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31 de mai. de 2018

Não-binariedade: Expressões

Assim como há rótulos de identidades e orientações, há também para as diversas expressões de gênero que pessoas não-binárias podem ter. Lembrando que a expressão representa comportamento, aparência e vestimentas. Os termos aqui não são identidades em si, são apenas descritores disponíveis para quem quiser.



Cerul: a palavra vem de cerúleo (uma tonalidade de azul). O termo pode ser usado por pessoas não-binárias que se apresentam de uma maneira tradicionalmente feminina sem necessariamente serem lunarianas.


Vermil: a palavra vem de vermelhão. O termo pode ser usado por pessoas não-binárias que se apresentam de uma maneira tradicionalmente masculina sem necessariamente serem solarianas.


Pelte: a palavra vem de peltre (uma tonalidade de cinza). O termo pode ser usado por pessoas não-binárias que se apresentam de uma maneira andrógina sem necessariamente serem estelarianas.


Viride: a palavra vem de viridiano. O termo se refere a pessoas não-binárias que se apresentam de uma maneira que rejeita totalmente quaisquer descrições tradicionais binárias. Também pode se aplicar a toda pessoa que não se encaixa nos outros termos mais específicos.


Inde: a palavra vem de índigo. O termo se refere a pessoas não-binárias que se apresentam de uma maneira que combina características tradicionalmente femininas e masculinas e andróginas. Também pode se aplicar a toda pessoa que não se encaixa nos outros termos mais específicos.


Fux: a palavra vem de fúcsia. O termo se refere a pessoas não-binárias que se apresentam de uma maneira que combina características tradicionalmente femininas e masculinas.


Lavam: a palavra vem de lavanda (uma tonalidade de roxo). O termo pode ser usado por pessoas não-binárias que se apresentam de uma maneira entre o tradicional feminino e o andrógino.


Cinabe: a palavra vem de cinabre (um mineral vermelho). O termo pode ser usado por pessoas não-binárias que se apresentam de uma maneira entre o tradicional masculino e o andrógino.




16 de mai. de 2018

Heterodissidentes e as normas de gênero

Muito se fala que orientação sexual e identidade de gênero são coisas diferentes e que não tem nada a ver uma com a outra. A opressão contra pessoas que não são hétero é uma, a opressão contra quem não é cis é outra. Ponto final.

Não, não vou negar os conceitos e nem que as opressões contra pessoas heterodissidentes e pessoas transgêneros são específicas e singulares. Mas não posso deixar de notar que esses discursos trazem uma visão distorcida sobre a história da heterodissidência no mundo.

Nem faz tanto tempo que a noção social era que homens e mulheres "de verdade" eram apenas hétero. O resto era... o resto. Tinha homens, tinha mulheres, e aí vinham homossexuais, transexuais, e etc. Mesmo hoje esse pensamento perdura. É tão bizarro, porque toda a população tem em seus documentos um sexo/gênero marcado como ou masculino ou feminino. Porém, socialmente, o gênero documental era simplesmente ignorado em função da sexualidade e também da expressão de gênero do indivíduo.

Tendo isso em mente, não seria equivocado afirmar que pessoas heterodissidentes também desafiaram as noções de gênero, não apenas as sexuais. E não falo especificamente de homens afeminados ou mulheres bofinhos, falo de todes heterodissidentes. O simples fato de estar fora da heterossexualidade, até então combinada "perfeitamente" com a cisgeneridade, não apenas desafiou as normatividades como contribuiu para a separação dos conceitos.

Foi então que se percebeu que homens aquileanos e mulheres sáficas ainda eram homens e mulheres, tão homens e mulheres quanto héteros. Ser heterodissidente teve a ver, até certo ponto, com gênero. E foi algo bem positivo. Abriu-se discussões sobre sexualidade e gênero.

Se a heterodissidência é uma afronta à heteronormatividade, e a heteronormatividade está entrelaçada com a cisnormatividade, então não é nada surpreendente que pessoas não-hétero tenham atacado, até certo ponto, a própria imposição de gênero.

Isso tudo sem contar que muites heterodissidentes foram ou são não-conformistas de gênero, pessoas com uma expressão de gênero não esperada pela sociedade.

A orientação sexual e a identidade de gênero são características separadas. Isso é um fato. Mas as imposições sexuais e de gênero estão aí, misturadas e jogadas na cara de todes. Ume desviante do sistema é sempre uma ameaça completa - no caso, um sistema heterossexista e cissexista.


3 de fev. de 2018

Explicando gênero

Olá, pessoas. O tio voltou aqui com uma nova analogia simples e didática para explicar a vocês todes o que são gêneros binários e não-binários e o que são pessoas cis e pessoas trans.

O sistema cria casinhas de base quadrada e cores azul ou rosa. Nas casinhas azuis colocam quem tem pênis. Nas casinhas rosas colocam quem tem vagina. Quem é intersexo, tentando encaixar em alguma dessas duas casinhas.

A base quadrada representa a identidade social padronizada. E as cores são as noções de masculinidade e feminilidade criadas socialmente.

Bom, as pessoas nascem e são colocadas dentro dessas casinhas. Elas são o gênero delas, pois nós, a princípio, vivemos dentro dos gêneros. No caso, todes têm um momento de viver dentro do gênero binário imposto.

Há pessoas que crescem dentro da casinha sem questionar, se conformam com ela, e ainda acreditam que as casinhas e a separação feita das pessoas são corretas. Essas pessoas são cisgênero e também cisnormativas, podendo ser só ignorantes ou conscientemente opressoras.

Há pessoas que crescem dentro da casinha, podem até questioná-la ou questionar a existência das casinhas, mas ainda se sentem à vontade dentro delas. São pessoas cis também, mas com alguma consciência, podendo até ser aliadas contra a cisnormatividade.

Há pessoas que crescem dentro da casinha, mas não se conformam muito com ela. Então decidem reformá-la, modificando partes das estruturas ou adicionando outras cores. Essas pessoas são cis, mas são não-normativas. Aqui inclui as pessoas cis que expressam não-conformidade de gênero, principalmente homens afeminados e mulheres bofinhos.

Há pessoas que crescem dentro da casinha e não a aceitam. Não importa quanto tempo leve, a pessoa se rebela e rejeita totalmente a casinha. Essas pessoas são transgênero, podendo ser binárias ou não-binárias.

E o que as pessoas transgênero fazem? Simplesmente saem da casinha e constroem uma nova para si. Pode ser a outra casinha que o sistema não lhe impôs (pessoas trans binárias) ou pode ser uma nova (pessoas n-b). E então temos diversas casinhas com todo tipo de base, novas estruturas, e cores exclusivas. Aqui pode existir de tudo (para a infelicidade do sistema).

Como explico meu próprio gênero: eu vivi na casinha imposta por muito tempo, e cheguei a fazer minhas reformas (pois também sou pessoa não-normativa), mas chegou um momento que olhei para  a casinha e ela não era mais suficiente. Então fiz minha própria, com uma base retangular (similar ao quadrado) e no centro da minha casa pintei de cor cinza, representando a neutralidade que sinto. As paredes em volta ainda são azuis, pois me expresso como homem, mas no meu centro sou neutro; nem masculino, nem feminino, um equilíbrio entre ambos.

Era só isso. Espero que essa analogia tenha feito sentido.



31 de jan. de 2018

Minhas identidades

Meu aniversário foi ontem. Agora tenho 24 aninhos. Sabem o que isso significa? Bom, nada. Apenas que envelheci mais e estou mais próximo da morte biológica.

Então pensei em falar sobre minhas identidades atuais. Não vejo melhor maneira de celebrar mais um ano de vida falando da minha essência e de minhas lutas.

Gay: bom, minha primeira descoberta e minha vivência principal. Pois foi através da minha orientação fora da normatividade que fui buscando cada vez mais lutar pelo meu segmento, pelos outros segmentos da comunidade LGBTQIAP+, e até mesmo pelos demais grupos minoritários. Com seus altos e baixos, o gay fez parte das maiores lições que tive como pessoa.

Embora gay seja e sempre será minha identidade individual, social e política, o termo aquileano esteve me contemplando também. Não apenas por abranger a vivência gay, como também esteve me fazendo enxergar a possibilidade de me atrair por várias masculinidades e mais identidades masculinas fora do binário.



Transexpressivo: enquanto eu tentava entender melhor meu gênero, percebi também que eu trocava minha expressão de tempos em tempos; tinha dias que eu era mais masculino, tinha outros que eu era mais feminina, e uns dias que eu era apenas neutro. Enquanto ser gay não me era suficiente para abraçar a identidade queer, a transexpressividade fez eu me sentir mais queer. E explorar várias formas de ser fez eu me sentir completo.


Não-binário: desde ano passado estava percebendo que eu não estava muuuito de acordo com o homem binário moldado e imposto pela sociedade. Até que depois de pesquisas e reflexões percebi que sou um homem, mas fora do binário de nosso sistema cisnormativo. Descobri a não-binariedade dentro de mim, que estava tentando emergir, e a aceitei dentro do meu gênero. Me sinto melhor e mais livre comigo mesmo. E agora posso abraçar de verdade um mundo que me interessava e no qual eu realmente faço parte.



Ainda nesse tópico, quero explicar brevemente o porquê não levanto a bandeira trans por mim mesmo. Porque dentro do contexto brasileiro, as pautas de pessoas trans binárias ainda são urgentes, e falar apenas em trans ainda traz essas pautas. Então prefiro priorizar mais a minha própria não-binaridade do que a transgeneridade em si. Mas digo e repito: pessoas não-binárias são trans! Então quando estou levantando a bandeira não-binária, estou também levantando a trans por trás. Esse é meu pensamento. Pessoas n-b que quiserem levantar também a bandeira trans têm todo o direito e super apoio.

Queer: minha identidade queer é puramente política; pessoalmente não fico me definindo como queer, pois já estou satisfeito com a identidade de homem não-binário gay. Minha face queer surgiu na combinação de minha sexualidade-afetividade, minha expressão de gênero e meu gênero. Logo após a não-binaridade abracei o queer. Quando misturo tudo e ao mesmo tempo manifesto minha revolta e minha rejeição às normatividades, sou queer, e muito queer.


Parabéns para mim e para minhas identidades, tão lindas, tão únicas, tão poderosas.

Sem elas eu não seria quem sou! 🌈



16 de set. de 2017

Transexpressão

Esse é um conceito bem novo. Cada vez mais assuntos como identidade de gênero e transgeneridade têm ganhado espaço e atenção. Mas hoje o assunto é sobre expressão de gênero.

A transexpressão é quando a expressão de gênero de uma pessoa muda periodicamente, mas seu gênero permanece estático. Ou seja, nada tem a ver com pessoas gênero-fluído. E quando se fala expressão pode ser nas roupas e/ou no comportamento.

Então, tanto pessoas cis quanto pessoas trans podem experienciar a transexpressão. Uma pessoa com um determinado gênero pode sentir que sua expressão varia entre masculina, feminina, andrógina, neutra e alguma outra fora desse espectro.

Isso não quer dizer que todas as pessoas transexpressivas variam entre todas essas qualidades. Podem ser entre duas ou mais delas.

Decidi abordar sobre o assunto porque eu mesmo me descobri um homem cisgênero transexpressivo há pouco tempo. Não sei quando exatamente, mas comecei a reparar em mim mesmo mudanças de expressão. Há períodos em que me percebo como um homem masculino; em outros, um homem feminino; e em outros, homem neutro.

Eu não sabia explicar isso porque não sou gênero-fluído. Até que uma pessoa não-binária que é muito informada sobre a diversidade de gênero me apresentou o conceito. E finalmente pude explicar minha vivência.

É possível fazer uma comparação entre transexpressão e "não-conformidade de gênero" (gender non-conforming - GNC). Para quem não sabe, GNC é quando uma pessoa "não expressa seu gênero da forma socialmente esperada" - por isso foi muito utilizado para homens afeminados e mulheres masculinizadas.

O conceito de GNC não me agrada e não considero apropriado para ninguém. Mas ainda há pessoas da comunidade que utilizam o termo (não de uma forma pejorativa). Isso deve ser respeitado.

Concluindo, não temos apenas diversidade de identidades de gênero, como também de expressões de gênero. A formação de conceitos como esse é importante para que outras pessoas se encontrem. E você? É uma pessoa transexpressiva?