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19 de ago. de 2020

A desculpabilização cristã

Aviso de conteúdo: religião, política.

Pra quem não vive dentro de uma caverna, acho que não preciso comentar sobre os acontecimentos recentes e horríveis. Não vou falar sobre aborto. Até porque é possível encontrar conteúdos relevantes sobre o assunto numa pesquisa feita na boa vontade. Vou falar de religião, um daqueles tópicos que muita gente acha que não deve ser discutido, mas deve sim.

Longe de mim fazer discurso anti-religião, ou mesmo anti-cristão. Sei que nem toda religião é opressiva, e sei que existem ótimas pessoas seguindo vertentes cristãs. Esse artigo não é para essas pessoas, e muito menos uma crítica individual. O que quero apontar é uma questão estrutural.

Embora nosso Estado seja laico (em teoria, muito em teoria), podemos presenciar influências cristãs para todo lado, chegando no Congresso, no judiciário, e em discussões sociais.

Quando vemos gente cristã fazendo merda, mostrando o que tem de pior, incrivelmente aparece uma legião com a famosa defesa "mas nem tode", demandando que não haja "generalizações", e se defendendo como se fosse o real alvo da crítica.

Também já vi umas vezes gente cristã com a tal "culpa" de ser de um grupo opressor, igual a gente branca com culpa branca, ou gente hétero com culpa hétero, ou gente cis com culpa cis, e por aí vai. Gente que levanta da cadeira e diz com olhos marejados que não é perigosa, que está "do nosso lado", e até pedindo perdão pelos erros de "seu grupo". Comovente igual a um drama mexicano.

Eu ainda tenho mais empatia por esse grupo. Agora, já faz muito tempo que me irrito muito com gente querendo desculpabilizar a religião quando a religião é a culpada e a cúmplice.

Não adianta chamar de minoria esse número assombroso de gente que promove ataques virtuais, boiotes, mobilizações nocivas, quando é a religião dessa gente que impulsiona essas coisas, e quando é essa religião que está impregnada nas estruturas de poder.

Não adianta querer defender que todas essas pessoas não são "verdadeiras cristãs" quando elas fazem barulho e promovem todo estrago que fazem tudo em nome de seu deus e sua fé.

Mais útil do que essa tentativa fútil de desculpabilizar a religião como um instrumento efetivo de opressão atual (e histórica, já que tivemos a Idade das Trevas, lembram?), seria fazer uma autocrítica e se movimentar junto com outres cristanes para mudar essas estruturas de poder. Ficar se esquivando só as reforça, querendo ou não.

Melhor do que tirar essa culpa seria tirar aquelus que estão no poder usando da religião para oprimir, e tirar as influências religiosas de todas as decisões do Estado sobre todo o povo brasileiro. Melhor que isso seria ajudar a construir um Estado verdadeiramente laico, e reformular o modo como figuras e grupos religioses tratam questões sociais num geral.

Sinto muito que tenha tanta gente ruim dando uma péssima imagem à religião, mas também não ajuda em nada ignorar o poder de uma crença usada com fundamentos opressivos. A história está aí pra provar isso. Existe algo muito maior aqui que sentimentos feridos. Talvez esteja na hora de repensar sobre isso e enxergar o problema como estrutural. Passou da hora de aceitar que política e religião se discutem, ainda mais quando estão misturadas.

22 de jun. de 2017

Parada LGBT 2017

"Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todas e todos por um Estado laico."

Essa foi a máxima do tema da Parada LGBT de 2017.


Optei por não ir nessa Parada. Mas tive a oportunidade de ter um contato maior com a APOGLBT, a organização da Parada LGBT no Brasil. Mês passado fui no Ciclo de Debates promovido pelo grupo e tive um conhecimento maior sobre como a Parada é organizada.

Esse ano o tema foi Estado Laico. O que é muito pertinente em relação ao nosso quadro político atual; a bancada evangélica no Congresso é uma constante ameaça aos direitos de minorias sociais e ao progresso do país.

A Parada LGBT é um evento cultural e uma manifestação político-social. A festa desse ano prometeu muita cor e muita música. Tivemos a presença de Anitta, Pabllo Vittar, Daniela Mercury e Leandra Leal. E foi prometido um número maior de participantes do que na Parada anterior. O clima também favoreceu o evento.

(Uma faixa com a primeira bandeira LGBT)

Certas marcas decidiram oferecer patrocínio, entre elas Doritos e Skol. Descobri que parte do dinheiro arrecadado na Parada foi revertido para instituições como a Casa 1, que acolhe LGBTs em situação de rua.

No entanto, ainda devo questionar toda empresa grande que decide mostrar apoio a causa LGBT e fazer discurso de inclusão. Colocar arco-íris em seus produtos e dizer umas palavras bonitas são atitudes até positivas para a causa. Mas essas mesmas empresas estão garantindo também empregabilidade de LGBTs, especialmente para transexuais, travestis, e todo grupo da periferia?

Não devemos deixar que usem a causa LGBT como um recurso para apenas conseguir dinheiro e criar uma boa imagem. Isso é desonesto. Patrocinar é algo fácil de fazer. O que a comunidade LGBT+ mais necessita de empresas grandes e ricas é de empregabilidade. Espero que as empresas que coloriram seus produtos esse ano tenham isso em mente.

Quero ressaltar que não importa quantas críticas eu faça, sempre apoiarei a existência da Parada LGBT. Ela é uma conquista da comunidade LGBT+ e como tal deve ser mantida. As falhas e a visibilidade mais G que LGBT+ que aponto antecedem a ela.

Por hoje a festa acabou, mas nossa luta não.



20 de mai. de 2017

Como não apoiar LGBTs

Esse artigo foi feito para as pessoas hétero-cis que fazem parte (ou dizem fazer parte) da aliança, isto é, do lado que apoia a causa LGBT, ajudando no combate ao preconceito.

Não levem para o lado pessoal o que direi aqui. Os movimentos sociais apreciam gente aliada. Mas às vezes esse apoio é mostrado de uma maneira... errada. Somos todos humanos, humanos falham. Por isso vou comentar uns erros comuns da parte aliada.

Eu sei que o ser humano, por natureza, quer estar sempre certo e não aceita bem ser corrigido. Mas quando uma pessoa LGBT te dá um toque sobre algo que você falou ou fez, engole o orgulho e escute-a.

Não estou dizendo para apenas aceitar tudo que te falarem. Podemos abrir uma discussão pacífica sobre o assunto. Mas aprenda a ouvir. Não ficamos repreendendo as pessoas por qualquer coisinha e vivemos uma realidade diferente, logo sob uma perspectiva diferente.

Tem alguma dúvida? Pergunte. Não tem certeza do que está falando? Pergunte. Se não quiser perguntar, pesquisar na Internet é uma alternativa válida.

Algumas vezes vocês, no ímpeto de mostrarem seus espíritos humanitários, falam de igualdade da maneira errada, no momento errado. O discurso "somos todos iguais" é bonitinho. Menos quando apaga uma discussão necessária à respeito de alguma desigualdade.

Sério, se você for numa notícia ou postagem sobre direitos LGBTs, não venha com flores e arco-íris dizendo que somos todos iguais, sendo que na prática isso não está acontecendo. O que está sendo dito precisa ser dito. Não corte o discurso.

Vocês também acabam cometendo o erro de nos tratar com uma exclusividade que não queremos e nem precisamos. No fim somos apenas pessoas assim como vocês. Não precisam paparicar a gente. E não precisam tocar em temas LGBTs com frequência só para nos agradar.

E cuidado para não nos tratar como "mascotes". Esse aviso vai especialmente para mulheres hétero-cis com gays. Não viemos para esse mundo para sermos seus amiguinhos e confidentes. E não somos todos especialistas em moda e garotos. E para o resto, ter amizade com LGBTs não é certificado de isenção de preconceito.

Como já falei, somos gente como todo o resto. Nem todos os gays são iguais, nem todas as lésbicas são iguais, e assim por diante. Não falem que não parecemos ser algo, não deduzam o que gostamos ou não, e não venham com perguntas inconvenientes sobre nossa vida íntima.

Agora o grupo de aliados religiosos, especificamente os cristãos. Tá, eu entendi que Jesus ensinou a amar, a não julgar, a não discriminar. Ótimo isso! Lindo, maravilhoso, perfeito, supimpa. Mas não fale para LGBTs: "Jesus andava entre os pecadores". Nos chamar de pecadores é um imenso desserviço. Mostrar apoio enquanto nos rebaixa é como morder e assoprar.

Faço agora um apelo pessoal: parem de falar em bunda ou sexo anal quando nos defendem! Ser LGBT é muito mais que isso. E nem todx LGBT faz esse tipo de sexo. Nem todos os gays têm essa relação! Parem, só parem.

Se você quer mesmo apoiar a causa LGBT, ao menos aprenda um pouco sobre a diversidade, sobre os diversos grupos que existem. LGBT não é sinônimo de gay. Bissexuais não são "meio-gays". Transexuais podem ou não ser gays. As diferenciações são importantes tanto pelas identidades quanto pelas pautas de cada grupo - sim, os preconceitos têm suas diferenças.

Vale ressaltar que toda ideia defendida aqui pode ser aplicada também para os demais movimentos sociais. Toda forma de apoio às causas é bem-vinda. Por isso aprenda a ouvir, refletir e apoiar de verdade.



9 de nov. de 2016

Enem 2016

O Enem desse ano foi a mesma coisa de sempre: pessoas atrasadas e um tema inevitavelmente político-social. Só acrescentou a ocupação de escolas, que poderiam dificultar a realização da prova e até causar o cancelamento da mesma. Não vou entrar no mérito de discutir isso.

Memes e polêmicas à parte, gostaria de comentar sobre o tema da redação desse ano: "Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil".

A influência cristã no país é tão forte que no congresso temos uma bancada evangélica. Continuo sem entender como ela ainda existe, visto que pela Constituição somos um Estado Laico (um Estado em que a religião não pode intervir em questões políticas). 

Membros dessa mesma bancada deixam mais do que explícito que não sabem separar a própria religião da política. E não é incomum discriminarem as religiões africanas, publicamente ou em locais religiosos.

O maior alvo da intolerância religiosa é sem dúvida as religiões africanas; umbanda e candomblé, principalmente. A tendência da população cristã (em especial a evangélica) é agir com hostilidade com essas religiões, pois a maior parcela parte do pressuposto que o cristianismo é a verdadeira crença, e não abrem espaço para outras realidades. Isso, combinado ao racismo estrutural no Brasil, gera essa intolerância constante e diária. A cultura africana, preservada por descendentes dos imigrantes, é marginalizada. E também é apropriada pelas pessoas brancas.

Apesar das religiões africanas serem o maior foco quando a questão é intolerância, vale lembrar que outras crenças também são discriminadas socialmente, como o espiritismo, a wicca, e o islamismo. A ausência de crença, que é o caso do ateísmo, também está inclusa.

Afinal, quais seriam os caminhos para acabar com a intolerância religiosa? Resumidamente, bem resumidamente: educação religiosa. Ensinar sobre as religiões nas escolas, para assim fornecer informação, mostrar a diversidade religiosa e conscientizar sobre a importância de ser tolerante e aceitar essa diversidade. E também educar sobre laicidade! Não há ainda uma proposta dessas. A única proposta que já apareceu foi ensinar cristianismo apenas, outro delírio da bancada evangélica.

Num país verdadeiramente laico e tolerante, todas as religiões conviveriam em harmonia, sem interferir em questões do Estado. É assim que deveria ser. Infelizmente o Brasil vive uma quase teocracia com esses políticos criando leis e projetos absurdos. A tendência é piorar, sinto dizer.

O tema é necessário e reflete nossa situação atual. E não duvido que deve ter havido gente que escreveu sobre "cristofobia" na redação. Sim, há pessoas que acreditam que a população cristã é discriminada por sua religião! A mesma que prega ódio contra minorias sociais e as religiões africanas. Se existe alguma cristofobia, ela é praticada entre as próprias vertentes cristãs, como a evangélica faz com a católica.

Quem sabe o tema não possa ter aberto os olhos de quem ainda sofre da presunção de que sua religião é a única correta?



30 de out. de 2016

A casa espiritual que frequentei

Há quem acredite que casas de trabalhos espirituais são mais receptivas com LGBTs. Acreditei nisso durante muito tempo.

Minha ex-psicóloga e falecida amiga trabalhava numa casa espiritual. Eu sabia disso desde que passei nas consultas dela. Ela me convidou para receber tratamento espiritual e aceitei. Alguns meses depois, fui chamado para trabalhar lá, para assim poder desenvolver minha mediunidade.

Quando me tornei missionário, fiquei maravilhado com o local. Fiquei fascinado com a novidade, as pessoas, as entidades que ali atendiam, e os ensinamentos. A doutrina da casa combinava a Cabala com Umbanda.

Na época eu nem era militante LGBT, ainda me escondia.

Bom, a primeira coisa que achei estranha era homens não poderem incorporar entidades femininas. Diziam que dava um “choque de energia” e o homem ficava afeminado. Outros diziam que ele “virava gay”. Até agora nem sei se acredito mesmo nisso. Mesmo assim aceitei, não quis discutir.

A segunda coisa que percebi com o tempo, e que me incomodava, era que quando falavam de amor entre casais se referiam apenas aos casais héteros. Era como se homossexuais nem existissem. Para vocês terem uma ideia; casal lá era sempre homem e mulher. A linguagem heteronormativa daquela gente me incomodava, e meu incômodo só aumentou com o passar dos anos.

A terceira coisa que me irritou bastante foi nos e-mails escritos pela fundadora da casa. Em apenas dois e-mails vi alguma menção a homossexuais. Além de escrever “homossexualismo”, era sempre num contexto negativo. A prática é “espiritualmente negativa”.

Pouquíssimas vezes ouvi comentários alheios sobre homossexuais. E todos mostravam o conservadorismo e preconceito dos missionários. Mas essas coisas não incluo como defeitos da casa em si.

Minha amiga me apoiava, embora parecesse relevar essas coisas. Hoje a compreendo, mas não a desculpo.

No ano de 2015 teve dois eventos, novamente relacionados com a fundadora, que para mim, como LGBT, foram grandes motivos que me fizeram querer sair daquele lugar:

1- Em janeiro, essa senhora, fingindo que estava incorporada (no caso ela diz incorporar um espírito evoluído) decidiu falar de homossexuais. Se bem me lembro, o beijo gay numa novela estava gerando polêmica. Ela abordou o tema. Começou dizendo que era um karma que vinha de berço. Ao menos apontou um fato; nascemos assim. Porém, logo em seguida veio um show de ódio e mentiras. Disse que homossexuais foram infiéis em vidas passadas, que têm uma vida cheia de conflitos e que não são felizes “como a novela mostra”, que não existe mulher que larga o marido para ficar com outra mulher, até pediu para as famílias não deixarem crianças verem “isso”, e que podemos mudar fazendo a desobsessão (o ritual principal da casa, que afastava espíritos malignos).

Vamos analisar o discurso problemático dessa senhora tão medieval:

- Afinal, homossexualidade é mesmo um karma? Discuti isso aqui recentemente.

- Se infidelidade faz a pessoa nascer homossexual na próxima vida, então muita gente daquele lugar terá esse destino. Fiquei sabendo de cada caso de traição, cês nem têm ideia #polêmica.

- Homossexuais têm mesmo uma vida cheia de conflitos, e mesmo assim lutam e enfrentam. Conflitos causados por uma sociedade repleta de gente reacionária, como essa senhora. 

- Não existe mulher que larga o marido pra ficar com outra? Em que mundo ela vive? Quase ri quando ouvi isso.

- Hello, século 21! Nenhuma criança ficará traumatizada com um beijo gay. Parem de dizer isso, não faz nenhum sentido.

- Primeiro ela fala que nascemos homossexuais e logo em seguida fala que podemos “mudar” tirando espíritos obsessores? Homossexualidade é influência de obsessor? Afinal, é natural ou é influência espiritual? Contraditório isso. Mas tudo bem, essa senhora sempre foi contraditória.

Meus parabéns a "Dona Mestra" por ter espalhado mais preconceito e desinformação, é disso que o mundo precisa! Tenho convicção de que foi ela falou essas coisas, e não um espírito evoluído. Jamais um espírito iluminado faria um discurso de ódio como esse.

2- Em julho, o casamento igualitário foi aprovado em todos os estados dos EUA. Muita gente comemorou e celebrou. Houve pessoas da casa que devem ter se pronunciado contra, pois vi uma missionária postar algo no grupo oficial dos missionários, dizendo que “estava triste com o pensamento fechado de muitos de lá”.

Nossa digníssima senhora atacou mais uma vez. Fez um texto a respeito, falando uma história sem sentido que o casamento igualitário surgiu porque algumas patroas queriam deixar herança para as empregadas. Tipo, wtf?

Ela se dizia "indiferente", e falava que todos deveriam ser assim também. Ela é indiferente, mas o discurso é de contra. Falei que ela é muito contraditória. E só pra constar, se você é indiferente com um grupo de pessoas que sofrem violência todo dia por serem o que são, você está a favor da opressão. Aqui não existe “neutro”.

E, para finalizar, naquele mesmo dia ela e o marido (tão reacionário quanto ela) compartilharam aquele famoso trecho de levítico contra a prática homossexual. Mas vem cá, lá eles aplicavam Cabala, então seguiam a Torah. Afinal, ela segue a Bíblia ou a Torah? Justo naquele dia em que o amor venceu ela decidiu mais uma vez espalhar o ódio. Essa é a comandante do grupo espiritual que “vai abrir a Nova Era” (sim, são prepotentes assim).

Isso tudo poderia ter acontecido numa igreja evangélica. Mas não, foi numa casa espiritual. Ao invés de pregar a tolerância e aceitar a diversidade do mundo, preferem ser medievais, mascarados como “guerreiros da luz”. Sinto pena dos LGBTs que ainda estão naquele lugar. Ainda devem estar iludidos e ainda devem achar que somente lá podem cumprir a tal missão espiritual.

Tentei por muito tempo compreender minha amiga, mesmo após sua morte. E compreendi que ela, assim como muita gente que ainda trabalha lá (ou já trabalhou), estava iludida com o lugar. Provavelmente ela achava que apenas lá ela tinha uma base. Entendo o lado dela, entendo a razão de ela ter relevado tanta coisa errada e até a tirania do pessoal que administra a casa. Tenho pena dela por isso.

Em respeito a ela e em respeito às entidades espirituais que fazem a caridade de trabalhar lá, eu havia decidido não denunciar publicamente a casa espiritual. No entanto, pensei melhor e o máximo que farei é esse texto. Não sei se ele fará alguma diferença. Não sei se ele chegará ao conhecimento da casa. Prefiro deixar essas coisas no mundo das probabilidades. Mas deixo aqui minha imensa insatisfação com esse lugar, que tenho certeza que irá cair eventualmente.

A única coisa de que não posso reclamar é que ninguém teve a audácia de vir falar alguma merda pra mim durante esses cinco anos que trabalhei lá. Contudo, o discurso intolerante daquela gente alimenta a violência contra LGBTs. Prometi para mim mesmo que essa seria a última vez que eu deixaria o preconceito passar impune.

Parabéns a vocês dessa casa pelo desserviço à humanidade!
Quero ver vocês mudarem o mundo com preconceito!
Haja Luz!



23 de out. de 2016

Espiritualidade e Homossexualidade

Durante alguns anos pesquisei muitos textos falando da homossexualidade na visão de crenças e doutrinas espiritualistas. Atualmente é mais comum ver a mensagem de tolerância, que homossexuais merecem respeito, e que estão evoluindo como qualquer outra pessoa. Por isso mesmo vertentes espiritualistas são reconhecidas como mais acolhedoras para LGBTs.

Para mim não basta apenas a mensagem. A maioria desses textos não me ofereceu uma resposta ou explicação coerente. Entre textos que não falam nada entendível e textos que tentam explicar, vi muitos com discursos problemáticos.

Já vi alguns poucos seguimentos espiritualistas que diziam que homossexualidade era um distúrbio espiritual. Mas são seguimentos antigos, nem são mais relevados. Hoje em dia vemos explicações um pouco mais tolerantes, embora ainda problematizáveis.

Logo de início consigo detectar o primeiro defeito desses textos: eles têm uma visão simplista da sexualidade humana. Lendo-os é possível notar que eles separam as pessoas do mundo inteiro em héteros e homos. Bissexuais e outras sexualidades são ignoradas.

Finalmente pudemos nos alegrar quando pararam de dizer que homossexualidade é um distúrbio. Mas então muitos seguimentos passaram a dizer que é um carma, isto é, uma punição ou consequência por erros cometidos em vidas passadas.

Ser homossexual é um carma? De onde vem essa ideia? Bom, acredito que a ideia parta de dois princípios básicos: ou que é algo "antinatural" ou pelo fato de haver homofobia.

Se é por ser "antinatural" esse argumento já foi quebrado há muito tempo, pois na própria natureza existe comportamento homossexual. Agora, é carma por causa do preconceito? Seguindo essa lógica, nascer negro é carma, ser mulher é carma, ter um corpo gordo é carma, e por aí vai.

Aliás, como explicam as épocas de Roma e da Grécia Antiga, quando a prática homossexual era aceita? Era carma nesses tempos também? E em lugares mais tolerantes, onde homossexuais conseguem viver tranquilamente e dificilmente enfrentam a homofobia?

Por isso mesmo que é possível deduzir que o carma não é a homossexualidade em si, e sim a homofobia. Sofrer preconceito pode ser um carma. Mas simplesmente nascer fora do padrão heterossexual não.

Quando não falam que é carma, dão explicações mais ignorantes ainda. Já li textos dizendo que homossexuais são um "terceiro sexo", que são uma vida intermediária entre masculino e o feminino, ou que são homem/mulher em corpo de mulher/homem.

Nem vou falar do terceiro sexo. Vou focar nas outras explicações, que são muito parecidas. A ideia de que homossexuais vivem entre os mundos masculino e feminino parte do princípio de que "o corpo é de um jeito, mas agem de outro". Desmembrando essa ideia, esses textos declaram que: quem tem corpo de homem, tem que agir como homem - gostar de mulher. E vice-versa. Seguindo essa linha de pensamento também falam que o corpo e o espírito são de gêneros opostos.

Será que os autores desses textos já conversaram com homossexuais? Perguntaram se homossexuais queriam ser de outro gênero? E, afinal de contas, separar aspectos masculinos e femininos apenas pela sexualidade da pessoa é muito... babaca. Falando por mim mesmo, não me identifico como mulher. Sou homem e sou masculino mesmo beijando outro homem.

Mais uma coisa, os gêneros não vivem em clubinhos fechados. Todas as pessoas estão em contato com a realidade masculina e feminina praticamente o tempo todo.

A pergunta que não quer calar: em que parte entrariam bissexuais nisso? Se um homem homossexual é uma mulher por dentro, um homem bissexual seria o quê? "Meio-mulher"? Viu como essas explicações são furadas, e nem é necessário conhecimentos espirituais para apontar isso?

Não vou entrar no mérito de informações que supostamente vêm do plano espiritual. Entretanto, com tudo que aprendi e pela minha experiência pessoal, apoiado na minha própria espiritualidade, posso afirmar que existe uma lógica nessas questões espirituais, uma lógica que podemos compreender. E fiz toda essa análise aqui usando apenas a lógica.

A verdade é que os próprios autores acabam contaminando seus textos com suas visões simplistas e ignorantes, além de machismo e provavelmente homofobia internalizada. A maior parte deles, pelo que percebo, são homens hétero-cis (o que explica muita coisa).

Por minha própria experiência e minhas pesquisas, junto com meu conhecimento sobre a diversidade, concluí que homossexualidade não é carma, não é castigo, não é uma "vida anormal", não é um caminho de sofrimento por si só.

Nenhuma vertente espiritualista ainda me trouxe uma explicação completa e plausível sobre o tema. Muito menos sobre a própria diversidade sexual. Enquanto nenhuma alma sábia joga alguma luz nessas questões, que tal as pessoas pararem de tentar explicar coisas que nem elas entendem? Não adianta nada uma mensagem de tolerância se antes ou depois veio um parágrafo dizendo que homossexuais não são homens/mulheres.

Por esses e outros motivos que adoro o budismo, que prega basicamente que somos pessoas com estilos de vida e caminhos variados, tudo voltado para a evolução de cada um. O resto é detalhe.



7 de set. de 2016

Pensamento do dia

Esse mundo tem muitas terras, muitas culturas, muitos povos.

Com isso, existem diversas crenças e religiões no mundo.

Umas são flexíveis. Outras são rígidas.

E no fim todas partem do princípio de fazermos o bem.

Ainda assim guerreamos para definir qual delas é a certa. Até matamos por isso.

Como poderia existir uma doutrina correta nesse mundo tão antigo e diversificado?

Que pretensão achar que só o que você acredita é a verdade.

Os cristão se inspiram em Jesus. A China teve Buda. Os islâmicos ouviram Maomé.

Por aí há quem acredite em vários deuses. Até quem acredite em fadas e duendes.

Por que não enxergar todas essas figuras e entidades como partes do mesmo Universo?

Por que não deixar que todas convivam em harmonia?

Nosso mundo tem espaço para todas!

Afinal, nesse mundo, existe uma verdade absoluta?

Se existe, então não vivemos num mundo realmente justo.



21 de mai. de 2016

Vamos boicotar!

Recentemente uma ilustre figura evangélica (tinha que ser, né) expressou sua igualmente ilustre opinião sobre uma marca de roupa, a C&A, ter quebrado os papeis de gênero em seu novo comercial.

E justamente por isso essa figura decidiu promover boicote a tal marca.

Então vamos boicotar toda marca, empresa ou instituição que apoia a diversidade sexual e de gênero? Ok! Nesse caso, vamos ajudar.

Boicote também o Google, o YouTube, o Facebook, a Microsoft e a Apple. 
Nem pense em dirigir carros da Fiat, Chevrolet ou Renault. 
Espero que seu smartphone não seja nenhum do sistema android (Samsung, LG, HTC, Motorola).
Não coma no MacDonald's ou no Burger King (também não são saudáveis hahaha). E nem beba Coca-Cola ou Pepsi (faz bem pra saúde também).
Ah, e não use nada da empresa Unilever, o que inclui Omo, Knorr, Rexona, entre outras centenas de marcas (procure todas certinho depois, faça uma lista para não esquecer).
E se o Brasil estiver colorido demais pro seu gosto, contrate uma linha aérea que não seja a Gol. E faça boa viagem!

Se sobrou alguma marca de computador para usar, desista; os computadores existem graças a um gay e ~pasme~ ateu.

Brincadeiras à parte, boicotar por causa de apoio LGBT é uma babaquice tremenda. Cada vez mais empresas e marcas mostram apoio a causa, então... bem, boa sorte em parar de usar quase tudo que você usa no cotidiano.

O mundo está ficando difícil para quem tem preconceito, né? ^^

E vale lembrar que não devemos exaltar as empresas e marcas pelo apoio. Elas fazem isso mais pelo marketing do que por altruísmo. De qualquer forma é bom para a representatividade LGBT! Está tendo e terá cada vez mais!



11 de jul. de 2015

Historinha: Cristofobia

Era uma vez um homem cristão. Ele amava Deus e Jesus acima de tudo.
Suas redes sociais eram sempre enfeitadas de trechos bíblicos.
Seus pais, também cristãos, o guiaram dentro dos caminhos de Cristo desde bebê. Ele até interpretou a crucificação de Jesus numa peça. Que bonitinho.
Na escola, em Biologia, ele aprendeu sobre a teoria da evolução e achou um absurdo, pois nada daquilo estava na Bíblia. Dinossauros? Tudo bobagem!
Quando adolescente, uma vez, ele e outros amigos cristãos invadiram um terreiro de umbanda e quebraram pratos de oferenda para as entidades daquela crença. Afinal, era profana.
Também quando adolescente, uma vez, ele e os amigos picharam as paredes de um centro espírita. Afinal, também era uma crença profana.
Na fase adulta, ele conheceu uma linda moça, a mais inteligente, simpática e caridosa que havia conhecido. Mas ao descobrir que era ateia, não quis mais namorá-la. Imagina ele, um homem do Senhor, se casando com uma incrédula!
Ele votava sempre em políticos cristãos para garantir que o Brasil continuasse a ter pessoas de bem na liderança do país. Pois uma nação sem Cristo é uma nação sem nada.
Casou-se afinal com uma mulher cristã e tiveram filhinhos cristãezinhos.
Numa tarde morna de verão, sem ter nada para fazer, ele defendeu suas ideias racionais e cristãs numa página falando sobre a legalização do terrível casamento igualitário. 
Foi atacado com vários comentários sobre Estado Laico, intolerância religiosa, entre outros absurdos. E desde esse dia ele percebeu o quanto sofria apenas pelo fato de ser cristão.

Fim