13 de mai. de 2020

Prazer, essu sou eu

Sei que não sou a pessoa mais agradável do mundo, nem a figura mais gostável.

Sei que muita gente me detesta por inúmeros motivos, que muita gente agora detém “provas definitivas” de minha maldade inerente e irreparável, que meu nome é falado por aí seguido de críticas e/ou xingamentos e/ou reações de nojo e regurgitação. Devo me orgulhar disso? Não. Mas não vou mentir: acho tudo isso um pouco... engraçado. Divertido, eu até diria.

Isso não é um fenômeno de agora. Isso vem desde muito tempo, desde antes de entrar pra militância em 2014, desde antes de me envolver com política.

Mas quem sou eu, né? Eu, sobrevivente de um ataque virtual em massa de milhares de reaças. Eu, que não sou série da Netflix, mas fui cancelade recentemente. Eu, que provavelmente devo dividir opiniões por aí em conversas ou numas postagens variadas nas redes sociais, como aquela do pássaro azul. Boa pergunta. Não é do interesse de muita gente me fazer essa pergunta. Por isso, podem perguntar por aí, e vai ter gente usando toga escura e peruca branca (simbolicamente falando) (ou não) pra afirmam categoricamente que eu sou uma pessoa horrível.

Ah, com certeza sou uma pessoa horrível, claro! Do tipo que derruba velhinhes da escada, rouba doce de crianças, e faz sabão com animaizinhos de rua. Sou, sim! Um verdadeiro monstro! Mua há há há.

Okay, falando sério agora. Eu entendo uma grande parte do ódio que recebo e atraio. Tirando as pessoas com motivos legítimos pra isso (afinal, já vacilei e já fui tóxique), eu percebo que quem me odeia são pessoas que: odeiam os grupos identitários que faço parte; são despolitizadas e alienadas e preferem me rotular de elitista, problemátique, etc do que tentar entender minhas ideias; defendem o status quo de alguma forma, mesmo sendo de grupos marginalizados; e brigam comigo por coisas fúteis ou questões ideológicas, e como não são fãs de diálogo ou não sabem defender o que pensam, escolhem apenas me excluir e desprezar.

E, pois é, já teve uns acontecimentos estranhos (e cômicos, de certo modo), como pessoas conversando comigo num dia e me bloqueando/excluindo um tempo depois, ou pessoas me elogiando virtual ou pessoalmente e depois subitamente me detestando. Gostaria de saber explicar, sinceramente.

Paciência, né? Mas, olha, que bom que essas pessoas me odeiam! Afinal, são exatamente elas que não faço questão de agradar. E são elas que quero ver rolando e esperneando no chão, tendo “surto”, se rebaixando as suas próprias insignificâncias. Quando me vejo diante de ódio vindo de gente higienista, reducionista, medíocre, hipócrita, intolerante e irrelevante, eu sinto que estou fazendo certo.

E tudo bem que por aí tem prints de postagens minhas falando merda. E tudo bem que tem postagens antigas printadas em contas escrotas e páginas de ódio. Que façam bom proveito! Que imprimam e distribuam nas ruas, que façam outdoors! É só isso que essa gente tem: o meu pior, mesmo que tenha ficado pra trás, mesmo que tenha pedidos de desculpas não-vistos (ou convenientemente ignorados), mesmo que tudo que faço e falo atualmente mostre mudanças. Que usem tudo isso pra atrair um rebanho de gente igualmente irada buscando projetar e descontar sua raiva do mundo em qualquer infeliz que falou uma merda. Porque pra essa pseudo-militância tóxica, recheada de gente perfeita e infalível cuja carne fora esculpida em mármore, o que importa é nosso passado, não nosso presente – nosso, me refiro a nós, pobres mortais feites de barro, não mármore.

Mas quem sou eu, afinal de contas, né? Eu, ordinárie e esquisite como sou? Eu, aquelx pessoe (como gente anti-neolinguagem adoraria dizer) que fala das trocentas identidades estranhas criadas no Tumblr, que defende que sexo é construção social, que acha que vai mudar a sagrada língua portuguesa, que não acredita que as pessoas nasçam com uma orientação e identidade de gênero destinadas? Eu, ume Joane ninguém, uma mera pessoa desconhecida, que mora no centro de São Paulo, que pode passar o dia digitando groselhas na Internet?

Verdade, né? Quem sou eu perto dessa quantidade imensa de arautos da desconstrução, sentados no trono da superioridade moral, que nunca erraram e nunca falam merda, né? Quem sou eu perto dessas reencarnações de Marsha Johnson e Sylvia Rivera? Quem sou eu diante dessas personificações da revolução e queda do cis-tema, que passam o dia nas redes sociais xingando qualquer ume por qualquer comentário minimamente leigo, que adoram lacrar e cancelar (podem me chamar de reaça por usar assim esses termos, não ligo também), que num momento falam sobre misoginia e no outro chamam o presidente de filho da puta, que falam sobre capacitismo e depois dizem que homofobia é doença mental, que colocam em caracteres especiais na bio “agender elu/delu com orgulho” e depois reproduzem retóricas de feminismo radical, etc etc etc?

Quem sou eu?

Bem, ninguém melhor do que eu mesme pra dizer quem eu sou (pois tenho local de fala sobre minha existência): sou uma pessoinha que está constantemente estudando, aprendendo, refletindo, revendo, buscando fazer alguma mudança, procurando fazer uma militância que presta, preparando território para as próximas gerações, usando de meus privilégios e do que está ao meu alcance no momento para difundir informação e conhecimento. Não, não sou a merda que falei ontem, anteontem, em janeiro, ou umas postagens reaças de 2013 (todo mundo seguia o MBL nessa época, tá?), ou as ideias que tive na adolescência. Eu sou meu presente. E meu presente é uma baita metamorfose ambulante, por mais que o tribunal na Internet diga o contrário.

Uau, escrevi esse textão inteiro só pra me exaltar? Não, não acho que fiz isso. Mas, mesmo assim, qual o problema? Por que não devo reconhecer minhas qualidades, coisa que faço com pouca frequência? Aliás, já experimentaram fazer isso? É bom. Recomendo.

Ah, eu sei que muita gente gosta de mim, sim! Pareceu um texto todo negativo de alguém odiade por todos os lados, mas estou ciente de que essa não é minha realidade. Quem gosta de mim continua do meu lado e me apoiando. Muita gente aprende comigo e vê meu melhor. Sou grate, muito grate por isso. E me sinto verdadeiramente privilegiade por fechar junto com essas pessoas uma militância real – autocrítica, produtiva, sensata, tolerante, e comprometida. É essa militância que promove as verdadeiras mudanças.

E só pra constar: não quero o perdão de ninguém, e não tenho que me redimir com ninguém também. Não sou ume pecadore se martirizando e esperando os anjos anunciarem meu arrebatamento. Errei, me desculpei, e ainda posso cometer outros erros; como toda pessoa. Eu faço isso por mim agora. Isso é pra mim, pra eu parar logo de ficar me culpando pelos meus erros e achando que não posso mais ser diferente. Passei meses fazendo "coisas boas", "me comportando", tudo afim de provar pra alguém invisível que sou uma pessoa decente. Tomei vergonha e parei com isso.

E se alguém quiser se desculpar comigo por qualquer coisa, também. Não sou ninguém pra distribuir perdão e redenção. Apenas melhore e procure não cometer os mesmos erros. E se alguém que teve experiência com cancelamento quiser uma dica, aqui vai: cancele a culpa e a autopiedade, tome vergonha, aguenta firme, e continua a viver e militar.

A todes dessa pseudo-militância tóxica, que persegue e condena e vive separada do mundo real, eu desejo apenas uma coisa: melhorem. (pensaram que eu ia digitar algo raivoso ou ofensivo, né?)

Parabéns pra quem leu até aqui, seja você alguém que me ama, que me odeia, que tem sentimentos mistos, ou que não sabe o que sentir. E como diria o icônico Pernalonga: por hoje é só, pessoal!

Prazer, Vitor Rubião. Essu sou eu.