27 de ago. de 2019

Digam suas linguagens pessoais

AC: cissexismo e exorsexismo estruturais, maldenominação.



Quando falo em linguagem pessoal me refiro à linguagem com a qual nos tratamos e expressamos, parte de nossa expressão de gênero. Ou seja se você é uma pessoa que usa o/ele/o, a/ela/a, ambos, sintaxe neutra, ou demais conjuntos fora das normas. 

Muitas pessoas trans já falaram e repetiram várias vezes o quanto é importante todes nas redes sociais normalizarem uma cultura de dizer suas linguagens pessoais, não importa o nome ou a aparência ou o gênero declarado/conhecido.

E todes também inclui pessoas cis; em especial pessoas binárias (cis, trans, ipso).

Vivemos ainda numa sociedade que pré-determina na socialização as linguagens o/ele/o ou a/ela/a dependendo do sexo/gênero designado de um bebê. E, quando o "sexo aparente" não é suficiente, a linguagem é pressuposta pela aparência; que a sociedade classifica só em feminina ou masculina, ainda assim mantendo um exorsexismo estrutural na língua.

Pessoas são pressupostas como cis o tempo inteiro, por mais não-conformistas de gênero que sejam. A sociedade opera como se não fosse necessário especificar um pronome ou a flexão de gênero nas palavras que usamos; afinal é "sempre óbvio".

É justamente tudo isso que precisamos combater. Essa ideologia cissexista (e muito exorsexista) de que as linguagens são óbvias, que basta olhar para a pessoa para saber, que está tudo bem pressupor como você deve tratar alguém.

Até porque, por mais que pessoas cis e pessoas trans binárias com "alta passabilidade" estejam num lugar de conforto, muitas outras pessoas não estão. E ainda existe toda uma estrutura que alveja todas as pessoas trans binárias também. Há homens e mulheres trans, por mais passáveis que sejam, sendo maldenominades unicamente por causa de seu gênero designado.

Não é uma questão que pesa somente em pessoas não-binárias que usam neolinguagens ou mesmo as linguagens padrão, mas também em pessoas trans sem a tal da passabilidade cis.

Especificar sua linguagem pessoal ajuda a naturalizar que:

- linguagens pessoais são características importantes e relevantes de serem sabidas;
- as linguagens não são (e nem devem ser) "óbvias";
- qualquer pessoa pode usar qualquer linguagem;
- e que pode haver mais opções além de o/ele/o e a/ela/a.

Recomendo muito o modelo APF de linguagem que uso aqui no blogue e que está começando a ser mais adotado pela comunidade trans/n-b. Mas admito que já senti algum alívio só de ver homens e mulheres cis colocando "ele/dele" ou "pronome ela" em suas descrições de perfil, que é melhor que nada. Ainda assim, o modelo APF é melhor e mais preciso.

Quanto mais pessoas aderindo a isso, mais vamos abrindo um caminho de tolerância e respeito para pessoas cisdissidentes e lutando contra o CIStema. Se você for cis e se pergunta como ser aliade da causa, aqui está algo simples que pode ser feito.

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