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13 de mai. de 2020

Prazer, essu sou eu

Sei que não sou a pessoa mais agradável do mundo, nem a figura mais gostável.

Sei que muita gente me detesta por inúmeros motivos, que muita gente agora detém “provas definitivas” de minha maldade inerente e irreparável, que meu nome é falado por aí seguido de críticas e/ou xingamentos e/ou reações de nojo e regurgitação. Devo me orgulhar disso? Não. Mas não vou mentir: acho tudo isso um pouco... engraçado. Divertido, eu até diria.

Isso não é um fenômeno de agora. Isso vem desde muito tempo, desde antes de entrar pra militância em 2014, desde antes de me envolver com política.

Mas quem sou eu, né? Eu, sobrevivente de um ataque virtual em massa de milhares de reaças. Eu, que não sou série da Netflix, mas fui cancelade recentemente. Eu, que provavelmente devo dividir opiniões por aí em conversas ou numas postagens variadas nas redes sociais, como aquela do pássaro azul. Boa pergunta. Não é do interesse de muita gente me fazer essa pergunta. Por isso, podem perguntar por aí, e vai ter gente usando toga escura e peruca branca (simbolicamente falando) (ou não) pra afirmam categoricamente que eu sou uma pessoa horrível.

Ah, com certeza sou uma pessoa horrível, claro! Do tipo que derruba velhinhes da escada, rouba doce de crianças, e faz sabão com animaizinhos de rua. Sou, sim! Um verdadeiro monstro! Mua há há há.

Okay, falando sério agora. Eu entendo uma grande parte do ódio que recebo e atraio. Tirando as pessoas com motivos legítimos pra isso (afinal, já vacilei e já fui tóxique), eu percebo que quem me odeia são pessoas que: odeiam os grupos identitários que faço parte; são despolitizadas e alienadas e preferem me rotular de elitista, problemátique, etc do que tentar entender minhas ideias; defendem o status quo de alguma forma, mesmo sendo de grupos marginalizados; e brigam comigo por coisas fúteis ou questões ideológicas, e como não são fãs de diálogo ou não sabem defender o que pensam, escolhem apenas me excluir e desprezar.

E, pois é, já teve uns acontecimentos estranhos (e cômicos, de certo modo), como pessoas conversando comigo num dia e me bloqueando/excluindo um tempo depois, ou pessoas me elogiando virtual ou pessoalmente e depois subitamente me detestando. Gostaria de saber explicar, sinceramente.

Paciência, né? Mas, olha, que bom que essas pessoas me odeiam! Afinal, são exatamente elas que não faço questão de agradar. E são elas que quero ver rolando e esperneando no chão, tendo “surto”, se rebaixando as suas próprias insignificâncias. Quando me vejo diante de ódio vindo de gente higienista, reducionista, medíocre, hipócrita, intolerante e irrelevante, eu sinto que estou fazendo certo.

E tudo bem que por aí tem prints de postagens minhas falando merda. E tudo bem que tem postagens antigas printadas em contas escrotas e páginas de ódio. Que façam bom proveito! Que imprimam e distribuam nas ruas, que façam outdoors! É só isso que essa gente tem: o meu pior, mesmo que tenha ficado pra trás, mesmo que tenha pedidos de desculpas não-vistos (ou convenientemente ignorados), mesmo que tudo que faço e falo atualmente mostre mudanças. Que usem tudo isso pra atrair um rebanho de gente igualmente irada buscando projetar e descontar sua raiva do mundo em qualquer infeliz que falou uma merda. Porque pra essa pseudo-militância tóxica, recheada de gente perfeita e infalível cuja carne fora esculpida em mármore, o que importa é nosso passado, não nosso presente – nosso, me refiro a nós, pobres mortais feites de barro, não mármore.

Mas quem sou eu, afinal de contas, né? Eu, ordinárie e esquisite como sou? Eu, aquelx pessoe (como gente anti-neolinguagem adoraria dizer) que fala das trocentas identidades estranhas criadas no Tumblr, que defende que sexo é construção social, que acha que vai mudar a sagrada língua portuguesa, que não acredita que as pessoas nasçam com uma orientação e identidade de gênero destinadas? Eu, ume Joane ninguém, uma mera pessoa desconhecida, que mora no centro de São Paulo, que pode passar o dia digitando groselhas na Internet?

Verdade, né? Quem sou eu perto dessa quantidade imensa de arautos da desconstrução, sentados no trono da superioridade moral, que nunca erraram e nunca falam merda, né? Quem sou eu perto dessas reencarnações de Marsha Johnson e Sylvia Rivera? Quem sou eu diante dessas personificações da revolução e queda do cis-tema, que passam o dia nas redes sociais xingando qualquer ume por qualquer comentário minimamente leigo, que adoram lacrar e cancelar (podem me chamar de reaça por usar assim esses termos, não ligo também), que num momento falam sobre misoginia e no outro chamam o presidente de filho da puta, que falam sobre capacitismo e depois dizem que homofobia é doença mental, que colocam em caracteres especiais na bio “agender elu/delu com orgulho” e depois reproduzem retóricas de feminismo radical, etc etc etc?

Quem sou eu?

Bem, ninguém melhor do que eu mesme pra dizer quem eu sou (pois tenho local de fala sobre minha existência): sou uma pessoinha que está constantemente estudando, aprendendo, refletindo, revendo, buscando fazer alguma mudança, procurando fazer uma militância que presta, preparando território para as próximas gerações, usando de meus privilégios e do que está ao meu alcance no momento para difundir informação e conhecimento. Não, não sou a merda que falei ontem, anteontem, em janeiro, ou umas postagens reaças de 2013 (todo mundo seguia o MBL nessa época, tá?), ou as ideias que tive na adolescência. Eu sou meu presente. E meu presente é uma baita metamorfose ambulante, por mais que o tribunal na Internet diga o contrário.

Uau, escrevi esse textão inteiro só pra me exaltar? Não, não acho que fiz isso. Mas, mesmo assim, qual o problema? Por que não devo reconhecer minhas qualidades, coisa que faço com pouca frequência? Aliás, já experimentaram fazer isso? É bom. Recomendo.

Ah, eu sei que muita gente gosta de mim, sim! Pareceu um texto todo negativo de alguém odiade por todos os lados, mas estou ciente de que essa não é minha realidade. Quem gosta de mim continua do meu lado e me apoiando. Muita gente aprende comigo e vê meu melhor. Sou grate, muito grate por isso. E me sinto verdadeiramente privilegiade por fechar junto com essas pessoas uma militância real – autocrítica, produtiva, sensata, tolerante, e comprometida. É essa militância que promove as verdadeiras mudanças.

E só pra constar: não quero o perdão de ninguém, e não tenho que me redimir com ninguém também. Não sou ume pecadore se martirizando e esperando os anjos anunciarem meu arrebatamento. Errei, me desculpei, e ainda posso cometer outros erros; como toda pessoa. Eu faço isso por mim agora. Isso é pra mim, pra eu parar logo de ficar me culpando pelos meus erros e achando que não posso mais ser diferente. Passei meses fazendo "coisas boas", "me comportando", tudo afim de provar pra alguém invisível que sou uma pessoa decente. Tomei vergonha e parei com isso.

E se alguém quiser se desculpar comigo por qualquer coisa, também. Não sou ninguém pra distribuir perdão e redenção. Apenas melhore e procure não cometer os mesmos erros. E se alguém que teve experiência com cancelamento quiser uma dica, aqui vai: cancele a culpa e a autopiedade, tome vergonha, aguenta firme, e continua a viver e militar.

A todes dessa pseudo-militância tóxica, que persegue e condena e vive separada do mundo real, eu desejo apenas uma coisa: melhorem. (pensaram que eu ia digitar algo raivoso ou ofensivo, né?)

Parabéns pra quem leu até aqui, seja você alguém que me ama, que me odeia, que tem sentimentos mistos, ou que não sabe o que sentir. E como diria o icônico Pernalonga: por hoje é só, pessoal!

Prazer, Vitor Rubião. Essu sou eu.

6 de jul. de 2019

Em defesa da identidade abro

AC: exclusionismo, reacionarismo, discursos e ações contra fluidez de atração.



Essa semana o Twitter provou mais uma vez ser um espaço nada seguro e de reacionarismo contra as microcomunidades (aquelas com identidades mais incomuns ou bem específicas). A vítima dessa vez foi a abrossexualidade; a orientação abro.

(pra quem quiser conferir esse horror, apenas digite abrossexual na pesquisa do site)

Saí em defesa da identidade, apoiei pessoas sendo atacadas, fui atacade, bloqueei muites exclusionistas, enfim, uma semana bem estressante. Nem parece que semana passada era o tal mês do tal orgulho da tal comunidade LGBTQIAPN+.

Assim como no Twitter decidi escrever sobre essa identidade aqui também. Aqui é um espaço de respeito e tolerância às microcomunidades, afinal.

(Bandeira abro)

Primeiro de tudo, a definição (que muita gente não entendeu ou distorceu de propósito):

(definição com minhas palavras, mas ainda coerente)

"Uma atração muito fluída; a pessoa pode fluir entre orientações, sentir-se de orientações diferentes em períodos diferentes."

Em nenhum momento foi dito que a pessoa pode conscientemente escolher sua atração. A fluidez presente e característica dessa identidade é involuntária e natural; apenas acontece.

E, como foi dito, a pessoa se sente de orientações diferentes. Ora, não separamos as atrações por um, mais de um, e nenhum gênero por nomes? Não cria-se uma ideia clara de cada uma? Enquanto muita gente permanece em alguma dessas orientações, uma pessoa abro muda entre duas ou mais delas.

Como poderíamos resolver o impasse de alguém com uma atração assim? Deixá-la se dizer de orientações diferentes em tempos diferentes? Ou cunhar uma identidade focada nesse aspecto? 

Qualquer ume com bom senso suficiente saberia que na primeira opção haveria muitos ataques. Afinal a comunidade não aceitaria alguém se dizendo hétero, depois não-hétero, e hétero de novo, e assim por diante. Né?

Vi muita gente resumindo essa orientação em apenas bi ou pan. Principalmente, bi.

A questão é que uma pessoa abro teria períodos em que sua atração poderia sim ser descrita como bi ou pan. E, em outros períodos, não. Como exigir que a pessoa adote duas identidades tão bem definidas que, num dado momento, não a descrevem?

Já conheci uma pessoa que tinha períodos entre ter atração exclusiva por homens e ter atração exclusiva por mulheres. Poderia se dizer bi? Talvez. Se lhe fizesse sentido. Agora, sinceramente, nunca vi cogitarem incluir uma pessoa com esse tipo de atração na definição de bi. Até porque atrações fluídas - e percebi isso melhor essa semana -, ou nem são consideradas ou são atacadas fortemente.

E aliás, a Internet brasileira ainda nos faz o imenso desserviço de espalhar uma definição antiquada de que bi é atração por homem e mulher. E passam a ideia de ser algo constante. Como convencer uma pessoa que terá períodos de atração por muitos gêneros de que bi/pan a inclui? E como exigir isso quando a atração é inexistente?

Aquele velho discurso de a sexualidade humana é fluída foi... sabe-se lá pra onde foi.

O que realmente separa uma pessoa abro de pessoas das orientações mais "populares" é a constância da atração. Pessoas bi e pan se sentirão bi e pan o tempo todo, por mais que tenham preferência, por mais que a atração possa mudar a intensidade. Uma pessoa abro, não.

Está certo que microcomunidades não têm uma boa divulgação aqui no Brasil. Porém, mais uma vez, a maioria parece não querer sair de uma bolha e tentar ao menos compreender identidades menos conhecidas. E não é surpresa que os mesmos discursos feitos contra abro poderiam ser usados contra pessoas pan e a-espectrais. De fato, teve pessoas aproveitando a onda para fazer isso.

E pessoas abro podem adotar junto as orientações mais conhecidas, ou se apresentar com elas dependendo do espaço, considerando a orientação que identificam no momento, ou qual orientação costuma ser mais presente em suas vidas. Não é incomum as identidades menos conhecidas acompanharem as identidades populares.

Ainda acho que abro deveria ser também uma identidade popular, junto com a atração pomo. Creio que muita gente se encaixaria numa identidade fluída e numa identidade indefinida, já que nem todes têm uma atração constante e perfeitamente descritível nos conteúdos mais aceitos e divulgados.

Por isso também que o argumento de que confundiria pessoas se descobrindo é falho. Até parece que não existem pessoas fluídas desde sempre. E mais, se a pessoa depois vier a se descobrir melhor e não for abro, ela apenas deixa de se identificar como tal. Uau! Que simples, não?

Para finalizar: a orientação abro é válida, deve ser respeitada, não invalida orientações multi, e definitivamente não contribui com a opressão vivida pela comunidade LGBTQIAPN+. Quem quis entender ou rever seus conceitos, ótimo. Reaças da comunidade, queimem. Beijos de luz.

28 de mai. de 2019

Negatividades

Estive refletindo há muito tempo em relação a toda negatividade a qual me exponho e que acabo também expondo aqui.

E a toda negatividade que eu e outras pessoas conhecidas acabamos nos expondo mesmo em nossos próprios espaços, cujas propostas são serem espaços seguros.

O mundo não é flores e doces. O mundo é fudido mesmo. Não tem como fingir o contrário, a não ser que você queira ser totalmente alienade e viver na própria cabeça (o que não resolverá seus problemas).

Não vou fingir isso e meu objetivo aqui não é transmitir uma mensagem superficial a nível de "pense positivo" ou de livro de autoajuda.

Às vezes essa negatividade nos atinge ao ponto de vivermos pra ela e falarmos apenas nela. Precisamos ter esse cuidado nas militâncias! Não é de hoje que falo isso, mas preciso me relembrar disso constantemente.

Nossa cabeça fica cheia, nos sentimos estressades e cansades, começamos a perder esperança num futuro melhor, e, se não tivermos saúde mental nem perspectiva, então nosso trabalho perde valor e sentido.

Acho que não podemos nos esquecer desses dois itens: saúde mental e perspectiva. E acredito que termos mais contato com positividades seja uma boa maneira de preservá-los.

Vou propor para mim mesme e para quem mais quiser o seguinte: 

Vamos ler mais coisas positivas. 
Vamos divulgar mais notícias positivas. 
Vamos escrever e espalhar mais frases positivas. 
Se possível, vamos nos isolar numa bolha só com positividades por horas ou um dia inteiro.
Se necessário, vamos só ter contato com positividades por um longo período, como um repouso.

Olhe pra si e diga coisas positivas sobre si.
Olhe para as pessoas e diga coisas positivas para elas.

É isso. 

Que você tenha um dia maravilhoso! E lembre-se: você é válide!

4 de abr. de 2019

Parece que não aprendemos

AC: intolerância e opressões em redes sociais, eleição, capacitismo, menção a estupro e violência, menção à genitália.



Recentemente eu passei por uma situação de extremo estresse nas redes sociais. Não entrarei em detalhes. O ocorrido envolveu algo que vejo com certa frequência, que é como muitas pessoas dos grupos marginalizados não tem senso crítico com suas ações, e acabam tanto reproduzindo opressões quanto promovendo mais opressories.

Passamos tanto tempo falando e fazendo tantas postagens sobre misoginia, racismo, heterossexismo, cissexismo, etc etc etc, e no fim vemos reproduções disso vindo até de pessoas que têm acesso aos conteúdos.

Um monte de gente esquece que não praticar opressões não serve só para quem gostamos ou concordamos. Serve para todes, incluindo opositories.

Atacar a oposição com misoginia quando vem de uma mulher, atacar com racismo quando vem de ume negre, atacar com heterossexismo quando vem de um gay, tudo isso me causa uma sensação imensa de frustração. Parece inofensivo quando é com inimigues, mas não é.

Fica muito difícil nos defender contra a oposição porque ela vê isso, se aproveita disso, e consegue pegar um punhado de gente sem noção na Internet e torná-lo como regra geral para todos os grupos minoritários + galera progressista/esquerdista (porque são todes jogades no mesmo saco). Nós que viramos es intolerantes da história.

Estamos aprendendo?

Redes sociais como Facebook e Twitter se tornam palcos para figuras reacionárias e aliades dessas figuras que nem deveriam ter tanta atenção. Até figuras ridículas como uma moça privilegiada que tem milhões na conta recebe tamanha atenção que acaba se promovendo.

Isso foi um dos fatores de nosso país ter elegido um fascista declarado como presidente. Damos importância demais, deixamos essa gente tomar as rédeas de nossa vida, gastamos tempo e paciência criticando fervorosamente essa gente a ponto de divulgar mais e mais seus discursos e nomes e rostos.

Não pode mais criticar? Pode e deve. O problema é como fazemos. Atacamos muito a pessoa e não suas ideias. Críticas construtivas se misturam com críticas imaturas. É muito meme e muita zoeira, mesmo quando problemátiques, e discursos mais politizados se apagam nessa onda de risadas e escárnios porque são "sérios demais".

Estamos aprendendo?

E cada vez mais as redes sociais se tornam insuportáveis para os próprios grupos marginalizados, ainda mais os mais esquecidos, como as PCDs (vejam quantos termos capacitistas são usados para atacar a oposição).

Estamos expostes à toxicidade dos discursos dessas figuras mesmo quando as bloqueamos; porque tem gente ainda compartilhando seus conteúdos para respondê-las, e porque ainda temos que ver prints das malditas postagens.

Várias pessoas perdem tempo discutindo com robôs ou com gente que evidentemente não quer debater ou rever suas ideias, quando poderiam estar conversando com gente mais aberta ou mais ignorante, e se articulando com mais grupos progressistas pra espalhar informação e promover figuras progressistas.

E, novamente, fica difícil defender a galera quando a mesma se torna tão irracional e intolerante quanto fascistas, xingando ministra de termos misóginos e zoando o estupro que ela passou, torcendo para vereador gay de direita tomar lampadada, sabotando artistas negres que fizeram besteira com um ódio que nem é visto com artistas branques. Ah, e isso inclui querer tirar filho do fascista do suposto armário ou zoar com o tamanho do pênis do outro.

Mais uma vez me pergunto: estamos aprendendo? Muitas vezes parece que não. Nem as eleições parecem ter ensinado. E mais e mais nos vejo afundando num buraco que nem cavamos, mas estamos nos jogando nele tudo em prol do "lacre".

8 de dez. de 2018

Pornô e Tumblr

AC: censura, pornografia, menção a pedofilia, marginalização sexual.



Recentemente o site Tumblr anunciou que baniria todo conteúdo pornográfico e gerou muita polêmica. O que pode parecer um ato justo e heroico para muites (*cof cof* reaças e moralistas), na verdade consiste numa grande onda de censura cujos alvos maiores são grupos marginalizados.

Usaram como desculpa o combate a pessoas e conteúdos envolvides com pedofilia. Em vez de procurarem adotar políticas eficientes contra isso, decidiram simplesmente apagar toda "pornografia" do site. Vou explicar brevemente os reais efeitos disso.

Primeiro que as ações se mostraram caóticas ao censurarem blogs e postagens que não tinham nada de conteúdo sexual. Muitas pessoas passaram pelo estresse de apelar ao sistema do site e pedir a volta de blogs e conteúdos. E muitas delas eram pessoas LGBTQIAPN+ (coincidência?).

Segundo que muito do conteúdo sexual do Tumblr é utilizado também para falar de prevenção e educação sexual, temas de extrema importância para a juventude que está iniciando a puberdade; e em especial a juventude heterodissidente, que tem sua sexualidade marginalizada. Inclusive há profissionais do sexo fazendo dinheiro pelo site. Ah, e lembrando que educação sexual é uma grande arma contra pedofilia por ensinar sobre consentimento e toques indevidos.

E terceiro e último, banir pornografia fere diretamente as liberdades sexuais des usuáries do site. Assim, não digo que a pornografia não possa ser problemática e não possa ser criticada. No entanto as pessoas continuam tendo o direito de consumi-la para seu próprio prazer. Em outras palavras: as pessoas têm o direito de gozar em paz. Além de que também fere o direito das pessoas de produzirem conteúdos eróticos, como no caso de muites fetichistas.

Então, no fim das contas, pessoas LGBTQIAPN+, profissionais do sexo, juventudes pubescentes, e todes tentando usufruir de alguma liberdade sexual estão sendo atacades por essa nova política, perdendo espaços seguros de liberdade e conhecimento. Muitos blogues de diversidade, incluindo aqueles que cunham identidades e fazem postagens construtivas, estão correndo risco de cair.

Isso não foi apenas um tiro no pé pelo Tumblr ter bastante conteúdo erótico e ser muito usado por isso. Mas também porque ainda presta um desserviço ao combate que diz estar fazendo: contra pedofilia. Ouvi dizer ainda que muites pedófiles migraram para outros sites como o Twitter.

Parabéns, Tumblr, pela merda que está fazendo.



14 de jul. de 2018

Militância ou pink money?

A maior polêmica da semana talvez tenha sido o novo clipe do artista Nego do Borel, onde o mesmo aparece vestido com roupas tradicionalmente femininas e encena um beijo com outro homem. O clipe recebeu muitas críticas e teve recepção negativa tanto da comunidade LGBTQIAPN+ quanto do público geral.

Nem tenho muito que dizer. O clipe não tem contexto, não há representatividade e sim caricaturas e estereótipos, Nego havia dias antes postado foto com um político fascista famoso, e continua mostrando apoio. Até o beijo foi forçado. Enfim, um desserviço.

Não vou ficar promovendo boicote ao clipe, e inclusive defendo o direito das pessoas de o apreciarem. Você pode gostar da obra. Apenas tenha o senso crítico sobre o efeito dela.

Tudo isso reacendeu a grande discussão sobre o famoso pink money. Várias pessoas apontaram e gritaram aos quatro ventos o oportunismo evidente do artista, além de criticar como ele usou a comunidade na produção. Outras figuras também foram adicionadas às discussões.

Tudo isso nos leva a uma questão interessante: pink money é inevitável?

Bom, toda entidade que falar sobre ou mostrar a diversidade vai lucrar com isso, de alguma forma ou de outra. O capitalismo funciona assim, não se pode escapar dele visto que estamos todes inserides nele. E a diversidade esteve chamando muita atenção atualmente, o que consequentemente a tornou alvo desse sistema.

O que realmente importa nessa questão é se essa tal entidade tem um histórico de apoio à comunidade, seja uma declaração pública, postagens nas redes sociais, reversão dos lucros para instituições focadas em ajudar a comunidade, enfim. É aí que sabemos diferenciar o oportunismo do altruísmo. E isso vale tanto para artistas de fora quanto de dentro da comunidade.

Claro que existe um critério diferente para esses dois grupos.

Pessoas de dentro são de alguma forma cobradas de fazer algo pela causa, mas não é incomum que quase toda produção seja vista com bons olhos apenas pela pessoa ser da comunidade. E quando pessoas de fora decidem ser a favor da causa, são cobradas de um ativismo que vai além de sua limitação enquanto artistas e aliadas. Precisamos nos atentar a esses detalhes para assim não darmos brecha à apropriações e não acusar injustamente de apropriações.

Ademais, e detesto admitir isso, mas até mesmo atitudes como a de Nego do Borel trazem alguma visibilidade à comunidade, pois o assunto repercutiu e gerou discussões envolvendo a diversidade e o oportunismo de artistas em relação a ela. É positivo que o tema do pink money seja abordado, então a situação não foi inteiramente ruim. Achei necessário apontar isso.

E como toda história tem vários lados, vamos para um outro: já perceberam a diferença entre as críticas e cobranças feitas às figuras periféricas e às figuras brancas ou marcas? Precisamos nos atentar a isso. Nego do Borel foi muito citado junto com Jojo Toddynho, ambes sendo atacades com uma agressividade que não é igual com outras figuras e que chega a ser um tanto desproporcional aos erros que cometeram.

Classismo, racismo e misoginia ainda existem, e podem muito bem se mesclar com críticas válidas e necessárias. Cuidado. Se policiem. Tenham autocrítica até para falar de quem está errade.



11 de jul. de 2018

O passado condena

Semana passada foi um daqueles episódios onde o karma ataca com tudo. Um youtuber que eu nem conhecia teve postagens racistas do Twitter expostas, e com isso houve uma repercussão negativa chegando a perda de patrocinadories.

Nisso começou uma discussão sobre se expor postagens antigas é justiça ou apenas revanchismo, se é algo necessário ou apenas tática para destruir carreiras.

Sinceramente, eu não sei até que ponto é válido jogar na cara de pessoas postagens antigas, de anos atrás, ainda mais postagens de 2010 para trás. Considero essa década como o marco das discussões sobre opressões perpetuadas sob formas de piadas e opiniões. Então, digamos, tudo que foi dito de oito anos pra trás deve ser considerado? Deve ser esfregado na cara da pessoa no presente? Fica aí o questionamento.

Ninguém da geração de 1990 e antes era uma pessoa crítica na adolescência e no começo da fase adulta. Não estou justificando piadas e opiniões escrotas, apenas apontando que se formos desenterrar toda merda que falamos e fizemos, teremos uma grande maioria da população jogada na fogueira. Isso é algo para se debater.

Voltando ao presente, no caso em específico, achei mais do que justo o que aconteceu. O sujeito em questão fazia piadas opressivas constantemente, não mostrava estar aberto a reconsiderar suas ações, e fez parte de sua carreira em cima das piadas. Além disso, ainda teve a coragem de fazer um vídeo ridículo pedindo desculpas de maneira bem porca, e ainda disse que sues amigues o conscientizaram sobre a violência contra a população negra e o racismo estrutural.

Calma, vamos analisar: a pessoa é uma figura pública, tem notoriedade, está frequentemente ligada às redes sociais, e só agora em julho de 2018 esse bendito ouviu falar na violência e no racismo? É sério isso? Ninguém antes na vida pessoal ou virtual dele havia falado nessas coisas? Sério mesmo que ele nunca viu esses temas sendo abordados? Pra mim tá muito estranho.

Ou a pessoa é alienada a um nível absurdo sobre questões das populações racializadas, ou apenas não se importou o suficiente até sentir no próprio bolso. E eu aposto mais na segunda opção.

Logo em seguida outras pessoas decidiram apagar suas postagens antigas das redes sociais. Algumas se pronunciaram ressaltando o quanto mudaram e que estão melhorando. Ótimo, não fazem mais que a obrigação. Mas apagar as postagens, depois que refleti muito, me pareceu uma atitude bem covarde.

Ficaram com medo das críticas? Depois de terem construído carreira e fama em cima de piadas misóginas, racistas, heterocissexistas, etc? Ora, as pessoas devem sim ser responsáveis pelo que falam, e aguentar um montão de críticas ao passado me parece ainda leve comparado ao que essas piadas causam a longo prazo.

Tudo bem, todes merecem uma chance de redenção. De novo, não fazem mais que a obrigação. Mas não podemos ser punitivistas e achar que pessoas não podem mudar. Se essas figuras realmente melhoraram, ótimo. Que então continuem o que estão fazendo agora, sem ficar tentando se reafirmar toda hora, sem forçar parecer desconstruíde e consciente, enfim.

Essa polêmica levantou muito bem sobre a grande responsabilidade que figuras públicas têm em relação à sociedade. No momento em que esses indivíduos são ouvidos por milhares de pessoas, e crescem em cima de uma ou mais parcelas marginalizadas da mesma sociedade em que vivem, isso cria um fardo. E esse fardo pesou quando essas parcelas decidiram reagir, quando também foram ouvidas.

Ninguém foi avisade de que um passado de piadas opressivas pesaria. Ninguém estava pronte. Não acho que existem culpades, porém as consequências estão aí. Que isso fiquei de lição para todes, sem exceção, afinal esse peso não é exclusividade de figuras públicas.



21 de jun. de 2018

Leia um textão

Hoje vou dar uma dica para quem está começando na militância, ou tem apenas curiosidade, ou quer saber sobre os movimentos sociais: leia um textão. :D

Te disseram que textão "não resolve nada"? Que é perda de tempo? Que é só pra ganhar like? Bom, realmente tem textão que faz isso sim, afinal na Internet tem de tudo. 

Mas não falo desse tipo de textão. Falo do tipo que você lê e termina com alguma novidade, alguma diferença.

Você ainda não saiu do armário e entra escondide em espaços virtuais? Leia um textão.

Você tem depressão ou é antissocial? Leia um textão.

Quer saber sobre vivências e conceitos e não quer sair de casa? Leia um textão.

Viu uma pessoa com ideias interessantes? Leia um textão dela.

Não tem tempo para pesquisar? Leia um textão no seu tempo livre.

Está na fila do banco e ela não anda? Leia um textão pra passar o tempo.

Leia um textão, leia muito textão. No Facebook, no Twitter, no Medium, em qualquer lugar.

Se o textão te ajudou, foi válido. Se te informou, foi válido. Se abriu sua visão, foi válido. Se te conscientizou, foi válido.

Não leia só por ler. Leia, absorva, entenda. Pessoas não ficam perdendo minutos preciosos do dia para digitar para o vácuo do universo. Ler um textão também valoriza a pessoa, valoriza a mensagem que ela quis passar.

Ah, e não esqueça de compartilhar sempre! Espalhe o que é produtivo, o que conscientiza, o que melhora as pessoas, o que faz diferença.



21 de jan. de 2018

Desconstruídão v.s. Padrãozinho

Decidi escrever sobre isso de última hora. Quero falar sobre essa briga nas redes sociais de gay desconstruído contra gay padrão, que já encheu o saco e tomou uma proporção muito errada.

Os caras que chamo de "padrãozinhos" são aqueles dentro dos padrões estéticos. E só. Se eles são escrotos ou não já é outra história. E os caras chamados de "desconstruídões" são aqueles que criticam de várias formas o outro grupo e os padrões.

Não sei se é adequado chamar o lado crítico de "desconstruído". Porque sinceramente não sei até que ponto esse pessoal é mesmo desconstruído - se fingem que são, se acham que são o suficiente, ou se são mesmo. Mas vamos chamar esse lado assim pra facilitar.

Em algum momento (não sei quando ou como) criou-se essa divisão, essa polarização. Ela surgiu como um resultado das críticas contra os padrões estéticos. Sempre existiu discriminação contra gays afeminados, gordos e negros; três segmentos muito atacados pelos padrões estéticos. E felizmente muita gente decidiu se importar com essa parcela.

Os "desconstruídos" começaram a apontar as atitudes nocivas do grupo "padrãozinho", focando nas discriminações que esse grupo realmente pratica constantemente até hoje. Além dos outros comportamentos, como futilidades, superficialidades, e isolamento em bolhas.

E, claro, as críticas foram e são recebidas até hoje com escárnio e descaso, falam que é exagero e vitimismo, que é recalque ou inveja, entre outros absurdos que só revelam mais da escrotice da própria pessoa. Isso tudo, como em toda situação onde temos um grupo oprimido e um grupo opressor, acaba fazendo com que o oprimido fique mais "traumatizado" e criando certa intolerância com o outro grupo.

Consequentemente o lado "desconstruído" também começou a ter certas atitudes erradas. Não são realmente opressivas contra quem é "padrãozinho", mas podem afastar as outras pessoas da discussão e até criar uma péssima imagem do lado que deveria combater opressões.

Generalização é uma dessas coisas, tratar todo "padrãozinho" como se fossem todos escrotos. Não se pode generalizar. Expor um cara a um vexame ou rechaço só porque ele está "se mostrando" também é algo desnecessário. É direito dele. Assim como tem gente que faz questão de chamar um cara malhado ou musculoso de feio. Estamos aqui justamente criticando a imposição de beleza e fazendo isso chamando uma pessoa de feia???

O cara quer biscoitar? Deixa ele! As redes sociais lhe conferem a liberdade de biscoitar. Você pode achar ridículo e apelativo (e há situações que é mesmo), mas ainda é direito dele. Assim como é direito dos outros dar biscoito. Antes só biscoitando do que sendo escroto. E apesar de tudo, os biscoiteiros fizeram uma jogada inteligente: transformaram o ato de biscoitar numa brincadeira. Uma brincadeira que, até onde pude perceber, até o lado que os critica chega a participar.

Agora, vamos ao ponto problemático que realmente deveria ser discutido. Muitos gays de beleza padrão são reprodutores de muitas discriminações. São machistas quando atacam a expressão feminina; são gordofóbicos quando atacam os corpos fora do padrão; são elitistas quando atacam os gays periféricos; são falocêntricos quando exaltam pênis considerados grandes; de brinde são cisnormativos, pois excluem homens trans; e são racistas, visto que a grande maioria é branca.

Esses comportamentos são mais descarados nos aplicativos de "namoro". Não são novidade. E isso sim precisa ser discutido, isso é o mais importante e urgente. Excluir esses segmentos alimenta a opressão que os mesmos vivem diariamente.

Se formos criticar um grupo que está sendo opressivo, precisamos focar justamente nessa opressão. Partir para revanchismos, julgamentos e reações exageradas que podem muito bem estar equivocadas não ajuda, causa mais divisão e ainda dá motivo para o lado opressivo desmerecer toda ação que realmente combata o preconceito.

Era só isso!



30 de ago. de 2017

Sobre a Inês Brasil

Há alguns dias houve uma polêmica sobre a "musa LGBT" Inês Brasil. A artista, até então aclamada por boa parte do público LGBT (em especial os gays), apareceu numa foto com um famigerado político com ideias fascistas e inimigo da comunidade LGBTQIAP+, o que causou uma grande revolta no público.

Antes de tudo quero ressaltar que nunca fui fã da Inês Brasil (também não tenho nada contra) e que minha intenção não é "defendê-la". Não é uma simples questão de escolher um lado.

Bem, primeiramente, ela tinha todo o direito de tirar aquela foto. Ela tem o direito e a liberdade de tirar foto com quaisquer figuras e não ser julgada ou rechaçada por isso. Eu teria negado a foto, mas eu e ela somos pessoas diferentes. E ela é o tipo de pessoa que tem uma posição pacífica com todo mundo.

Agora, dito tudo isso, vamos ao seguinte fato: Inês nunca foi pró-LGBT, nunca foi uma verdadeira apoiadora da causa. Não estou dizendo que ela é contra. Mas o discurso dela é limitado a falar apenas de amor e respeito. Não é um discurso inútil ou dispensável, mas não é uma atitude que realmente levanta a bandeira e a põe compromissada com a causa LGBT.

Sendo que a própria artista já fez uma declaração transfóbica num show e até hoje nunca se desculpou. Também já disse não aprovar que crianças vejam beijo gay nos desenhos. Assim como além da foto fez um vídeo conversando com o fascista, tratando-o como se fosse bonzinho e dizendo levianamente para deixarmos os discursos de ódio "nas mãos de Deus" (como se o maior problema da comunidade fosse algumas pessoas falando ser "contra os gays").

Afinal, qual era o verdadeiro motivo de ela ser um ícone LGBT? Sinceramente, acho que é apenas por ela ser uma geradora de memes. Apenas isso. Ela é engraçada, diz frases de efeito que se espalham rápido, e tem um jeito espontâneo e único. Isso agrada, eu admito. Mas a verdade é que ela nunca fez nada para ser especificamente um ícone LGBT.

Sim, ela recebeu muita atenção ao fazer um vídeo contra um certo pastor fascista. Mas tudo que ela falou poderia ter sido dito por qualquer outra pessoa com o mínimo de bom senso e empatia pelo ser humano. E ainda assim o vídeo tinha algumas falas problemáticas.

O que realmente gerou toda essa revolta contra ela foi que aquela foto partiu em pedaços uma imagem que o público que a aclamava criou dela. Essa imagem não era verdadeira. E por isso ninguém deveria estar cobrando dela um compromisso com alguma causa social.

Mas o pior de tudo foi o ódio que o público que antes a paparicava manifestou nas redes sociais. Não foi apenas reprovação pela foto (que todxs tinham o direito de ter). Também houve xingamentos e agressões morais. O pessoal que é vítima constante de ódio conseguiu ser tão odioso quanto essa gente de (extrema-)direita, reacionária, conservadora e fascista.

A oposição é intolerante com quem discorda dela. No entanto, nós, os alvos dessa oposição, agimos da mesma forma nessa situação. Precisamos repensar sobre isso. Além de que os ataques se concentraram na figura mais vulnerável da história: uma mulher negra com pouca consciência política. Sim, isso revelou nossos podres e nossas próprias intolerâncias.

As eleições estão chegando. Aquela foto não foi um ato amigável, foi politicagem pura. O fascista está tentando cativar as pessoas. A oposição que nossa comunidade enfrenta está se utilizando de estratégias para se fortalecer. E está indo muito bem com isso.

Toda essa onda de ódio contra a Inês Brasil serviu para fortalecer mais o inimigo. O inimigo agora está pondo esse público revoltadinho no mesmo balaio que militantes e pessoas de esquerda, tudo para reforçar o discurso desonesto que LGBTs e esquerdistas só pregam o ódio.

Nossa comunidade saiu queimada. Nossa luta foi comprometida. Nossos maiores inimigos estão rindo da nossa cara enquanto a galerinha raivosa da Internet chora apagando do computador memes da musa que nunca foi musa.



15 de jul. de 2017

Representatividade importa!

Quando se fala em representatividade, há uma cobrança sobre a presença de certos grupos de pessoas que têm vivências e experiências específicas.

Até hoje uma boa parte das pessoas, até mesmo da comunidade LGBT+, têm dificuldade de entender o quanto necessitamos de mais representatividade na mídia e meios de comunicação. Apagar certos grupos é apagar uma série de questões sociais que precisam de atenção.

Essa semana teve a polêmica do comitê LGBT+ da Coca-Cola Brasil, que se diz um grupo de diversidade, mas é composto apenas por seis homens cis brancos de expressão masculina. A causa da polêmica foi unicamente a falta de representatividade de outros grupos, como LBTs, mulheres e pessoas negras.

Esse padrão masculino cisgênero branco se repete em tantos outros grupos que se dizem LGBTs, que dizem ser a face da diversidade que defendem. E quando isso é questionado é tudo "mimimi", desnecessário, politicamente correto, chatice pós-moderna, enfim, os mesmos discursos vindo de pessoas que, coincidentemente, são representadas por esse padrão.

Perceba como o padrão não pode ser questionado, mas a maioria não pensa no quanto é estranho falar da variedade humana apenas mostrando um grupo específico e majoritário.

Ninguém está dizendo que os homens cis brancos não são necessários, que devem sumir ou não podem ajudar na causa LGBT. Os homens em questão são gays e a voz deles têm valor. Mas cadê o resto do pessoal? Não apenas LBTs, mulheres e pessoas negras, mas também os gays afeminados, gordos, trans etc?

Se o grupo é sobre diversidade, no mínimo ele deve ter diversidade. Não é possível que na empresa só existam esses seis indivíduos! Algo está errado aí!

Qual é o problema de haver apenas homens cis brancos? Bem, são grupos socialmente privilegiados, logo possuem maior aceitabilidade e visibilidade por parte da população. Isso é muito problemático. E LBTs, mulheres e pessoas negras, estão precisando ter mais voz, pois são grupos minoritários e alvos de opressões não sofridas pelos outros citados.

O próprio comitê se contradisse quando afirmou representar a diversidade sexual. Se é LGBT+ (ainda adicionaram o +), então é um grupo de diversidade sexual, de gênero, de sexo e de afetividade! A própria sigla justifica isso!

Se vamos falar de diversidade, então vamos representar devidamente essa diversidade! Que apareçam outros gays, que apareçam lésbicas, bissexuais, transgêneros, intersexuais, assexuais, pansexuais, e quem mais tiver por aí! Novamente, cadê esse pessoal? Se não está na tal empresa comprometida com a diversidade, algo está muito errado...



12 de jul. de 2017

Meu relato de cyberbullying

Faz um mês que fui alvo de centenas de ataques virtuais no Twitter, uma de minhas redes sociais. Isso já havia acontecido ano passado, mas foi um episódio de proporção bem menor. E pensar que o Twitter é reconhecido como a rede dxs LGBTs.

Felizmente foi algo que durou apenas um dia. Ainda assim foi um evento inédito para mim. O que me aconteceu não foi azar, foi na verdade uma pequena parcela do que muitas outras pessoas LGBTs passam diariamente nas redes sociais, principalmente figuras públicas.

No Twitter, particularmente falando, consigo enxergar uma grande sociedade LGBT. Talvez a maioria não seja militante/ativista, mas existe uma diversidade grande que se sente livre e segura no site. Porém, assim como no Facebook e até mesmo no Instagram, existe também um esgoto virtual onde ficam as pessoas preconceituosas e reacionárias. E eu presenciei um pouco desse esgoto.

Um perfil que se diz comediante compartilhou um tweet meu e ainda me atacando. Então além de eu ter sido atacado no perfil, também me atacaram em meu próprio perfil. Alguns chegaram a me atacar em outras postagens.

Esses perfis e figuras públicas que se dizem comediantes são aqueles que fazem discurso de ódio e perpetuam preconceitos através das """piadas""", sempre atacando minorias. Podem até vir com o papo de que "fazem piada com tudo", mas os alvos são sempre minorias. E o perfil em questão que apontei é um dos maiores que vi no Twitter e seu conteúdo é astronomicamente nojento.

E milhares de pessoas seguem essa página. O esgoto virtual é bem maior do que eu imaginava. E essa gente precisa ser combatida. Não são apenas ignorantes e leigos, são pessoas movidas a ódio e sem qualquer empatia pelo ser humano. Mas não se enganem: quando se unem para atacar, parecem poderosos e invencíveis, mas são tudo pessoas covardes e fracassadas. No fundo sabem que são lixos e escória da humanidade.

Não tenho sangue frio. Fiquei com muita raiva dessa gente. Naquele dia fiquei pensando em como seria ótimo para a humanidade se essas pessoas morressem, caíssem mortas no chão, desaparecessem do mundo. Ainda penso essas coisas às vezes.

Aguentei com firmeza com ataques e tomei providências. Claro que eu não ia deixar me atacarem o dia inteiro e por dias. Bloqueei a página e todos que me atacaram. Fiquei mais chocado em ver um gay que apoia a página e até mulheres, sendo que uma ainda compartilhou uma foto minha para debochar de mim.

Depois dei uma pesquisada pelo site e vi que outras pessoas já criticaram a maldita página. Algumas foram atacadas, mas por pouca gente. Eu fui um alvo bem maior. E sabem o motivo? Porque sou gay, porque sou militante LGBT+, porque sou empoderado, porque sou muito melhor que esses lixos que só sabem sujar ainda mais esse mundo.

Esse acontecimento me abalou por um dia, mas depois ressurgi muito mais forte. Ah, e um detalhe importante é que tive que aguentar tudo sozinho. Mesmo com milhares de seguidores, ninguém foi me apoia ou me defender. Silêncio total. Duvido que ninguém viu aquilo tudo acontecendo. Dias depois um outro usuário foi atacado por outro e dezenas de usuários foram imediatamente ajudá-lo. Explicação? Bem, eu tenho umas ideias, mas não vou expô-las.

De qualquer maneira, eu sobrevivi. Foram apenas palavras de ódio de centenas de pessoas, nada que pudesse me matar. Eu sou uma pessoa forte. Solitária, mas forte, mais do que eu imaginava. E isso tudo também reafirmou a importância de ser militante e lutar pelas causas sociais. 

Ódio tem que ser combatido. Eu não morri, mas há um grande número de pessoas que já tentaram ou cometeram suicídio por causa de ataques virtuais em massa. Infelizmente aqui no Brasil o cyberbullying não é tão levado a sério. Existem pouquíssimas delegacias específicas e as redes sociais se mostram na maioria das vezes incapazes de punir crimes virtuais de ódio. O próprio Twitter, a "rede social do arco-íris", não fez absolutamente nada.

Aliás, só para constar aqui, além das políticas e regras de conduta do Twitter não verem nada de errado em ataques preconceituosos e discursos de ódio, toda postagem denunciada desaparece apenas para você. Grande bosta! E se disserem que um perfil denunciado foi "bloqueado", não foi porcaria nenhuma.

O que nos resta? Abaixar a cabeça e aceitar? Não! Nós vamos lutar!

Vamos gritar, vamos discutir, vamos problematizar, vamos expor essas pessoas, vamos reafirmar nossas identidades, vamos conscientizar as pessoas que querem ouvir e mudar, vamos enfrentar o ódio e vamos também ser melhores que isso! Sim, vamos lotar as redes sociais de "mimimi"! 

Se estamos incomodando é porque algum efeito está tendo. O ódio dessas pessoas é uma reação - elas se sentem ameaçadas! Nossas lutas, ações e palavras ameaçam os sistemas opressivos e todos que vivem deles. Deixem que vomitem mais ódio e apodreçam por dentro. Nós ficaremos mais fortes. E nós podemos mudar o mundo.



1 de jul. de 2017

Você não é trouxa

Não é novidade textos por aí falando das nossas relações atuais, que são relações líquidas - elas surgem, fluem, e escorrem logo por algum ralo invisível. Não duram e somem como se nem tivessem existido.

Vocês têm uma ótima conversa, encontram afinidades, o interesse é recíproco. E então no dia seguinte sua mensagem é visualizada e ignorada ou a pessoa aos poucos se torna distante e de repente desaparece.

O mais apropriado é aguardar alguma reação, mesmo que você seja expert nesse tipo de situação e pensa que sabe o resultado. As pessoas têm vida fora do mundo virtual, lembre-se sempre disso.

Porém, o resultado foi o esperado: te descartaram. "Mas a conversa foi tão boa, teve sintonia, tínhamos coisas em comum! Por quê?! Fui trouxa de novo!!!"

E então sua mente fica martelando com perguntas como: "Falei algo de errado? Teve algo em mim que não gostou? Será que conheceu alguém mais interessante?"

Eu quero dizer a você que já passou ou está passando por isso: não se culpe. Não fique tentando explicar ou justificar esse tipo de atitude. Hoje em dia as pessoas estão tão perdidas e são tão inconstantes que o desinteresse nem precisa de motivo. Ele apenas surge.

Nessa era da modernidade tornou-se muito fácil a comunicação. E da mesma forma tornou-se muito fácil cortar contatos. Podemos nos livrar de alguém com o simples comando de excluir ou bloquear, cortamos a pessoa das redes sociais e/ou apagamos seu número, pronto, elx não existe mais.

Nos alienamos com toda essa facilidade. Desaprendemos como conversar e como criar vínculos com as pessoas. Muitas vezes conversamos sem nem saber ao certo o que queremos.

Essa é a realidade atual. É uma merda? Sim, é uma merda. Ficamos com raiva, ficamos tristes, nos isolamos, deitamos na cama ouvindo música melancólica, e olhamos no espelho dizendo "nunca mais vou confiar de novo". Não quero mais ser trouxa!!!

Você não é trouxa por mostrar interesse.
Você não é trouxa por se abrir.
Você não é trouxa por tentar manter o contato.
Você não é trouxa por desejar.
Você não é trouxa por ter criado alguma expectativa.
Você não é trouxa por estar se sentindo triste com o que aconteceu.

Ponha isso na sua cabeça: você não é trouxa por querer alguém, novas amizades, ficantes ou conhecer alguém para uma relação duradoura. Você não é trouxa por querer criar vínculos. Você é uma pessoa maravilhosa!

A razão e a emoção são dois aspectos humanos que estão dentro de nós. Use a razão! Ela é fria, mas é analítica e crítica, ela enxerga o que a emoção não enxerga, ela pode te consolar quando a emoção só te traz dor e frustração.

Priorize a sua saúde mental e emocional. Ninguém se preocupa mais com sua própria saúde do que você. Se a pessoa está te fazendo mal, livre-se dela sem receio ou culpa. Te descartou? Excelente! Não pense que você perdeu, pense que se livrou. Se a outra pessoa não soube valorizar seu conteúdo e o seu interesse, então é um favor que ela te faz desaparecendo.

Aprenda a ser feliz em sua própria companhia. Quer ir no cinema, mas não tem ninguém? Vá. Quer passear em algum lugar, mas não tem ninguém? Vá. Quer viajar? Vá. Quer ir numa balada? Vá. Você não precisa de companhia para se divertir. Tem companhia? Ótimo, divirta-se também.

E não pense em se vingar do mundo se tornando uma pessoa fria e desinteressada. Não se torne aquilo que te feriu. Se você sabe o quanto é horrível o desinteresse, não faça com as outras pessoas. Acha mesmo que vai ganhar alguma satisfação em se tornar mais um monstro no mundo?

As relações líquidas são um problema e devemos lidar sem nos degradarmos. E antes de construir relações sólidas com as pessoas, construa uma com você mesmx.



23 de fev. de 2017

Geração mimimi

"Ai, essa geração mimimi é foda, né. Hoje em dia não se pode fazer piada, não pode falar isso ou fazer aquilo, tudo é preconceito, tudo é opressão, agora eu sou opressor, tá foda viver atualmente."

Quem nunca leu ou ouviu isso por aí?

Caramba, como os tempos atuais são um mar de sofrimento para essas pessoas, né? Fico com tanta dó, quase escorre uma lágrima aqui.

Coitadas dessas pessoas, que dó, que dó. Não pode mais fazer piada com o gay, não pode zoar o cabelo do negro, os manos não podem nem chegar pegando na cintura das minas. Ai, essas minorias malvadas que querem privilégios e problematizam tudo. A gente tem até medo de se expressar livremente na Internet, vai que nos processam.

Ok, falando sério agora. Já pararam para observar quem mais reclama do mimimi? O público que prevalece são homens heterossexuais e cisgêneros, brancos, de classe média ou alta. A maioria é religioso, normalmente cristãos. Curioso, não?

Mas por que o mimimi "oprime" tanto essas pessoas?

Classes majoritárias sempre tiveram seus direitos garantidos, sempre foram aceitas pela sociedade, nunca sofreram qualquer tipo de discriminação por suas características, e sempre tiveram liberdade de ser e viverem como querem.

Classes minoritárias ainda precisam lutar por direitos básicos, ainda sofrem repreensão social apenas por serem o que são, existe todo tipo de discriminação e cometida diariamente contra elas, e não têm a mesma liberdade que a maioria. Só não enxerga quem não quer.

Preconceito em todo lugar? Sim, está todo lugar, do nível mais agressivo até o mais sutil. Nos acostumamos tanto a reproduzir vários preconceitos que é difícil admitirmos. Que tal começar a enxergar as coisas de outro jeito ao invés de chamar tudo de mimimi. Que tal ouvir ao invés de chamar tudo de mimimi? Que tal questionar um pouquinho sua vida, a sociedade e o sistema antes de falar "ai, isso é mimimi"?

Seria mais prestativo para si e para o mundo do que ficar chorando porque não pode fazer piada com uma minoria, fazer escândalos porque te repreenderam por algo que disse ou fez, escrever textão contra o "politicamente correto", e ainda inventar opressões (heterofobia, misandria, racismo reverso etc). E depois as minorias é que ficam de mimimi, né?

A geração mimimi existe. E não são as minorias sociais e nem quem as apoiam.

Paz!



12 de fev. de 2017

Vamos expor!

Recentemente teve um caso que repercutiu nas redes sociais de um estagiário de uma empresa que fez postagens anti-feministas. Ele publicou duas fotos e nas legendas falou as merdas machistas típicas.

Essas fotos vazaram e em pouco tempo a empresa o demitiu, fazendo uma nota de esclarecimento.

Muita gente aplaudiu o ocorrido (eu, inclusive) e a história parecia ter tido um final feliz, quase uma fábula com uma lição de moral no final. Até eu considerei aquilo uma justiça. O problema é o que veio depois desse "final feliz".

O rapaz está numa nova empresa (que também já gerou polêmicas com feministas) e ganhou fama nas redes sociais por parte de seguidores de ideologias conservadora e fascista. Ops, o tiro saiu pela culatra...

Como explicar esse efeito?

Pode parecer uma excelente estratégia - e justiça - expor pessoas escrotas que estão estagiando ou trabalhando e causar sua demissão. Mas esse caso (e alguns outros) comprovou que isso não funciona como esperamos.

A Internet é vasta e nela há todo tipo de pessoa. As fotos chegaram tanto nos grupos de movimentos sociais quanto nas famosas oposições. E elas fizeram o que militantes e ativistas estão deixando de fazer: uniram-se.

Expusemos uma pessoa espalhando ódio na esperança de que o ódio fosse combatido. Ao invés disso demos voz ao ódio. Permitimos que outras pessoas se unissem ao rapaz para propagarem mais discriminação. Sim, fizemos propaganda para ele. A mesma propaganda que fazemos de outras figuras de ódio, como um certo deputado cujo nome nem pronunciarei.

E convenhamos, se fosse para cada pessoa preconceituosa perder o emprego, então milhares de pessoas deveriam estar na rua agora. Isso é realmente uma boa estratégia? Direito ao trabalho é um direito básico das pessoas. Pensem nisso.

Sim, está na hora de uma mudança na estratégia. Precisamos dar mais visibilidade a todxs que produzem conteúdo progressista e inclusivo, que problematizem e ensinem a desconstrução, que atuem de verdade nas militâncias e ativismos.

Se tiver as opções de compartilhar as palavras de uma pessoa preconceituosa ou um texto que fale sobre preconceito, compartilhem o texto. Mostrem esse tipo de conteúdo. Espalhem. Alguém com certeza lerá e poderá abrir a mente, melhorar.

Militantes e ativistas precisam de visibilidade! E não ódio!

Esse caso me fez perceber que ignorar gente retrógrada é o melhor caminho; deixem elas vomitar ódio para o nada e lutem por um mundo com menos ódio.



19 de nov. de 2016

Militância pós-moderna

Talvez esse texto gere certa revolta contra minha pessoa. Recomendo a todxs que leiam com mente aberta, imparcialidade e estando muito zen.

Entrar nos grupos virtuais de militância foi um enorme passo para mim. Não foi como seguir ou acompanhar páginas por aí ou algumas pessoas militantes. Foi algo maior e libertador. Naturalmente, afinal são grupos com uma quantidade enorme de gente, o que possibilita uma diversidade de personalidades, opiniões, pensamentos, ideias e relatos.

Aprendi muito com esses grupos. Eu não seria quem sou se não fosse por eles. Eu não seria o militante que sou sem eles. E continuo aprendendo enquanto faço minha parte de desconstruir o preconceito interno e externo.

Contudo, tenho minhas críticas e divergências sobre a conduta das militâncias que observo nesses grupos e de militantes de quase todos os movimentos sociais.

1- Militantes estão cada vez mais formando grupinhos restritos onde só discutem entre si e não levam debates para fora, para outros lugares e para pessoas de grupos majoritários. No fim todxs se isolam.

2- O radicalismo cria pessoas explosivas e grosseiras, que dão um show de raiva frente a qualquer mínima demonstração de ignorância vinda de alguém de um ou mais grupos majoritários, e que acham que podem distribuir patadas gratuitas. Há quem use o argumento do "reação do oprimido" como justificação.

3- Tem debates sobre preconceitos e discriminações que acabam virando uma competição bizarra de "quem sofre mais". Entendam que todo preconceito é ruim e que sofrimento é relativo e varia de pessoa em pessoa.

4- Acabam focando tempo e energia mais rechaçando uma pessoa que não entendeu algo do que esclarecendo e ajudando na desconstrução dela. Ninguém nasce desconstruído! Vejo com frequência as respostas clássicas "seje menas" ou "close errado" ou memes (da Inês Brasil, por exemplo). Sim, precisamos ter paciência para explicar e conscientizar!
Obs: não me refiro a pessoas que fazem discurso de ódio e só sabem xingar e tirar sarro.

5- Os próprios grupinhos restritos acabam excluindo seus membros quando não pensam igual a todxs ou pelo menos a maioria. E por fim recebem o mesmo tratamento que o item anterior.

6- Existe um grande número de militantes que age e fala como se qualquer pessoa dos grupos majoritários fosse incapaz de ter empatia e se desconstruir. Sem contar que não aprovam nem que mostrem apoio por suas causas, alegando "roubo de protagonismo". É importante pessoas da maioria passarem adiante o que aprenderam com a minoria! A aliança serve para isso!

Há alguns outros pontos, porém não vou abordá-los nesse artigo. São pontos que precisarão de uma discussão bem maior e elaborada.

Eu acabei aderindo a radicalismos e irracionalidades que aprendi nesses grupos. Após muito tempo comecei a me questionar sobre se meus pensamentos e minhas ações estavam realmente fazendo alguma revolução, contribuindo para a mudança. Percebi então que haviam certas falhas nesses grupos. E que há aspectos que podem ser melhorados.

Tudo que falei pode ser desconsiderado apenas por eu ser homem cisgênero branco de classe média. Pois estou numa posição privilegiada que pode me impedir de enxergar a necessidade e o sofrimento dos grupos minoritários os quais não pertenço. Ademais, nem falar com propriedade pelos gays posso, já que nunca sofri homofobia no mesmo nível que a maior parte.

Ainda assim, peço que pensem sobre tudo que escrevi. Analisem esses grupos e suas atitudes, reflitam sobre vocês mesmos, questionem-se. Façam isso antes de me xingarem e disserem "olha aí, o omi cis branquelo burguês querendo opinar na militância de todo mundo".

Mesmo com todas essas críticas apontadas, acredito que, de alguma forma, estamos caminhando a algum lugar. Do nosso jeito maluco, mas estamos. Creio que chegaremos na mudança, passando por fases mais pacíficas ou conturbadas.

Errar é humano, e quem milita são humanos. A militância deve continuar sua missão e deve procurar sempre o melhor caminho para cumpri-la.



3 de set. de 2016

Jogo da indiferença

Esse é um joguinho muito comum nas conversas atuais.

Estamos numa época em que pregam o seguinte: "mostrar interesse é carência e não mostrar, frieza". Estamos desaprendendo a como nos relacionar, como conversar, como conhecer as pessoas. E estamos a cada dia nos isolando em nossas bolhas, vivendo em nosso mundinho.

Como se iniciou esse mal? Não sei responder.

Como já falei aqui no blog, relacionamento está cada vez mais difícil. As pessoas chamam a atenção, dialogam, tentando formar um vínculo, e esse vínculo acaba muito rápido. A juventude pós-moderna quer viver apenas momentos e da maneira que bem quer, e não viver de fato com as pessoas.

Duas pessoas se conhecem. Elas têm afinidades. Começam o diálogo. Quem mostrar muito ou pouco interesse recebe uma punição: a indiferença. O jogo começa.

Se a pessoa demorou meia hora para responder, você demora uma hora na próxima. E vai seguindo com isso até terem um número inútil no WhatsApp (geralmente o jogo acaba logo).

Ás vezes parece que a juventude pós-moderna procura gente perfeita. Perfeita seria alguém exatamente como querem. Nunca encontraremos alguém que é 100% como queremos. Conviver com as pessoas é aceitar e respeitar suas qualidades e defeitos. O que tiver para melhorar deve ser melhorado. Mas temos que dar uma chance!

Vejo por aí essa horrível indiferença, que mostrar total falta de empatia pela outra pessoa. Dispensamos a outra pessoa por qualquer divergência (um “não”, uma diferença de opiniões, um conflito de interesses, etc). Tem gente que parou de falar comigo apenas porque não mandei nude ou porque falei que desejo um namoro. Tem gente que para de falar sem qualquer motivo aparente!

Já não te aconteceu de você e a pessoa terem um diálogo empolgante que fluiu lindamente, e no dia seguinte começa a indiferença, o total desinteresse?

Muita gente repete as frases “Não se apegue” e “Não crie expectativas”. É fácil dizer isso depois que você se tornou uma pessoa apática e desiludida. Mais do que isso, acredito que estamos nos tornando carentes que fingem frieza como defesa, pois mesmo querendo alguém, temos medo de arriscar.  

No momento em que falamos com alguém que nos interesse, queremos que dê tudo certo; isso já não é criar uma expectativa? E afinal, qual é o problema de se apegar alguém? Apego não é necessariamente carência, e sim uma demonstração de afeto e carinho.

Sinceramente, todxs poderiam viver em paz e harmonia se soubessem exatamente o que querem e soubessem dialogar, deixando claros seus interesses e objetivos, sem pisar na outra pessoa por ter sentimentos ou rejeitá-la por qualquer coisa que você não se identifica. Talvez estejamos perdendo a oportunidade de conhecermos ótimas pessoas porque estamos seguindo cegamente uma lógica doida onde ninguém pode ter sentimentos e deve ser sempre o mais indiferente possível.

Seja carente ou frio, apenas sei que estamos mais infelizes e sozinhxs, repetindo esse jogo desprezível e nos tornando pessoas insensíveis.

Que tal encerrarmos o jogo?



20 de ago. de 2016

Minha opinião sobre Carlota Miranda

Essa semana começou uma polêmica nas redes sociais, especificamente nos grupos virtuais de militâncias dos movimentos sociais (LGBT e feminista). Faço questão de escrever esse texto por ter analisado todos os lados envolvidos e por ter certas críticas a fazer.

Tudo começou quando uma pessoa não-binária (que não se identifica nem como homem ou mulher) conseguiu adquirir o nome social de Carlota Miranda. Essa pessoa comemorou sua conquista e o fato de agora poder utilizar o banheiro feminino. 

Muita gente, principalmente as mulheres, protestou contra devido à aparência muito masculina de Carlota (que também é do sexo masculino) e por ter conseguido o direito ao nome social com certa facilidade em comparação às pessoas transexuais.

Primeiramente, achei muito problemático nessas discussões o pessoal desconsiderar o gênero de Carlota, alegando que elx é um homem cis fingindo ser pessoa n-b. Isso foi uma atitude transfóbica (sim, pessoas n-b são trans). Carlota pode ser um homem cis fingindo ser o que não é? Pode! Claro, sempre tentamos dar um voto de confiança e acreditar que a pessoa é o que diz ser. Mas sinceramente não creio que elx se prestaria ao trabalho de mudar o nome e ser alvo de ataques de todos os lados apenas por querer ser diferente ou só para aparecer.

Referente à aparência masculina de Carlota (sua barba e as roupas), com tudo que aprendi sobre gêneros não-binários, devo afirmar que não há nada de errado em Carlota ter uma aparência masculina e um nome feminino. Ser pessoa não-binária é também misturar características masculinas e femininas ou ter novas características. Nem toda pessoa n-b pinta o cabelo de azul, verde, que seja, e combina vestes masculinas e femininas. O problema não é a aparência, e sim como a sociedade a interpreta.

Sobre o nome social, antes de tudo, devo dizer que Carlota tinha todo o direito de mudar seu nome. Carlota não se apropriou da luta das pessoas trans, pois elx também é trans. Por outro lado, é inegável a dificuldade enorme que pessoas transexuais enfrentam apenas para mudar o nome e tê-lo reconhecido em qualquer lugar. Isso é culpa do nosso sistema transfóbico. Carlota teve alguma vantagem por ser um homem aos olhos da sociedade? Talvez, é bem possível. E até compreendo a péssima impressão que foi passada, tanto para pessoas trans quanto cis.

Agora, falando do desconforto que a grande maioria das mulheres demonstrou, é perfeitamente compreensível! Entendam, como foi dito logo acima, Carlota tem uma aparência socialmente interpretada como de homem. Se eu encontrasse elx na rua, também julgaria ser um homem! Nosso mundo ainda é muito binarista (separa as pessoas apenas em homens ou mulheres). E nós também não temos como adivinhar o gênero das pessoas, seja a aparência mais dentro dos padrões ou não.

Talvez ainda não seja o momento apropriado para fazer um afrontamento desses (não estou dizendo que não é válido). As mulheres têm diversos motivos para temer os homens, então não é irracional ou preconceituoso o medo e a repulsa que poderiam sentir ao encontrar alguém como Carlota num banheiro. 

Talvez Carlota possa abrir uma concessão nesse caso e continuar usando o banheiro masculino, onde ninguém vai estranhar elx. Mudar de nome já foi uma revolução a sua própria maneira. Seria o fim do mundo? Quanta concessão nós minorias não fazemos aqui e ali porque ainda não temos poder para mudar o sistema? E convenhamos: banheiro é banheiro.

Questões como essa me fazem lembrar do quanto defendo os banheiros unissex ou sem gênero. Porém, na sociedade em que vivemos e nesses tempos tão conturbados, a ideia ainda não sai muito da teoria para a prática. Todxs nós vamos ao banheiro por necessidades e não para checar o gênero/sexo de quem o usa. E ainda assim é complicado falar disso, mais ainda quando levamos em consideração o lado das mulheres.

Concordo que esse caso é bastante controverso. E também acredito que polêmicas como essa são construtivas quando abrem espaço para questionamentos e reflexões sobre as normas sociais e acabam nos direcionando para a desconstrução. Precisamos ainda falar muito sobre gêneros e aparências. Precisamos muito falar sobre mulheres e transgêneros.



27 de abr. de 2016

O racismo gay

Outro tema problemático a respeito dos gays atuais é o racismo que ainda perpetua entre eles, seja na vida social ou no mundo virtual. 

Quem já parou para observar nos aplicativos de relacionamento gay perceberá dois tipos de gays: os que dizem que não gostam de negros por questão de preferência e os que procuram negros para um sexo selvagem. No mundo real encontra-se a mesma situação. 

A rejeição e a objetificação são dois lados da mesma moeda. Tanto um lado quanto o outro desumaniza os homens negros. 

Há aquele famoso mito que homens cis negros têm pênis grande. E um pênis grande é associado a um prazer imenso, a um sexo mais do que satisfatório. Ideais puramente fantasiosas, pois nem todo homem cis negro possui um pênis considerado grande. Ademais, quem disse que um pênis grande é necessariamente prazeroso? Há muita gente que considera incômodo na prática, dependendo dos tamanhos das vias (boca, vagina e ânus).

De qualquer modo esse mito serve para normalizar a ideia de que o homem cis negro é uma fonte de prazer ilimitado, nada mais. E isso leva à hipersexualização do homem (similar à hipersexualização da mulher cis negra). Consequentemente ocorre a fetichização; o homem negro se torna fetiche para os gays. Isso é visível em sites pornográficos, onde existe uma categoria própria dos negros (black). E quando há relação entre branco e negro, chamam de "inter-racial". 

Até agora falei da objetificação. Por que há rejeição também? 

Existem gays que dizem não ter preferência por negros porque não conseguem sentir atração por eles. E isso é mais uma construção social. Nas mídias, quando o assunto é beleza, a beleza é sempre apontada e exaltada em pessoas brancas. Essa influência acaba fazendo a população a aprender a enxergar beleza mais em gente branca do que em gente negra. Nem todxs sofrem essa influência, mas a maioria sim. 

Se aquele homem gay cresceu aprendendo a apreciar somente a beleza branca, dificilmente ele enxergará beleza num negro. É a mesma coisa que ocorre com pessoas gordas, pessoas com corpos mais "comuns", ou até pessoas com deficiência. Nossas preferências podem ser moldadas! Isso é fato! Mas é possível desconstruir isso; é necessário mente aberta e força de vontade. Pois assim todxs nós nos abrimos para mais possibilidades de amar, de se relacionar, de viver ao lado de outra(s) pessoa(s). 

Com tudo isso, não há como não abordar racismo no movimento LGBT. É necessário abordar! É necessário dar voz aos negros, sejam eles do movimento ou não! As pessoas brancas dentro do movimento, especialmente os homens gays, devem se conscientizar dessa questão. 

O que os gays atuais mais precisam a respeito desse assunto é refletir, questionar, e desconstruir todas as ideias e padrões que lhes foram impostos desde sempre. O racismo tem que acabar, seja dentro ou fora do meio gay.



23 de mar. de 2016

Os caras dos aplicativos

Vejo hoje que minha terrível experiência com os aplicativos de "relacionamento" teve seu lado positivo. Aprendi com isso - tive uma prova do que é o mundo atual das relações gays.

Aplicativos parecem algo inocente a princípio, uma luz no fim do túnel para quem está solteiro e deseja alguém. Mas no fim são como uma boate, só que na versão virtual. As pessoas lá são pratos num cardápio.

Mesmo assim, apesar dessa realidade podre e cruel, uma das melhores coisas na vida é poder rir das desgraças passadas. Ou não sentir ódio e ressentimento pelo que passou.

Comemorando que faz mais de um ano que não uso mais aplicativos, faço essa lista dos tipos de caras gays ou bi que achei nos aplicativos (alguns tipos podem se combinar):

- O galã: é aquele cara que todos cobiçam e pagam pau. É o modelo de revista, tira fotos estilosas, um deus grego encarnado. Mas não tem nenhum conteúdo. Não importa a besteira que ele fale, a "beleza" cega o senso crítico e moral da maioria. Por isso ele pensa que pode tudo. No fim é só uma merda pintada de ouro.

- O rico: ostentador, tem fotos de viagens em Paris, carro(s), praias, sítios, notas de dinheiro, barras de ouro, enfim, tudo que prove que ele possui uma conta bancária estufada. Deve ser o tipo com o maior ego. Mesmo não sendo muito bonito, pensa que pode tudo por ter dinheiro.

- O emético: não achei melhor palavra. É aquele que se diz "macho discreto e fora do meio", que não é/curte afeminados, e que não gosta de gordos, negros e trans. Ou seja, heteronormativo, machista, gordofóbico, racista e transfóbico. Causa nas pessoas o mesmo efeito de um medicamento emético: vontade de vomitar.

- O sem-foto: esse é assustador. Ele não tem nenhuma foto, ou pode ter uma foto que não mostre o rosto. E ele se recusa a mandar foto do rosto. Cuidado, pode ser um psicopata querendo comer você e depois seus órgãos.

- O boêmio: sua foto de perfil é... um copo de cerveja. Não sei até hoje como um copo de cerveja faz um perfil em aplicativos.

- O fast-foda: já vem perguntando se você é ativo ou passivo, se tem local, o que curte, até chega a perguntar o tamanho do seu pênis. A conversa toda gira em torno de sexo. E, provavelmente, se você for doido de se encontrar com ele, vai rolar sexo rápido e pronto, mais nada.

- O namastê: ele é espiritualizado, está em sintonia com as energias positivas do Universo, é uno com a Natureza, e procura alguém na mesma vibe que ele. E essa vibe é a mesma de todos os outros caras, não se engane. Acho que até uma barata é mais espiritualizada que esse ser.

- O de menor: nem falo dos garotos de 16 ou 17 anos. Falo daqueles de 14 pra baixo! Cadê os responsáveis dessa criança?!

- O profissional do sexo: o próprio nome diz; é um garoto de programa. Deve estar nos aplicativos porque quer fazer caridades (afinal aplicativo é pra sexo gratuito, não?).

- O mudo: muitos caras o curtem, o chamam para conversar, ou dão match nele. Ele até pode te dar match. Mas não conversa contigo. Se o Whatsapp dele estiver no perfil, desista, ele ainda vai te ignorar. E você vai continuar sem entender o motivo (por que deu match, em primeiro lugar???).



Já encontraram algum tipo ou mais? 
Se identificaram com algum tipo ou mais?
Espero que tenham gostado. Caso contrário, me deem um block.