visão distorcida sobre a história da heterodissidência no mundo.

Nem faz tanto tempo que a noção social era que homens e mulheres "de verdade" eram apenas hétero. O resto era... o resto. Tinha homens, tinha mulheres, e aí vinham homossexuais, transexuais, e etc. Mesmo hoje esse pensamento perdura. É tão bizarro, porque toda a população tem em seus documentos um sexo/gênero marcado como ou masculino ou feminino. Porém, socialmente, o gênero documental era simplesmente ignorado em função da sexualidade e também da expressão de gênero do indivíduo.

Tendo isso em mente, não seria equivocado afirmar que pessoas heterodissidentes também desafiaram as noções de gênero, não apenas as sexuais. E não falo especificamente de homens afeminados ou mulheres bofinhos, falo de todes heterodissidentes. O simples fato de estar fora da heterossexualidade, até então combinada "perfeitamente" com a cisgeneridade, não apenas desafiou as normatividades como contribuiu para a separação dos conceitos.

Foi então que se percebeu que homens aquileanos e mulheres sáficas ainda eram homens e mulheres, tão homens e mulheres quanto héteros. Ser heterodissidente teve a ver, até certo ponto, com gênero. E foi algo bem positivo. Abriu-se discussões sobre sexualidade e gênero.

Se a heterodissidência é uma afronta à heteronormatividade, e a heteronormatividade está entrelaçada com a cisnormatividade, então não é nada surpreendente que pessoas não-hétero tenham atacado, até certo ponto, a própria imposição de gênero.

Isso tudo sem contar que muites heterodissidentes foram ou são não-conformistas de gênero, pessoas com uma expressão de gênero não esperada pela sociedade.

A orientação sexual e a identidade de gênero são características separadas. Isso é um fato. Mas as imposições sexuais e de gênero estão aí, misturadas e jogadas na cara de todes. Ume desviante do sistema é sempre uma ameaça completa - no caso, um sistema heterossexista e cissexista.


29 de abr. de 2018

Pra que ser militante?

Já falei muitas vezes que ninguém tem obrigação de ser militante de qualquer causa. Bom, a princípio, ninguém é obrigade a nada mesmo. Mas agora vamos falar do contexto atual. Serei direito e reto nesse texto. Temos:

- um avanço assombroso da mentalidade conservadora e reacionária pelo mundo
- estatísticas ainda crescentes de violência e morte motivadas por ódio
- pouca eficiência, resistência e união política de pessoas e grupos progressistas
- e muita gente dos grupos minoritários alienada politicamente

Aqui vai um fato: não podemos ignorar que precisamos mais de militantes!

Não adianta chorar, não adianta protestar, não adianta tentar encontrar uma alternativa. Precisamos sim de mais pessoas militando pelas causas sociais. Todos esses fatos só reforçam isso. O cenário atual está uma merda.

A situação está tão desnorteada que quase nem consigo separar as pessoas apenas em militantes e não-militantes. Entre a população temos militantes reais, falses militantes, gente que diz não ser militante e ainda contribui com as causas, gente que apenas não se envolve, e gente anti-militância.

Mas o que afasta as pessoas da militância?

Entre muitos fatores, o mais evidente deve ser o grupo des falses militantes: não sabem discutir ou argumentar, não têm didática, têm reações exageradas, chegam a reproduzir opressões, são pessoas antipáticas, só querem ser estrelinha, enfim. Sim, essas pessoas assustam e incomodam e desanimam. Agora, usá-las para generalizar não é justo.

Aliás, generalizar me parece uma forma de negar rápido uma responsabilidade. E daí vamos a outro fator: as pessoas não querem assumir compromisso político; não querem se envolver e não querem sair de sua zona de conforto. Isso é esperado vindo de uma sociedade com uma educação precária, que não estimula o povo a conhecer política ou ter empatia peles outres.

Ainda tem gente que se ilude achando que minorias em novelas e séries, ganhando prêmios, fazendo umas músicas, alguns direitos sociais conquistados e marcas colocando arco-íris nos produtos são sinais de grandiosos avanços. São porra nenhuma!

Precisamos de mais gente se mostrando, se expondo, dizendo que faz parte da diversidade, falando sem medo tudo que passa. Precisamos de gente falando e discutindo sobre diversidade, seja nas redes sociais, na rodinha no bar, no almoço em família, nas escolas, etc. Precisamos nos envolver politicamente e colocar no poder figuras verdadeiramente progressistas, ou mesmo tentar entrar no poder nós mesmes.

É um trabalho árduo, ninguém prometeu que seria fácil. As militâncias atuais necessitam de uma reforma. E derrubar sistemas opressivos e ir contracorrente numa onda gigante de ódio e intolerância é muito difícil. Mas lembrem-se que mudanças estão acontecendo e a união faz a força (e nos dá força também).

Quem diz que as militâncias não são necessárias ou é muito ignorante sobre o cenário atual ou não se importa com as pessoas. Se for ignorância, ainda tento conversar. Se for falta de empatia, quero mais que a pessoa se exploda. O mundo agora exige coletividade, não individualismo.



25 de mar. de 2018

Aquelas microagressões do cotidiano

Uma microagressão é entendida como frases, comportamentos e atitudes que demonstram um pensamento preconceituoso ou normativo numa escala considerada menor, quase sempre cometida sem a real intenção de discriminar.

Mas toda microagressão ainda é uma manifestação dos sistemas opressivos, e por isso precisam ser combatidas. Logo abaixo colocarei as mais comuns cometidas contra a comunidade LGBTQIAP+ (por pessoas de dentro e de fora dela).

- Presumir qualquer característica positiva de pessoas da comunidade.
Que gays são inteligentes, que pessoas bi têm "muitas opções" de parceires, que assexuais e arromântiques não sofrem por relacionamentos ou por amor, enfim, só parem. Enquanto algumas ideias são equivocadas e ofuscam opressões, há outras que mostram cobranças sociais para "compensar" o fato da pessoa estar fora dos padrões.

- Questionar por que a pessoa tem certo gosto ou faz tal coisa só por ela ser [insira o grupo].
Pessoas são pessoas, tá? Orientações, gêneros e sexos biológicos não vêm com um pacotinho de preferências, tendências, aptidões, etc. Isso é só reforçar estereótipos.

- Duvidar da orientação e/ou do gênero da pessoa por qualquer motivo.
Se a pessoa está afirmando que é de tal grupo ou identidade, só podemos dar um voto de confiança e acreditar. Não temos como saber orientação e gênero das pessoas, não temos como entrar na cabeça delas pra "confirmar". E garanto que pessoas não saem por aí afirmando serem de uma classe oprimida sem motivo.

- Falar que algo da comunidade virou "modinha".
Sim, é muita modinha pertencer a uma comunidade discriminada, ter sua existência apagada, sofrer agressão física, ser privade de direitos básicos, etc.

- Não aceitar determinada identidade por ser "desconhecida" ou "confusa" e exigir que a pessoa se identifique com algo mais comum.
As pessoas precisam urgentemente entender que identidades são criadas para descrever experiências. E que nem todes têm experiências que se encaixam em identidades "mais populares". Exigir que aceitem identidades já prontas é apagar a diversidade e um desrespeito imenso com a pessoa.

- Conversar com um homem ou uma mulher já pressupondo que são héteros ("tem namorada?" / "gosta que tipo de homem?").
Muito heteronormativo. Não existe só hétero no mundo. Supere. E não, não venha com as desculpas "a maioria ainda é hétero", "é mais provável que seja hétero", "a pessoa não vai se ofender por ser confundida com hétero", entre outras.

- Negar uma discriminação relatada por alguém ou achar que seu sofrimento é "exagerado" porque conhece uma pessoa que não passou por isso/não é atingida pelo preconceito.
Bom, vou começar admitindo uma coisa: não, nem toda pessoa LGBTQIAP+ do planeta Terra é discriminada todo santo dia e de uma forma violenta. Agora, vamos aos fatos: a) essas pessoas são uma minoria; b) cada pessoa lida com preconceito de formas diferentes e isso deve ser respeitado; c) pessoas discriminadas costumam omitir seu sofrimento ou parecer que nada as ofende para lidarem melhor com a opressão. E essa cartada de "amigue que não sofre preconceito" é uma das várias formas de invalidar opressões existentes. Pare, só pare.

- Perguntar para gays e lésbicas se já se relacionaram com, respectivamente, mulheres e homens para "ter certeza do que são".
Resquício daquela ideia bizarra de que a heterossexualidade é a sexualidade padrão e que o resto só se desvia dela. Por que não fazem a mesma pergunta para héteros?

- Achar que todo homem afeminado é gay e que toda mulher bofinho é lésbica.
Expressão de gênero não tem a ver com orientação sexual. E é muito normativo julgar as pessoas pela expressão delas.

- Afirmar que todo homem acompanhado de um homem gay ou toda mulher acompanhada de uma mulher lésbica são sues parceires/ficantes/namorades.
Sabiam que gays e lésbicas também fazem amizade com pessoas do mesmo gênero?

- Ficar perguntando para as pessoas, principalmente gays, como elas transam.
A vida íntima alheia não é pública!

- Separar gays (cis) em ativos ou passivos, e ainda de acordo com a expressão (masculino, ativo; feminino, passivo).
É tão normativo que nem sei por onde começar, e infelizmente é algo cometido entre gays com frequência. Além de nem considerar versatilidade e gouinage, esse pré-julgamento tem uma base heteronormativa, associando "homem" com "dominância" e "mulher" com "submissão". E esse mesmo princípio faz com que pessoas hétero-cis perguntem para casais de homens e de mulheres "quem é o homem e quem é a mulher da relação".

- Brincar com gays e lésbicas como se elus tivessem repulsa de, respectivamente, vagina/mulheres e pênis/homens.
Orientação sexual não implica em ter repulsa a um gênero e/ou uma corporalidade. E os "nojos" de certas genitálias vindo de gays e lésbicas cis revelam cisnormatividade e diadismo de suas partes.

- Presumir a orientação sexual das pessoas e só pensar nas opções: hétero ou homo.
Existem pessoas que sentem atração por mais de um gênero, tá?

- Perguntar para pessoas bi se elas são "mais homo" ou "mais hétero".
Elas são bi apenas. Parem de usar atração hétero ou homo pra medir bissexualidade!

- Duvidar da existência das atrações fluídas, principalmente a sexual.
Outra forma de contribuir com o monossexismo, como se não fosse possível existir atração por mais de um gênero, mesmo que essa atração seja temporária.

- Dizer que orientações multi são "basicamente bi" ou que "só existe hétero, homo e bi".
A maior opressão aqui é o exorsexismo, pois coloca pessoas não-binárias como homens e mulheres, e que, portanto, só existe atração por dois gêneros (e isso também porque ainda consideram bi como atração apenas por bináries). E apaga uma diversidade de experiências que saem do padrão binário.

- Ficar perguntando para mulheres e homens trans se elus já fizeram cirurgias genitais.
As virilhas alheias não são públicas!

- Dizer para mulheres e homens trans que "nem parecem trans".
Não é elogio. É agressivo, inclusive. É escroto. Coloca ser trans como um tipo de falsificação e que "parecer cis" é o objetivo das pessoas trans.

- Resumir pessoas com pênis a homens e pessoas com vagina a mulheres.
Isso é cisnormativo com homens e mulheres trans que não têm disforia com as genitálias, diadista com pessoas intersexo com genitálias diferentes de pênis e vagina, e exorsexista com todas as pessoas não-binárias.

- Perguntar sobre a genitália de pessoas intersexo.
Novamente, as virilhas alheias não são públicas. Além disso, nem toda intersexualidade tem variações na genitália.

- Perguntar para assexuais se já transaram ou tiveram interesse em sexo.
Isso é claramente a vida privada das pessoas. E mesmo que algumas possam responder tranquilamente, existem assexuais que não gostam nem de falar de sexo. Respeitem!

- Presumir que toda pessoa é alo.
Olha a pessoa e já imagina que ela deve ser alguém sexualmente ativa e/ou procurando o amor da vida dela. Não, nem toda pessoa é assim. Supere.

- Afirmar que "é bom" ser do espectro A porque a pessoa "não sofre por sexo, relacionamentos ou amor".
Pode não aparecer, mas é um pensamento normativo, pois presume que: assexuais não podem transar, arromântiques não se relacionam, e pessoas do espectro não amam por não sentirem atrações sexual e/ou romântica. Amor é um sentimento amplo e não acompanha necessariamente sexualidade e romanticidade. Pessoas A ainda têm sentimentos!

- Achar que viver sem sexo e/ou sem namoro é uma vida infeliz ou incompleta.
A vida é muito mais do que sexo e namoro. Pessoas A podem ser felizes e completas sem nada disso, sem nem ao menos experienciar essas coisas. Pergunte a elas ao invés de usar sua realidade como parâmetro para todes.

- Dizer que não-bináries são "basicamente homens/mulheres" por causa de suas corporalidades e/ou apresentações.
Genitálias e roupas não definem o gênero da pessoa! Não-bináries são basicamente não-bináries. Sempre. A todo momento. Com qualquer corpo e apresentação.

- Duvidar que é possível sentir atração por não-bináries sem encaixar essas pessoas em homem ou mulher.
É um pensamento extremamente exorsexista, pois continua apagando as identidades n-b e reafirma que as pessoas só conseguem enxergar dois gêneros.

- Ditar como pessoas não-binárias devem parecer.
Não, elas não são obrigadas a ter aparência andrógina. Elas não têm que parecer fora da norma, é a norma que tem que deixar de existir.

- Impor que não-bináries usem somente as linguagens o/ele/o ou a/ela/a.
A língua portuguesa foi moldada de uma forma exorsexista, feita apenas para homens e mulheres. E os dois conjuntos foram feitos para esses dois gêneros. Aceitar essa norma é contribuir com a cisnormatividade. Assim como muites transgridem as normas vestindo o que querem e mostrando afeto em público, questionar e desafiar a língua também é válido.

- Falar "todas e todos" como se incluísse todes.
De novo, nem todas as pessoas usam as duas linguagens normalizadas. E a questão não é resolvida dizendo "todas, todos e todes", pois a neolinguagem propõe justamente neutralidade e inclusão totais. Ou você usa só neolinguagem ou usa a língua normativa mesmo.

- Perguntar sobre o sexo biológico de pessoas trans binárias ou não-binárias para "entender" o que elas são.
É muito comum perguntarem isso para assim encaixarem a pessoa como "macho" ou "fêmea" ou confirmar se o corpo é "masculino" ou "feminino". Esse pensamento é cisnormativo e diadista também. E exorsexista, por ainda querer jogar a pessoa em um dos gêneros binários.

- Dizer para pessoas trans binárias ou não-binárias que elas estavam "melhor" sendo do gênero designado.
Elas estão melhor sendo quem são e não estão nesse mundo pra te agradar.



Bora parar de fazer essas coisas? ^-^



14 de fev. de 2018

Opressões interligadas

Por que falar de todas as opressões? É possível focar apenas em uma?

Bom, tendo isso em mente, vamos analisar os três sistemas opressivos que geram todas as discriminações sofridas pelas pessoas da comunidade LGBTQIAP+: a heteronormatividade (imposição da orientação e relação hétero), a cisnormatividade (imposição da cisgeneridade) e o diadismo (imposição dos corpos perissexo).

Como já falei num outro artigo, todos esses sistemas agem em conjunto no mundo inteiro, embora haja vezes em que podem agir individualmente. Mais do que isso, possuem fortes ligações entre si. Vou fazer três constatações que mostram melhor isso.

Toda pessoa cisnormativa é diadista, mas não necessariamente heteronormativa.

Dentro da cisnormatividade há a imposição de que sexo define gênero. E dentro dela também somente dois gêneros são válidos: homem e mulher.

Pois bem, se há um corpo que não é perissexo testiculado ou perissexo ovariado, dificultando que seja classificado como masculino ou feminino, esse corpo - intersexo - é definido como uma anomalia e que precisa ser corrigida. Se sexo define gênero e só existem dois gêneros, logicamente esse mesmo pensamento valida apenas os perissexos.

Toda pessoa heteronormativa é também cisnormativa e, com isso, diadista.

A identidade hétero foi historicamente construída para mulheres e homens cisgêneros e perissexos.

É praticamente impossível existir alguém que valida um casal hétero onde uma ou ambas as partes são trans ou intersexo enquanto discrimina casais do mesmo gênero ou heterodissidentes. Além disso, a heteronormatividade automaticamente excluí os gêneros não-binários, a opressão chamada exorsexismo, que está dentro da cisnormatividade.

É possível uma pessoa não ser heteronormativa e cisnormativa, mas ainda ser diadista.

Mesmo que haja tolerância com toda orientação não-hétero e a transgeneridade, a sociedade, majoritariamente composta por perissexos, ainda pode tratar os corpos intersexo como anomalias. A corporalidade é um aspecto separado de orientação e gênero e traz discussões específicas; como quais corpos/genitálias são atraentes e quais não são.

É possível também uma pessoa perissexo e trans (binária ou não-binária) ter pensamento diadista. No entanto, devido às semelhanças entre as vivências de transgêneros e intersexos, a opressão ocorre com frequência muito menor em comparação com pessoas cis.



Esse texto foi apenas uma análise minha para apontar que esses sistemas estão muito interligados. Não são construções separadas que depois se uniram, elas nasceram unidas. Logo, seguindo essa linha de raciocínio, devem ter a mesma origem, partir da mesma raiz. Qual? Não sei responder ainda. Há muito o que estudar.

Em todo caso, o conteúdo aqui apenas reforça a necessidade de se falar constantemente de todos os sistemas, pois no fim eles atingem todos os segmentos da comunidade de uma forma ou de outra. Nosso discurso e nossa militância precisam ser interseccionais ao máximo.



30 de nov. de 2017

Expectativas familiares

Genitores, principalmente pais e mães tradicionais, costumam planejar roteiros de vida para seus bebês, antes ou pouco tempo depois de nascerem, criando muitas expectativas sobre o que eles serão e farão.

De todas as expectativas, há três que já vi com frequência e sinto necessidade de problematizar:

- Que sigam a carreira que não puderam seguir
- Que cresçam para cuidar na velhice
- Que tenham filhos para assim terem a experiência de serem avôs

Tá, vamos analisar cada item.

Primeiro item. Talvez a pessoa tenha prazer e consiga sucesso na carreira que seus genitores não puderam seguir. Mas impor isso é, antes de tudo, ir contra o direito de escolha da pessoa. Sem contar que esperar que os filhos compensem por seus fracassos e frustrações é uma atitude tóxica para ambos os lados.

Sobre o segundo item, é sim louvável e uma demonstração de gratidão os filhos atenderem às necessidades dos genitores na velhice. Agora, colocar isso como uma das principais expectativas é um ato de muito egoísmo. Afinal, querem criar pessoas ou cuidadores? Não seria melhor planejar uma velhice saudável e independente, que é totalmente possível atualmente? E mais, o que garante que viveremos até a fase idosa? Ninguém sabe o dia de amanhã.

E finalmente, o item que parece mais inofensivo e na verdade é o pesadelo de muitxs jovens LGBTs: esperar que a pessoa procrie. Pensar nos bebês do bebê é um pensamento fundamentalmente heteronormativo. Além de que pode haver homens ou mulheres hétero-cis que não desejam procriar. Ou de repente podem não ter capacidade reprodutiva.

Ainda sobre o terceiro item, muitas famílias, mesmo com toda essa discussão e abordagem recentes sobre diversidade, ainda esperam que as crianças nasçam heterossexuais cisgêneros perissexos. Podem até dizer que não, mas a maioria tem essa idealização. Mesmo que sem intenção ou consciência, essa idealização pode causar alguma pressão na criança.

É comum algumas pessoas falarem que não querem que as crianças se descubram LGBTs porque "não querem que sofram". Sei que não é a intenção, mas essa frase é muito problemática. Primeiramente, e repito, genitores não têm que querer nada relacionado com a intimidade dos filhos. E segundo, não querer que alguém seja de um grupo alvo de discriminação por sofrer discriminação é querer se livrar do efeito, e não a causa. Que tal lutar contra as discriminações?

Enfim, minha mensagem é que as famílias criem pessoas e se preocupem com a felicidade pessoal delas. Deixem-nas fazer o próprio roteiro de vida. Deixem-nas ser quem são.